{"id":275385,"date":"2021-11-29T06:59:46","date_gmt":"2021-11-29T09:59:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=275385"},"modified":"2021-11-29T06:59:46","modified_gmt":"2021-11-29T09:59:46","slug":"pantanal-morre-aos-poucos-e-pantaneiro-vai-junto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pantanal-morre-aos-poucos-e-pantaneiro-vai-junto\/","title":{"rendered":"Pantanal morre aos poucos, e pantaneiro vai junto"},"content":{"rendered":"<p>\u201cCapital do Pantanal e do agroneg\u00f3cio\u201d, sinaliza a placa de entrada da cidade. Buscando conciliar o que parece ser inconcili\u00e1vel, as boas-vindas \u00e0 capital do Mato Grosso (MT) ocultam o fato de que o agroneg\u00f3cio \u00e9 uma das atividades que amea\u00e7am o bioma. \u00c0 expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio, especialmente nas bordas do Pantanal, se soma a instala\u00e7\u00e3o de dezenas de hidrel\u00e9tricas, que v\u00eam alterando a bacia h\u00eddrica da regi\u00e3o e est\u00e3o associadas a danos ambientais e sociais. Comunidades tradicionais, cuja liga\u00e7\u00e3o com o meio ambiente \u00e9 fonte de identidade e de sobreviv\u00eancia, relatam a degrada\u00e7\u00e3o e um estrangulamento de seus territ\u00f3rios. Rios secos, terra seca, falta de chuva, fogo, inseguran\u00e7a alimentar, empobrecimento e direitos negligenciados formam o contexto de vida em que grande parte destas popula\u00e7\u00f5es se insere atualmente.<\/p>\n<p>A cerca de 200 km de Cuiab\u00e1 est\u00e1 a cidade de C\u00e1ceres, uma das oito sub-regi\u00f5es do Complexo do Pantanal e um dos locais mais emblem\u00e1ticos de um cen\u00e1rio de degrada\u00e7\u00e3o socioambiental. De Cuiab\u00e1 ao munic\u00edpio, cruzamos por uma regi\u00e3o de serra. A fuma\u00e7a do fogo aparece entre os morros. Estamos em um per\u00edodo de extrema seca no Pantanal. Apesar dos focos de inc\u00eandio terem reduzido cerca 40% em rela\u00e7\u00e3o a 2020, ano em que quase 30% do bioma foi queimado, de janeiro a setembro de 2021 o fogo devastou 778 mil hectares na regi\u00e3o, de acordo com o Corpo de Bombeiros do Mato Grosso do Sul (MS). A \u00e1rea equivale a mais de cinco vezes a \u00e1rea da cidade de S\u00e3o Paulo. Junto \u00e0 seca, a pior dos \u00faltimos 60 anos segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres (Cemaden), o fogo \u00e9 a parte mais vis\u00edvel de um cen\u00e1rio de devasta\u00e7\u00e3o abrangente.<\/p>\n<p><strong>\u201cOs homens grandes que acabaram com tudo\u201d<\/strong><br \/>\nEm C\u00e1ceres, assim como no Pantanal como um todo, h\u00e1 uma disputa desigual entre projetos de desenvolvimento. \u201cRepresar \u00e1gua n\u00e3o mata rio\u201d, disse o governador do Mato Grosso, Mauro Mendes, em entrevista \u00e0 imprensa local no in\u00edcio de outubro, ao defender a instala\u00e7\u00e3o de hidrel\u00e9tricas no estado. Comunidades ribeirinhas do Rio Jauru, no entanto, discordam. Afluente do Rio Paraguai, o Rio Jauru atravessa cinco cidades, incluindo C\u00e1ceres. Em seu curso, est\u00e3o cinco Pequenas Centrais Hidrel\u00e9tricas (PCH) e uma Usina Hidrel\u00e9trica (UHE), que come\u00e7aram a operar no in\u00edcio dos anos 2000. Uma sexta PCH, ainda, busca se instalar no rio. A opera\u00e7\u00e3o dos empreendimentos mudou a vida das comunidades, dentre elas a comunidade Porto Lim\u00e3o. L\u00e1, a deteriora\u00e7\u00e3o ambiental \u00e9 tanta que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter na pesca uma fonte de renda segura.<\/p>\n<p>\u201cA quantidade de peixe que pegava antes era uma m\u00e9dia de 70, 80 quilos por semana. Agora n\u00e3o conseguimos pegar nem dez\u201d, relata Constantino Pires, morador de Porto Lim\u00e3o e pescador profissional artesanal. \u00c0s margens do rio, apontando a secura e o assoreamento, processo de eleva\u00e7\u00e3o do leito e diminui\u00e7\u00e3o do fluxo de \u00e1gua relacionado ao desmatamento, ele conta que a instala\u00e7\u00e3o das hidrel\u00e9tricas transformou radicalmente a vida da comunidade. \u201cDesde 2007 para c\u00e1, \u00e9 sempre seca. Seca, seca mesmo. Eles seguram a \u00e1gua. Controlam a \u00e1gua para eles. E voc\u00ea v\u00ea, essas PCHs s\u00e3o para gerar energia, mas energia para n\u00f3s \u00e9 um absurdo de caro\u201d.<\/p>\n<p>Constantino, de semblante preocupado, tamb\u00e9m pontua que a opera\u00e7\u00e3o das hidrel\u00e9tricas acontece sem consulta \u00e0s comunidades. \u201cNunca vieram aqui para saber como est\u00e1\u201d, diz. O funcionamento dos empreendimentos est\u00e1 causando uma varia\u00e7\u00e3o brusca na vaz\u00e3o do rio, que ocorre sem um sistema de alarme ou de comunica\u00e7\u00e3o \u00e0s comunidades. Navegar nestas condi\u00e7\u00f5es \u00e9 perigoso e j\u00e1 causou acidentes, como no caso do pescador Jos\u00e9 Carlos de Matos, que chocou o barco com uma pedra e fraturou a coluna. \u00c9 comum tamb\u00e9m que as colis\u00f5es destruam barcos e motores, causando preju\u00edzos nos equipamentos de trabalho que nem sempre s\u00e3o f\u00e1ceis de sanar. Os riscos e a destrui\u00e7\u00e3o do Rio Jauru j\u00e1 est\u00e3o fazendo com que fam\u00edlias abandonem o local. \u201cAs fam\u00edlias diminu\u00edram muito, antes eram quase 60 fam\u00edlias, hoje s\u00e3o 45. \u00c9 muito dif\u00edcil para n\u00f3s\u201d, exp\u00f5e Constantino.<\/p>\n<p>Constantino Pires, pescador da comunidade Porto Lim\u00e3o, nunca viu o Rio Jauru t\u00e3o seco (Cr\u00e9dito Liana Coll)<br \/>\nO pescador tem o mesmo nome do pai: Constantino Pires. Sentado na varanda da casa, ao lado da esposa, Maria da Concei\u00e7\u00e3o Pires da Veiga, Constantino pai tem o olhar perdido em dire\u00e7\u00e3o ao Rio Jauru. Ele tamb\u00e9m era pescador. H\u00e1 sete anos foi a \u00faltima vez em que saiu para pescar. Na ocasi\u00e3o, ficou t\u00e3o decepcionado com a situa\u00e7\u00e3o do rio que decidiu nunca mais tentar. \u201cNasci e me criei junto com essa \u00e1gua a\u00ed. Mudou tudo. A pesca era uma beleza. Na piracema vinham os lambaris e os peixes grandes tudo atr\u00e1s\u201d, conta ele, sorrindo. O semblante logo muda para dizer o que aconteceu ap\u00f3s a instala\u00e7\u00e3o das hidrel\u00e9tricas. \u201cDepois que come\u00e7aram essa usina a\u00ed acabou o rio. Os homens grandes que acabaram com tudo\u201d. Maria da Concei\u00e7\u00e3o complementa dizendo que, agora, precisa comprar carne na cidade. \u201cT\u00e1 muito dif\u00edcil pra comer peixe\u201d.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de impactos de empreendimentos, no entanto, envolve ainda outras interven\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o. A comunidade do Porto Lim\u00e3o foi radicalmente dividida pela constru\u00e7\u00e3o da rodovia que liga C\u00e1ceres e San Mat\u00edas, na Bol\u00edvia. A obra deixou uma parte das fam\u00edlias espremida entre o asfalto e as fazendas. Sandra Deluque mora nesse local, e diz que a vida tem sido sofrida. \u201c\u00c9 fazer das tripas cora\u00e7\u00e3o, um ajuda daqui e outro dali. Se n\u00e3o, passa necessidade. A gente ainda pode ir no rio e pegar um peixinho. Mas e quando n\u00e3o pega? O que vai se oferecer pros filhos? O pessoal fala que o pescador est\u00e1 acabando com o rio, mas n\u00e3o s\u00e3o os pescadores. Essa usina que est\u00e1 acabando com o rio. S\u00e3o muitas, precisamos tomar uma provid\u00eancia, n\u00e3o vamos deixar o nosso rio acabar n\u00e3o. Os homens l\u00e1 de cima est\u00e3o acabando com o rio\u201d.<\/p>\n<p>O pescado, em toda a regi\u00e3o do Pantanal, \u00e9 fonte de seguran\u00e7a alimentar para milhares de pessoas e a principal fonte de prote\u00edna para popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas. Na regi\u00e3o da Bacia do Alto Paraguai (BAP), onde est\u00e1 a comunidade Porto Lim\u00e3o, a maior parte dos peixes capturados pela pesca profissional artesanal s\u00e3o de piracema, esp\u00e9cies cujo ciclo de reprodu\u00e7\u00e3o envolve um longo processo de migra\u00e7\u00e3o. O estudo sobre impactos das hidrel\u00e9tricas previstas para a BAP, encomendado pela Ag\u00eancia Nacional das \u00c1guas E Saneamento B\u00e1sico (ANA) e coordenado pela Funda\u00e7\u00e3o Eliseu Alves, aponta que os peixes migradores representam 94% da renda total dos pescadores profissionais artesanais da bacia.<\/p>\n<p>Agostinho Catella, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa) Pantanal, unidade localizada em Corumb\u00e1 (MS), coordenou o tema ictiofauna e pesca do estudo. Ele explica que as \u00e1reas de alimenta\u00e7\u00e3o e de crescimento dos peixes de piracema est\u00e3o nas plan\u00edcies e as \u00e1reas de reprodu\u00e7\u00e3o nas cabeceiras, na parte mais alta do Pantanal. \u201cS\u00e3o peixes que utilizam a bacia inteira. Eles precisam ter as suas rotas migrat\u00f3rias livres para que possam chegar \u00e0s cabeceiras. \u00c9 um ciclo que se faz utilizando a regi\u00e3o como um todo. Ent\u00e3o para que a gente continue a ter esses peixes e na abund\u00e2ncia que tem, \u00e9 fundamental que todo o ciclo seja resguardado\u201d.<\/p>\n<p>O estudo do qual Agostinho fez parte investigou os temas hidrologia, qualidade de \u00e1gua, ictiofauna e pesca, socioeconomia e produ\u00e7\u00e3o de energia em n\u00edvel da BAP, em sete sub-bacias. Tendo como preocupa\u00e7\u00e3o central os impactos dos 133 empreendimentos hidrel\u00e9tricos que tentam se instalar na bacia, a pesquisa identificou aqueles locais com maior potencial destrutivo para a implanta\u00e7\u00e3o das hidrel\u00e9tricas. Isto \u00e9, onde est\u00e3o as principais rotas dos peixes migradores em cada sub-bacia.<\/p>\n<p>Nas sub-bacias do alto rio Paraguai e do Cuiab\u00e1, por exemplo, foram identificados os locais das principais rotas de migra\u00e7\u00e3o reprodutiva, assim como locais menos importantes para a reprodu\u00e7\u00e3o de peixes. A instala\u00e7\u00e3o de empreendimentos em qualquer ponto estudado, no entanto, trar\u00e1 impacto sobre a conectividade das bacias em algum grau e, portanto, preju\u00edzos aos estoques pesqueiros. Conforme a pesquisa, \u201cas estimativas das \u00e1reas de desovas s\u00e3o em m\u00e9dia entre 150 e 200 km a jusante do ponto amostral, mas podem chegar a quase 400 km, variando entre sub-bacias e tamb\u00e9m entre as esp\u00e9cies, indicando a import\u00e2ncia de grandes trechos livres para a realiza\u00e7\u00e3o do ciclo reprodutivo das diferentes esp\u00e9cies\u201d.<\/p>\n<p>Mais de 80 pesquisadores conduziram o estudo, que envolveu 23 institui\u00e7\u00f5es, dentre elas a Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), a Universidade Estadual do Mato Grosso (Unemat), Universidade Estadual de Maring\u00e1 (UEM) e a Embrapa. Foi a maior e mais completa pesquisa sobre impactos de hidrel\u00e9tricas j\u00e1 realizada no Brasil. Os resultados, esperam os pesquisadores, podem embasar decis\u00f5es sobre licenciamentos, sendo uma oportunidade de impedir que situa\u00e7\u00f5es como a do Rio Jauru ocorram. Das 133 hidrel\u00e9tricas propostas, aponta o Agostinho, 30% est\u00e3o em \u00e1reas de conflito e impactariam os usos pr\u00e9-existentes da \u00e1gua, como a pesca. \u201cPara os construtores, interessa que todas sejam constru\u00eddas e mesmo essas. Mas n\u00f3s n\u00e3o temos d\u00favida: se essas forem constru\u00eddas, adeus pesca no Pantanal\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Os dados do estudo ajudaram, recentemente, no questionamento referente \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de seis hidrel\u00e9tricas no Rio Cuiab\u00e1, sub-bacia onde \u00e9 produzida o maior n\u00famero de ovas de peixes do Pantanal. A pedido do Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual do Mato Grosso (MPE-MT), a Vara Especializada de Meio Ambiente de Cuiab\u00e1 determinou a suspens\u00e3o do processo de an\u00e1lise e licenciamento ambiental e de emiss\u00e3o de outorgas para empreendimentos na bacia do Rio Cuiab\u00e1.<\/p>\n<p>Embora a pesquisa tenha analisado impactos futuros e ajude na tomada de decis\u00f5es, as consequ\u00eancias das hidrel\u00e9tricas instaladas j\u00e1 s\u00e3o uma realidade e trazem preju\u00edzos \u00e0 fonte de alimenta\u00e7\u00e3o e de renda de milhares de pessoas. Problema que \u00e9 ainda mais grave com o retorno do Brasil ao mapa da fome. Em 2021, s\u00e3o 85 milh\u00f5es de brasileiros (41% da popula\u00e7\u00e3o) vivendo algum grau de situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>No Porto Lim\u00e3o, a diminui\u00e7\u00e3o do pescado se une tamb\u00e9m \u00e0 dificuldade de cultivar alimentos, em decorr\u00eancia das inunda\u00e7\u00f5es ocasionadas pela opera\u00e7\u00e3o das hidrel\u00e9tricas. Por esse motivo, moradores tamb\u00e9m reconfiguraram suas casas, tornando-as mais altas para resistir aos alagamentos.<\/p>\n<p>Diante de todos os impactos e da forma como foram licenciados os empreendimentos hidrel\u00e9tricos no Jauru, o MPE-MT est\u00e1 movendo uma A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica (ACP) desde 2013. Na a\u00e7\u00e3o, o \u00f3rg\u00e3o identifica danos ambientais e questiona os processos de licenciamento, classificados como \u201cincorretos, incompletos e inadequados\u201d. Rafael Nunes, bi\u00f3logo e assessor especial do MPE-MT da Procuradoria de Justi\u00e7a Especializada em Defesa Ambiental e Ordem Urban\u00edstica, analisa que o papel do Poder Executivo n\u00e3o tem sido o de preserva\u00e7\u00e3o dos recursos h\u00eddricos.<\/p>\n<p>A rapidez com que s\u00e3o realizados alguns licenciamentos tamb\u00e9m \u00e9 questionada. Estrategicamente, aponta Rafael, n\u00e3o s\u00e3o considerados os impactos cumulativos das hidrel\u00e9tricas. \u201cComo caracter\u00edstica geral de todos os processos de licenciamento no estado, tem a quest\u00e3o de n\u00e3o considerar o impacto cumulativo, por mais que na ecologia esse conceito seja um consenso. A din\u00e2mica de impacto de um curso h\u00eddrico \u00e9 sin\u00e9rgica. \u00c0 medida em que se v\u00e3o se instalando empreendimentos, o impacto n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma soma, ele adquire uma caracter\u00edstica peculiar. No caso do Rio Jauru, adquiriu a caracter\u00edstica de ter varia\u00e7\u00f5es de vaz\u00f5es no mesmo dia que s\u00e3o absurdas. Se manifesta tamb\u00e9m com a eros\u00e3o das margens, atrav\u00e9s do fen\u00f4meno de rios famintos. Como se tem uma varia\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o muito grande no mesmo dia, as din\u00e2micas ecol\u00f3gicas do rio, sobretudo a reprodu\u00e7\u00e3o dos peixes e fixa\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o das margens, s\u00e3o prejudicadas ou interrompidas\u201d.<\/p>\n<p>O assessor tamb\u00e9m assinala que os processos de consulta \u00e0s comunidades impactadas, no Jauru, foram feitos de forma cartor\u00e1ria, apesar da Conven\u00e7\u00e3o 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio, exigir a consulta livre, pr\u00e9via e informada \u00e0s comunidades em rela\u00e7\u00e3o a empreendimentos que tenham impacto sobre elas.<\/p>\n<p>Uma das \u00faltimas movimenta\u00e7\u00f5es na ACP foi o pedido, acatado inicialmente, de que a Secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso (SEMA-MT) notificasse todas as operadoras das hidrel\u00e9tricas \u2013 Brennand Energia, CPFL, Brookfield e Queiroz Galv\u00e3o Energ\u00e9tica \u2013 para que fizessem novo estudo de impacto ambiental. O MPE-MT solicitava tamb\u00e9m que houvesse regula\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o para que o rio n\u00e3o sofresse tantas varia\u00e7\u00f5es no dia. As operadoras recorreram e ambos os pedidos foram negados liminarmente pelo juiz. \u201cEles conseguiram recorrer. At\u00e9 porque se eles fizerem um estudo, v\u00e3o mostrar que acabaram com o rio\u201d, aponta Rafael. A reportagem contatou as empresas para se manifestarem sobre o assunto. N\u00e3o houve retorno de nenhuma. A SEMA-MT tamb\u00e9m foi procurada e a secret\u00e1ria Adjunta de Licenciamento e Recursos H\u00eddricos, Lilian Ferreira dos Santos, chegou a agendar entrevistas, no entanto desmarcou em uma ocasi\u00e3o, n\u00e3o atendeu em outra e, ap\u00f3s, n\u00e3o retornou mais o contato.<\/p>\n<p><strong>\u201cPara eles, n\u00f3s nem existimos\u201d<\/strong><br \/>\nO caso do Rio Jauru \u00e9 emblem\u00e1tico no que diz respeito aos impactos sociais, econ\u00f4micos e ambientais de um projeto que n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o as comunidades tradicionais, tampouco a fauna e o bioma como um todo. Mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico. Tamb\u00e9m em C\u00e1ceres, pr\u00f3ximo ao Porto de Morrinhos, nas margens do Rio Paraguai, pescadores montam acampamentos durante os oito meses de libera\u00e7\u00e3o da pesca. O rio Paraguai \u00e9 um afluente do Rio Paran\u00e1, que desce at\u00e9 o Uruguai e se conecta a outros rios, integrando a Bacia do Prata e conectando-se, por fim, ao Oceano Atl\u00e2ntico. \u00c9 estrat\u00e9gico para o setor log\u00edstico, portanto, e para fortalecer o projeto de o MT no circuito n\u00e3o s\u00f3 de produ\u00e7\u00e3o, mas de escoamento de commodities.<\/p>\n<p>Nessa regi\u00e3o, h\u00e1 projetos de constru\u00e7\u00e3o de dois portos: o Porto do Barranco Vermelho, do Terminal Portu\u00e1rio Paratudal, e Porto Fluvial de Uso Misto de C\u00e1ceres. Ambos integram o projeto da Hidrovia Paraguai-Paran\u00e1 (HPP). A HPP foi proposta em 1987, com o fim de conectar bacias de cinco pa\u00edses: Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai e Bol\u00edvia. A proposi\u00e7\u00e3o diz respeito a uma hidrovia de uso industrial, que abrange um curso de 1,75 milh\u00e3o de quil\u00f4metros quadrados, com uma via de quase 3.500 quil\u00f4metros naveg\u00e1veis, e surgiu dentro da Iniciativa para Integra\u00e7\u00e3o da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). A IIRSA transformou-se depois em Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento (Coseplan), com um modelo baseado em integra\u00e7\u00e3o financeira, visando ampliar a explora\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio pelo agroneg\u00f3cio. A Coseplan criou oito rotas para a integra\u00e7\u00e3o, sendo o MT atravessado por quatro delas. A HPP \u00e9 criada, nesse sentido, para fazer escoamento de produ\u00e7\u00e3o desde C\u00e1ceres at\u00e9 Nova Palmira, no Uruguai.<\/p>\n<p>O ponto inicial da hidrovia, ao norte, est\u00e1 justamente pr\u00f3ximo aos acampamentos dos pescadores, em C\u00e1ceres. Pescadores da regi\u00e3o do Porto de Morrinhos, ouvidos no dia 11 de setembro, n\u00e3o entendem como seria poss\u00edvel a passagem de embarca\u00e7\u00f5es de grande porte para o transporte de gr\u00e3os se at\u00e9 embarca\u00e7\u00f5es pequenas enfrentam dificuldades de navega\u00e7\u00e3o devido \u00e0 secura do rio. \u201cEsse rio \u00e9 grande, largo, mas voc\u00ea pode passar s\u00f3 num lugarzinho. Se sair, cai no seco. Tem lugar que nem no canal t\u00e1 passando. E isso que o nosso motorzinho passa em qualquer lugar. Imagina os grandes\u201d, observa Gon\u00e7alo Pereira Leite, 53 anos, que conta ser desde sempre pescador, \u201cnascido e criado na beira do rio\u201d.<\/p>\n<p>Se \u00e9 que se pode dizer que h\u00e1 algo de bom na seca, reflete a pescadora Nilza da Silva, \u00e9 o alerta sobre as condi\u00e7\u00f5es de navega\u00e7\u00e3o do rio. \u201cFoi at\u00e9 bom ter tido essa seca nesse ano que \u00e9 pros governantes verem que o nosso rio Paraguai n\u00e3o comporta esses dois portos aqui na cidade. V\u00e3o fazer o que aqui? Se tivessem feito esses portos, como essas balsas estariam navegando? Teria assoreado mais ainda o rio\u201d.<\/p>\n<p>O licenciamento dos dois portos est\u00e1 suspenso devido \u00e0 a\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), movida contra o Ibama, a Sema e a Associa\u00e7\u00e3o Pr\u00f3-Hidrovia, constitu\u00edda de produtores de gr\u00e3os. A decis\u00e3o levou em conta o fato de que estavam sendo constru\u00eddos os portos sem o licenciamento da hidrovia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da preocupa\u00e7\u00e3o com os portos, os pescadores de Porto de Morrinhos, assim como os do Rio Jauru, enfrentam a seca e a redu\u00e7\u00e3o de peixes. Em todos os acampamentos em que paramos, os relatos coincidem na observa\u00e7\u00e3o sobre a gravidade destes dois fatores.<\/p>\n<p>Ruth Louren\u00e7a tem 53 anos e h\u00e1 18 anos \u00e9 registrada como pescadora profissional. Antes, foi empregada dom\u00e9stica na cidade, e encontrou na pesca uma forma de independ\u00eancia depois de sofrer adversidades no casamento. A pescadora \u00e9 a matriarca do acampamento, onde a acompanham filhos e netos, e diz que n\u00e3o gosta de ir para a cidade. S\u00f3 foi para tomar as duas doses da vacina contra a Covid-19 nos \u00faltimos meses. \u201cEu n\u00e3o gosto [da cidade] por causa do ar. Aqui \u00e9 outra coisa. Isso aqui \u00e9 a minha vida\u201d.<\/p>\n<p>A pescadora Ruth, que passou dificuldades quando o fogo chegou ao acampamento, em 2020, relata que os animais est\u00e3o desesperados de fome devido \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o ambiental (Cr\u00e9dito: Liana Coll)<br \/>\nMas a vida tem mudado na beira do rio. Neste local, em 2020, ela viveu um momento dif\u00edcil, quando o fogo avan\u00e7ou sobre a regi\u00e3o. Preocupada especialmente com um neto que tem problemas respirat\u00f3rios, colocou a crian\u00e7a em uma caixa d\u2019\u00e1gua, cobriu com um len\u00e7ol e assim o protegeu da fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as no meio ambiente a preocupam. Papagaios, araras, periquitos e abelhas s\u00e3o animais que Ruth diz n\u00e3o ver mais. \u201cAt\u00e9 eles t\u00eam impacto, n\u00e3o tem alimento para eles. Isso \u00e9 do\u00eddo porque at\u00e9 sab\u00e3o que voc\u00ea deixa a\u00ed em cima a saracura pega. Fa\u00e7o bastante comida pra poder jogar para eles. Eu n\u00e3o fa\u00e7o s\u00f3 para n\u00f3s, fa\u00e7o para os coitadinhos que n\u00e3o t\u00eam nada de comer. Aqui no Pantanal eu nunca tinha visto uma coisa dessa. Voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea peixe subindo, n\u00e3o v\u00ea cardume. Tem gente que n\u00e3o consegue fazer a carga, d\u00e1 mais preju\u00edzo que lucro. At\u00e9 o come\u00e7o do ano passado ainda teve um peixinho, mas depois desse inc\u00eandio acabou. A seca veio demais\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da seca, outra causa que possivelmente incidiu sobre a diminui\u00e7\u00e3o de peixes foi a decoada. A decoada \u00e9 um fen\u00f4meno natural, que ocorre no Pantanal no in\u00edcio do per\u00edodo de chuvas e as \u00e1guas chegam \u00e0s plan\u00edcies, onde encontram vegeta\u00e7\u00e3o e mat\u00e9ria org\u00e2nica e ocorrem processos de oxida\u00e7\u00e3o que diminuem o n\u00edvel de oxig\u00eanio dos rios e aumentam os n\u00edveis de carbono. Com a altera\u00e7\u00e3o da qualidade da \u00e1gua, muitos peixes agonizam e morrem. A presen\u00e7a das cinzas das queimadas potencializa ainda mais o processo.<\/p>\n<p>Assim como a decoada, o desequil\u00edbrio entre os per\u00edodos de seca e de cheias no Pantanal tamb\u00e9m pode estar sendo intensificado por a\u00e7\u00f5es humanas. Para Marina da Silva Lara, pescadora profissional, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que as hidrel\u00e9tricas, por exemplo, tiveram impacto. \u201cTem hidrel\u00e9trica no rio Jauru, que j\u00e1 secou, tem no Caba\u00e7al e no Sepotuba. S\u00e3o tr\u00eas rios que desaguam no Paraguai, ent\u00e3o secou tudo. Quando v\u00ea j\u00e1 t\u00e1 pronta a hidrel\u00e9trica, a gente nem fica sabendo, porque n\u00f3s somos peixe pequeno para esse povo. Eles que mandam, eles que fazem e resolvem tudo. Para eles, n\u00f3s nem existimos\u201d, diz.<\/p>\n<p>Sentado ao lado de Marina, est\u00e1 o seu companheiro, Ulisses da Cruz Nunes. Tamb\u00e9m pescador, ele \u00e9 conhecido como Jap\u00e3o, devido aos olhos puxados, que na verdade v\u00eam da sua origem guat\u00f3, etnia ind\u00edgena do Alto Paraguai, um dos povos mais antigos do Pantanal. Ulisses fala pouco e se restringe a comentar que nasceu e se criou na beira do rio, mas as coisas est\u00e3o mudando. \u201cSou pescador j\u00e1 h\u00e1 muito tempo, vivo da pesca. Antigamente tinha muito peixe, hoje em dia j\u00e1 acabou, mudou muito\u201d. Com 59 anos, Ulisses ter\u00e1 o tempo de aposentadoria aos 60, o que alivia o casal. \u201cD\u00e1 um al\u00edvio, porque isso aqui \u00e9 cansativo. Um dia n\u00f3s sa\u00edmos uma hora da tarde, voltamos \u00e0s 4h30 e conseguimos pegar dois pintados. No outro dia sa\u00edmos \u00e0s 19h, chegamos 15 pras 5h para pegar um pintado\u201d, relata Marina, levantando o dedo indicador e repetindo: \u201cUM pintado\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPesado demais\u201d, fala o casal quando faz as contas de quanto de gasolina gasta para chegar ao acampamento e deslocar-se at\u00e9 um local bom para a pesca. S\u00e3o cerca de 80 litros de combust\u00edvel, aproximadamente R$500, para o trajeto. \u201cO pessoal diz \u2018t\u00e1 nervoso vai pescar\u2019. Hoje se ficar nervoso \u00e9 melhor nem ir pescar porque vai ficar mais ainda. A gente rala, enfrenta o sol todo o dia, perde a noite e \u00e0s vezes \u00e9 pra pegar nada\u201d, diz Marina, que \u00e9 diab\u00e9tica e ultimamente tem enfrentado problemas de press\u00e3o alta. Por conta do tratamento precisou ficar 12 dias sem pescar. \u201cT\u00f4 com 58 anos mas t\u00f4 cansada. T\u00f4 muito cansada. A gente sempre foi bem pobre mesmo, minha m\u00e3e era lavadeira e com 8 anos de idade j\u00e1 fui trabalhar em casa de fam\u00edlia como bab\u00e1. S\u00e3o 50 anos trabalhando, t\u00f4 cansada\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cCapital do Pantanal e do agroneg\u00f3cio\u201d, sinaliza a placa de entrada da cidade. 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