{"id":274810,"date":"2021-11-20T11:08:41","date_gmt":"2021-11-20T14:08:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=274810"},"modified":"2021-11-20T14:11:05","modified_gmt":"2021-11-20T17:11:05","slug":"literatura-infantil-com-protagonistas-negros-ganha-mais-espaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/literatura-infantil-com-protagonistas-negros-ganha-mais-espaco\/","title":{"rendered":"Literatura infantil com protagonistas negros ganha mais espa\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p>Publicados por pequenas editoras, selos independentes e at\u00e9 grandes casas editoriais, livros infantis com protagonistas negros, escritos por autores n\u00e3o brancos, s\u00e3o um segmento consistente no Brasil atual. \u201cA gente tem muita oferta\u201d, afirma a pesquisadora e blogueira Luciana Bento (foto em destaque), especialista no tema.<\/p>\n<p>Segundo Luciana, um dos fatores que elevaram a produ\u00e7\u00e3o desse tipo de conte\u00fado foi a inclus\u00e3o do estudo das culturas afro-brasileiras no curr\u00edculo escolar, definida por lei, em 2003. \u201cTivemos um boom de publica\u00e7\u00f5es com personagens negros\u201d, afirma, ao comentar o impacto da medida.<\/p>\n<p>Propriet\u00e1ria da Africanidades, livraria especializada em autores negros, Ketty Val\u00eancio confirma que h\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 um bom n\u00famero de t\u00edtulos dispon\u00edveis, como publica\u00e7\u00f5es que atraem cada vez mais o interesse. \u201c\u00c9 um mundo muito rico, e tem muita gente procurando\u201d, destaca. \u00c9 um momento que abre oportunidades que ela mesmo n\u00e3o teve. \u201cEu penso muito na minha inf\u00e2ncia. Minha introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura foi atrav\u00e9s dos it\u00e3s dos orix\u00e1s. Minha gera\u00e7\u00e3o desconhecia literatura infantil com recorte \u00e9tnico-racial.\u201d<\/p>\n<p><strong>Identidade e possibilidades<\/strong><br \/>\nO contato com os it\u00e3s &#8211; contos tradicionais da cultura ioruba &#8211; ajudaram a abrir as perspectivas de Ketty quando ainda era crian\u00e7a. \u201cEu me reconhecia nelas, mulheres pretas incr\u00edveis\u201d, diz, sobre impress\u00f5es deixadas pelas hist\u00f3rias das orix\u00e1s femininas que conheceu nessa \u00e9poca. \u00c9 justamente uma amplia\u00e7\u00e3o dessa oportunidade que ela enxerga nas inf\u00e2ncias negras no Brasil de hoje. \u201cA literatura infantil \u00e9 o in\u00edcio de um acolhimento, porque ali voc\u00ea trabalha diversas quest\u00f5es que v\u00e3o ocorrer na sua vida adulta: autoestima, pertencimento, orgulho da sua hist\u00f3ria, de onde voc\u00ea vem, da sua ancestralidade.\u201d<\/p>\n<p>Pensando nisso, a professora e pesquisadora Evelin Oliveira se esfor\u00e7a para trabalhar hist\u00f3rias com esse recorte na escola onde d\u00e1 aulas para crian\u00e7as, em Carapicu\u00edba, na Grande S\u00e3o Paulo. \u201cNo meu planejamento anual, trabalho desde o primeiro dia a vertente da diversidade \u00e9tnico-racial, com foco na constru\u00e7\u00e3o dessa identidade. Porque s\u00e3o crian\u00e7as de 4 a 5 anos e, neste momento, a diversidade precisa estar presente o ano inteiro e n\u00e3o somente em novembro\u201d, afirma, sobre o processo educacional que desenvolve, levando, inclusive, jogos que ela mesmo cria.<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3rias e tradi\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nOs quebra-cabe\u00e7as e os jogos de mem\u00f3ria s\u00e3o constru\u00eddos com elementos tradicionais de culturas africanas, como os adinkras \u2013 s\u00edmbolos que remetem a conceitos e hist\u00f3rias. Segundo Evelin, o contato com essas refer\u00eancias ajuda as crian\u00e7as a estabelecer a pr\u00f3pria identidade. \u201cPrincipalmente as crian\u00e7as negras, que n\u00e3o se enxergam enquanto negras. Se tem uma crian\u00e7a com pele mais escura, tem aquela pequena discrimina\u00e7\u00e3o que precisa ser trabalhada em sala de aula\u201d, ressalta, a partir de sua experi\u00eancia como educadora.<\/p>\n<p>&#8220;O passado \u00e9 uma forma de abrir a conversa com as quest\u00f5es do presente&#8221;, relata em seu trabalho o historiador e escritor Allan da Rosa. \u201cPensar fam\u00edlia, abrir o linguajar, viajar, mas com as unhas agarradas no tempo da molecada\u201d, diz o autor, sobre os sentimentos durante o processo de constru\u00e7\u00e3o do livro Zumbi Assombra quem?, publicado em 2017.<\/p>\n<p>O livro surgiu da conversa com uma colega que teve dificuldade em contar a trajet\u00f3ria do l\u00edder quilombola Zumbi dos Palmares a um grupo de jovens em um festival liter\u00e1rio. \u201cEla disse que a oficina tinha sido terr\u00edvel, que ficou uma hora com a molecada, que falou de Zumbi. A molecada ficou com nojo, disse que zumbi era um cad\u00e1ver que anda, que assombra. E ela n\u00e3o conseguia lidar com isso\u201d, lembra.<\/p>\n<p>A partir da provoca\u00e7\u00e3o, Rosa resolveu trabalhar com fantasmas reais e imagin\u00e1rios que rodeiam crian\u00e7as e adolescentes, mostrando como surgiu a ideia do livro. \u201cNa hora, eu brinquei e disse que Zumbi assombra mesmo os fazendeiros, os racistas&#8221;, disse o escritor, trazendo uma desconstru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio feito por filmes e jogos da cultura de massa.<\/p>\n<p>De acordo com o autor, o di\u00e1logo com o p\u00fablico jovem n\u00e3o torna o livro necessariamente infanto-juvenil. \u201cEu o considero um livro para adultos e crian\u00e7as, poroso. Cada linha ali tem uma raz\u00e3o, um pulso, que \u00e9 ser lido em voz alta com a molecada ou com os coroas, nossas pessoas mais velhas. \u201dPara Rosa, o projeto \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o para ser lida de forma compartilhada por duas pessoas, ritual que repetiu todos os dias durante a inf\u00e2ncia do filho, hoje com 14 anos.<\/p>\n<p>Obras que extrapolam o racismo s\u00e3o fundamentais, na opini\u00e3o de Luciana Bento. \u201cPoder ver hist\u00f3rias em que as crian\u00e7as negras t\u00eam fam\u00edlias, sonhos, que n\u00e3o est\u00e3o sofrendo, \u00e9 muito importante nesse lugar que a gente esse encontra, e nesse espelho em que vivemos nossa realidade\u201d, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p>A possibilidade de ser retratada passa at\u00e9 por coisas simples, como no caso de sua filha mais velha, Aisha, que tem 9 anos e gosta de encontrar o pr\u00f3prio nome, de origem africana, nas hist\u00f3rias que l\u00ea. \u201cMeninas negras que s\u00e3o cientistas, que tem orgulho do seu cabelo, que fazem v\u00e1rias coisas e conseguem se ver como possibilidade de exist\u00eancia.\u201d S\u00e3o horizontes que se abrem pelas v\u00e1rias hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Livros que precisam, segundo Allan da Rosa, trazer os conflitos e contradi\u00e7\u00f5es do mundo. \u201cN\u00e3o fugir das nossas contradi\u00e7\u00f5es \u00e9 uma marca da nossa ancestralidade, da epistemologia ancestral, da encruzilhada, a roda com a sua abertura. Muito mais do que uma linha que s\u00f3 vai para frente, do que o manique\u00edsmo. Eu vejo isso na nossa hist\u00f3ria est\u00e9tica\u201d, diz o escritor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicados por pequenas editoras, selos independentes e at\u00e9 grandes casas editoriais, livros infantis com protagonistas negros, escritos por autores n\u00e3o brancos, s\u00e3o um segmento consistente no Brasil atual. \u201cA gente tem muita oferta\u201d, afirma a pesquisadora e blogueira Luciana Bento (foto em destaque), especialista no tema. 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