{"id":276191,"date":"2021-12-12T21:09:00","date_gmt":"2021-12-13T00:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=276191"},"modified":"2021-12-13T16:36:34","modified_gmt":"2021-12-13T19:36:34","slug":"arquivo-morto-ganha-vida-na-argentina-sobre-ditadura-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/arquivo-morto-ganha-vida-na-argentina-sobre-ditadura-aqui\/","title":{"rendered":"Arquivo morto ganha vida sobre ditadura no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Uma investiga\u00e7\u00e3o recentemente aberta na Justi\u00e7a argentina para esclarecer o sequestro e desaparecimento do brasileiro Edmur P\u00e9ricles Camargo, em junho de 1971, recoloca na pauta judicial abusos e viola\u00e7\u00f5es que o governo militarizado do presidente Jair Bolsonaro nega: a execu\u00e7\u00e3o planejada de militantes de esquerda banidos e aprisionados atrav\u00e9s da infiltra\u00e7\u00e3o de agentes nas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda durante a ditadura brasileira. O processo argentino joga luzes tamb\u00e9m sobre a forte atua\u00e7\u00e3o do maior de todos os espi\u00f5es infiltrados, o brasileiro naturalizado uruguaio Alberto Oct\u00e1vio Conrado Avegno, cuja atua\u00e7\u00e3o no Uruguai, Argentina, Chile, Cuba e Arg\u00e9lia ajudou a destro\u00e7ar os grupos da esquerda armada que resistiram \u00e0 ditadura e est\u00e1 ligada \u00e0 morte de mais de 70 exilados desaparecidos, entre eles Camargo.<\/p>\n<p>Edmur P\u00e9ricles Camargo, na \u00e9poca asilado no Chile, seguia para Montevid\u00e9u quando foi retirado clandestinamente de um avi\u00e3o da Lan-Chile que fez escala no Aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, no dia 16 de junho de 1971. Levado para uma base da For\u00e7a A\u00e9rea Argentina a 30 quil\u00f4metros, o Aeroparque, foi embarcado num avi\u00e3o da For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira (FAB) rumo ao Brasil no dia seguinte. Os \u00faltimos registros de Camargo em vida s\u00e3o o pouso do avi\u00e3o da FAB no Aeroporto do Gale\u00e3o, no Rio de Janeiro, na manh\u00e3 de 17 de junho de 1971, e o testemunho de presos pol\u00edticos que o viram ingressar no quartel do Ex\u00e9rcito da rua Bar\u00e3o de Mesquita, no Rio de Janeiro, famoso centro de tortura e execu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O presidente do Movimento de Justi\u00e7a e Direitos Humanos (MJDH), sediado em Porto Alegre, Jair Krischke, desarquivou os documentos secretos sobre a opera\u00e7\u00e3o ilegal e, numa den\u00fancia assinada tamb\u00e9m pelo ativista Adolfo P\u00e9rez Esquivel, Pr\u00eamio Nobel da Paz, busca a responsabiliza\u00e7\u00e3o criminal dos militares brasileiros e argentinos na Justi\u00e7a Federal de Lomas de Zamora, na regi\u00e3o metropolitana de Buenos Aires. L\u00e1, ao contr\u00e1rio da jurisprud\u00eancia firmada pela Justi\u00e7a brasileira, desaparecimento for\u00e7ado \u00e9 crime de lesa-humanidade e imprescrit\u00edvel, portanto pun\u00edvel com pris\u00e3o. Os dois prestaram depoimento por videoconfer\u00eancia na semana passada, abrindo o processo e pedindo que a Justi\u00e7a determine investiga\u00e7\u00e3o para identificar os agentes argentinos. Os brasileiros citados na den\u00fancia s\u00e3o o general da reserva Sebasti\u00e3o Jos\u00e9 Ramos de Castro, que foi chefe do SNI, coronel aviador Miguel Cunha Lana, e o diplomata Paulo S\u00e9rgio Nero, j\u00e1 falecido. \u00c9 o \u00fanico caso em andamento em que agentes livres da lei gra\u00e7as \u00e0 complac\u00eancia do Estado brasileiro com os crimes da ditadura podem acabar sendo punidos no exterior junto com agentes estrangeiros que colaboraram com a opera\u00e7\u00e3o ilegal.<\/p>\n<p>\u201cSinto inveja da Argentina porque ela fez uma transi\u00e7\u00e3o correta da ditadura para a democracia, permitindo que centenas de agentes que torturaram, mataram e sumiram com oponentes sejam punidos. L\u00e1 o Videla [general Jorge Rafael Videla, ditador argentino] morreu na cadeia! Aqui n\u00e3o teve justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o. O que houve foi uma transa\u00e7\u00e3o, disse \u00e0 Ag\u00eancia P\u00fablica o criador do Movimento Justi\u00e7a e Direitos Humanos (MJDH), a mais antiga entidade de prote\u00e7\u00e3o a perseguidos pol\u00edticos p\u00f3s-golpe de 1964, sediado no Rio Grande do Sul. Ele diz que os militares se sentem t\u00e3o \u00e0 vontade que nunca se deram ao trabalho sequer de abrir os arquivos, que poderiam indicar onde foram parar os desaparecidos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Segundo o ativista, sob o governo do presidente Jair Bolsonaro, o que j\u00e1 era ruim ficou pior: os servi\u00e7os de identifica\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas da ditadura e emiss\u00e3o de certid\u00f5es de \u00f3bito apontando a viol\u00eancia do Estado como causa mortis foram paralisados. As comiss\u00f5es de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos, desvinculadas do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e transferidas para o Minist\u00e9rio da Mulher e dos Direitos Humanos, comandada por Damares Alves, t\u00eam negado todos os pedidos de repara\u00e7\u00e3o e, ainda, anulado outros que estavam em andamento. Para Krischke, uma clara tentativa de tentar recontar a hist\u00f3ria dos anos de chumbo aliviando os crimes da ditadura.<\/p>\n<p>\u201cO Bolsonaro diz que a ditadura foi uma maravilha e que o Ustra [coronel Carlos Brilhante Ustra, apontado como um dos maiores torturadores] foi um santo. \u00c9 uma mentira que n\u00f3s, que temos responsabilidade com a verdade, n\u00e3o podemos aceitar. O direito a repara\u00e7\u00e3o est\u00e1 consagrado nas disposi\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias da Constitui\u00e7\u00e3o\u201d, lembra, lamentando que nenhum governante civil do per\u00edodo democr\u00e1tico tenha tido a coragem de enfrentar os militares, como fez na Argentina o ex-presidente Ra\u00fal Alfons\u00edn. Otimista, Krischke acha, no entanto, que a forte presen\u00e7a militar no governo Bolsonaro e, agora, a romaria de generais que ingressando na pol\u00edtica em torno do ex-juiz Sergio Moro abrem um flanco para discutir as pend\u00eancias da ditadura na campanha do ano que vem. \u201cEles [os militares] deixaram a bunda de fora\u201d, alfineta.<\/p>\n<p>Krischke ressalta que at\u00e9 per\u00edcias que estavam em andamento para tentar identificar ossadas retiradas de uma vala clandestina do Cemit\u00e9rio de Perus, em S\u00e3o Paulo, e da regi\u00e3o onde ocorreu a Guerrilha do Araguaia foram paralisadas. \u201c\u00c9 uma vergonha. N\u00e3o se faz mais nada\u201d, acusa o ativista, que considera o esclarecimento dos crimes da ditadura um imperativo humanit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Aos 83 anos, 50 deles dedicados \u00e0 prote\u00e7\u00e3o de perseguidos pol\u00edticos e \u00e0 busca de documentos das ditaduras do Cone-Sul, Kirschke \u00e9 testemunha ocular e detentor de um dos maiores arquivos da Am\u00e9rica do Sul sobre os horrores dos anos de chumbo. As centenas de pastas com documentos variados ocupam prateleiras nas quatro paredes de uma sala com aproximadamente 16 metros quadrados na sede do MJDH. Criado logo depois do golpe, mas formalmente constitu\u00eddo em 1979, o movimento comandou opera\u00e7\u00f5es que retiraram do pa\u00eds mais de 2 mil militantes perseguidos pelo regime militar, segundo anotou a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV). \u201cFoi um trabalho conjunto. O MJDH tem um conselho de dez integrantes. Eu sou s\u00f3 o porta-voz\u201d, diz.<\/p>\n<p><strong>Comiss\u00e3o Nacional da Verdade\u00a0<\/strong><br \/>\nFoi atrav\u00e9s do trabalho da entidade que a CNV chegou \u00e0 opera\u00e7\u00e3o clandestina que terminou com o desaparecimento de Edmur P\u00e9ricles Camargo, em 1971, e colocou holofotes na Condor e seus tent\u00e1culos, que chegavam a seis pa\u00edses do continente bem antes de ela ser criada formalmente, em 1975. \u201cA Condor foi criada pelos militares brasileiros logo depois do golpe de 1964. A Argentina sempre foi o maior parceiro\u201d, sustenta o ativista. Para ele, as garras da Condor aparecem em documentos que indicam a exist\u00eancia de um forte processo de infiltra\u00e7\u00e3o de arapongas treinados pela CIA nas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda e a coopta\u00e7\u00e3o de militantes de esquerda.<\/p>\n<p>Dois personagens cumpriram esse papel: o ent\u00e3o embaixador do Brasil no Uruguai Manuel Pio Corr\u00eaa, que transformou a diplomacia estatal numa azeitada m\u00e1quina de espionagem do Centro de Informa\u00e7\u00f5es no Exterior (Ciex), acoplado \u00e0 estrutura do Itamaraty, e Conrado Avegno, araponga de envergadura de rapina. Antes de enveredar pelo mundo da espionagem pol\u00edtica, em 1967 ele atuou como jornalista na reda\u00e7\u00e3o do jornal \u00daltima Hora, no Rio de Janeiro, e de outras publica\u00e7\u00f5es do per\u00edodo.<\/p>\n<p>Filho do diplomata Oct\u00e1vio Conrado, falecido, e de m\u00e3e uruguaia, Conrado Avegno era passageiro do mesmo avi\u00e3o da Lan-Chile em que Camargo, formalmente acolhido pelo governo chileno como banido, foi sequestrado na escala em Buenos Aires. A ilegalidade da a\u00e7\u00e3o era t\u00e3o gritante que o adido militar que produziu os relat\u00f3rios alertou: \u201cApesar das grandes dificuldades que se tem para acompanhar esse pessoal no Uruguai, no caso presente parece que a pol\u00edcia argentina se precipitou um pouco, pois, no momento em que o fato venha a p\u00fablico, ser\u00e1 dif\u00edcil justificar a entrega e o recebimento de um banido\u201d, escreveu no relat\u00f3rio resgatado por Krischke.<\/p>\n<p><strong>Um \u201cterrorista\u201d a ser eliminado<\/strong><br \/>\nO informe sobre Edmur P\u00e9ricles Camargo foi repassado por Conrado Avegno \u00e0 embaixada brasileira em Montevid\u00e9u, que acionou a Pol\u00edcia Federal argentina. Camargo n\u00e3o era um simples militante. Paulistano, origin\u00e1rio do PCB, depois companheiro de Carlos Marighella na ALN, antes de ser preso em Porto Alegre tinha fundado uma organiza\u00e7\u00e3o radical, o M3G, e liderado pelo menos cinco assaltos a banco. Estava asilado no Chile, sob a prote\u00e7\u00e3o do governo de Salvador Allende, como um dos banidos trocados pela liberta\u00e7\u00e3o do ex-embaixador da Su\u00ed\u00e7a Giovanni Bucher, sequestrado pela esquerda armada em 1970. Aos olhos do regime militar, era um \u201cterrorista\u201d a ser eliminado.<\/p>\n<p>Quando foi tirado do avi\u00e3o, Edmur preparava-se para se juntar aos militantes que gravitavam em torno do ex-presidente Jo\u00e3o Goulart e ao ex-governador Leonel Brizola, no Uruguai. Camargo viajava com passaporte falso com o nome Enrique Villa\u00e7a, e uma de suas miss\u00f5es era acertar contas justamente com o espi\u00e3o infiltrado que o delatou. Portava tr\u00eas cartas do almirante C\u00e2ndido Arag\u00e3o, destinadas ao ex-presidente Jo\u00e3o Goulart, uma das quais, pedindo ajuda para tratar um dos olhos, ferido nas sess\u00f5es de tortura a que foi submetido. Aliado fiel de Goulart, Arag\u00e3o fundou a Resist\u00eancia Armada Nacionalista (RAN), grupo que apoiaria o enfrentamento \u00e0 ditadura a partir do Uruguai, plano de Goulart e de Brizola que, agora se sabe, foi frustrado, entre outros motivos, pela infiltra\u00e7\u00e3o de agentes duplos.<\/p>\n<p>Conrado Avegno ganhou a confian\u00e7a de praticamente toda a esquerda. Aproximou-se tanto do almirante que atuou como secret\u00e1rio da RAN no Chile e no Uruguai. Com a fun\u00e7\u00e3o, passou a ter tr\u00e2nsito entre outras organiza\u00e7\u00f5es, fazer viagens internacionais e se aproximar de militares oponentes \u00e0 ditadura e de v\u00e1rios l\u00edderes civis banidos. \u201cEle s\u00f3 n\u00e3o conseguiu enganar o Brizola e o Jango. Os dois eram protegidos por forte aparato militar, que filtrava as tentativas de contato\u201d, diz Krischke.<\/p>\n<p>Um conjunto de documentos descobertos em 2012 mostra que o espi\u00e3o se aproximou do coronel Jefferson Cardim de Alencar Os\u00f3rio, que em 1965, na primeira rea\u00e7\u00e3o violenta ao regime militar, conhecida como Guerrilha de Tr\u00eas Passos, partiu do Uruguai e invadiu o Rio Grande do Sul liderando um grupo de 23 rebeldes. \u201cTodo dia na minha casa e eu s\u00f3 fui saber disso 40 anos depois\u201d, desabafou o filho do coronel, Jefferson Lopetegui Os\u00f3rio, num\u00a0 depoimento in\u00e9dito a Krischke e ao presidente da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da OAB-RJ, Marcelo Chalr\u00e9o, para a Comiss\u00e3o da Verdade, em 2013. Ele contou que Conrado Avegno se dizia de esquerda e viajou com seu pai para v\u00e1rias partes do mundo, participando de encontros com o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, na Arg\u00e9lia, e com o ex-presidente do Chile Salvador Allende, em Cuba. Ao assumir o governo no Chile, Allende convidaria Cardim para ser seu assessor de seguran\u00e7a, proximidade que facilitaria a espionagem de seu \u201camigo\u201d Conrado Avegno, que andava sempre a tiracolo.<\/p>\n<p>Na Ilha, Conrado conheceria exilados como o ex-ministro Jos\u00e9 Dirceu, o ex-deputado Vladimir Palmeira e, no mesmo grupo, o marinheiro Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, outro que tamb\u00e9m atuou como agente da repress\u00e3o infiltrado na esquerda no mesmo per\u00edodo que Conrado. Embora n\u00e3o haja registros por enquanto, \u00e9 prov\u00e1vel que os dois tenham atuado em sintonia, j\u00e1 que por algum tempo conviveram com pessoas e ambientes comuns no Uruguai. Jair Krischke acredita que, como Conrado Avegno, Cabo Anselmo passou a colaborar com os militares j\u00e1 em 1964, e n\u00e3o a partir de uma suposta pris\u00e3o, em 1970, como ele sustenta. Um dos ind\u00edcios de que seria um agente duplo \u201cantes mesmo da greve dos marinheiros\u201d, segundo o ativista, est\u00e1 na presen\u00e7a de Anselmo junto com Carlos Gale\u00e3o Camacho, um dos integrantes do grupo que invadiu a embaixada da antiga Tchecoslov\u00e1quia em Montevid\u00e9u, em janeiro de 1967, para pedir asilo pol\u00edtico. Os dois sa\u00edram juntos do Brasil, mas Anselmo n\u00e3o aparece entre os invasores. Krischke afirma que o verdadeiro motivo da invas\u00e3o da embaixada era causar um incidente diplom\u00e1tico que levasse o governo uruguaio a expulsar o ex-presidente Jo\u00e3o Goulart, o ex-governador Leonel Brizola e centenas de perseguidos pol\u00edticos l\u00e1 refugiados. Ele diz ter ouvido diversos marinheiros que organizaram a greve em apoio a Goulart antes do golpe e afirma que nenhum deles reconheceu Cabo Anselmo como lideran\u00e7a. \u201cAcho que ele j\u00e1 estava infiltrado\u201d, diz.<\/p>\n<p>Conrado Avegno usou pelo menos cinco nomes falsos e era tratado pelos \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o da ditadura como o agente YR-62. Ao acessar centenas de documentos militares que reproduzem informes do espi\u00e3o, o presidente do MJDH diz que Conrado foi o mais preparado agente de espionagem do regime militar no exterior e tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o do esquema de infiltra\u00e7\u00e3o na Opera\u00e7\u00e3o Condor. Segundo ele, Conrado foi o agente duplo que mais mortes causou na esquerda. Ele teria trabalhado (remunerado) ao mesmo tempo para o Ciex, servi\u00e7o secreto do Itamaraty montado por Pio Corr\u00eaa, e para o Centro de Informa\u00e7\u00f5es da Marinha (Cenimar). Conseguiu enganar at\u00e9 os dirigentes tupamaros, que bancaram as despesas de sua viagem \u00e0 Arg\u00e9lia, certos de que ele aproveitaria a ocasi\u00e3o para promover uma aproxima\u00e7\u00e3o dos rebeldes uruguaios com o governo nacional-socialista daquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>No Chile, sempre colado em Jefferson Cardim, Conrado aproximou-se do ex-ministro do Trabalho de Jango Almino Afonso, que, de volta do ex\u00edlio, seria deputado federal e vice-governador de S\u00e3o Paulo. Sempre posando de esquerdista, fez amizade com outros militares ligados \u00e0 RAN no Uruguai, como o coronel Emanuel Nicoll e o major Joaquim Pires Cerveira, sequestrado na Argentina em dezembro de 1973 (\u00e9 o primeiro caso da Condor documentado), morto e supostamente esquartejado no quartel do Ex\u00e9rcito da rua Bar\u00e3o de Mesquita, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Com a revela\u00e7\u00e3o da verdadeira atividade de Avegno, seu nome passou a ser associado a dezenas de assassinatos cometidos por agentes da Condor. Nessa lista est\u00e3o Edmur P\u00e9ricles Camargo, militares e praticamente todos os militantes da esquerda brasileira que desapareceram na Argentina, Uruguai e Chile. A ele s\u00e3o atribu\u00eddas tamb\u00e9m dela\u00e7\u00f5es que resultaram em v\u00e1rias execu\u00e7\u00f5es ocorridas na fronteira do Cone-Sul e em S\u00e3o Paulo, com a colabora\u00e7\u00e3o de militantes de esquerda cooptados pelo pr\u00f3prio Conrado Avegno, em mais um de seus pap\u00e9is.<\/p>\n<p>Um dos que trocaram de lado, sobre o qual h\u00e1 registros em informes do pr\u00f3prio espi\u00e3o, que o conheceu no Chile, seria Gilberto Faria Lima, o Zorro, militante da luta armada que atuou com o ex-capit\u00e3o Carlos Lamarca na Guerrilha do Vale do Ribeira e chegou a ser condenado \u00e0 pena de morte por assassinatos, mas acabou traindo a esquerda para se salvar. Com identidade falsa, estaria vivendo em algum pa\u00eds do Cone-Sul. Com as dela\u00e7\u00f5es de Zorro, a pol\u00edcia matou v\u00e1rios militantes na capital paulista e banidos que tentaram voltar ao Brasil.<\/p>\n<p>Jair Krischke conta que demorou pelo menos quatro anos para confirmar a identidade do espi\u00e3o, que no final da vida havia se convertido em pastor de uma igreja evang\u00e9lica, a Centro El Shadday, criada por ele mesmo em Montevid\u00e9u. Jair Krischke disse que alertou a CNV sobre a import\u00e2ncia do espi\u00e3o, mas que o caso acabou n\u00e3o sendo tratado com a agilidade necess\u00e1ria. Quando, finalmente, viajou a Montevid\u00e9u para tentar ouvi-lo, deparou-se com um an\u00fancio f\u00fanebre sobre seu falecimento, ocorrido em 10 de mar\u00e7o de 2013, publicado no El Pa\u00eds do Uruguai. Encerrava-se ali, sem repercuss\u00e3o, 13 anos de uma trajet\u00f3ria intensa de infiltra\u00e7\u00e3o e coopta\u00e7\u00e3o que destro\u00e7ou as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda e, de certa forma, ajudou a dar longevidade \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do agente YR-62 ser\u00e1 um dos cap\u00edtulos da a\u00e7\u00e3o penal contra militares argentinos e brasileiros que ser\u00e3o julgados na Justi\u00e7a de Lomas de Zamora pelo desaparecimento de Edmur P\u00e9ricles Camargo. O veterano ativista Krischke acha que o processo ser\u00e1 uma vergonha para o pa\u00eds que n\u00e3o pune seus criminosos pol\u00edticos, um contundente contraponto ao negacionismo que une Bolsonaro e o novo militarismo na tentativa de maquiar a ditadura, escamoteando a verdade sobre crimes e horrores que, mais cedo ou mais tarde, ser\u00e3o tirados do arm\u00e1rio. \u201c\u00c9 por isso que luto\u201d, diz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma investiga\u00e7\u00e3o recentemente aberta na Justi\u00e7a argentina para esclarecer o sequestro e desaparecimento do brasileiro Edmur P\u00e9ricles Camargo, em junho de 1971, recoloca na pauta judicial abusos e viola\u00e7\u00f5es que o governo militarizado do presidente Jair Bolsonaro nega: a execu\u00e7\u00e3o planejada de militantes de esquerda banidos e aprisionados atrav\u00e9s da infiltra\u00e7\u00e3o de agentes nas organiza\u00e7\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":276192,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-276191","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/276191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=276191"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/276191\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":276230,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/276191\/revisions\/276230"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/276192"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=276191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=276191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=276191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}