{"id":275834,"date":"2021-12-05T07:49:00","date_gmt":"2021-12-05T10:49:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=275834"},"modified":"2021-12-05T08:55:08","modified_gmt":"2021-12-05T11:55:08","slug":"mulheres-e-adolescentes-viram-alvos-na-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mulheres-e-adolescentes-viram-alvos-na-internet\/","title":{"rendered":"Mulheres e adolescentes viram alvos na internet"},"content":{"rendered":"<p>A principal viol\u00eancia que mulheres e meninas sofrem em ambientes digitais \u00e9 o ass\u00e9dio nas intera\u00e7\u00f5es virtuais (38%) e, na sequ\u00eancia, as amea\u00e7as de vazamento de imagens \u00edntimas (24%). Os dados s\u00e3o da segunda etapa do estudo in\u00e9dito Al\u00e9m Do Cyberbulliny: A Viol\u00eancia Real Do Mundo Virtual, desenvolvido pelo Instituto Avon em conjunto com a Decode, empresa especializada em pesquisa digital.<\/p>\n<p>O resultado corresponde ao per\u00edodo entre julho de 2020 e fevereiro de 2021, quando estavam em vigor as medidas de isolamento social e de fechamento de espa\u00e7os. A outra etapa do estudo foi realizada antes da pandemia de covid-19, entre janeiro de 2019 e mar\u00e7o de 2020.<\/p>\n<p>Para investigar a viol\u00eancia de g\u00eanero na internet, o estudo analisou mais de 286 mil v\u00eddeos, 154 mil men\u00e7\u00f5es, coment\u00e1rios e rea\u00e7\u00f5es na forma de curtidas, compartilhamentos e repercuss\u00f5es que ocorreram em ambientes digitais, e mais de 164 mil postagens de not\u00edcias sobre o tema.<\/p>\n<p>Outra conclus\u00e3o da pesquisa relacionada ao per\u00edodo de pandemia \u00e9 que metade dos casos de ass\u00e9dio envolve recebimento de mensagens n\u00e3o consensuais com conte\u00fado de conota\u00e7\u00e3o sexual. Foi relatado ainda o envio de fotos \u00edntimas e coment\u00e1rios de \u00f3dio contra as mulheres. Ex-companheiros s\u00e3o ligados a 84% dos relatos de stalking, que s\u00e3o casos de persegui\u00e7\u00e3o praticada em meios digitais.<\/p>\n<p>\u201cBoa parte de vazamentos de nudes envolve ex-companheiros, ex-parceiros, pessoas que receberam materiais enviados de forma consentida, s\u00f3 que n\u00e3o era consentido que eles espalhassem a seu bel-prazer\u201d, disse a coordenadora de pesquisa e impacto do Instituto Avon, Beatriz Accioly.<\/p>\n<p>O levantamento identificou tr\u00eas formas de propaga\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia no ambiente digital. A descentralizada, que \u00e9 a viol\u00eancia cometida diariamente contra mulheres e meninas. A ordenada, que ocorre a partir de grupos organizados de ataques, humilha\u00e7\u00f5es e exposi\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m da que resulta do ato de compartilhar conte\u00fados \u00edntimos sem o consentimento ou a autoriza\u00e7\u00e3o dos envolvidos. Os pesquisadores observaram que as formas mais comuns de propaga\u00e7\u00e3o de viol\u00eancias contra meninas e mulheres na internet s\u00e3o o ass\u00e9dio, o vazamento de nudes, a persegui\u00e7\u00e3o\/stalking e o registro de imagens sem consentimento.<\/p>\n<p><strong>Medo<\/strong><br \/>\nConforme a pesquisa, o resultado emocional e psicol\u00f3gico das viola\u00e7\u00f5es virtuais tem consequ\u00eancias que ultrapassam as barreiras digitais. Elas restringem a liberdade e o acesso de mulheres e meninas. O medo de sair de casa foi apontado por 35% das v\u00edtimas, e mais de 30% relataram efeitos psicol\u00f3gicos s\u00e9rios, como adoecimento ps\u00edquico, isolamento social e pensamentos suicidas. O estudo mostrou ainda que 21% delas exclu\u00edram suas contas das redes sociais.<\/p>\n<p>O medo passou a fazer parte da vida de uma estudante de 19 anos, que prefere n\u00e3o ter o nome e nem o local onde mora identificados. No in\u00edcio de 2020, come\u00e7ou a receber mensagens de um perfil fake de homem. Pelo tipo de mensagem, ela j\u00e1 sabe que \u00e9 de um ex-colega de escola. A persegui\u00e7\u00e3o ou stalking ficou t\u00e3o forte que a estudante deixou de sair de casa, reduziu o n\u00famero de contatos nas redes sociais e come\u00e7ou a ter a preocupa\u00e7\u00e3o de que algo pudesse ocorrer, tanto com ela, quanto com algu\u00e9m da fam\u00edlia. Com a pandemia, ela, que estudava fora, teve que voltar para a sua cidade, onde tamb\u00e9m mora o perseguidor.<\/p>\n<p>\u201cA\u00ed tudo piorou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ansiedade. Eu parei de sair, n\u00e3o s\u00f3 por causa da pandemia. N\u00e3o ia nem buscar o p\u00e3o na padaria, que \u00e9 perto de casa. Parei de sair, fechei as redes sociais, me fechei na quest\u00e3o psicol\u00f3gica emocional n\u00e3o s\u00f3 f\u00edsica, de sair da rua. No fim do ano passado, essa pessoa tentou se aproximar de novo pelo perfil fake e a\u00ed mais crise de ansiedade. Neste ano, essa pessoa, com o perfil pessoal mesmo, tentou chegar perto dos meus amigos, dizendo &#8216;preciso falar muito com ela. Gosto muito dela. Preciso saber como ela est\u00e1&#8217;. Fiquei muito apavorada\u201d, contou \u00e0 Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p>O abalo emocional levou a estudante a fazer tratamento com uma psic\u00f3loga. \u201cHoje estou melhor at\u00e9 para falar sobre isso, mas foi uma fase bem pesada. Colho os frutos disso at\u00e9 hoje, porque n\u00e3o me sinto \u00e0 vontade para postar coisas, penso trezentas vezes antes de postar algo refletindo sobre o caso de algu\u00e9m printar e mandar para tal pessoa. Emocionalmente, sinto que ainda estou muito presa a isso\u201d.<\/p>\n<p><strong>Suic\u00eddio<\/strong><br \/>\nNa primeira fase da pesquisa, correspondente ao per\u00edodo entre janeiro de 2019 e mar\u00e7o de 2020, mais de 10% dos casos analisados se referem a relatos de meninas e mulheres, que depois de passarem por situa\u00e7\u00f5es de vazamentos sem consentimento, tiveram algum tipo de pensamento suicida. \u201cUma em cada dez mulheres que passam por algum tipo, por exemplo, de vazamento de nudes, chega a pensar em tirar a pr\u00f3pria vida. Esse \u00e9 um dado muito grave\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, quase 15% se sentiram culpadas e cerca de 36% demonstraram sentimento de desespero para saber como tirar o conte\u00fado do ar ou quais medidas judiciais seriam cab\u00edveis e r\u00e1pidas.<\/p>\n<p>\u201cA gente conseguiu trazer, com essa pesquisa, os impactos reais dessas viol\u00eancias. Eles s\u00e3o muito graves e v\u00e3o desde desenvolver medo de sair de casa, sair das redes sociais, ou seja, t\u00eam grande impacto sobre a liberdade de express\u00e3o e as formas de intera\u00e7\u00e3o. A gente usa a internet para procurar emprego, para trabalhar, para uma s\u00e9rie de coisas, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para entretenimento e divertimento\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAs emo\u00e7\u00f5es que est\u00e3o em jogo, com desenvolvimento de ansiedade, estresse cr\u00f4nico, medo, ang\u00fastia t\u00eam impacto forte nas rela\u00e7\u00f5es dessas mulheres com as suas fam\u00edlias e sua rede de apoio. Para mim, a grande mensagem da pesquisa \u00e9 que o impacto do online n\u00e3o \u00e9 menos real do que a gente acha que \u00e9 a intera\u00e7\u00e3o real. O virtual tamb\u00e9m \u00e9 real\u201d.<\/p>\n<p><strong>Pornografia<\/strong><br \/>\nTamb\u00e9m durante a pandemia, o acesso aos tr\u00eas principais sites de pornografia registrou crescimento de 35%, o que significa maior frequ\u00eancia da procura dos usu\u00e1rios por esse tipo de conte\u00fado. As visualiza\u00e7\u00f5es de v\u00eddeos com teor ou alus\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia e ao ass\u00e9dio contra meninas e mulheres aumentaram 55% no per\u00edodo.<\/p>\n<p>Segundo Beatriz, a pesquisa mostrou ainda que v\u00eddeos de meninas e mulheres sendo violentadas, enquanto est\u00e3o inconscientes por estarem dormindo, medicadas, alcoolizadas ou sob efeito de drogas, t\u00eam volume expressivo de visualiza\u00e7\u00f5es. Entre janeiro de 2019 e mar\u00e7o de 2020 foram cerca de 25.9 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>A coordenadora disse que o acesso \u00e0s plataformas e o consumo de pornografia n\u00e3o s\u00e3o crimes, mas a quest\u00e3o \u00e9 que nesses locais h\u00e1 uma quantidade significativa de conte\u00fado que indicam serem v\u00eddeos com atos de viol\u00eancia. \u201cO problema n\u00e3o \u00e9 a pornografia em si, mas os perigos ocultos dessa pornografia amadora que vai parar nessas plataformas\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m na an\u00e1lise feita no per\u00edodo da pandemia, foi observada alta de 44% nos relatos de ass\u00e9dios de professores, tutores e educadores, que passaram a ter mais contato com as v\u00edtimas, por meio de aulas remotas. Conforme os dados, houve uma m\u00e9dia de 36 relatos mensais sobre viol\u00eancias de professores contra alunas no digital.<\/p>\n<p><strong>Subnotifica\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nDe acordo com Beatriz Accioly, a maior parte dos casos n\u00e3o chega ao conhecimento de alguma autoridade ou de algum servi\u00e7o p\u00fablico, seja de sa\u00fade ou socioassistencial. \u201cA gente, no Brasil, carece de estat\u00edsticas oficiais para mapear o tamanho desse fen\u00f4meno e saber justamente a propor\u00e7\u00e3o da subnotifica\u00e7\u00e3o, mas percebe, na pesquisa, que h\u00e1 ainda mais desinforma\u00e7\u00e3o sobre o que fazer, como buscar ajuda e aonde ir, onde \u00e9 poss\u00edvel buscar informa\u00e7\u00e3o quando a viola\u00e7\u00e3o acontece em meios digitais.<\/p>\n<p><strong>Legisla\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nBeatriz destacou, no entanto, que do ponto de vista jur\u00eddico j\u00e1 existem leis que permitem criminalizar a viol\u00eancia no meio virtual e todas valem tanto no off-line quanto no online. Al\u00e9m disso, h\u00e1 legisla\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para a internet, como a criminaliza\u00e7\u00e3o da divulga\u00e7\u00e3o n\u00e3o autorizada de imagens sexuais e uso de nudez, a criminaliza\u00e7\u00e3o da grava\u00e7\u00e3o sem autoriza\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o dois aspectos diferentes. A coordenadora acrescentou que existe a nova tipifica\u00e7\u00e3o penal para os casos de persegui\u00e7\u00e3o ou stalking, que podem ser caracterizados em qualquer meio f\u00edsico ou digital.<\/p>\n<p>\u201cTem o marco civil da internet, tem outras leis espec\u00edficas como a Lei Carolina Dieckmann, que diz respeito \u00e0 invas\u00e3o de dispositivos ou mesmo a Lei Lola, de investiga\u00e7\u00e3o de crimes que indiquem a desqualifica\u00e7\u00e3o de mulheres e discursos de \u00f3dio. Mas, para ganhar vida, a lei precisa ser manuseada por profissionais de diferentes \u00e1reas do sistema de Justi\u00e7a, de seguran\u00e7a p\u00fablica. \u00c9 preciso que haja a mudan\u00e7a de mentalidade na sociedade e tamb\u00e9m dos profissionais de que o que ocorre em meios digitais n\u00e3o \u00e9 menos grave do que acontece em ambientes f\u00edsicos\u201d, completou.<\/p>\n<p><strong>Desafio<\/strong><br \/>\nNa vis\u00e3o da coordenadora, o mais interessante na pesquisa foi o desafio de identificar os impactos reais do que ocorre na vida das meninas e mulheres que passam por viol\u00eancia nos espa\u00e7os digitais \u201cAinda h\u00e1 uma percep\u00e7\u00e3o de que o que acontece na internet \u00e9 menos grave do que face a face. &#8216;Foi s\u00f3 uma humilha\u00e7\u00e3o na internet, foi s\u00f3 um cancelamento, foi s\u00f3 uma exposi\u00e7\u00e3o &#8216;&#8221;, disse Beatriz, reproduzindo coment\u00e1rios que costumam ser feitos e minimizam os efeitos.<\/p>\n<p>Estimativas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) indicam que 95% de todas as a\u00e7\u00f5es agressivas e difamadoras na internet t\u00eam as mulheres como alvos. O Instituto Avon espera que a partir do levantamento \u201cmulheres reconhe\u00e7am, identifiquem e saibam como agir para combater a viol\u00eancia nas redes, propiciando o debate e as den\u00fancias de abusos e viol\u00eancia digital\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A principal viol\u00eancia que mulheres e meninas sofrem em ambientes digitais \u00e9 o ass\u00e9dio nas intera\u00e7\u00f5es virtuais (38%) e, na sequ\u00eancia, as amea\u00e7as de vazamento de imagens \u00edntimas (24%). 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