{"id":274243,"date":"2021-11-10T11:55:17","date_gmt":"2021-11-10T14:55:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=274243"},"modified":"2021-11-10T19:23:26","modified_gmt":"2021-11-10T22:23:26","slug":"xaropes-de-ontem-me-dao-forca-hoje-para-viver-o-amanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/xaropes-de-ontem-me-dao-forca-hoje-para-viver-o-amanha\/","title":{"rendered":"Xaropes de ontem me d\u00e3o for\u00e7a para viver o amanh\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>Dia desses, depois de cumpridas todas as tarefas caseiras, resolvi dar um apaguei na avalanche di\u00e1ria de zap zaps recebidos. Entre uma e outra deletada, descobri que no Brasil o aposentado \u00e9 lembrado em duas datas, uma oficiosa (8 de novembro) e outra oficial (24 de janeiro). Mesmo que a maioria dos trabalhadores que ralaram boa parte da vida n\u00e3o seja respeitada, isto \u00e9, n\u00e3o consiga viver dignamente com os recursos da aposentadoria, o Dia do Aposentado n\u00e3o \u00e9 uma brincadeira de mau gosto ou piada maquiav\u00e9lica. Ele realmente existe e foi criado pelo Decreto 6.926\/81, origin\u00e1rio de uma lei denominada Eloy Chaves, assinada em 1923, pelo ent\u00e3o presidente Arthur Bernardes.<\/p>\n<p>Como estabelece o texto do decreto, a data \u00e9 destinada a &#8220;homenagear os profissionais que se dedicaram a vida inteira ao trabalho e agora usufruem dos benef\u00edcios da Previd\u00eancia Social, recebendo do governo uma gratifica\u00e7\u00e3o por todos os anos de servi\u00e7os prestados ao pa\u00eds&#8221;. A\u00ed come\u00e7ou a ficar s\u00e9ria a brincadeira. Benef\u00edcios, gratifica\u00e7\u00e3o ou merreca? Seja l\u00e1 qual adjetivo queiram dar ao sal\u00e1rio pago pelos governos ao trabalhador que se lascou por 35, 40, 50 anos, a verdade \u00e9 que aposentadoria \u00e9 sin\u00f4nimo de obriga\u00e7\u00e3o descabida a um povo rebelde que insiste em viver ap\u00f3s cumprir seu compromisso com a labuta. Parece absurdo, mas \u00e9 verdade. \u00c9 o velho cada vez mais novo.<\/p>\n<p>Para o governo \u2013 n\u00e3o importa qual -, o aposentado \u00e9 um peso morto, improdutivo e gastador. E n\u00e3o interessa o que j\u00e1 tenham produzido de \u00fatil para a na\u00e7\u00e3o. O governo e os governantes esquecem que, conforme dados do IBGE, dos 213,3 milh\u00f5es de brasileiros, 37,7milh\u00f5es s\u00e3o pessoas idosas, ou seja, com 60 anos ou mais. E, com muita sabedoria, esse povo ainda vota, tem desenvoltura para escolher seus mandat\u00e1rios. Leio com frequ\u00eancia \u2013 e concordo \u2013 teses geri\u00e1tricas que afirmam ser crendice imaginar que, ao envelhecer, o ser humano fica mais pacato e d\u00f3cil, como geralmente \u00e9 mostrado na TV. Embora mude a forma de express\u00e3o, desobrigue os antigos do modo politicamente correto, a rebeldia jamais se apaga. \u00c9 mentira que os idosos mais avan\u00e7ados e aculturados falam baixinho, n\u00e3o entram em embates e est\u00e3o sempre abertos a ouvir e acatar opini\u00f5es alheias.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 fic\u00e7\u00e3o achar que, fora as doen\u00e7as da idade, o tempo muda tend\u00eancias ou tra\u00e7os comportamentais. Rudemente, ele (o tempo) \u00e9 apenas um &#8220;escultor de ru\u00ednas&#8221;. O resumo da \u00f3pera bufa \u00e9 que ser velho \u00e9 cada vez mais novo. Como ensinam os jovens, \u00e9 clean, modernoso e nunca excludente. Festeira e espigada, a Rainha Elizabeth \u00e9 o maior exemplo disso. Aos 95 anos, n\u00e3o perde uma solenidade festiva e vez por outra toma uma calibrina, o popular m\u00e9. Como ela mesma diz, a pessoa tem a idade que sente ter. Com a Previd\u00eancia quebrada por uma s\u00e9rie de fatores extra campo, o governo central ainda ter\u00e1 de conviver por muitos anos com a rapaziada encostada no INSS. Como eu, os &#8220;v\u00e9ios&#8221; de hoje s\u00e3o indisciplinados e, caso a morte realmente seja descanso, todos preferem viver cansados.<\/p>\n<p>A maioria n\u00e3o tem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o em escalar telhados, dirigir com a carteira vencida, tomar tragos al\u00e9m do limite e, consultando os &#8220;m\u00e9dicos&#8221; dos botecos, usar medicamentos que n\u00e3o deveriam. Me cuido, mas nada melhor do que uma viagem no tempo quando o assunto s\u00e3o os rem\u00e9dios. Nascido e criado nos sub\u00farbios do Rio de Janeiro, fui acostumado a benzedeiras, costumes e curiosidades. M\u00e9dicos era um para tudo. Normalmente caseiras, as receitas tinham emuls\u00f5es, xaropes e f\u00f3rmulas ardidas, mal cheirosas e com gosto horroroso. No entanto, sabe-se l\u00e1 como, todos funcionavam. No r\u00e1dio a pilha e na televis\u00e3o a carv\u00e3o, a galera do s\u00e9culo passado consumia diuturnamente reclames de rem\u00e9dios, al\u00e9m, \u00e9 claro, dos pr\u00f3prios. Tenho certeza de que foram os xaropes de ontem que me d\u00e3o for\u00e7a hoje para viver o amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Vitaminas eram as campe\u00e3s dos comerciais, mas antiss\u00e9pticos tamb\u00e9m tinham seu minuto de gl\u00f3ria. Mais interessante \u00e9 que, dos medicamentos recomendados pelos vizinhos e usu\u00e1rios de boticas, uns foram esquecidos, mas alguns permanecem na crista da onda. Rhum Creosotado (xarope), Fosfosol e Memoriol (para mem\u00f3ria), Anapyon (antiss\u00e9ptico) e 1 Minuto (para dor de dente) sumiram das prateleiras, assim como os milagrosos sabonetes Eucalol, Cinta Azul, Cashmere Bouquet, Gessy e Lifebuoy. Entretanto, quem n\u00e3o se lembra ou nunca utilizou o Regulador Xavier (as mulheres conheciam bem), Emuls\u00e3o Scott e Biot\u00f4nico Fontoura (fortificantes), o laxante \u00d3leo de R\u00edcino e os indispens\u00e1veis Merthiolate, Vick Vaporub e a pomada Minancora, n\u00e3o perca tempo, pois as boas casas do ramo continuam comercializando.<\/p>\n<p>Resumindo toda essa hist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 demais dizer que aposentar \u00e9 bom, mas viver da aposentadoria n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Nos esfor\u00e7amos para construir um pa\u00eds melhor, mas recebemos o pior desse mesmo pa\u00eds. O trabalho realmente nos ensinou a ter boa lembran\u00e7as, mas o sal\u00e1rio. N\u00e3o aposte sua vida no fim de sua exist\u00eancia. O governo, sua empresa e sua aposentadoria n\u00e3o garantem vida eterna. Por bem ou por mal, aposentar \u00e9 o fim de todos. Pelo menos entendi que, no Brasil, cultura e conhecimento s\u00e3o coisas para depois de pendurar as chuteiras. Minha teoria estabelece que a \u00fanica coisa velha que n\u00e3o tem o direito de se aposentar s\u00e3o as ideias. Por isso, aposentadoria \u00e9 para quem nunca fez o que quis. Quem faz o que gosta n\u00e3o quer parar nunca. \u00c9 o meu caso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia desses, depois de cumpridas todas as tarefas caseiras, resolvi dar um apaguei na avalanche di\u00e1ria de zap zaps recebidos. Entre uma e outra deletada, descobri que no Brasil o aposentado \u00e9 lembrado em duas datas, uma oficiosa (8 de novembro) e outra oficial (24 de janeiro). 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