{"id":274015,"date":"2021-11-07T10:52:22","date_gmt":"2021-11-07T13:52:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=274015"},"modified":"2021-11-07T10:54:30","modified_gmt":"2021-11-07T13:54:30","slug":"projeto-de-novo-brasil-so-vinga-com-uniao-da-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/projeto-de-novo-brasil-so-vinga-com-uniao-da-esquerda\/","title":{"rendered":"Projeto de novo Brasil s\u00f3 vinga com uni\u00e3o da esquerda"},"content":{"rendered":"<p>Sugeridos pela expectativa das pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es \u2013 para muitos a possiblidade de mudan\u00e7a com a qual podemos contar \u2013, partidos pol\u00edticos e funda\u00e7\u00f5es as mais variadas, grupos sociais, entidades de classe e sindicatos se voltam para a formula\u00e7\u00e3o de planos e programas de governo. O ponto de refer\u00eancia \u00e9 o quadro tr\u00e1gico de nossa realidade, que deita consequ\u00eancias para al\u00e9m dos tristes dias de hoje.<\/p>\n<p>O concurso civil-militar governante desde 2016 n\u00e3o se satisfaz em destruir o presente do pa\u00eds e de seu povo \u2013 condenado \u00e0 desesperan\u00e7a \u2013 e cuida mesmo de nos privar do futuro, mediante o combate sem tr\u00e9guas ao conhecimento cient\u00edfico, atacando a educa\u00e7\u00e3o e a cultura de um modo geral, mas concentrando seu poder de fogo o mais letal contra a universidade p\u00fablica, centro de produ\u00e7\u00e3o de algo como 90% da pesquisa acad\u00eamica, seja em ci\u00eancias sociais, seja em ci\u00eancias exatas.<\/p>\n<p>Universidades onde s\u00e3o formados nossos cientistas e pesquisadores, nossos mestres e doutores, nossos melhores especialistas; onde s\u00e3o cultivadas a ci\u00eancia e a inova\u00e7\u00e3o, sem as quais n\u00e3o h\u00e1 como cogitar de desenvolvimento, seja econ\u00f4mico, seja social. No mundo da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, um continuum de avan\u00e7os encadeados, assistimos de bra\u00e7os cruzados \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do sistema nacional de ci\u00eancia e tecnologia.<\/p>\n<p>A universidade, por\u00e9m, conserva-se aquietada sob o peso de seus interesses corporativos. O que espera para p\u00f4r-se de p\u00e9? O milagre da f\u00eanix? Diante do criminoso projeto do bolsonarismo permanece silente o empresariado industrial, como se esse desastre n\u00e3o lhe dissesse respeito, como se fosse poss\u00edvel pensar em ind\u00fastria sem desenvolvimento cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Comprometidas com esse desastre, est\u00e3o as for\u00e7as armadas brasileiras, como se fosse poss\u00edvel pensar em defesa sem ind\u00fastria nacional. E se o pa\u00eds n\u00e3o tem como defender-se, como justificar o custeio de uma estrutura t\u00e3o cara? Por outro lado, em festa est\u00e1 o complexo agr\u00e1rio-exportador, exportando min\u00e9rio bruto enquanto o pa\u00eds importa trilhos, exportando mat\u00e9ria-prima para importar produtos manufaturados, exportando soja e milho in natura e prote\u00edna animal quando mais da metade da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds vive em condi\u00e7\u00f5es de inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Ignora o papel da Embrapa no aumento da produtividade agr\u00edcola brasileira, e observa com indiferen\u00e7a o desmonte da pesquisa que alicer\u00e7ou seus lucros. Como na col\u00f4nia e no imp\u00e9rio, vive a economia do pa\u00eds, em pleno terceiro mil\u00eanio, em fun\u00e7\u00e3o das bolsas de commodities, mirando Walt Street para saber a quanto anda a desvaloriza\u00e7\u00e3o de nossa moeda, aumentando juros para combater uma infla\u00e7\u00e3o estrutural. Como se fosse um destino irremov\u00edvel viver na periferia do capitalismo.<\/p>\n<p>Enquanto o capit\u00e3o Bolsonaro e a s\u00facia de engalanados que o mant\u00e9m no terceiro andar do Pal\u00e1cio do Planalto trabalham dia e noite contra o desenvolvimento cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico brasileiro, a China acaba de lan\u00e7ar seu computador qu\u00e2ntico, o Zuchonhzhi-2. Baseado na tecnologia de f\u00f3tons de luz, \u00e9 capaz de atingir a velocidade 100 sextilh\u00f5es de vezes maior do que os mais r\u00e1pidos computadores convencionais, esses que ainda n\u00e3o fabricamos.<\/p>\n<p>A m\u00e9dia das reflex\u00f5es e das propostas de programas de governo, como a da Frente Brasil Popular, parte do ajuizado pressuposto segundo o qual nada do que \u00e9 necess\u00e1rio para alterar o presente imediato, ponto de partida para pensar em um novo pa\u00eds, simplesmente aquele no qual os pobres caibam no or\u00e7amento, pode ser cogitado sob a atual ordem pol\u00edtico-militar, o que, de logo, define o que fazer. A tarefa primordial para a esquerda brasileira \u00e9, pois, a remo\u00e7\u00e3o do entulho, para o que, se a canoa n\u00e3o virar, temos encontro marcado em 2022.<\/p>\n<p>Para l\u00e1 chegar, por\u00e9m, estamos desafiados a construir uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edtico-social capaz de assegurar a mudan\u00e7a, evitando uma nova frustra\u00e7\u00e3o nacional. \u00c9 o desafio de construir uma nova maioria, o que pede um discurso que fale sobre o futuro das grandes massas marginalizadas de nosso tempo. Algo que ainda n\u00e3o ser\u00e1 a sociedade sem classes, a promessa de bonan\u00e7a futura, quando o pobre vive a trag\u00e9dia social do cotidiano. Se o ponto de partida \u00e9 o indispens\u00e1vel sucesso eleitoral, a efetividade da mudan\u00e7a depender\u00e1 da arquitetura de uma nova ordem pol\u00edtica fundamentada em um pacto nacional-popular capaz de fazer frente ao pacto das elites, a ordem da casa-grande, legado colonial de escravismo e latif\u00fandio que sobrevive na sociedade urbana e industrializada.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese e na fronteira do \u00f3bvio, ressalta-se: n\u00e3o basta ganhar, pois \u00e9 preciso ganhar em condi\u00e7\u00f5es de executar um programa que, embora ainda muito distante de qualquer sonho revolucion\u00e1rio, precisar\u00e1 ser decididamente reformista, preparado para realizar, ainda nos termos do capitalismo dependente e atrasado, a reforma do Estado, a reforma agraria, a reforma tribut\u00e1ria, a reforma pol\u00edtica, a reforma do poder judici\u00e1rio, a regulamenta\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gicos, a reforma universit\u00e1ria, para citar aquelas mais ingentes.<\/p>\n<p>Nesse novo governo, novo porque sustentado por uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, o Estado retomar\u00e1 o planejamento governamental e a interven\u00e7\u00e3o na economia como vetor de desenvolvimento, a experi\u00eancia que, nascida na sequ\u00eancia da &#8220;revolu\u00e7\u00e3o&#8221; de 1930, chegou aos anos 1980 com o Brasil ostentando n\u00edveis de crescimento em torno da m\u00e9dia anual de 10%. Ou seja, ser reformista j\u00e1 ser\u00e1 muito, consideradas as condi\u00e7\u00f5es atuais de luta e o n\u00edvel da organiza\u00e7\u00e3o social. Reconhecer o atraso pol\u00edtico \u00e9 o primeiro passo para encontrar a porta de sa\u00edda.<\/p>\n<p>Qualquer plataforma de governo \u00e9, antes de mais nada, um projeto pol\u00edtico, o que pressup\u00f5e uma vis\u00e3o de mundo e de sociedade. \u00c9 evidente que no quadro vis\u00edvel a olho nu seria irrespons\u00e1vel as for\u00e7as de esquerda suporem a exist\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es objetivas para a mudan\u00e7a de mando. Mas o outro lado do voluntarismo n\u00e3o pode ser a ren\u00fancia niilista \u00e0 luta, porque simplesmente a hist\u00f3ria n\u00e3o acabou, e h\u00e1, sempre, tarefas por cumprir. Sem descartar o estrat\u00e9gico que \u00e9 a ruptura, sabem os socialistas que h\u00e1 muito o que fazer no sentido do progresso social \u2013 ainda nos limites tr\u00e1gicos de nosso capitalismo tempor\u00e3o, atrasado e dependente.<\/p>\n<p>Porque entre n\u00f3s o enfrentamento da sociedade de classes compreende o enfretamento a uma burguesia que jamais foi progressista e jamais comprometida com o interesse nacional, sempre desinteressada pela democracia e o progresso social. Seu hist\u00f3rico \u00e9 de servi\u00e7al do capital financeiro internacional. Nem mesmo reformista \u00e9; pois impedir as reformas meramente burguesas e desenvolvimentistas propostas por Jo\u00e3o Goulart foi a justificativa para seu apoio pol\u00edtico e financeiro ao golpe militar de 1964, e sua ades\u00e3o, recompensada, \u00e0 ditadura, at\u00e9 o momento em que os militares se sentiram sem condi\u00e7\u00f5es de manter o regime, e resolveram negociar uma transi\u00e7\u00e3o inconclusa para a democracia e o poder civil.<\/p>\n<p>Suas restri\u00e7\u00f5es ao lulismo t\u00eam origem na recusa a qualquer sorte de emerg\u00eancia das massas. A avers\u00e3o ao varguismo, industrialista e desenvolvimentista, remonta \u00e0 liga\u00e7\u00e3o do ditador reformista com os trabalhadores, e sua veia nacionalista. Essa classe dominante que hoje se banqueteia com o bolsonarismo \u00e9 herdeira do escravismo e do latif\u00fandio colonial, filha do engenho de a\u00e7\u00facar e da lavoura do caf\u00e9; defensora do statu quo, \u00e9 desafeita ao progresso, inimiga da mudan\u00e7a, sen\u00e3o daquela que signifique a consolida\u00e7\u00e3o de seu poder, sobre a terra, o pa\u00eds e sua gente. Mesmo a burguesia industrial, aquela que p\u00f4de brotar em meio ao atraso secular, est\u00e1 desvinculada do interesse nacional, conformada com o papel de associada menor das multinacionais.<\/p>\n<p>Nenhum projeto de futuro imediato (uma formula\u00e7\u00e3o que pressup\u00f5e &#8220;passar a limpo&#8221; esses anos de destrui\u00e7\u00e3o nacional) pode ver a hist\u00f3ria como um processo linear, ou o pa\u00eds imune \u00e0s profundas transforma\u00e7\u00f5es que se operam no mundo, com a transi\u00e7\u00e3o da hegemonia pol\u00edtico-ideol\u00f3gica e econ\u00f4mica do ocidente para a Eur\u00e1sia, do Atl\u00e2ntico para o Pac\u00edfico, desconcerto que se opera concomitante com a transi\u00e7\u00e3o da hegemonia pol\u00edtico-econ\u00f4mico-cient\u00edfica dos EUA para a China, anunciando traumas profundos nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, mais profundos do que aquelas crises particulares do desenvolvimento capitalista ocidental-europeu que marcaram a humanidade no s\u00e9culo passado, com duas guerras mundiais.<\/p>\n<p>Esse &#8220;novo mundo&#8221; cobra reflex\u00f5es inovadoras, releitura de li\u00e7\u00f5es antigas, o abandono de certezas axiom\u00e1ticas, eis que estamos diante de fatos novos.<\/p>\n<p>O pano de fundo da hist\u00f3ria presente \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica &#8212; sob a qual j\u00e1 vivemos mesmo na periferia do capitalismo &#8211;, anunciando rupturas das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e no mundo do trabalho, cujas consequ\u00eancias apenas se anunciam, desafiando a imagina\u00e7\u00e3o dos profissionais da futurologia. Modifica\u00e7\u00f5es, por certo, mais profundas do que aquelas que na segunda metade do s\u00e9culo XVIII anunciaram a revolu\u00e7\u00e3o industrial.<\/p>\n<p>Esse imponder\u00e1vel novo mundo de desafios pode estar oferecendo ao Brasil um quadro de alternativas impens\u00e1vel poucas d\u00e9cadas passadas. Podemos ser, como agora, mero instrumento (sem vez, sem voz, sem querer) no choque das grandes alternativas, repetindo o papel do molusco na guerra entre o rochedo e o mar; como tamb\u00e9m poderemos ser ator decisivo, se nos sobrar engenho e arte para construir nosso pr\u00f3prio destino. Se nada podemos esperar da classe dominante brasileira, alienada e for\u00e2nea, tudo passamos a depender da constru\u00e7\u00e3o de uma nova maioria nacional.<\/p>\n<p><strong>*Ex-ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sugeridos pela expectativa das pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es \u2013 para muitos a possiblidade de mudan\u00e7a com a qual podemos contar \u2013, partidos pol\u00edticos e funda\u00e7\u00f5es as mais variadas, grupos sociais, entidades de classe e sindicatos se voltam para a formula\u00e7\u00e3o de planos e programas de governo. 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