{"id":273855,"date":"2021-11-04T17:12:33","date_gmt":"2021-11-04T20:12:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=273855"},"modified":"2021-11-04T17:14:14","modified_gmt":"2021-11-04T20:14:14","slug":"gas-caro-aumenta-uso-de-lenha-e-cresce-o-numero-de-queimados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/gas-caro-aumenta-uso-de-lenha-e-cresce-o-numero-de-queimados\/","title":{"rendered":"G\u00e1s caro aumenta uso de lenha e cresce o n\u00famero de queimados"},"content":{"rendered":"<p>Quando o m\u00e9dico Marcos Barreto participa de congressos e confer\u00eancias fora do Brasil, n\u00e3o \u00e9 incomum que achem que ele trabalha em zonas de guerra. Na verdade, ele chefia a unidade de queimaduras do Hospital da Restaura\u00e7\u00e3o Governador Paulo Guerra, no Recife (PE), refer\u00eancia no tratamento de queimados no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ali s\u00e3o atendidas cerca de 280 pessoas por m\u00eas, uma m\u00e9dia de quase dez por dia. E nos 40 leitos costumam ser internados, em m\u00e9dia, 1,1 mil pacientes por ano, diz Barreto, que atua no hospital h\u00e1 47 anos, desde que era estudante de Medicina.<\/p>\n<p>&#8220;No exterior, acham que (n\u00fameros dessa magnitude) s\u00f3 podem ser de queimaduras por conflito&#8221;, explica Barreto \u00e0 <em>BBC News Brasi<\/em>l.<\/p>\n<p>&#8220;E se voc\u00ea me perguntar se esse n\u00famero tem aumentado no Brasil, digo que sim, claro. Quanto mais pobreza, maior o n\u00famero de acidentados. (&#8230;) Mas n\u00e3o \u00e9 nada novo: \u00e9 um problema hist\u00f3rico. Eu vejo isso h\u00e1 d\u00e9cadas. \u00c9 um problema puramente social, e muito grave. Minha clientela \u00e9 miser\u00e1vel. Eu nunca atendo rico queimado.&#8221;<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o direta entre o aumento recente da pobreza e mais queimaduras ainda n\u00e3o consta de estat\u00edsticas oficiais recentes, mas \u00e9 confirmada por especialistas e tem sido observada nos \u00faltimos meses, em particular no acesso a combust\u00edvel para cozinhar de modo seguro.<\/p>\n<p>Enquanto o pre\u00e7o do g\u00e1s de cozinha acumula alta de quase 30% neste ano, 56% da popula\u00e7\u00e3o adulta brasileira viu sua renda cair desde o in\u00edcio da pandemia, segundo pesquisa do Unicef (bra\u00e7o da ONU para a inf\u00e2ncia) publicada em maio.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que se tornaram mais comuns os relatos &#8211; e os riscos de acidentes &#8211; envolvendo pessoas que, sem conseguirem comprar g\u00e1s de cozinha, passaram a preparar refei\u00e7\u00f5es com combust\u00edveis alternativos, mais inflam\u00e1veis ou perigosos.<\/p>\n<p>&#8220;Sempre quando aumenta o pre\u00e7o do g\u00e1s, centros de atendimento de queimados j\u00e1 sabem que precisam se preparar para atender mais gente&#8221;, sobretudo em regi\u00f5es vulner\u00e1veis, explica \u00e0 BBC News Brasil o m\u00e9dico Jos\u00e9 Adorno, presidente da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ).<\/p>\n<p>Um caso recente a ganhar o notici\u00e1rio foi o de Geisa Stefanini, de 32 anos, moradora de Osasco (SP), que morreu depois de ter grande parte do corpo queimado em um acidente dom\u00e9stico. Seu beb\u00ea, de sete meses, sobreviveu \u00e0 explos\u00e3o, mas sofreu queimaduras em 18% do corpo.<\/p>\n<p>Desempregada e sem dinheiro para um botij\u00e3o, segundo relatos de pessoas pr\u00f3ximas, Stefanini tinha tentado cozinhar com um fog\u00e3o improvisado com tijolos, uma grelha e \u00e1lcool obtido em um posto de gasolina.<\/p>\n<p>Recentemente, 80% dos leitos femininos do Hospital da Restaura\u00e7\u00e3o recifense chegaram a ser ocupados por casos como o de Geisa, informa o m\u00e9dico Marcos Barreto.<\/p>\n<p>&#8220;O povo est\u00e1 indo ao posto de gasolina porque n\u00e3o tem R$ 100 para comprar o g\u00e1s de cozinha, mas \u00e0s vezes tem R$ 10 na m\u00e3o. Com isso, compram 2 litros de \u00e1lcool no posto, em garrafa PET, e cozinham por dois dias e meio&#8221;, explica Barreto.<\/p>\n<p>&#8220;Se voc\u00ea fizer a conta, isso sai mais caro do que o g\u00e1s, mas \u00e9 o que cabe no bolso deles naquele momento. A pessoa garante que vai cozinhar hoje e amanh\u00e3. Faz um trip\u00e9 com uma panelinha de \u00e1lcool no meio.&#8221;<\/p>\n<p>O improviso \u00e9 altamente arriscado. &#8220;Voc\u00ea quase n\u00e3o enxerga o fogo azulado do \u00e1lcool. Quando vai reabastecer, porque acha que o fogo acabou, ocorre o acidente.&#8221;<\/p>\n<p>O \u00e1lcool e a gasolina s\u00e3o muito vol\u00e1teis e se espalham e evaporam rapidamente, explica o major Marcos Palumbo, do Corpo de Bombeiros do Estado de S\u00e3o Paulo, corpora\u00e7\u00e3o que atendeu \u00e0 ocorr\u00eancia de Geisa.<\/p>\n<p>&#8220;Ao evaporar, o combust\u00edvel forma uma nuvem invis\u00edvel. E, ao contr\u00e1rio de um fog\u00e3o, que voc\u00ea desliga, n\u00e3o tem como cortar o suprimento do combust\u00edvel: o fogo s\u00f3 acaba quando queimar, destruindo tudo&#8221;, detalha o major. &#8220;Por isso, nunca se deve improvisar a substitui\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel em uma cozinha, que j\u00e1 est\u00e1 adaptada ao uso do g\u00e1s.&#8221;<\/p>\n<p>Mas, mesmo que sejam alertadas sobre os riscos, as pessoas se veem sem alternativas, observa Barreto. &#8220;Elas me dizem, &#8216;doutor, mas eu vou cozinhar com o qu\u00ea?&#8217;. J\u00e1 cheguei a internar tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es da mesma fam\u00edlia &#8211; av\u00f3, m\u00e3e e filha &#8211; por acidente na cozinha.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Cozinhar com lenha e carv\u00e3o<\/strong><br \/>\nComo aponta Barreto, o problema n\u00e3o \u00e9 novo. Em 2019, uma pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica) estimou que, no ano anterior, 14 milh\u00f5es de fam\u00edlias brasileiras (ou 20% do total) usavam lenha ou carv\u00e3o para cozinhar &#8211; um aumento de 3 milh\u00f5es de fam\u00edlias em rela\u00e7\u00e3o a 2016.<\/p>\n<p>Ficaram, portanto, mais suscet\u00edveis a acidentes, queimaduras ou intoxica\u00e7\u00e3o pela fuma\u00e7a. Outras 89 mil fam\u00edlias usavam outros combust\u00edveis para preparar alimentos, o que pode incluir o \u00e1lcool.<\/p>\n<p>No mundo inteiro, um relat\u00f3rio do Banco Mundial publicado em outubro de 2020 apontou que 2,8 bilh\u00f5es de pessoas dependiam de lenha, res\u00edduos de colheita, carv\u00e3o e outros combust\u00edveis inseguros e poluentes para cozinhar.<\/p>\n<p>O preju\u00edzo social acumulado disso, seja em danos \u00e0 sa\u00fade, ao clima (pela emiss\u00e3o de gases do efeito estufa) e \u00e0 produtividade das mulheres &#8211; as principais encarregadas do preparo de refei\u00e7\u00f5es &#8211; foi estimado em US$ 2,4 trilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, em 2014 a ONU calculou que 4,3 milh\u00f5es de pessoas morriam por ano por doen\u00e7as causadas pela polui\u00e7\u00e3o em ambientes fechados &#8211; sobretudo por part\u00edculas e mon\u00f3xido de carbono produzidos pela queima de madeira, carv\u00e3o ou res\u00edduos em fog\u00f5es improvisados ou ineficientes.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade n\u00e3o tem estat\u00edsticas atualizadas sobre queimaduras, mas calculou, em 2018, que cerca de 180 mil pessoas morriam por ano no mundo em decorr\u00eancia desse tipo de les\u00e3o, sobretudo em pa\u00edses de renda baixa e m\u00e9dia, a maior parte na \u00c1frica e no Sul da \u00c1sia.<\/p>\n<p>No Brasil, alguns estudos estimam que haja mais de 1 milh\u00e3o de casos de queimadura por ano, dos quais 2,5 mil terminam em morte. E dois ter\u00e7os ocorrem dentro de casa, muitas vezes envolvendo crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Cerca de 90% dos atendimentos s\u00e3o na rede p\u00fablica de sa\u00fade, evidenciando a vulnerabilidade de muitas das v\u00edtimas, segundo a SBQ.<\/p>\n<p>Aqui, um projeto rec\u00e9m-aprovado no Senado prev\u00ea, agora, um aux\u00edlio-g\u00e1s, no valor de 50% do pre\u00e7o nacional do botij\u00e3o de 13 kg (atualmente or\u00e7ado em R$ 100, mas que chega a ser vendido por R$ 130), para as fam\u00edlias inscritas no Cadastro \u00danico de programas sociais do governo federal. O projeto ainda ser\u00e1 reavaliado pela C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p><strong>Exposi\u00e7\u00e3o excessiva ao \u00e1lcool<\/strong><br \/>\nPara al\u00e9m dos custos do botij\u00e3o de g\u00e1s, a pandemia favoreceu uma exposi\u00e7\u00e3o excessiva das pessoas ao \u00e1lcool como higienizador, sem que isso tenha sido acompanhado de medidas educativas, explica Jos\u00e9 Adorno, da Sociedade Brasileira de Queimaduras.<\/p>\n<p>Adorno lembra que, em mar\u00e7o de 2020, a Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) flexibilizou as restri\u00e7\u00f5es \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o e \u00e0 venda do \u00e1lcool na concentra\u00e7\u00e3o 70%, que \u00e9 altamente inflam\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8220;Aumentou a presen\u00e7a do \u00e1lcool na casa das pessoas, o que n\u00e3o \u00e9 seguro&#8221;, pontua Adorno.<\/p>\n<p>O resultado, diz ele, \u00e9 que come\u00e7aram a surgir desde casos extremos &#8220;de pessoas passando \u00e1lcool gel no corpo como se fosse protetor solar&#8221; at\u00e9 um aumento nos atendimentos ambulatoriais e nas interna\u00e7\u00f5es por conta de queimaduras acidentais graves, segundo relataram \u00e0 SBQ centros hospitalares especializados em queimaduras.<\/p>\n<p>Entre mar\u00e7o e novembro de 2020, houve cerca de 700 interna\u00e7\u00f5es decorrentes de acidentes com l\u00edquidos inflam\u00e1veis, diz a sociedade.<\/p>\n<p>&#8220;Os acidentes mais comuns (ocorrem quando) o adulto acende um fogareiro com crian\u00e7a por perto, ou a crian\u00e7a depois pega o \u00e1lcool para copiar o adulto&#8221;, prossegue o presidente da SBQ.<\/p>\n<p>Acidentes em casas pequenas, em que a cozinha n\u00e3o fica em um c\u00f4modo separado, ou em \u00e1reas externas, com o uso de \u00e1lcool l\u00edquido para acender churrasqueiras (o que n\u00e3o \u00e9 recomendado), tamb\u00e9m s\u00e3o frequentes.<\/p>\n<p>Por isso, segundo a SBQ, deve-se manter em casa apenas frascos pequenos de \u00e1lcool 70%, para higienizar m\u00e3os, e usar na limpeza em geral \u00e1gua e sab\u00e3o ou o \u00e1lcool 46, que \u00e9 menos vol\u00e1til. E os recipientes devem sempre ser mantidos longe de locais quentes e fora do alcance de crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8220;Mas os frascos de \u00e1lcool tamb\u00e9m precisariam ser mais bem diferenciados pela ind\u00fastria&#8221;, critica o Adorno. &#8220;O \u00e1lcool 70% precisaria ter alguma tarja que o identificasse, assim como fazemos com medicamentos tarja preta ou com venenos.&#8221;<\/p>\n<p>Palumbo, do Corpo de Bombeiros de S\u00e3o Paulo, lembra que, para churrasqueiras, o mais seguro \u00e9 usar acendedores, que n\u00e3o v\u00e3o evaporar rapidamente, como faz o \u00e1lcool l\u00edquido.<\/p>\n<p><strong>Tratamento nem sempre existe<\/strong><br \/>\nGambiarras em redes de eletricidade, queimaduras por escaldadura (por exemplo, quando crian\u00e7as viram sobre si panelas de \u00e1gua ou caf\u00e9 quente) e botij\u00f5es de g\u00e1s mal instalados completam o quadro de causas comuns de acidentes, cujas v\u00edtimas nem sempre conseguem o tratamento adequado.<\/p>\n<p>O professor universit\u00e1rio maranhense Daniel Moraes descobriu isso em 2017, quando uma explos\u00e3o por vazamento de g\u00e1s na casa de sua vizinha causou queimaduras em 65% de seu corpo. Foi o in\u00edcio de uma tr\u00e1gica saga pessoal que o deixou internado por nove meses e com a sensa\u00e7\u00e3o de que, em suas palavras, &#8220;minha vida tinha acabado&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o tinha ideia da dimens\u00e3o disso (das queimaduras) at\u00e9 acontecer comigo, porque \u00e9 um problema invis\u00edvel&#8221;, diz Moraes \u00e0 <em>BBC News Brasil.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;Fiquei meses internado em um bom hospital aqui de Caxias (cidade a 360 km da capital maranhense S\u00e3o Lu\u00eds), mas que n\u00e3o tinha atendimento especializado para queimaduras &#8211; que requer nutri\u00e7\u00e3o adequada, fisioterapia etc.&#8221;<\/p>\n<p>Como ele n\u00e3o suportava a dor, cada troca de curativo tinha de ser feita no centro cir\u00fargico, sob anestesia geral. Sem fisioterapia e passando dias a fio deitado e im\u00f3vel, Moraes viu suas pernas &#8211; um dos principais focos das queimaduras &#8211; atrofiarem e &#8220;ficarem da mesma finura que meus bra\u00e7os&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Achei que n\u00e3o fosse sobreviver, nem voltar a andar&#8221;, recorda.<\/p>\n<p>Foi s\u00f3 depois que conseguiu ser transferido para um centro de refer\u00eancia em Goi\u00e2nia (GO) que Moraes conseguiu acesso a profissionais m\u00e9dicos especializados em queimaduras: &#8220;sa\u00ed de l\u00e1 18 dias depois, andando.&#8221; O que o fez concluir que, se tivesse recebido cuidados adequados desde o in\u00edcio, seu sofrimento &#8211; cujas cicatrizes f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas perduram at\u00e9 hoje &#8211; poderia ter sido encurtado.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tive educa\u00e7\u00e3o e acesso a informa\u00e7\u00f5es e passei por tudo isso. Conheci pessoas de poder aquisitivo baix\u00edssimo, pessoas que precisaram largar tudo para mudar de Estado e poder se tratar&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Com a amiga advogada Andr\u00e9a Barbosa, que o ajudou durante o tratamento, Moraes criou a Associa\u00e7\u00e3o Maranhense de Apoio a Sobreviventes de Queimaduras, em que ajudam v\u00edtimas a navegar pelo sistema estatal de sa\u00fade e a obter desde vagas em centros especializados at\u00e9 itens caros do tratamento, como malhas compressivas e cremes hidratantes.<\/p>\n<p>&#8220;A maior parte dos sobreviventes que nos procuram vivem na pobreza, em povoados onde n\u00e3o h\u00e1 atendimento hospitalar&#8221;, conta Andr\u00e9a Barbosa.<\/p>\n<p>Existe, de fato, uma distribui\u00e7\u00e3o desigual na oferta per capita de atendimento a queimados no pa\u00eds, explica o m\u00e9dico Jos\u00e9 Adorno, com maior concentra\u00e7\u00e3o no Sudeste e menor no Norte e em parte do Nordeste.<\/p>\n<p>O Maranh\u00e3o, apesar de ter um dos mais altos \u00edndices de acidentes com queimaduras no Nordeste, ainda n\u00e3o tem um centro pr\u00f3prio de atendimento a queimados &#8211; este est\u00e1 em fase de conclus\u00e3o e treinamento de sua equipe. Enquanto isso, pacientes com frequ\u00eancia s\u00e3o mandados para outros Estados ou se tratam por conta pr\u00f3pria, diz Barbosa.<\/p>\n<p>&#8220;Para se ter uma ideia, em algumas casas que visitamos, encontramos crian\u00e7as sentadas na rede com os bra\u00e7os (queimados) esticados, sem curativos nas queimaduras, apenas com um ventilador&#8221;.<\/p>\n<p>(Observa\u00e7\u00e3o: a recomenda\u00e7\u00e3o de especialistas, no caso de queimaduras, \u00e9 jamais aplicar pomadas, medicamentos ou quaisquer produtos caseiros, como borra de caf\u00e9 ou clara de ovo; deve-se apenas lavar a \u00e1rea queimada com \u00e1gua corrente, cobrir com um pano limpo e buscar ajuda m\u00e9dica imediatamente).<\/p>\n<p><strong>&#8216;Trauma que fica na penumbra&#8217;<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m da desigualdade no acesso a tratamento, um dos muitos aspectos tr\u00e1gicos \u00e9 o fato de as queimaduras em geral afetarem pessoas jovens e crian\u00e7as, no auge de suas vidas sociais e produtivas.<\/p>\n<p>Segundo Adorno, as queimaduras s\u00e3o uma das principais causas de desperd\u00edcio de anos de vida, porque muitas vezes exigem longos per\u00edodos de interna\u00e7\u00e3o hospitalar, m\u00faltiplas cirurgias, afastamento do trabalho e reabilita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um problema que atinge um p\u00fablico jovem e imp\u00f5e uma vida dif\u00edcil, cheia de restri\u00e7\u00f5es (por exemplo, muita sensibilidade ao sol), estigma (por causa das cicatrizes) e cuidados f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos que o SUS n\u00e3o est\u00e1 preparado para oferecer&#8221;, diz o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um trauma que fica na penumbra: o sequelado convive menos com a sociedade e \u00e9 muito estigmatizado.&#8221;<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Daniel Moraes, ao deixar o hospital com m\u00e1scaras e roupas especiais para proteger a pele, corrobora isso. &#8220;As pessoas te olham e voc\u00ea se sente muito mal. A reinser\u00e7\u00e3o social \u00e9 muito dif\u00edcil, (porque) o trauma \u00e9 muito grande. Eu estava fazendo mestrado, come\u00e7ando minha carreira, e tudo precisou ser interrompido pelo acidente. Eu s\u00f3 consegui (retomar a vida) porque tive o apoio de muitas pessoas, de muitos amigos.&#8221;<\/p>\n<p>Os desfechos podem, tamb\u00e9m, ser fatais: a SBQ calcula que o Brasil tenha acumulado 33 mil mortes por diferentes tipos de queimaduras entre 2011 e 2019.<\/p>\n<p>O atraso no atendimento emergencial contribui para mortes ou a perda de membros, diz Adorno, uma vez que queimaduras mal cuidadas tendem a infeccionar.<\/p>\n<p>&#8220;Enquanto os pa\u00edses desenvolvidos diminu\u00edram sua mortalidade por queimaduras para cerca de 3% dos casos, aqui nossa mortalidade \u00e9, em m\u00e9dia, de 8% a 10% dos casos&#8221;, agrega.<\/p>\n<p>No Hospital da Restaura\u00e7\u00e3o, no dia em que Marcos Barreto conversou com a reportagem, no final de outubro, os 15 leitos infantis da ala de queimados estavam ocupados. Outras cinco crian\u00e7as aguardavam vaga no corredor de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Os 25 leitos de adultos tamb\u00e9m estavam tomados, enquanto dois pacientes aguardavam na UTI e outros dois, na emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Naquele mesmo dia, Barreto havia acabado de atender um paciente que havia ateado \u00e1lcool e fogo ao pr\u00f3prio corpo, em uma tentativa de suic\u00eddio &#8211; casos que tamb\u00e9m se tornaram mais comuns na rotina do hospital em meio ao desalento da pandemia, de poss\u00edveis efeitos psicol\u00f3gicos da covid longa (problema que ainda est\u00e1 sendo estudado pela medicina) e da crise econ\u00f4mica, diz o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Ele e sua equipe de 150 pessoas fazem em torno de 6 mil curativos em queimaduras todos os anos. &#8220;Parece uma guerra civil&#8221;, retrata.<\/p>\n<p>S\u00f3 as queimaduras por \u00e1lcool, como a que matou Geisa Stefanini em Osasco, resultaram em quase 23 mil interna\u00e7\u00f5es em todo o pa\u00eds entre 2012 e 2019, segundo a SBQ. Os custos estimados ao SUS s\u00e3o de R$ 73 milh\u00f5es, sem contar os preju\u00edzos sociais e produtivos das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Adorno cita um levantamento feito nos EUA apontando que cada US$ 1 investido em educa\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o de queimaduras gerou uma economia de US$ 27 em atendimento m\u00e9dico evitado.<\/p>\n<p>&#8220;Cada dia de tratamento de uma queimadura em um centro avan\u00e7ado custa at\u00e9 US$ 1 mil (R$ 5,5 mil na cota\u00e7\u00e3o atual) e deixa para a sociedade uma pessoa cheia de sequelas e com dificuldades de reabilita\u00e7\u00e3o&#8221;, conclui o m\u00e9dico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o m\u00e9dico Marcos Barreto participa de congressos e confer\u00eancias fora do Brasil, n\u00e3o \u00e9 incomum que achem que ele trabalha em zonas de guerra. 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