{"id":273618,"date":"2021-11-01T00:06:27","date_gmt":"2021-11-01T03:06:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=273618"},"modified":"2021-11-01T00:09:08","modified_gmt":"2021-11-01T03:09:08","slug":"fantasma-da-fome-assombra-40-milhoes-de-barrigas-vazias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fantasma-da-fome-assombra-40-milhoes-de-barrigas-vazias\/","title":{"rendered":"Fantasma da fome assombra 40 milh\u00f5es de barrigas vazias"},"content":{"rendered":"<p>Em outubro de 2020, 40 milh\u00f5es de pessoas viviam na extrema pobreza, com renda per capita de at\u00e9 R$ 89,00. Em junho de 2021: 41,1 milh\u00f5es de pessoas .Irm\u00e3o do Henfil, Betinho. Recordo-me dele incans\u00e1vel correndo Brasil tentando mobilizar pessoas para mitigar a fome, \u00e0 falta de pol\u00edticas p\u00fablicas capaz de faz\u00ea-lo. Lula, in\u00edcio de seu primeiro governo, definindo numa s\u00edntese o programa dos quatro anos, e seriam oito: tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es por dia. Queria garantir isso a cada brasileiro. Garantiu. Tirou o Brasil do mapa da fome, galard\u00e3o ins\u00f3lito a nos incomodar havia tanto tempo. Milagre? N\u00e3o. Pol\u00edtica. Prioridade. Agora, como espectro assombroso, a fome volta. O passado nos revisita, tenebroso e persistente.<\/p>\n<p>Vamos combinar: n\u00e3o volta por acaso, por castigo de Deus, nem pela pandemia. Volta como parte de um projeto de destrui\u00e7\u00e3o. De uma Na\u00e7\u00e3o, destrui\u00e7\u00e3o a atingir o povo brasileiro, sobretudo e especialmente os mais pobres. N\u00e3o, n\u00e3o me queiram panflet\u00e1rio inconsequente. Quando digo projeto, mato a cobra e mostro a cobra morta. Come\u00e7ou com o golpe de 2016, liderado por Michel Temer, golpe contra a presidenta Dilma, assemelhado com o de 1964, na vis\u00e3o de banqueiro acumpliciado e benefici\u00e1rio do atual governo, compara\u00e7\u00e3o impr\u00f3pria sob tantos aspectos, mas ao menos reveladora da atua\u00e7\u00e3o do rentismo no ato golpista recente, seguindo tradi\u00e7\u00e3o das classes dominantes brasileiras.<\/p>\n<p>Nesse projeto, Temer foi o abre-alas, o pavimentador do caminho da elei\u00e7\u00e3o do atual presidente, cuja palavra sempre caminhou rente com pol\u00edtica de destrui\u00e7\u00e3o. \u201cEu quero \u00e9 prova\u201d, costumam dizer os nossos jovens. Justo. Na campanha, nunca negou: vinha pra destruir. E logo ao assumir, em viagem aos EUA, \u00e0 p\u00e1tria-m\u00e3e, l\u00e1 dele, anunciou com todas as letras: n\u00e3o viemos para construir, mas destruir \u2013 nosso trabalho ser\u00e1 o de destruir. E vamos ser verdadeiros? Est\u00e1 sendo coerente. Em pouco tempo, o pa\u00eds viu destru\u00eddas conquistas hist\u00f3ricas, de toda natureza. Retrocedeu quase um s\u00e9culo. A fome \u00e9 consequ\u00eancia inevit\u00e1vel da pol\u00edtica neoliberal-rentista em andamento. Negar, quem h\u00e1 de?<\/p>\n<p>Vamos combinar outra coisa: o presidente n\u00e3o caminha sozinho. Nem se sustenta sozinho. Conta com as b\u00ean\u00e7\u00e3os de classes dominantes perversas, cru\u00e9is, incapazes de olhar o entorno, cientes, isso sim, de seus seculares privil\u00e9gios, aos quais se agarra com unhas e dentes. Claro: se poder\u00e1 dizer de defec\u00e7\u00f5es de parte delas \u2013 defec\u00e7\u00f5es n\u00e3o suficientes para tir\u00e1-lo da frente, para apoiar o impeachment. Estou falando das classes sociais internas, n\u00e3o do capital internacional, cujo interesse, por obviedade, \u00e9 o de apenas sugar o quanto possa do pa\u00eds \u2013 e logo acrescento, vou e volto: nossas classes dominantes, tamb\u00e9m. Num embate de segundo turno, a opor Lula e o atual presidente, tor\u00e7o para que ao menos uma parte dela tenha sensibilidade de n\u00e3o repetir 2018.<\/p>\n<p>Essas classes dominantes sequer pensam no problema da fome. O olhar sempre est\u00e1 voltado para o teto de gastos e para a renda advinda de seus fundos, os existentes no Brasil e aqueles da Caixa de Pandora. A fome n\u00e3o \u00e9 problema novo no Brasil. Penso em Josu\u00e9 de Castro e seus Geografia da Fome, Geopol\u00edtica da Fome, Sete Palmos de Terra e um Caix\u00e3o, Homens e Caranguejos. Os t\u00edtulos falam pelas obras. Foi um ativo combatente por pol\u00edticas capazes de responder a essa trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Morreu amargurado na Fran\u00e7a, depois de a ditadura t\u00ea-lo obrigado ao ex\u00edlio. Waldir Pires me dizia muito da tristeza dele em se quedar impedido de contribuir com seu pa\u00eds por for\u00e7a do arb\u00edtrio. Morreu em desalento, amargurado, depois de tanto ter feito pelo Brasil. Sou assaltado, assim, num repente, por Manuel Bandeira, pelo inesquec\u00edvel poema. \u201cO Bicho\u201d: lembram? Permaneceu na mem\u00f3ria do povo brasileiro. Compensa revisit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Vi ontem um bicho\/Na imund\u00edcie do p\u00e1tio\/Catando comida entre os detritos\/Quando achava alguma coisa\/N\u00e3o examinava nem cheirava\/Engolia com voracidade\/O bicho n\u00e3o era um c\u00e3o\/N\u00e3o era um gato\/N\u00e3o era um rato\/O bicho, meu Deus, era um homem.<\/p>\n<p>O poeta escrevia ao final da d\u00e9cada de 1940. Brasil contava com cerca de 50 milh\u00f5es de habitantes. Estivesse vivo, o poeta defrontaria hoje com um pa\u00eds de mais de 212 milh\u00f5es de habitantes e uma fome a atingir n\u00edveis assustadores \u2013 insista-se: tendo voltado ao mapa da fome. A indigna\u00e7\u00e3o de Manuel Bandeira seria ainda maior, pudesse assistir a tantos milh\u00f5es passando fome, em espet\u00e1culo a indignar quem tenha alguma sensibilidade.<\/p>\n<p>Houve momentos de assombrar.<\/p>\n<p>Aquela fila sem fim num a\u00e7ougue de Cuiab\u00e1, no Mato Grosso. D\u00e1 pra esquecer? Mato Grosso, se enganado n\u00e3o estiver, \u00e9 maior estado produtor de carne bovina do pa\u00eds. Conhe\u00e7o gente relatando a del\u00edcia da carne uruguaia \u2013 mal sabe seja proveniente do Mato Grosso. Exporta a melhor carne.<\/p>\n<p>A fila, naquele a\u00e7ougue, era para receber ossos. N\u00e3o, n\u00e3o era para dar aos c\u00e3es \u2013 fila de gente, de pessoas humanas. Osso pra cozinhar, sentir o cheiro, o gosto da carne \u2013 cruel e verdadeiro. A fila ganhou o mundo. Sucesso midi\u00e1tico, a trag\u00e9dia brasileira.<\/p>\n<p>Lembram dos cariocas? Falo de gente vasculhando, mexendo com as m\u00e3os, doida pra encontrar algum resto, qualquer sobra naquele caminh\u00e3o de ossos e pelancas desprezados por supermercado. Eram homens ou bichos? Homens. Gente.<\/p>\n<p>N\u00fameros frios, assustadores, e \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o indicavam a exist\u00eancia, em 2020, de 19,1 milh\u00f5es de brasileiros com fome. Quase 9 milh\u00f5es a mais em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de 2018, j\u00e1 assombroso: 10,3 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A realidade da fome atinge com mais crueldade as crian\u00e7as, como se sabe. De cada tr\u00eas crian\u00e7as brasileiras, uma apresenta quadro chamado anemia ferropriva \u2013 falta de ferro no organismo. O ferro \u00e9 encontrado no leite materno, na carne vermelha e em alguns vegetais, como folhas verde-escuras, o feij\u00e3o e a soja, e na mesa dos pobres esses itens inexistem, ou s\u00e3o escassos.<\/p>\n<p>A chamada inseguran\u00e7a alimentar atinge no Brasil de hoje quase 120 milh\u00f5es de pessoas, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira sem uma alimenta\u00e7\u00e3o regular \u2013 de alguma forma, passando fome.<\/p>\n<p>P\u00e9s e mi\u00fados de galinha passaram a ser consumidos em larga escala, a carne vermelha quase sumiu da mesa dos mais pobres \u2013 67% da popula\u00e7\u00e3o reduziu consumo de carne, 47%, o de p\u00e3o.<\/p>\n<p>O macarr\u00e3o passou a ser consumido em larga escala, o miojo tamb\u00e9m, evidenciando a perda de qualidade da alimenta\u00e7\u00e3o. Fome, dessas graves, e subalimenta\u00e7\u00e3o \u2013 a realidade de mais da metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>A lembrar: em outubro de 2020 14 milh\u00f5es de fam\u00edlias viviam na extrema pobreza. Isso quer dizer 40 milh\u00f5es de pessoas com renda per capita de at\u00e9 R$ 89,00 \u2013 mis\u00e9ria, mis\u00e9ria. Chegou em junho de 2021 ao maior n\u00famero desde o in\u00edcio dos registros, em 2012: 41,1 milh\u00f5es de pessoas. Espiral ascendente.<\/p>\n<p>O quadro se torna mais tr\u00e1gico se o olhar se desloca para o desemprego: quase 14 milh\u00f5es de desempregados, 6 milh\u00f5es dos chamados desalentados, aqueles sem \u00e2nimo para continuar procurando emprego, e 34 milh\u00f5es no trabalho informal \u2013 mais de 50 milh\u00f5es sem emprego ou trabalhando precariamente. Um pa\u00eds a massacrar o povo, projeto em andamento desde o golpe de 2016.<\/p>\n<p>\u00c9 lugar comum, tru\u00edsmo: a quest\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica. Isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel mudar com nova pol\u00edtica. N\u00f3s j\u00e1 vimos a possibilidade de enfrentar com vigor o problema da fome. Foi com Lula e Dilma. Em 2022, Lula vai encontrar um pa\u00eds destro\u00e7ado \u2013 estamos dizendo vai porque creio na elei\u00e7\u00e3o dele, para o bem do Brasil.<\/p>\n<p>Ao encontr\u00e1-lo destro\u00e7ado, saber\u00e1 definir prioridades, e uma das primeiras ser\u00e1 a fome. Prioridade zero. Fome zero. Ser\u00e1 enfrentada n\u00e3o s\u00f3 com a renda do Bolsa Fam\u00edlia, mas com pol\u00edticas de emprego, fortalecimento da agricultura familiar, com tantas outras pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida dos mais pobres, receitas conhecidas, e descartadas pelo neoliberalismo rentista. E com Lula, viveremos a grande pol\u00edtica, voltada \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o da Na\u00e7\u00e3o. Sob a democracia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em outubro de 2020, 40 milh\u00f5es de pessoas viviam na extrema pobreza, com renda per capita de at\u00e9 R$ 89,00. Em junho de 2021: 41,1 milh\u00f5es de pessoas .Irm\u00e3o do Henfil, Betinho. Recordo-me dele incans\u00e1vel correndo Brasil tentando mobilizar pessoas para mitigar a fome, \u00e0 falta de pol\u00edticas p\u00fablicas capaz de faz\u00ea-lo. 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