{"id":275433,"date":"2021-11-29T13:19:13","date_gmt":"2021-11-29T16:19:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=275433"},"modified":"2021-11-29T13:20:59","modified_gmt":"2021-11-29T16:20:59","slug":"adorar-a-dois-senhores-no-brasil-pode-custar-votos-dos-dois-lados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/adorar-a-dois-senhores-no-brasil-pode-custar-votos-dos-dois-lados\/","title":{"rendered":"Adorar a dois senhores no Brasil pode custar votos dos dois lados"},"content":{"rendered":"<p>A exemplo da \u00e1gua e do azeite e dos rios Negro e Solim\u00f5es, pol\u00edtica, futebol e, \u00e0s vezes, religi\u00e3o, n\u00e3o se misturam. Quando isso ocorre, o resultado estrogon\u00f3fico \u00e9 assustador. Paix\u00f5es diferentes, definitivamente a bola rolando e o pol\u00edtico politicando n\u00e3o deveriam fazer parte do mesmo cercadinho. Uma coisa \u00e9 uma coisa, enquanto a outra verdadeiramente \u00e9 uma coisa. A rela\u00e7\u00e3o com o clube \u00e9 apaixonante, vem da alma, do cora\u00e7\u00e3o, do \u00fatero. Mais pr\u00f3xima do sadismo ou da necessidade, o elo com a\u00a0 pol\u00edtica \u00e9 decorrente da fantasia ideol\u00f3gica, do fanatismo e, via de regra, da decep\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 dos melhores temas para quem n\u00e3o \u00e9 mais do ramo, isto \u00e9, que h\u00e1 d\u00e9cadas &#8220;abandonou&#8221; o jornalismo esportivo.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es foram muitas, mas uma delas vai ao encontro do que pensa boa parte dos torcedores de hoje: o romantismo do futebol deu lugar ao mercenarismo. N\u00e3o h\u00e1 atualmente um \u00fanico jogador que vista a camisa de um clube com desejos incontidos de, na primeira oportunidade de engordar a conta banc\u00e1ria, beija o escudo do arquirrival. Tudo bem que isso fa\u00e7a parte do jogo, principalmente porque poucos s\u00e3o os clubes que ainda t\u00eam atletas para chamar de seus. A maioria est\u00e1 no bolso de empres\u00e1rios inescrupulosos, para os quais a agremia\u00e7\u00e3o e sua torcida s\u00e3o meros detalhes. Mas n\u00e3o \u00e9 esse o mote desta narrativa. Esse domingo foi de ressaca para cerca de 42 milh\u00f5es de brasileiros que torcem e morrem pelo Clube de Regatas do Flamengo.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi uma derrota comum, mas a derrota da soberba, da fal\u00e1cia e, porque n\u00e3o dizer, da jumentiza\u00e7\u00e3o de quem comanda. Reitero n\u00e3o ser de bom alvitre essa mistureba nitroglicer\u00ednica. Entretanto, sou um desses flamenguistas que reagem com sensatez nas vit\u00f3rias e nas derrotas e, por isso, n\u00e3o aceita o oportunismo barato e desprovido de coer\u00eancia. Faz tempo a abertura das portas da G\u00e1vea para um inoportuno inquilino \u00e9 lamentada por torcedores hist\u00f3ricos. Bolsonarista de carteirinha, o presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, pode e deve ter suas prefer\u00eancias pol\u00edticas. O que n\u00e3o lhe \u00e9 permitido \u00e9 flertar abusivamente com o poder, associando a imagem do Mais Querido a um presidente pouco querido e com nenhuma vincula\u00e7\u00e3o rubro-negra.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, por raz\u00f5es \u00f3bvias, ele (o presidente) est\u00e1 vinculado a todos as equipes campe\u00e3s, especialmente as mais populares. Ano passado, ele fez poses com a camisa do Palmeiras, logo ap\u00f3s a conquista do segundo t\u00edtulo da Libertadores. No s\u00e1bado (27), quando as chances de vit\u00f3ria do Flamengo eram enormes, dom Jair Messias vestiu, sem se ruborizar, o manto rubro-negro, cunhando nas redes sociais a frase &#8220;somos todos Flamengo&#8221;. Acusado de p\u00e9 frio, virou o Mick Jagger do Cerrado. Eu sou flamenguista, voc\u00ea n\u00e3o, cara p\u00e1lida. Renato Portaluppi tamb\u00e9m n\u00e3o. Gremista roxo e bolsominion convicto, ele um dia se utilizou das camisas vermelha e preta, preta e branca e vermelha, verde e branca para &#8220;ganhar&#8221; o Rio de Janeiro. Ou seja, nada tem de flamenguista, botafoguense ou tricolor.<\/p>\n<p>Na partida da simplicidade contra a vaidade e a soberba, Renato Ga\u00facho mais uma vez mostrou que ainda est\u00e1 muito distante do que seja um bom t\u00e9cnico. Quanto ao jogo, claro que o resultado n\u00e3o foi o dos meus sonhos mais primitivos. Venceu merecidamente o \u00edtalo-brasileiro Palmeiras, hoje dirigido por um portugu\u00eas que n\u00e3o perde a capacidade de se reinventar. Faz parte. Somos recordistas de t\u00edtulos nesses \u00faltimos dois anos. Quer\u00edamos mais. Todavia, perder em Montevid\u00e9u, est\u00e1dio de nossa primeira conquista internacional, acabou sendo divino. Foi uma daquelas derrotas que obrigam os protagonistas a pararem de levitar e a colocarem os dois p\u00e9s no ch\u00e3o. Deus \u00e9 onipotente e castiga os que falam demais e agem de menos.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 mistura, entendo que os principais riscos dessa esquizofr\u00eanica mesti\u00e7agem s\u00e3o a passionalidade e o rancor do torcedor. Melhor evitar a adora\u00e7\u00e3o p\u00fablica a dois senhores. Se a elei\u00e7\u00e3o fosse hoje, dificilmente o chefe do Executivo federal conseguiria se reeleger com votos de palmeirenses e flamenguistas. Afinal, mentir sobre uma e outra camisa \u00e9 um sacril\u00e9gio imperdo\u00e1vel. Se cuida, Latorraca. Esperteza de mais e sensibilidade de menos s\u00f3 atrapalham. De concreto, acho improv\u00e1vel que Bolsonaro, a partir do novo apelido de p\u00e9 frio entre os rubro-negros, consiga votos de meia d\u00fazia dos integrantes de qualquer na\u00e7\u00e3o futebol\u00edstica. Em tempo, apropriando-me da criatividade dos fornecedores do zap zap, lembro que a dor de perder a terceira Libertadores \u00e9 passageira, mas o orgulho de ser flamenguista \u00e9 eterno.<\/p>\n<p><strong>*Mathuzal\u00e9m J\u00fanior \u00e9 jornalista profissional desde 1978<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A exemplo da \u00e1gua e do azeite e dos rios Negro e Solim\u00f5es, pol\u00edtica, futebol e, \u00e0s vezes, religi\u00e3o, n\u00e3o se misturam. Quando isso ocorre, o resultado estrogon\u00f3fico \u00e9 assustador. Paix\u00f5es diferentes, definitivamente a bola rolando e o pol\u00edtico politicando n\u00e3o deveriam fazer parte do mesmo cercadinho. 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