{"id":275118,"date":"2021-11-25T10:11:35","date_gmt":"2021-11-25T13:11:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=275118"},"modified":"2021-11-25T10:12:50","modified_gmt":"2021-11-25T13:12:50","slug":"burguesia-comeca-a-jogar-pedra-no-caminho-de-lula-ao-planalto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/burguesia-comeca-a-jogar-pedra-no-caminho-de-lula-ao-planalto\/","title":{"rendered":"Burguesia come\u00e7a a jogar pedra no caminho de Lula ao Planalto"},"content":{"rendered":"<p>Toda sociedade que se preza (como EUA, R\u00fassia, China e Cuba) tem sua pr\u00f3pria vis\u00e3o de mundo, de que decorre a proje\u00e7\u00e3o e defesa de seus interesses; s\u00e3o pa\u00edses detentores daquilo que alguns chamam de &#8220;car\u00e1ter nacional&#8221;, uma autoidentidade definidora do papel que a na\u00e7\u00e3o soberana decide desempenhar no jogo dos blocos econ\u00f4micos e militares. S\u00e3o pa\u00edses que possuem pauta pr\u00f3pria, atores hist\u00f3ricos assistidos por classes dominantes servidoras da sociedade e do projeto de pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 o caso brasileiro, como se v\u00ea.<\/p>\n<p>Nossas chamadas elites s\u00e3o for\u00e2neas e alienadas, descomprometidas com a constru\u00e7\u00e3o de um projeto de pa\u00eds, reprodutoras dos valores e dos interesses da pot\u00eancia hegem\u00f4nica. Falta-lhes tudo, mas falta-lhes principalmente o sentido de pertencimento a uma ordem comum. N\u00e3o se identificam com o pa\u00eds, muito menos com seu povo. Essa elite aculturada nos governa em todos os campos da atividade humana: nos neg\u00f3cios, na pol\u00edtica, nos partidos, num congresso desfibrado \u00e0 merc\u00ea do centr\u00e3o, num judici\u00e1rio paquid\u00e9rmico e classista, numa academia que n\u00e3o enxerga um palmo adiante do nariz, insens\u00edvel ao Brasil real que tenta sobreviver do lado de fora de seus muros.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o tem luz pr\u00f3pria \u00e9 levado a reproduzir os valores, a ideologia, os interesses das for\u00e7as hegem\u00f4nicas. Neste quadro, destaca-se o papel dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, no Brasil um decadente oligop\u00f3lio empresarial a servi\u00e7o do monop\u00f3lio ideol\u00f3gico, instrumento da domina\u00e7\u00e3o de classe. O mundo de sua percep\u00e7\u00e3o, aquele que traz para os lares brasileiros, \u00e9 o mundo das grandes redes de comunica\u00e7\u00e3o europeias e norte-americanas, que assim nos ditam simpatias e antagonismos, em fun\u00e7\u00e3o da geopol\u00edtica do com\u00e9rcio e da guerra. No frigir dos ovos \u00e9 o Departamento de Estado dos EUA que decide o que a imprensa brasileira deve pensar e transmitir sobre seus advers\u00e1rios e aliados. Mediante suas lentes \u00e9 que olhamos para a China, para a R\u00fassia, para a \u00c1sia e o Oriente, para palestinos e judeus, para nossos vizinhos.<\/p>\n<p>E, ainda, \u00e9 por esse filtro que nos vemos a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio dos grandes meios \u00e0 esta viagem de Lula \u00e0 Europa \u00e9 um esc\u00e1rnio a qualquer no\u00e7\u00e3o de dec\u00eancia e escancara seu partidarismo, e s\u00f3 foi quebrado, ao fim, gra\u00e7as \u00e0s janelas propiciadas pelas redes sociais.<\/p>\n<p>Os jornal\u00f5es, na comunh\u00e3o do autoritarismo com a partidariza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o gostaram do primeiro volume da biografia que Fernando Morais, escreveu sobre Lula. Reclamam sem parar. Simplesmente porque Morais n\u00e3o tratou, at\u00e9 aqui, dos processos de corrup\u00e7\u00e3o na Lava Jato. Na mesma edi\u00e7\u00e3o do <em>Estad\u00e3o<\/em>, do \u00faltimo dia 17, n\u00e3o se reserva uma s\u00f3 linha \u00e0 viagem de Lula \u00e0 Europa, com o colunista Marcelo Godoy, muito respeitado pelas suas sempre boas an\u00e1lises sobre o poder dos fardados, reclama porque o leitor do autor de Olga e Chat\u00f4, rei do Brasil n\u00e3o encontrar\u00e1, na biografia de Lula, a &#8220;an\u00e1lise das acusa\u00e7\u00f5es, das provas e dos processos que levaram \u00e0 condena\u00e7\u00e3o do ex-presidente&#8221;.<\/p>\n<p>A quais provas, por\u00e9m, e a quais processos se refere o colunista? \u00c0quelas provas e \u00e0queles processos anulados pelo STF? Ora, essas descreditadas acusa\u00e7\u00f5es tonitruadas nos tempos da Lava Jato (empreendimento que n\u00e3o teria o bom \u00eaxito que obteve n\u00e3o fosse o concurso da grande imprensa) est\u00e3o sendo repetidas, repisadas, cozinhadas e reavivadas todo santo dia pelo jornal em que Marcelo Godoy escreve. Por que haveria Fernando Morais de levar mais \u00e1gua para o moinho da candidatura do &#8220;juiz ladr\u00e3o&#8221; (na precisa qualifica\u00e7\u00e3o do deputado federal Glauber Braga), o \u00fanico juiz brasileiro que mereceu do STF a condena\u00e7\u00e3o de juiz parcial?<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, no texto de Marcelo, um par\u00e1grafo que pode sugerir reservas \u00e0 editora da biografia de Lula. \u00c9 quando Godoy admite que &#8220;haver\u00e1 questionamento \u00e0 Companhia das Letras sobre a op\u00e7\u00e3o de editar a obra que trata do petista feita por um escritor que declara simpatia pelo ex-presidente&#8221;. Este par\u00e1grafo soa estranho, insinuando um v\u00edcio \u00e9tico. Em princ\u00edpio sugere algo muito pr\u00f3ximo de censura \u00e0 Editora, e p\u00f5e em d\u00favida as credenciais de Fernando Morais. Godoy pretender\u00e1 dizer que, para ser isenta (se \u00e9 que uma biografia ou um texto jornal\u00edstico qualquer, ou mesmo uma pesquisa hist\u00f3rica, pode arguir isen\u00e7\u00e3o), a biografia de Lula deveria ser encomendada a Moro, Dallangnol ou Ciro Gomes? Ou, talvez a um extraterrestre. Por fim, no evidente intuito de depreciar a obra de Morais, o colunista termina por reduzi-la a mera vers\u00e3o &#8220;de um jornalista que tem lado&#8221;. Ora, Marcelo, todos temos lado, voc\u00ea tem lado, Fernando Morais tem lado, como este escrevinhador; a diferen\u00e7a \u00e9 que o nosso \u00e9 distinto do seu.<\/p>\n<p>Autocolonizada (a submiss\u00e3o \u00e9 uma escolha), a classe dominante brasileira \u00e9 bisonha e fr\u00edvola, rid\u00edcula em sua macaquice diante da pot\u00eancia econ\u00f4mica e seus valores, a fonte \u00fanica de seu modo de ser, que tenta copiar. Depois da &#8216;Est\u00e1tua da liberdade&#8217;, o rid\u00edculo atroz erguido como imagem votiva de um shopping center na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, para a adora\u00e7\u00e3o de &#8220;emergentes&#8221;, a Bolsa de Valores de S\u00e3o Paulo, templo e altar do capitalismo brasileiro em sua vers\u00e3o especulativa, instalou, na sua porta, uma r\u00e9plica do Touro de Ouro (Changing Bull) que orna Wall Street, em Nova York.<\/p>\n<p>O bovino, por sinal, mereceu foto na capa do Estad\u00e3o. Homenagem significativa. Nada mais denotativo da assimila\u00e7\u00e3o pelo colonizado do discurso do dominador. O que Frantz Fanon, em Os condenados da terra, chamava de fraqueza cong\u00eanita da consci\u00eancia nacional dos pa\u00edses subdesenvolvidos, a saber: o resultado da trai\u00e7\u00e3o de sua burguesia, desde a origem mais remota da forma\u00e7\u00e3o nacional associada aos interesses da metr\u00f3pole e guardi\u00e3 de seu dom\u00ednio sobre a col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Nada mais ilustrativo de um triste pa\u00eds que se deixaria dominar pelo bolsonarismo.<\/p>\n<p><strong>*Ex-ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda sociedade que se preza (como EUA, R\u00fassia, China e Cuba) tem sua pr\u00f3pria vis\u00e3o de mundo, de que decorre a proje\u00e7\u00e3o e defesa de seus interesses; s\u00e3o pa\u00edses detentores daquilo que alguns chamam de &#8220;car\u00e1ter nacional&#8221;, uma autoidentidade definidora do papel que a na\u00e7\u00e3o soberana decide desempenhar no jogo dos blocos econ\u00f4micos e militares. 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