{"id":275046,"date":"2021-11-24T07:01:31","date_gmt":"2021-11-24T10:01:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=275046"},"modified":"2021-11-24T13:53:02","modified_gmt":"2021-11-24T16:53:02","slug":"madeireiros-roubam-147-mil-t-de-madeira-na-cara-da-pf-e-ibama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/madeireiros-roubam-147-mil-t-de-madeira-na-cara-da-pf-e-ibama\/","title":{"rendered":"Madeireiros roubam 147 mil t de madeira na cara da PF e Ibama"},"content":{"rendered":"<p>Akuanduba \u00e9 uma divindade da mitologia dos ind\u00edgenas Arara, que habitam o estado do Par\u00e1. Segundo a lenda, se algu\u00e9m cometesse algum excesso, contrariando as normas, a divindade fazia soar uma pequena flauta, restabelecendo a ordem.<\/p>\n<p>Foi dessa lenda dos Arara que a Pol\u00edcia Federal (PF) tomou emprestado o nome que batizou a opera\u00e7\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o deflagrada em maio deste ano que mira o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, o presidente do Ibama Eduardo Bim e outros agentes p\u00fablicos e empres\u00e1rios do ramo madeireiro com suspeitas de irregularidades em processos de exporta\u00e7\u00e3o de madeiras.<\/p>\n<p>Agora, seis meses ap\u00f3s a Opera\u00e7\u00e3o Akuanduba, a <em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em> traz novas informa\u00e7\u00f5es sobre o quanto de madeira foi exportada e quais pa\u00edses e empresas receberam o produto durante os 15 meses em que vigorou a medida do Ibama (7036900\/2020) que est\u00e1 no cerne da investiga\u00e7\u00e3o da PF. A investiga\u00e7\u00e3o aponta que as exporta\u00e7\u00f5es de madeira foram facilitadas pelo despacho que tornou obsoleta uma Instru\u00e7\u00e3o Normativa (15\/2011) que estabelecia que as exporta\u00e7\u00f5es de madeira necessitavam de autoriza\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do Ibama e previa procedimentos mais rigorosos para o controle de exporta\u00e7\u00e3o, como inspe\u00e7\u00e3o de cargas por amostragem.<\/p>\n<p>O despacho foi suspenso em maio por determina\u00e7\u00e3o do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Na decis\u00e3o, Moraes afirmou que, de acordo com os trabalhos feitos pela PF com dados, depoimentos e documentos, as investiga\u00e7\u00f5es apontariam \u201cpara a exist\u00eancia de grave esquema de facilita\u00e7\u00e3o ao contrabando de produtos florestais\u201d. Para Moraes, h\u00e1 suspeitas de participa\u00e7\u00e3o do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e do presidente do Ibama Eduardo Bim no suposto esquema.<\/p>\n<p>Est\u00e3o entre os investigados tamb\u00e9m funcion\u00e1rios nomeados por Salles no Ibama, al\u00e9m de empresas do ramo madeireiro, sobretudo as vinculadas \u00e0s madeireiras da associa\u00e7\u00e3o paraense Aimex (Associa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias Exportadoras de Madeiras do Estado do Par\u00e1).<\/p>\n<p><strong>174 mil toneladas para EUA e Europa<\/strong><br \/>\nSegundo levantamento in\u00e9dito da <em>P\u00fablica<\/em>, somente as madeireiras associadas \u00e0 Aimex exportaram 174 mil toneladas de madeira desde o in\u00edcio do governo Bolsonaro \u2013 57% dessas exporta\u00e7\u00f5es (cerca de 100 mil toneladas) ocorreram na vig\u00eancia da medida do Ibama.<\/p>\n<p>A reportagem apurou que, entre fevereiro de 2020 e maio de 2021, as empresas vinculadas \u00e0 Aimex comercializaram pelo menos 12,5 mil toneladas de madeira de esp\u00e9cies florestais consideradas amea\u00e7adas pelo Servi\u00e7o Florestal Brasileiro (SFB), como, por exemplo,\u00a0angelim-pedra, cedro-rosa, cerejeira, ita\u00faba e garapeira.<\/p>\n<p>Os dados foram obtidos em parceria com o Centro Latinoamericano de Investigaci\u00f3n Period\u00edstica (Clip)\u00a0 a partir da plataforma Panjiva, uma base de informa\u00e7\u00f5es comerciais e intelig\u00eancia de mercado mantida pela S&amp;P Global. A pedido da reportagem, a equipe de dados do Clip agregou as informa\u00e7\u00f5es de transa\u00e7\u00f5es comerciais feitas pelas madeireiras associadas \u00e0 Aimex.<\/p>\n<p>O volume de madeira comercializado, segundo os dados da Panjiva, foi maior nos 15 meses em que vigorou o decreto do Ibama (de fevereiro de 2020 a maio de 2021) do que entre 2016 e 2019, quando 11 mil toneladas de madeira de esp\u00e9cies consideradas amea\u00e7adas foram comercializadas pelas empresas.<\/p>\n<p>As esp\u00e9cies encontradas na base de dados do Panjiva, apesar de estarem em risco segundo a classifica\u00e7\u00e3o do SFB, podem ser comercializadas legalmente. Para extrair madeira legalmente no Brasil, \u00e9 necess\u00e1rio a aprova\u00e7\u00e3o de um plano de manejo florestal nas secretarias estaduais de Meio Ambiente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel averiguar, a partir da base de informa\u00e7\u00f5es consultadas, a quais planos de manejo a madeira comercializada est\u00e1 vinculada. Ap\u00f3s a deflagra\u00e7\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Akuanduba, a Aimex divulgou uma nota em que defende que a madeira \u00e9 legal.<\/p>\n<p><strong>Os destinos da madeira<\/strong><br \/>\nFran\u00e7a, EUA, Jap\u00e3o, Alemanha e B\u00e9lgica foram os pa\u00edses que mais registraram envios de madeira considerada amea\u00e7ada pelo FSB enquanto vigorou o decreto do Ibama.<\/p>\n<p>As madeiras campe\u00e3s de envios no per\u00edodo foram o angelim-pedra (Hymenolobium excelsum), a ita\u00faba (Mezilaurus itauba), a garapeira (Apuleia leiocarpa) e a cerejeira (Amburana acreana). S\u00e3o madeiras consideradas vulner\u00e1veis pelo SFB e usadas principalmente na constru\u00e7\u00e3o civil e naval que, devido \u00e0 sua resist\u00eancia e durabilidade, s\u00e3o de interesse comercial.<\/p>\n<p>A exporta\u00e7\u00e3o de madeira n\u00e3o se deu, por\u00e9m, de maneira homog\u00eanea entre as associadas da Aimex, segundo a an\u00e1lise de dados da nossa reportagem. Seis empresas foram respons\u00e1veis por 78,5% dos envios de madeira considerada amea\u00e7ada enquanto vigorou o despacho do Ibama.<\/p>\n<p>Entre as tr\u00eas madeireiras que mais exportaram no per\u00edodo, ao menos duas partilham de um passado em comum: autua\u00e7\u00f5es por infra\u00e7\u00f5es ambientais pelo Ibama, a\u00e7\u00f5es na \u00e1rea socioambiental nas justi\u00e7as federal e estadual e conflitos socioambientais com comunidades ribeirinhas na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Uma dessas empresas \u00e9 a Ebata Produtos Florestais Ltda. Enquanto vigorou o despacho do Ibama, a Ebata, com sede em Bel\u00e9m (PA), realizou pelo menos 211 exporta\u00e7\u00f5es de madeira amea\u00e7ada ao exterior. Os envios somaram 6 mil toneladas de madeira, sobretudo a ita\u00faba. Os clientes da madeireira incluem empresas que atuam na confec\u00e7\u00e3o de pisos e m\u00f3veis em pa\u00edses como Reino Unido, Dinamarca, B\u00e9lgica, Estados Unidos, Holanda e Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Na decis\u00e3o que determinou o afastamento por 90 dias do presidente do Ibama Eduardo Bim, em maio deste ano, o ministro Alexandre de Moraes afirmou que a empresa teria realizado exporta\u00e7\u00f5es ilegais para os EUA, segundo a an\u00e1lise da PF.<\/p>\n<p>A carga em quest\u00e3o era um cont\u00eainer de 28 metros c\u00fabicos de ita\u00faba e angelim-pedra, que teriam sido exportadas sem a autoriza\u00e7\u00e3o do Ibama antes do despacho do presidente Eduardo Bim, em janeiro de 2020, quando essa exig\u00eancia se fazia necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a apreens\u00e3o da carga por autoridades americanas, a empresa teria recebido certid\u00f5es de of\u00edcio emitidas pela superintend\u00eancia do Ibama no Par\u00e1 para liberar o cont\u00eainer, o que teria ocorrido por influ\u00eancia do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, al\u00e9m de um parecer de Rafael Freire de Macedo, ent\u00e3o diretor de Uso Sustent\u00e1vel da Biodiversidade e Florestas do Ibama, que apresentou, segundo Moraes, \u201cinforma\u00e7\u00f5es inver\u00eddicas \u00e0s autoridades americanas\u201d para liberar a carga. Nossa reportagem apurou que a Ebata foi penalizada nos \u00faltimos 11 anos em R$ 324 mil por seis autua\u00e7\u00f5es por infra\u00e7\u00f5es ambientais.<\/p>\n<p>A empresa possui ainda duas concess\u00f5es que somam mais de 56 mil hectares na Floresta Nacional de Sarac\u00e1-Taquera, uma floresta p\u00fablica gerida pelo SFB no munic\u00edpio de Oriximin\u00e1, no Par\u00e1. Os acordos de concess\u00e3o, feitos em 2009 e 2014, deram \u00e0 empresa o direito de explorar a \u00e1rea concedida pelas pr\u00f3ximas quatro d\u00e9cadas. A Ebata possui dois selos FSC (Forest Stewardship Council), um certificado de boas pr\u00e1ticas na \u00e1rea de explora\u00e7\u00e3o florestal, o que facilita o acesso aos mercados compradores no exterior.<\/p>\n<p>A empresa foi alvo de uma a\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) em 2016 que pediu a suspens\u00e3o de um dos selos FSC obtidos pela madeireira. Para embasar a a\u00e7\u00e3o, o MPF alegou que as atividades da Ebata e tamb\u00e9m de outra madeireira que tamb\u00e9m possui concess\u00e3o florestal na Flona Sarac\u00e1-Taquera, a Golf Ind\u00fastria, Com\u00e9rcio e Exporta\u00e7\u00e3o de Madeira Ltda., geraram preju\u00edzos ao meio ambiente e a comunidades ribeirinhas que tamb\u00e9m fazem uso da floresta p\u00fablica. Para o MPF, a concess\u00e3o do selo \u00e0 Ebata e \u00e0 Golf levava o mercado consumidor a erros.<\/p>\n<p>Entre os preju\u00edzos elencados pelo MPF estariam danos ambientais e assoreamento do lago do Acari, que seria um canal de comunica\u00e7\u00e3o entre as comunidades ribeirinhas locais. Segundo o MPF, o tr\u00e2nsito de balsas das madeireiras gerou polui\u00e7\u00e3o no lago e restringiu o tr\u00e1fego das popula\u00e7\u00f5es tradicionais. De acordo com o MPF, as empresas constru\u00edram uma estrada que seccionou parte do lago, dificultando o tr\u00e2nsito de embarca\u00e7\u00f5es e a atividade pesqueira dos ribeirinhos. Parte da estrutura de beneficiamento de madeira da Ebata estaria em um im\u00f3vel rural chamado fazenda Arauak, sobreposto ao Projeto de Assentamento Agroextrativista Sapucu\u00e1-Trombetas. Apesar de titulado pelo Incra, um parecer pede o cancelamento do t\u00edtulo por irregularidades em sua emiss\u00e3o. O MPF alega que h\u00e1 sobreposi\u00e7\u00e3o das \u00e1reas de explora\u00e7\u00e3o madeireira com as \u00e1reas de uso de comunidades ribeirinhas.<\/p>\n<p>\u00cdtala Nepomuceno, mestre em ci\u00eancias ambientais pela Universidade Federal do Oeste do Par\u00e1 (Ufopa), que atuou como perita na a\u00e7\u00e3o proposta pelo MPF, disse em sua an\u00e1lise que havia algumas \u201cinobserv\u00e2ncias muito significativas\u201d na conduta da Ebata em rela\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es estabelecidos pelo selo FSC. \u201cOs padr\u00f5es de certifica\u00e7\u00e3o da FSC estabelecem que as empresas reconhe\u00e7am os direitos consuetudin\u00e1rios. Ou seja, se a empresa percebe que a sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o est\u00e1 impactando \u00e1reas de uso tradicional, ela precisa considerar esses direitos para ser certificada. O Imaflora, a institui\u00e7\u00e3o certificadora, chegou a registrar ano ap\u00f3s ano, em relat\u00f3rios de auditoria, que havia essa sobreposi\u00e7\u00e3o das \u00e1reas da empresa com as \u00e1reas de uso das comunidades. Apesar disso, o selo da empresa n\u00e3o foi suspenso\u201d, argumentou \u00cdtala.<\/p>\n<p>Ela diz ainda que muitos moradores das comunidades ribeirinhas foram informados sobre o tamanho da \u00e1rea que seria concedida \u00e0 empresa apenas quando a Ebata iniciou o trabalho de demarca\u00e7\u00e3o f\u00edsica no local. \u201cAl\u00e9m da sobreposi\u00e7\u00e3o, a empresa tamb\u00e9m arrendou um im\u00f3vel vizinho \u00e0 Flona onde h\u00e1 concess\u00e3o florestal, em um Projeto Agroextrativista Sapucu\u00e1-Trombetas. Na Flona, eles exploram a madeira e, dentro do Projeto de Assentamento Agroextrativista, eles instalaram sua estrutura administrativa e operacional. Esse im\u00f3vel arrendado \u00e9 uma fazenda que est\u00e1 l\u00e1 de maneira inadequada, inclusive h\u00e1 um relat\u00f3rio do Incra que havia recomendado que essa \u00e1rea fosse revertida para o projeto de assentamento e fosse destinado \u00e0s fam\u00edlias que t\u00eam esse perfil para ocupar o assentamento.<\/p>\n<p>H\u00e1 um lit\u00edgio entre a empresa e as fam\u00edlias ribeirinhas que s\u00e3o o p\u00fablico desse projeto de assentamento\u201d, diz \u00cdtala. \u201cOutro impacto foi quando a empresa instalou o seu porto para a exporta\u00e7\u00e3o de madeira. A empresa construiu o porto neste im\u00f3vel arrendado e dentro do lago do Acari, que \u00e9 o lago onde vive a comunidade do Acari. \u00c9 um lago que possui acessos estreitos aos rios. O que a comunidade relatou em rela\u00e7\u00e3o ao porto \u00e9 que as embarca\u00e7\u00f5es da empresa sa\u00edam do porto, passavam pelo canal e acabavam derrubando a vegeta\u00e7\u00e3o ciliar nos canais e assoreando os canais.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u201cFalta comunica\u00e7\u00e3o\u201d, diz afetado pela Ebata<\/strong><br \/>\n\u201cA Ebata n\u00e3o se comunica com as comunidades. Vai fazendo os ramais, vai degradando igarap\u00e9s, e a gente acaba saindo prejudicado\u201d, afirma o morador da comunidade Boa Nova Jos\u00e9 Domingos Rabelo. Ele refor\u00e7a as den\u00fancias do MPF constatadas em laudo t\u00e9cnico de assoreamento de igarap\u00e9s, o que acabaria prejudicando a pesca e o tr\u00e2nsito das comunidades ribeirinhas. \u201cEles jogam toras de pau, entulho, palha, dentro dos igarap\u00e9s\u201d, diz. Para ele, a retirada de madeira do local ocorreu de forma desordenada, em desconformidade com o plano de concess\u00e3o aprovado pelo SFB, o que gera impactos ambientais como a perda da ca\u00e7a. \u201cEles diziam, por exemplo, que n\u00e3o iam tirar a ita\u00faba, que \u00e9 uma madeira de uso tradicional das comunidades e que demora d\u00e9cadas para crescer. Diziam que iam mexer com ip\u00ea, aroeira e outras madeiras. Um dia n\u00f3s fomos fazer uma visita e vimos um monte de toras de ita\u00faba l\u00e1 [no p\u00e1tio da empresa]\u201d, diz.<\/p>\n<p>Em setembro de 2019, a Justi\u00e7a Federal em Santar\u00e9m condenou a Ebata, a Golf e o Instituto de Manejo e Certifica\u00e7\u00e3o Florestal e Agr\u00edcola (Imaflora), que concedeu o selo FSC \u00e0 Ebata, ao pagamento de R$ 100 mil a um fundo e \u00e0s comunidades impactadas pela atividade das madeireiras. Foi determinada a suspens\u00e3o do selo FSC para o empreendimento na Flona Sarac\u00e1-Taquera at\u00e9 que fosse realizado um Plano de Recupera\u00e7\u00e3o de \u00c1reas Degradadas (PRAD) para a \u00e1rea da boca do lago do Acari.<\/p>\n<p>Procurada, a Ebata n\u00e3o retornou at\u00e9 esta publica\u00e7\u00e3o.\u00a0Sobre a certifica\u00e7\u00e3o concedida \u00e0 Ebata, o Imaflora afirmou: \u201cEm rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1rea anteriormente certificada que foi alvo de decis\u00e3o judicial, a certifica\u00e7\u00e3o FSC foi suspensa e segue assim atualmente. Este cancelamento n\u00e3o influencia na certifica\u00e7\u00e3o de outras \u00e1reas\u201d, comunicou.<\/p>\n<p><strong>Tradelink, suspeita de \u201clavagem de madeira\u201d<\/strong><br \/>\nSegundo informa\u00e7\u00f5es da PF citadas na decis\u00e3o judicial do ministro Alexandre de Moraes na Opera\u00e7\u00e3o Akuanduba, a Tradelink, com sede no Par\u00e1, teve sete cont\u00eaineres de madeira apreendidos, em janeiro de 2021, com madeira que se destinava \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o para os Estados Unidos, a B\u00e9lgica e a Dinamarca e foi autuada pelo Ibama por exporta\u00e7\u00e3o ilegal no mesmo m\u00eas. O volume total das cargas apreendidas ultrapassava 150 mil metros c\u00fabicos.<\/p>\n<p>No m\u00eas seguinte, segundo as informa\u00e7\u00f5es da PF citadas por Moraes, a pedido da empresa o Ibama desembara\u00e7ou as cargas apreendidas alegando falta de pessoal. Posteriormente, Bryan Landry, adido da Fish Wildlife Service (FWS, uma ag\u00eancia americana equivalente ao Ibama), fez uma an\u00e1lise das cargas da Tradelink apreendidas nos EUA e constatou irregularidades na origem da extra\u00e7\u00e3o da madeira, o que refor\u00e7ou uma suspeita da PF de uma poss\u00edvel \u201clavagem de madeira\u201d \u2014 que consiste no uso de cr\u00e9ditos emitidos em planos de manejo florestal posteriormente usados para \u201cesquentar\u201d madeira il\u00edcita.<\/p>\n<p>Segundo reportagem da <em>Folha de S.Paulo<\/em>, representantes da Tradelink ligaram para autoridades aduaneiras da Dinamarca e da B\u00e9lgica para desembara\u00e7ar as cargas de terminais telef\u00f4nicos vinculados ao Ibama do Par\u00e1. A empresa tamb\u00e9m teria colocado, segundo informa\u00e7\u00f5es da FWS, um representante no escrit\u00f3rio do Ibama em Bel\u00e9m para garantir a libera\u00e7\u00e3o das remessas de madeira ao exterior.<\/p>\n<p>Os dados do Ibama apontam que a Tradelink possui um total de 45 multas e autua\u00e7\u00f5es por infra\u00e7\u00f5es ambientais desde 1996. Somadas, essas autua\u00e7\u00f5es aproximam-se do valor de R$ 7,5 milh\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>87 envios de madeira considerada amea\u00e7ada<\/strong><br \/>\nNas an\u00e1lises de dados feitas pela P\u00fablica a partir de dados obtidos pelo Clip, a Tradelink fez um total de 87 envios de madeira considerada amea\u00e7ada no per\u00edodo em que vigorou o despacho do Ibama que facilitou as exporta\u00e7\u00f5es. Sessenta por cento dessas exporta\u00e7\u00f5es s\u00e3o da Tradelink para outras unidades do mesmo grupo empresarial, sobretudo as situadas na \u00c1frica do Sul, no Reino Unido e nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A Tradelink Madeiras Ltda. tem como principal s\u00f3cia a Tradelink Wood Products Ltd, empresa sediada na Inglaterra, representada no Brasil por um procurador brasileiro. A maioria das exporta\u00e7\u00f5es da Tradelink \u00e9 de garapeira, muito utilizada na constru\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n<p>A empresa possui uma longa ficha de a\u00e7\u00f5es, den\u00fancias e investiga\u00e7\u00f5es relacionadas a quest\u00f5es socioambientais. O rol de acusa\u00e7\u00f5es judiciais a que a Tradelink responde ou j\u00e1 respondeu vai desde a venda ilegal de madeira \u2013 pr\u00e1tica pela qual a empresa foi condenada em primeira inst\u00e2ncia a pagar uma indeniza\u00e7\u00e3o de cerca de R$ 5 milh\u00f5es \u2013, falsifica\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es ambientais, at\u00e9 negociar com empresas denunciadas por trabalho escravo.<\/p>\n<p>H\u00e1 investiga\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es civis p\u00fablicas mais recentes que envolvem a empresa nas esferas federal e estadual. Em maio de 2019, a Tradelink foi alvo de uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica do MPF em decorr\u00eancia da Opera\u00e7\u00e3o Ca\u00e7a-Fantasma, que o \u00f3rg\u00e3o fez em conjunto com o Ibama. Na opera\u00e7\u00e3o, foi constatado, segundo o MPF, que \u201chavia um n\u00famero consider\u00e1vel de madeira sendo transacionada, no entanto, o n\u00famero era irreal, sendo t\u00e3o somente transa\u00e7\u00f5es de fachada que advinham de empresas tamb\u00e9m de fachada\u201d, conforme o \u00f3rg\u00e3o descreveu na inicial da a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica. Segundo o documento, ap\u00f3s uma vistoria do Ibama ficou constatado que a Tradelink teria recebido \u201cum quantitativo dantesco de madeiras advindas de empresas fantasmas\u201d, ou seja, madeira que teria sido extra\u00edda ilegalmente e mascarada com transa\u00e7\u00f5es fict\u00edcias.<\/p>\n<p>Segundo a den\u00fancia, a Tradelink teria recebido esses cr\u00e9ditos florestais de empresas que aprovaram planos de manejo fraudulento e os usou para legalizar madeira oriunda de desmatamento. O Ibama identificou irregularidades em ao menos oito transa\u00e7\u00f5es em 2018.\u00a0O dano ambiental calculado pelo MPF ultrapassaria R$ 6 milh\u00f5es. Procurado pela P\u00fablica, o MPF n\u00e3o quis comentar o caso.<\/p>\n<p>Em \u00e2mbito estadual, um procedimento preparat\u00f3rio foi convertido em inqu\u00e9rito civil pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado do Par\u00e1 (MPPA) para apurar a inser\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es falsas no Sisflora, o sistema de controle de produtos florestais do estado, em tese pela Tradelink.<\/p>\n<p>O caso decorre tamb\u00e9m de uma den\u00fancia do Ibama. \u201cO Ibama aponta uma inser\u00e7\u00e3o fraudulenta de dados no sistema Sisflora, da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Algu\u00e9m fraudulentamente inseriu dados incorretos nesse sistema. Quando o Ibama fez a inspe\u00e7\u00e3o, constatou isso para a avalia\u00e7\u00e3o do aspecto penal para apurar o crime de falsidade ideol\u00f3gica. N\u00f3s estamos em apura\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o promotor respons\u00e1vel pelo inqu\u00e9rito civil, Nilton Gurj\u00e3o das Chagas, da Promotoria de Justi\u00e7a, Meio Ambiente, Patrim\u00f4nio Cultural, Habita\u00e7\u00e3o e Urbanismo de Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>Segundo ele, o Ibama aponta que a empresa recebeu cr\u00e9ditos fict\u00edcios no Sisflora em outubro de 2018. Falando em tese, sem citar especificamente a Tradelink, ele diz que \u00e9 comum essa pr\u00e1tica pelas madeireiras. \u201cEles tiram madeira de planos de manejo fraudados, de terras ind\u00edgenas, de terras p\u00fablicas devolutas, e \u00e9 preciso \u2018esquentar\u2019 essa madeira\u201d, diz. O inqu\u00e9rito pode resultar em uma a\u00e7\u00e3o criminal contra a Tradelink ou terminar em um acordo de n\u00e3o persecu\u00e7\u00e3o penal.<\/p>\n<p>Procurada, a empresa afirmou, sobre a Opera\u00e7\u00e3o Akuanduba, que todas as suas opera\u00e7\u00f5es \u201cforam legais e obedeceram \u00e0s regras do IBAMA e \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o adotada pelo \u00f3rg\u00e3o ambiental quanto \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o pertinente. A Tradelink, portanto, limitou-se a cumprir a lei e a orienta\u00e7\u00e3o interpretativa dos \u00f3rg\u00e3os ambiental e alfandeg\u00e1rio nacionais\u201d. Sobre a Opera\u00e7\u00e3o Akuanduba, a exportadora afirmou que \u201c\u00e9 uma investiga\u00e7\u00e3o e nenhuma das alega\u00e7\u00f5es foi provada\u201d.<\/p>\n<p>Sobre as autua\u00e7\u00f5es do Ibama e as a\u00e7\u00f5es de que a empresa \u00e9 alvo na Justi\u00e7a, a Tradelink disse que \u201cest\u00e1 exercendo o seu direito de defesa em todas as autua\u00e7\u00f5es que sofreu e algumas delas, inclusive, j\u00e1 foram anuladas pela Justi\u00e7a. Em quase a totalidade das autua\u00e7\u00f5es sofridas pela Tradelink, ela foi responsabilizada por fatos que n\u00e3o praticou e que nem poderia ter evitado\u201d. Sobre as alega\u00e7\u00f5es do MPF decorrentes da Opera\u00e7\u00e3o Ca\u00e7a-Fantasma, a empresa afirmou que \u201cse existiram empresas \u2018fantasmas\u2019, \u00e9 fato que quem as colocou no sistema como ativas, aptas a negociar madeira, conferindo-lhes e lhes autorizando um volume de madeira para a venda n\u00e3o foi a Tradelink, mas, sim, os \u00f3rg\u00e3os ambientais\u201d. J\u00e1 a respeito do inqu\u00e9rito civil no Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual do Par\u00e1, a empresa disse desconhecer o procedimento e confiar na atua\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O que diz a Aimex<\/strong><br \/>\nEm manifesta\u00e7\u00f5es recentes, a Aimex criticou as decis\u00f5es judiciais e o trabalho da PF no \u00e2mbito da Opera\u00e7\u00e3o Akuanduba. Em nota divulgada publicamente, a associa\u00e7\u00e3o afirmou que \u201cna defesa dos interesses de seus associados e do setor florestal de maneira firme, mas absolutamente honesta, leg\u00edtima e democr\u00e1tica\u201d. Disse tamb\u00e9m que os produtos florestais associados \u00e0 opera\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o podem, de forma alguma, ser rotulados como produtos ilegais ou contrabandeados\u201d.<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o afirma tamb\u00e9m que a cadeia de cust\u00f3dia das madeiras consta nos sistemas oficiais e que os \u00f3rg\u00e3os de investiga\u00e7\u00e3o podem conferir sua rastreabilidade. No in\u00edcio de outubro, a Aimex criticou a suspens\u00e3o do despacho do presidente Eduardo Bim, o que ocasionou, segundo ela, a paralisa\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de madeira. \u201cO setor florestal-madeireiro est\u00e1 enfrentando uma crise talvez sem precedentes. H\u00e1 mais de tr\u00eas meses que n\u00e3o consegue exportar os seus produtos, consequentemente n\u00e3o faturando\u201d, afirmou em v\u00eddeo o diretor t\u00e9cnico da entidade, Deryck Martins. Procurada pela P\u00fablica, a Aimex n\u00e3o se manifestou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Akuanduba \u00e9 uma divindade da mitologia dos ind\u00edgenas Arara, que habitam o estado do Par\u00e1. Segundo a lenda, se algu\u00e9m cometesse algum excesso, contrariando as normas, a divindade fazia soar uma pequena flauta, restabelecendo a ordem. 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