{"id":275922,"date":"2021-12-07T01:13:12","date_gmt":"2021-12-07T04:13:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=275922"},"modified":"2021-12-07T08:22:15","modified_gmt":"2021-12-07T11:22:15","slug":"circulo-vicioso-envolve-policial-que-mata-e-policial-morto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/circulo-vicioso-envolve-policial-que-mata-e-policial-morto\/","title":{"rendered":"C\u00edrculo vicioso envolve policial que mata e policial morto"},"content":{"rendered":"<p>O \u00faltimo dia 20, o Rio de Janeiro amanheceu com mais uma opera\u00e7\u00e3o sangrenta da Pol\u00edcia Militar. Ap\u00f3s uma incurs\u00e3o do Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais (Bope) da PM fluminense, ao menos nove pessoas foram mortas no Complexo do Salgueiro, em S\u00e3o Gon\u00e7alo (RJ) em uma a\u00e7\u00e3o que durou por volta de 35 horas e onde foram disparados, segundo noticiou o programa Fant\u00e1stico, da TV Globo, 1500 tiros.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o teve in\u00edcio duas horas depois da morte do sargento da PM Leonardo Rumbelsperger da Silva, de 40 anos, que foi morto enquanto fazia um patrulhamento de rotina na regi\u00e3o. Moradores do Salgueiro encontraram os corpos em um manguezal pr\u00f3ximo ao local e, segundo relatos, os corpos traziam marcas de tortura.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio soma-se a uma longa lista de opera\u00e7\u00f5es policiais que ocorrem no Rio de Janeiro logo ap\u00f3s a morte de policiais em servi\u00e7o e que, frequentemente, s\u00e3o muito letais. Alguns exemplos s\u00e3o as mortes ocorridas no Jacarezinho, em maio deste ano, a segunda maior chacina da hist\u00f3ria do Rio segundo a ONG Fogo Cruzado, quando 25 pessoas foram mortas ap\u00f3s uma opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Civil do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Durante uma incurs\u00e3o para cumprimento de dilig\u00eancias policiais, o policial civil Andr\u00e9 Frias foi morto e na sequ\u00eancia 24 pessoas foram mortas. Outro epis\u00f3dio not\u00e1vel ocorreu em junho de 2013, quando as manifesta\u00e7\u00f5es de rua tomaram o pa\u00eds e o Rio de Janeiro, e a Pol\u00edcia Militar realizou uma opera\u00e7\u00e3o no Complexo da Mar\u00e9 em resposta \u00e0 morte de um sargento do Bope. Dez pessoas morreram na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2007, o Rio testemunhou a chamada \u201cChacina do Pan\u201d, quando 19 pessoas foram mortas no Complexo do Alem\u00e3o ap\u00f3s uma opera\u00e7\u00e3o que mobilizou 1200 policiais em decorr\u00eancia da morte de dois policiais dias antes do in\u00edcio dos Jogos Pan-Americanos. Nos anos 1990, 21 pessoas foram mortas na Chacina de Vig\u00e1rio Geral em resposta \u00e0 morte de quatro policiais.<\/p>\n<p>Terine Husek Coelho, pesquisadora do Instituto Igarap\u00e9, mestre e doutoranda em Ci\u00eancias Sociais pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) apontou em sua pesquisa de doutorado a correla\u00e7\u00e3o clara entre a vitimiza\u00e7\u00e3o de policiais em servi\u00e7o e o aumento da letalidade policial na mesma regi\u00e3o ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es policiais. Dados de sua pesquisa mostram que quando um policial morre em servi\u00e7o, a chance de um civil ser morto no mesmo dia aumenta em 1150%. No dia seguinte, aumenta em 350%.<\/p>\n<p>Na semana seguinte, em 125%. S\u00e3o os efeitos das chamadas \u201copera\u00e7\u00f5es-vingan\u00e7a\u201d, termo com que foram batizadas essas opera\u00e7\u00f5es feitas para supostamente dar uma resposta \u00e0s mortes de policiais em servi\u00e7o. Terine, por\u00e9m, rejeita o termo. \u201cEu at\u00e9 uso muito pouco esse termo. Porque d\u00e1 a impress\u00e3o de que quando voc\u00ea fala esse termo parece que s\u00e3o policiais que est\u00e3o se vingando ali por conta pr\u00f3pria, mas eu tento jogar a responsabilidade para cima\u201d, diz, em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia P\u00fablica.<\/p>\n<p>Para ela, o comando das institui\u00e7\u00f5es policiais tamb\u00e9m endossa esse tipo de opera\u00e7\u00e3o de resposta que, segundo ela, \u00e9 in\u00f3cua. \u201cEsse efeito fica se alimentando. A vitimiza\u00e7\u00e3o policial \u00e9 um jeito da pol\u00edcia matar mais, mas tamb\u00e9m morrer\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A seguir, os principais trechos da entrevista.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea aponta em sua pesquisa uma correla\u00e7\u00e3o clara entre a vitimiza\u00e7\u00e3o e a letalidade policial. O que explica a exist\u00eancia das chamadas \u201copera\u00e7\u00f5es vingan\u00e7a\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>Eu tinha trabalhado na Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica aqui do Rio de Janeiro por um tempo antes de entrar para o mestrado e eu j\u00e1 vinha de S\u00e3o Paulo um pouco com essa ideia. Em S\u00e3o Paulo, conversei com um coronel que me disse assim: \u201cQuando um policial morre, eu perco um pouco o controle da minha tropa\u201d. Isso me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Eu falei: \u2018bom, tem um fen\u00f4meno a\u00ed que quando um policial morre, os policiais tendem a matar mais\u201d. Ent\u00e3o a gente foi fazendo uma an\u00e1lise de s\u00e9rie temporal e ficou observando o comportamento da letalidade policial em diversas \u00e1reas e a gente coloca um fen\u00f4meno diferente [no estudo], que \u00e9 a vitimiza\u00e7\u00e3o policial. Ou seja, quer\u00edamos saber: quando um policial morre, a letalidade altera de alguma forma? O que acontece \u00e9: quando a gente olha pro estado inteiro, ela n\u00e3o muda. Ou seja, quando ocorre a morte de um policial, isso n\u00e3o vai fazer com que todos os policiais matem mais. Se essa morte for na folga, s\u00f3 vai ter efeito na letalidade policial se for um policial de muito vulto, um capit\u00e3o, algum policial que tenha algum apelo. Geralmente, essas mortes na folga s\u00e3o roubos seguidos de morte, ou quando o policial est\u00e1 num bico. Em geral, apesar dos policiais morrerem mais na folga, isso n\u00e3o tem efeito na letalidade. Mas esse policial que morre em servi\u00e7o, fardado, isso geralmente impacta. O dado me diz isso. Ent\u00e3o, a partir da leitura dos dados, eu fui atr\u00e1s dos policiais. Queria entender tanto o que acontece para o pr\u00f3prio policial, quanto o que acontece na unidade. Entrevistei tanto policiais que estavam em uma ocorr\u00eancia e viram um colega ser morto como conversei com os comandantes dessas unidades.<\/p>\n<p><strong>O que surge dessas conversas com os policiais?<\/strong><\/p>\n<p>A disserta\u00e7\u00e3o tem o nome de \u201cMedindo For\u00e7as\u201d, e eles v\u00e3o me contar em geral que se acontecer uma morte na \u00e1rea deles, eles t\u00eam que mostrar que s\u00e3o fortes, que a pol\u00edcia est\u00e1 no comando e que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de reagir a essa morte. Eles se posicionam dessa maneira. \u00c9 um pouco dessa resposta institucional. Eles falam assim: \u201cSe eu n\u00e3o der uma resposta, a minha tropa vai achar que eu n\u00e3o respondo. E elas esperam que eu fa\u00e7a alguma coisa. Os familiares tamb\u00e9m esperam que eu fa\u00e7a alguma coisa\u201d. E esse fazer alguma coisa geralmente se traduz, aqui no Rio de Janeiro, especificamente, com mais for\u00e7a, numa opera\u00e7\u00e3o policial. E numa megaopera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o com dois homens, \u00e9 uma megaopera\u00e7\u00e3o para mostrar que a pol\u00edcia tem condi\u00e7\u00f5es de reagir e que n\u00e3o vai se atirar na pol\u00edcia em v\u00e3o.<\/p>\n<p>O que acontece com um policial quando ele perde um colega? Aquilo ataca, tem uma dor, voc\u00ea t\u00e1 perdendo um colega de trabalho do seu lado. Ou seja, quando ele morre, gera uma revolta na tropa. Somos todos humanos e, humanizando um pouco o policial, isso vai acontecer.<\/p>\n<p>Se eu n\u00e3o tenho uma estrat\u00e9gia para controlar a tropa, que resposta eu dou para essa tropa? Ela precisa de uma megaopera\u00e7\u00e3o? Voc\u00ea tem que acalmar a tropa de alguma forma e eles colocam eles com todo um arsenal ali e fazem essas megaopera\u00e7\u00f5es com uma tropa muito descontrolada. O efeito disso s\u00e3o a\u00e7\u00f5es muito letais como a que a gente teve na Mar\u00e9, em 2013, quando um sargento do Bope morreu no per\u00edodo das manifesta\u00e7\u00f5es, ou a que a gente teve na Chacina do Pan, em 2007.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 natural a rea\u00e7\u00e3o emocional dos policiais que perderam colegas. Mas o comando da corpora\u00e7\u00e3o parece entrar nessa mesma postura de dar o aval a essas megaopera\u00e7\u00f5es de resposta nesse momento. Qual deveria ser a postura do comando nessa situa\u00e7\u00e3o? E como voc\u00ea v\u00ea essa quest\u00e3o do envolvimento do comando?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 bem essa a quest\u00e3o que eu tentei colocar na minha disserta\u00e7\u00e3o. At\u00e9 uso muito pouco esse termo \u201copera\u00e7\u00e3o vingan\u00e7a\u201d. Eu tento tirar um pouco isso. Porque d\u00e1 a impress\u00e3o de que quando voc\u00ea fala esse termo parece que s\u00e3o policiais que est\u00e3o se vingando ali por conta pr\u00f3pria, mas eu tento jogar a responsabilidade para cima. Voc\u00ea enquanto a cabe\u00e7a pensante, voc\u00ea sabe o que vai acontecer e voc\u00ea tem que tentar controlar a situa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea sabe que o policial vai ficar revoltado. E o importante \u00e9 saber que estrat\u00e9gia voc\u00ea tem para que essa revolta n\u00e3o se transforme em mais mortes. E que n\u00e3o seja multiplica\u00e7\u00e3o de dor. Porque isso n\u00e3o tem efeito. Isso tem efeito simb\u00f3lico no policial de dizer que deu uma resposta. Mas essa n\u00e3o deveria ser a postura da pol\u00edcia. A gente tem uma lei, a gente tem uma legisla\u00e7\u00e3o a seguir, a gente tem caminhos que podem ser muito mais efetivos para a prote\u00e7\u00e3o policial do que a gente dar uma resposta desse tipo. Em uma das falas em uma UPP que eu fui fazer entrevista, a situa\u00e7\u00e3o foi contr\u00e1ria. O Bope foi e matou um dos meninos dentro da comunidade e a\u00ed o tr\u00e1fico foi na UPP matar um policial na frente. E era perto do carnaval e o comando falou: \u201cEu n\u00e3o posso fazer uma opera\u00e7\u00e3o agora porque vai matar muita gente, tem muita gente na rua\u201d. Segurou a tropa ali, mas ele precisou dar uma resposta \u00e0queles policiais que estavam muito revoltados. Ent\u00e3o tem umas puxadas de comando que acontecem muito pontualmente.<\/p>\n<p><strong>E o caso no Salgueiro?<\/strong><\/p>\n<p>No Salgueiro fica muito claro isso, o policial morreu \u00e0s seis e meia da manh\u00e3 se n\u00e3o me engano. A opera\u00e7\u00e3o come\u00e7a \u00e0s oito horas da manh\u00e3. N\u00e3o houve tempo suficiente para saber se, de fato, a pessoa que matou o policial estava dentro da comunidade. N\u00e3o tem informa\u00e7\u00e3o suficiente. Eles entram com base em pouqu\u00edssimas informa\u00e7\u00f5es, e levantar essas informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 papel da Pol\u00edcia Militar, \u00e9 responsabilidade da Pol\u00edcia Civil. Ele entra na comunidade para fazer essa comunidade pagar a conta da morte desse policial. A gente n\u00e3o sabe se essas pessoas que morreram t\u00eam a ver ou n\u00e3o com essa morte e a pr\u00f3pria pol\u00edcia em geral n\u00e3o sabe. Na minha pesquisa, eu perguntei para os policiais: \u201cmas voc\u00eas sabem quem matou? Tem investiga\u00e7\u00e3o a respeito?\u201d A resposta geralmente \u00e9 n\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o tem um programa efetivo de preven\u00e7\u00e3o da morte de outros policiais. Voc\u00ea n\u00e3o tem investiga\u00e7\u00f5es s\u00e9rias e pessoas que s\u00e3o individualmente responsabilizadas por essas mortes.<\/p>\n<p>A gente tem uma megaopera\u00e7\u00e3o que d\u00e1 ali visibilidade, um dia ou uma semana depois, que d\u00e1 essa resposta e depois nada mais acontece. Volta-se \u00e0 vida normal e espera-se a pr\u00f3xima morte para voltar ao ciclo. E isso vai se alimentando. Algu\u00e9m mata um policial, a pol\u00edcia mata mais. O comando deveria ser a pessoa respons\u00e1vel por esse caso e dizer: \u201cbom, se um policial morre, onde eu coloco a minha energia?\u201d. N\u00e3o \u00e9 colocando os policiais numa megaopera\u00e7\u00e3o que vai dar certo. Isso vai gerar mortes, mas nada al\u00e9m disso. A gente vai ter esses casos se repetindo v\u00e1rias vezes. Isso \u00e9 efetivo? Quando eu pergunto [aos comandantes] como eles fazem para prevenir que outras mortes de policiais aconte\u00e7am, eles me respondem: \u201cEu fa\u00e7o uma megaopera\u00e7\u00e3o\u201d. Como se isso fosse prevenir outras mortes, mas n\u00e3o previne. Se n\u00e3o, a gente n\u00e3o teria outras hist\u00f3rias para contar. E \u00e9 sabido que isso acontece. As pessoas sabem que quando morre um policial vai ter uma opera\u00e7\u00e3o com muitas mortes na sequ\u00eancia. Isso n\u00e3o previne que um policial seja morto dias depois, meses depois.<\/p>\n<p><strong>Por onde deveria passar esse protocolo de atua\u00e7\u00e3o em caso de mortes de policiais? Como deveria funcionar isso?<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro ponto seria entender a real efetividade de uma megaopera\u00e7\u00e3o nesses casos. \u00c9 importante ter o acompanhamento das mortes dos policiais. Entender o que aconteceu n\u00e3o em uma morte s\u00f3, mas em muitas. Onde o policial morreu, por que morreu, como aconteceu, em que tipo de opera\u00e7\u00e3o. A informa\u00e7\u00e3o sobre a vitimiza\u00e7\u00e3o de policiais \u00e9 muito baixa. Voc\u00ea tem pouqu\u00edssimas informa\u00e7\u00f5es sobre essas mortes de policiais.<\/p>\n<p>A partir do momento em que morre um policial, voc\u00ea tem que ter uma interven\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea tem que ter psic\u00f3logos entrando no local e n\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o tenha, porque a Pol\u00edcia Militar do Rio \u00e9 a que mais tem psic\u00f3logos entre os seus quadros e eles tem um projeto efetivo de ir atr\u00e1s de familiares. Existe um programa que d\u00e1 suporte pra isso. Mas \u00e9 preciso entender que quando voc\u00ea tem uma ocorr\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 aqueles policiais mais pr\u00f3ximos que v\u00e3o ser afetados por isso. Mas \u00e9 preciso entender que colocar eles armados na sequ\u00eancia em uma megaopera\u00e7\u00e3o \u00e9 um desastre. Conversei com um policial que esteve em mais de uma ocorr\u00eancia que teve letalidade. E ele me disse que ficou muitos e muitos meses revoltado, que n\u00e3o teve atendimento psicol\u00f3gico. Primeiro colocaram ele para trabalhar na mesma \u00e1rea. Ele se descontrolou. A\u00ed deram f\u00e9rias compuls\u00f3rias a ele. Mas ele me falou: \u201cuma hora eu vou voltar pra rua e vou fazer algu\u00e9m pagar essa conta\u201d. Isso n\u00e3o \u00e9 uma coisa que v\u00e1 ser resolvida hoje, \u00e9 um acompanhamento que ser\u00e1 necess\u00e1rio durante muito, muito tempo. Esse \u00e9 um problema da pol\u00edtica de seguran\u00e7a como um todo, que \u00e9 uma pol\u00edtica de confronto. Esses policiais que participaram dessa megaopera\u00e7\u00e3o agora [do Salgueiro], essa megaopera\u00e7\u00e3o que deixou nove pessoas mortas. Isso tem um efeito sobre o policial. A pol\u00edcia costuma negar esse efeito, dizer que o policial \u00e9 forte. Mas se voc\u00ea n\u00e3o consegue acompanhar esse efeito, essas mortes v\u00e3o se reproduzindo aqui e ali. E voc\u00ea fica nessa pol\u00edtica de letalidade que a gente tem no Rio de Janeiro, a gente n\u00e3o consegue sair desse ciclo.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea demonstra basicamente na sua pesquisa que reduzir a vitimiza\u00e7\u00e3o de policiais poderia ter efeitos positivos em termos da redu\u00e7\u00e3o das mortes causadas por policiais. De que forma poderia-se prevenir a morte de policiais?<\/strong><\/p>\n<p>Eu trabalho com Seguran\u00e7a P\u00fablica desde 2008 e eu trabalho conversando com a pol\u00edcia. Eu n\u00e3o sou dessas radicais do meio que n\u00e3o conversa com a pol\u00edcia. Acho que a sa\u00edda sempre \u00e9 olhar a institui\u00e7\u00e3o policial. Voc\u00ea consegue enxerg\u00e1-la e entender todas as dificuldades que existem no fazer policial. \u00c9 muito simples a gente de fora dizer que o policial n\u00e3o pode matar. \u00c9 \u00f3bvio que n\u00e3o pode matar. Mas \u00e9 preciso entender quais s\u00e3o essas situa\u00e7\u00f5es nas quais ele perde o controle, tentar entend\u00ea-lo como humano tamb\u00e9m. Por um lado, \u00e9 preciso ter um olhar muito forte sobre vitimiza\u00e7\u00e3o e sobre a valoriza\u00e7\u00e3o policial como um todo. A vitimiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a ponta. Tem hist\u00f3rias e hist\u00f3rias por tr\u00e1s dessa vitimiza\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea tem a pol\u00edtica de confronto, tem como voc\u00ea exp\u00f5e o policial ao risco muitas vezes. Por exemplo, voc\u00ea teve a opera\u00e7\u00e3o no Jacarezinho, a \u00faltima mais letal do Rio de Janeiro, que foi uma opera\u00e7\u00e3o super pensada, que a Pol\u00edcia Civil diz que fez dez meses de investiga\u00e7\u00e3o para entender o que estava acontecendo ali antes de fazer a opera\u00e7\u00e3o. A opera\u00e7\u00e3o come\u00e7a com a morte de um policial. Em minutos de opera\u00e7\u00e3o. Quer dizer, voc\u00ea fez dez meses de investiga\u00e7\u00e3o e o primeiro a morrer \u00e9 o policial? Voc\u00ea n\u00e3o pensou que ia haver confronto? A responsabilidade do confronto \u00e9 s\u00f3 de quem atira do outro lado, n\u00e3o \u00e9 sua tamb\u00e9m? Claro que a gente tem um crime organizado muito forte. Mas a postura que a pol\u00edcia se coloca diante desse cen\u00e1rio, essa guerra \u00e0s drogas, isso gera a morte do policial e tem efeitos pra dentro da pol\u00edcia. E voc\u00ea tem policiais trabalhando em condi\u00e7\u00f5es muito prec\u00e1rias, sem estrutura f\u00edsica ou psicol\u00f3gica, que vai vendo situa\u00e7\u00f5es muito fortes no seu dia a dia de trabalho sem ter protocolos claros de como ele atua em diferentes \u00e1reas para ser protegido. Isso tudo tamb\u00e9m resulta em vitimiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro efeito que existe. Eu fui conversar com um comandante da UPP e ele me disse: \u201cEu sou viciado em conflito, em tiroteio\u201d. Isso \u00e9 um efeito que tem. Ele me disse assim: \u201cEu t\u00f4 em casa, algu\u00e9m me manda uma mensagem avisando que t\u00e1 tendo conflito, eu saio de casa e venho pra c\u00e1\u201d. Ele me disse que j\u00e1 chegou a rir em tiroteio. \u00c9 uma maluquice que ele entrou por conta desses confrontos, ele vai procurar os confrontos. Isso \u00e9 um efeito psicol\u00f3gico gerado por uma atividade t\u00e3o complexa como \u00e9 ser policial no Rio de Janeiro. \u00c9 preciso entender as complexidades e conter esses efeitos. Um policial que procura conflito n\u00e3o pode ser subcomandante de uma unidade. Como ele t\u00e1 l\u00e1? Como ningu\u00e9m consegue observar? Outro ponto: a pol\u00edcia d\u00e1 medalhas por bravura. A gente fez um levantamento no Igarap\u00e9 de promo\u00e7\u00e3o de policiais por bravura em 18 estados. N\u00e3o importa a forma\u00e7\u00e3o que ele tem, quanto tempo de institui\u00e7\u00e3o, ele pode ser promovido por bravura. A bravura \u00e9 um ato de hero\u00edsmo que pode dar muito certo, mas pode dar muito errado.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que a profiss\u00e3o policial exige coragem em algum n\u00edvel, mas se voc\u00ea diz que se ele fizer um ato her\u00f3ico ele ser\u00e1 premiado \u00e9 voc\u00ea dizer que ele pode se enfiar numa situa\u00e7\u00e3o extremamente de risco e morrer esperando a promo\u00e7\u00e3o por bravura. Se voc\u00ea n\u00e3o premia o outro policial, que consegue mediar conflitos, que consegue diminuir a tens\u00e3o de uma \u00e1rea.. Um ato de bravura que pode ser ele conseguir prender ou, no linguajar deles, \u201celiminar\u201d algu\u00e9m, isso pode ter volta. E esse efeito fica se alimentando. A vitimiza\u00e7\u00e3o policial \u00e9 um jeito da pol\u00edcia matar mais, mas tamb\u00e9m morrer. E esse entendimento \u00e9 muito pouco claro ainda. Eu n\u00e3o tive f\u00f4lego para continuar a pesquisa, mas seria interessante entender tamb\u00e9m o outro lado da minha pesquisa: como o aumento da letalidade policial, das mortes causadas por policiais, levam tamb\u00e9m ao aumento da vitimiza\u00e7\u00e3o de policiais. S\u00e3o mortes que ficam se alimentando, o que \u00e9 horr\u00edvel, em um cen\u00e1rio em que no final a gente t\u00e1 procurando seguran\u00e7a. E a pol\u00edtica de seguran\u00e7a deixa a gente com muito mais medo no final.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u00faltimo dia 20, o Rio de Janeiro amanheceu com mais uma opera\u00e7\u00e3o sangrenta da Pol\u00edcia Militar. Ap\u00f3s uma incurs\u00e3o do Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais (Bope) da PM fluminense, ao menos nove pessoas foram mortas no Complexo do Salgueiro, em S\u00e3o Gon\u00e7alo (RJ) em uma a\u00e7\u00e3o que durou por volta de 35 horas e onde [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":275923,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-275922","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/275922","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=275922"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/275922\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":275924,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/275922\/revisions\/275924"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/275923"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=275922"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=275922"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=275922"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}