{"id":276551,"date":"2021-12-19T10:41:01","date_gmt":"2021-12-19T13:41:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=276551"},"modified":"2021-12-19T12:25:14","modified_gmt":"2021-12-19T15:25:14","slug":"maes-deixam-de-comer-para-garantir-comida-aos-filhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/maes-deixam-de-comer-para-garantir-comida-aos-filhos\/","title":{"rendered":"M\u00e3es deixam de comer para garantir comida aos filhos"},"content":{"rendered":"<p>Era por volta das 11 horas quando Let\u00edcia dos Santos, 32 anos, moradora da ocupa\u00e7\u00e3o Nova Esperan\u00e7a, no Jardim S\u00e3o Lu\u00eds, Zona Sul de S\u00e3o Paulo, come\u00e7ou a preparar o caf\u00e9 da manh\u00e3 para os quatro filhos que cria sozinha. Enquanto a panela com \u00f3leo aquecia, ela misturou farinha de trigo, \u00e1gua e a\u00e7\u00facar. O cheiro de fritura que se alastrou pelo barraco lembrava um bolinho de chuva, mas faltavam ingredientes: \u201cn\u00e3o tenho ovo, fermento, leite e canela\u201d.<\/p>\n<p>Naquele dia, as refei\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia vieram de doa\u00e7\u00f5es. Desde que perdeu o emprego como cuidadora de idosos, em plena pandemia, Let\u00edcia depende dos donativos para alimentar os filhos. Ela tamb\u00e9m faz bicos com biscuit, doces e trabalhando em eventos para conseguir alguma renda.<\/p>\n<p>No ano passado, quando Let\u00edcia ficou desempregada, mais de 96% dos postos de trabalho fechados eram ocupados por mulheres, muitas delas m\u00e3es solteiras. Segundo o IBGE, 11,5 milh\u00f5es de m\u00e3es cuidam dos filhos sozinha no Brasil. A inseguran\u00e7a alimentar \u00e9 mais grave nesses lares, justamente porque as mulheres foram as mais prejudicadas pela falta de emprego e perda de renda na pandemia, como mostrou o inqu\u00e9rito nacional sobre inseguran\u00e7a alimentar no contexto da pandemia de Covid-19 no Brasil.<\/p>\n<p>Em 2020, segundo o Inqu\u00e9rito, a fome atinge mais as fam\u00edlias sustentadas por algu\u00e9m do sexo feminino, ou de ra\u00e7a\/cor da pele autodeclarada preta\/parda ou com menor escolaridade. No ano passado, 43,4 milh\u00f5es de brasileiros \u2013 20,5% da popula\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o tiveram acesso a alimentos em quantidades suficientes. Os percentuais de inseguran\u00e7a alimentar s\u00e3o mais altos em domic\u00edlios sustentados por uma \u00fanica pessoa (66,3%), sobretudo se a respons\u00e1vel for mulher (73,8%). Ainda de acordo com o levantamento, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira (55,2%) conviveu com algum grau de inseguran\u00e7a alimentar em 2020. Ou seja, 116,8 milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o tinham acesso absoluto e permanente a alimentos.<\/p>\n<p><strong>Nutri\u00e7\u00e3o em segundo plano\u00a0<\/strong><br \/>\nLet\u00edcia ainda amamenta o filho ca\u00e7ula, um beb\u00ea de tr\u00eas meses. Como tem anemia profunda, deveria tomar um suplemento de ferro e ter uma alimenta\u00e7\u00e3o balanceada, mas a nutri\u00e7\u00e3o dela fica sempre em segundo plano. \u201cPor causa da minha alimenta\u00e7\u00e3o ruim, o leite do peito fica fraco\u201d, diz.\u00a0 A ajuda que a fam\u00edlia recebe do governo encolheu de R$ 375 para R$ 217 por m\u00eas, com o fim do aux\u00edlio emergencial. O dinheiro serve basicamente para comprar as fraldas e o complemento alimentar do beb\u00ea, que custa R$ 52 por lata.<\/p>\n<p>A maioria das 260 fam\u00edlias que moram na ocupa\u00e7\u00e3o Nova Esperan\u00e7a s\u00e3o chefiadas por m\u00e3es solo. L\u00e1, recebem cestas b\u00e1sicas que \u201cgarantem ao menos o arroz e o feij\u00e3o\u201d, diz Let\u00edcia. Tamb\u00e9m n\u00e3o pagam aluguel, que j\u00e1 foi uma fonte de d\u00edvidas para ela no passado. \u201cTive que sair do apartamento apenas com as roupas. N\u00e3o deixaram nem trazer os meus m\u00f3veis porque eu estava devendo\u201d, relembra.<\/p>\n<p>\u201cSe n\u00e3o fossem as cestas b\u00e1sicas, tinha passado fome\u201d, diz Zenaide Severina, 40 anos, vizinha de Let\u00edcia. Com dois filhos para criar sozinha \u2013 um adolescente de 17 e uma menina de tr\u00eas anos -, ela foi morar na ocupa\u00e7\u00e3o depois de ter a casa interditada pela defesa civil em 2020. N\u00e3o recebeu aux\u00edlio moradia. No mesmo ano, foi afastada do emprego por problemas respirat\u00f3rios, mas ainda espera as per\u00edcias para conseguir o aux\u00edlio doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Na escola p\u00fablica, a filha mais nova de Zenaide consegue ter todas as refei\u00e7\u00f5es. Quando as crian\u00e7as est\u00e3o em casa, muitas vezes a m\u00e3e come apenas uma vez por dia. \u201cN\u00e3o tenho coragem de fazer uma mistura para mim e n\u00e3o dar a eles\u201d, diz. A pequena nem sempre aceita comer feij\u00e3o com arroz v\u00e1rias vezes ao dia. Ent\u00e3o, quando n\u00e3o h\u00e1 nada al\u00e9m disso para oferecer, Zenaide faz uma mamadeira de leite.\u00a0 \u201cQuando voc\u00ea \u00e9 s\u00f3, para quem vai pedir ajuda? Muitas vezes pedi ajuda ao pai da minha filha, mas ele amea\u00e7a tirar ela de mim\u201d.<\/p>\n<p>O pesquisador Jos\u00e9 Raimundo estuda a fome no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo desde os anos 2000. Ele afirma categoricamente que: \u201cuma pessoa que est\u00e1 fazendo uma refei\u00e7\u00e3o por dia, est\u00e1 passando fome.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o h\u00e1 alimentos necess\u00e1rios para toda a fam\u00edlia, mesmo nos lares chefiados por homens, \u201cas mulheres s\u00e3o as \u00faltimas a comer\u201d, diz o pesquisador. \u201cEm um domic\u00edlio que est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de fome ou risco de fome, as mulheres s\u00e3o as primeiras a sofrer porque elas tendem a priorizar a alimenta\u00e7\u00e3o dos filhos e em seguida a dos maridos. A chance da mulher estar com fome \u00e9 maior que a do homem e das crian\u00e7as\u201d, explica.<\/p>\n<p>Em uma sociedade machista, argumenta Raimundo, \u201co cuidado com os filhos recai sobre as mulheres, que muitas vezes ficam presas at\u00e9 para arrumar um emprego, porque dependem de algu\u00e9m para cuidar dos seus filhos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Doa\u00e7\u00f5es escassas<\/strong><br \/>\n\u201cTudo \u00e9 mais dif\u00edcil para uma mulher\u201d, desabafa Ednalva do Nascimento, 43 anos, moradora do Piscin\u00e3o de Ramos, no Rio de Janeiro. Ela sustenta cinco filhos com bicos de faxinas e lavagem de roupas. O ca\u00e7ula tem nove anos e o mais velho, que est\u00e1 desempregado, 25.<\/p>\n<p>\u201cPerdi o emprego um pouco antes da pandemia. Quando a covid come\u00e7ou, nem faxina eu conseguia\u201d, conta. A fam\u00edlia n\u00e3o passou fome gra\u00e7as \u00e0s doa\u00e7\u00f5es de cestas b\u00e1sicas, mas at\u00e9 isso est\u00e1 se tornando mais escasso, com a desacelera\u00e7\u00e3o da pandemia, conta Ednalva.\u00a0 \u201cMuitas vezes deixo de comer para dar aos meus filhos. Verdura, fruta, carne s\u00f3 compro quando d\u00e1\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para ela, que s\u00f3 de aluguel paga R$ 500 por m\u00eas, a\u00a0 promessa de aumento do aux\u00edlio brasil, criado ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o do Bolsa Fam\u00edlia, para R$ 400 anima, mas n\u00e3o resolve os problemas. \u201cAjuda, mas n\u00e3o sei como vai ser at\u00e9 o fim do ano porque as doa\u00e7\u00f5es est\u00e3o diminuindo e ainda n\u00e3o tem emprego. Acho que ainda vai demorar muito para melhorar mesmo nossa situa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Vazio nos pratos<\/strong><br \/>\nO cotidiano de inseguran\u00e7a alimentar repercute na sa\u00fade mental das m\u00e3es solo de v\u00e1rias formas. Diante da incerteza sobre a condi\u00e7\u00e3o de sustentar a pr\u00f3pria fam\u00edlia, Zenaide sofreu de depress\u00e3o. Ela faz acompanhamento no Centro de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (Caps) da Zona Sul, mas at\u00e9 o acesso ao servi\u00e7o de sa\u00fade \u00e9 complicado porque o atendimento fica distante da casa dela. \u201cSe eu tirar esse dinheiro do transporte faz diferen\u00e7a nas contas, ent\u00e3o nem sempre vou\u201d.<\/p>\n<p>Para controlar crises de ansiedade, ela cuida do pequeno quintal onde cultiva plantas medicinais. Conta que n\u00e3o recebeu o aux\u00edlio emergencial na pandemia, por estar afastada do trabalho, embora o benef\u00edcio do INSS ainda n\u00e3o tenha sido liberado. \u201cTamb\u00e9m n\u00e3o tenho direito ao aux\u00edlio para comprar g\u00e1s de cozinha porque recebo o aux\u00edlio brasil. Como n\u00e3o tenho direito se estou sem emprego e com filho pequeno?\u201d, questiona.<\/p>\n<p>\u201cO pobre \u00e9 esquecido\u201d, lamenta Let\u00edcia. Desde que foi morar na ocupa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um ano, ela tenta, sem sucesso, arrumar vagas para os filhos na escola p\u00fablica mais pr\u00f3xima. \u201cParece que quanto mais a gente \u00e9 humilde, mais dif\u00edcil \u00e9 para conseguir as coisas. Criam programas para ajudar os pobres, mas os pobres n\u00e3o s\u00e3o socorridos.\u201d<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de Let\u00edcia se aproxima do Informe Dhana (Direito Humano \u00e0 Alimenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 Nutri\u00e7\u00e3o Adequada) 2021, que analisa os impactos da Covid-19, a\u00e7\u00f5es e omiss\u00f5es do poder p\u00fablico diante da crise sanit\u00e1ria, econ\u00f4mica e social. O documento alerta para \u201ccortes or\u00e7ament\u00e1rios e o enfraquecimento de programas voltados \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a alimentar no Brasil\u201d, como o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA) e o Programa de constru\u00e7\u00e3o de Cisternas, de grande relev\u00e2ncia para a seguran\u00e7a h\u00eddrica no semi\u00e1rido brasileiro, entre outros.<\/p>\n<p>\u00c9 o que tamb\u00e9m pensa a ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome, Tereza Campello. Para ela, os impactos da pandemia poderiam ter sido mais amenos, caso o Governo Federal tivesse adotado medidas que fortalecessem pol\u00edticas p\u00fablicas e de prote\u00e7\u00e3o social. \u201cAlguns pa\u00edses tiveram um aumento da pobreza, de problemas, mas n\u00e3o passaram enfrentar uma situa\u00e7\u00e3o de fome. No Brasil, a gente viveu um acirramento gigantesco da fome e da inseguran\u00e7a alimentar nos seus v\u00e1rios n\u00edveis, porque todo colch\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o social que existia foi desmontando.\u201d<\/p>\n<p>Tereza lembra que, no primeiro m\u00eas do governo Bolsonaro, a Medida Provis\u00f3ria 870 encerrou as atividades do Conselho Nacional de Seguran\u00e7a\u00a0 Alimentar e Nutricional (Consea). Institu\u00eddo em 1993, o Consea fazia parte do Sistema Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Sisan), como um espa\u00e7o crucial para garantir a participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil nas discuss\u00f5es sobre acesso a alimentos.<\/p>\n<p>\u201cAo desmontar o Consea, ele (Bolsonaro) desmontou o controle social, que \u00e9 fundamental, porque o Consea era muito ativo, n\u00e3o s\u00f3 fiscalizando e cobrando o Governo Federal pelo bom funcionamento das pol\u00edticas p\u00fablicas, como ajudando na constru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica social s\u00f3lida. Quando se extingue o Consea, se desorganiza toda essa agenda da transpar\u00eancia e do controle social\u201d, explica Tereza. \u201cEsse governo n\u00e3o liga para a alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e n\u00e3o s\u00f3, tamb\u00e9m n\u00e3o liga para a fome\u201d, diz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era por volta das 11 horas quando Let\u00edcia dos Santos, 32 anos, moradora da ocupa\u00e7\u00e3o Nova Esperan\u00e7a, no Jardim S\u00e3o Lu\u00eds, Zona Sul de S\u00e3o Paulo, come\u00e7ou a preparar o caf\u00e9 da manh\u00e3 para os quatro filhos que cria sozinha. Enquanto a panela com \u00f3leo aquecia, ela misturou farinha de trigo, \u00e1gua e a\u00e7\u00facar. 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