{"id":276938,"date":"2021-12-24T19:12:21","date_gmt":"2021-12-24T22:12:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=276938"},"modified":"2021-12-24T19:17:35","modified_gmt":"2021-12-24T22:17:35","slug":"esquerda-avanca-entre-latinos-mas-direita-esta-viva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/esquerda-avanca-entre-latinos-mas-direita-esta-viva\/","title":{"rendered":"Esquerda avan\u00e7a entre latinos, mas direita est\u00e1 viva"},"content":{"rendered":"<p>O ano de 2021 se encerra com uma nova configura\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas na Am\u00e9rica Latina e Caribe. A terceira d\u00e9cada do mil\u00eanio inicia com uma maioria de governos progressistas na regi\u00e3o, rememorando o in\u00edcio dos anos 2000, considerado por alguns como a \u201cd\u00e9cada ganha\u201d.<\/p>\n<p>Se em janeiro a balan\u00e7a pesava para o conservadorismo, com governos que defendiam uma agenda liberal na economia e uma pol\u00edtica contr\u00e1ria \u00e0s demandas populares, agora em dezembro somam-se ao menos 14 governos afins ao campo da esquerda latino-americana e caribenha.<\/p>\n<p>Alguns eventos decisivos foram: no Chile, a conforma\u00e7\u00e3o da Conven\u00e7\u00e3o Constitucional, com base na paridade de g\u00eanero, e presidida pela l\u00edder mapuche Elisa Loncon, e a elei\u00e7\u00e3o de Gabriel Boric, derrotando a extrema direita; no Peru, a elei\u00e7\u00e3o de Pedro Castillo; e, em Honduras, a vit\u00f3ria de Xiomara Castro, derrotando os partidos de direita ap\u00f3s 12 anos do golpe de Estado.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vale destacar a perman\u00eancia no poder de Daniel Ortega, na Nicar\u00e1gua, e a vit\u00f3ria do chavismo nas regionais da Venezuela.<\/p>\n<p>No Chile, movimento que levou \u00e0 reforma da Constitui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m impulsionou elei\u00e7\u00e3o do presidente mais jovem da hist\u00f3ria do pa\u00eds \/ Telesur<\/p>\n<p>\u201cAcredito que a ideia de uma nova d\u00e9cada ganha \u00e9 mais uma express\u00e3o de vontade que uma realidade. Mas 2022 deve ser um ano divisor de \u00e1guas. Tivemos um 2021 que ofereceu alguns resultados imprevistos e outros nem tanto. Isso demonstra que n\u00e3o h\u00e1 uma hegemonia de direita na regi\u00e3o, ao contr\u00e1rio, h\u00e1 mem\u00f3ria dos povos inclusive contra projetos retr\u00f3grados\u201d, comenta o jornalista e pesquisador do Centro Estrat\u00e9gico Latino-Americano de Geopol\u00edtica (Celag), Yair Cybel.<\/p>\n<p>Para o dirigente do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), Jo\u00e3o Pedro Stedile, entre 2000 e 2014, houve uma disputa permanente de tr\u00eas projetos: um projeto neoliberal, coordenado pelos Estados Unidos; o projeto neodesenvolvimentista, antineoliberal mas que n\u00e3o confrontava os EUA e representava uma alian\u00e7a de governos populares com a burguesia local; e, por fim, o projeto da Alba-TCP, anti-imperialista e que representava a unidade de governos e movimentos populares.<\/p>\n<p>\u201cA crise do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista provocou uma crise nesses tr\u00eas projetos e, por isso, nenhum consegue ser hegem\u00f4nico no continente e o espa\u00e7o de disputa continua sendo o eleitoral\u201d, defende Stedile.<\/p>\n<p>A economista mexicana e membra da Rede de Intelectuais em Defesa da Humanidade, Ana Esther Cece\u00f1a tamb\u00e9m estabelece outras diferen\u00e7as nos dois per\u00edodos do progressismo latino-americano.<\/p>\n<p>\u201cSem tirar import\u00e2ncia aos processos atuais, mas eles n\u00e3o t\u00eam o mesmo tom, prop\u00f3sito t\u00e3o claro ou possibilidade de articula\u00e7\u00e3o t\u00e3o expl\u00edcita. O que foi interessante naquele momento \u00e9 que havia uma lideran\u00e7a e um projeto compartilhado por todos aqueles que se incorporavam a essa onda progressista latino-americana. A presen\u00e7a de Ch\u00e1vez fez a diferen\u00e7a. Era um homem que n\u00e3o simulava, realmente apostava; n\u00e3o pretendia, constru\u00eda. E isso permitiu que o chamado progressismo tivesse um sentido\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Cece\u00f1a defende que essa conflu\u00eancia entre governos progressistas e movimentos populares teve seu momento de m\u00e1xima express\u00e3o com a derrota da \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas (Alca) \u2013 proposta de 2005 dos Estados Unidos para a regi\u00e3o \u2013 que abriu o caminho para a cria\u00e7\u00e3o da Alba-TCP e da Alba Movimentos.<\/p>\n<p><strong>Socialismo ou barb\u00e1rie?<\/strong><br \/>\nNo Chile, Peru e Bol\u00edvia os processos eleitorais foram definidos entre polos totalmente opostos. Para os analistas essa polariza\u00e7\u00e3o entre esquerda e extrema-direita \u00e9 um reflexo da situa\u00e7\u00e3o de crise do sistema capitalista.<\/p>\n<p>A expectativa da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para Am\u00e9rica Latina e Caribe (Cepal) \u00e9 de crescimento de 5,9% na regi\u00e3o, mas ainda em um cen\u00e1rio de riqueza concentrada. O subcontinente latino-americano \u00e9 a terceira regi\u00e3o mais desigual do planeta; somente no Brasil, os 10% mais ricos ganham 29 vezes mais que os 50% mais pobres.<\/p>\n<p>\u201cA concentra\u00e7\u00e3o de capital n\u00e3o oferece alternativa. Aquela ideia de mercados internos que permitiam absorver as crises j\u00e1 n\u00e3o existe. Devemos voltar a pensar a rela\u00e7\u00e3o humana com a Terra. E isso n\u00e3o \u00e9 algo rom\u00e2ntico ou algo do passado. \u00c9 a \u00fanica maneira de ver um futuro poss\u00edvel, j\u00e1 que a outra op\u00e7\u00e3o \u00e9 a ru\u00edna. Estamos numa espiral destrutiva: pelas pandemias, pelas armas, o tr\u00e1fico de pessoas, todos os neg\u00f3cios atuais do capitalismo s\u00e3o absolutamente corrosivos para a sociedade\u201d, defende Ana Esther Cece\u00f1a.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Pedro Stedile defende que as respostas \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es geradas pela luta de classes no continente vir\u00e3o a partir da elabora\u00e7\u00e3o de um projeto popular, aut\u00f4nomo e que vise a supera\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p>\u201cTemos que acumular for\u00e7as em torno de programas de mudan\u00e7as estruturais. O capitalismo j\u00e1 provou que n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o dos problemas das massas. O programa n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o te\u00f3rica, ele \u00e9 necessariamente um exerc\u00edcio de pedagogia de massas, no qual as massas devem assimilar quais propostas s\u00e3o necess\u00e1rias para mudar o pa\u00eds\u201d, afirma o membro do MST.<\/p>\n<p><strong>As conquistas da direita<\/strong><br \/>\nPor outro lado, ainda podemos ver manifesta\u00e7\u00f5es da presen\u00e7a de centros de poder conectados a um projeto conservador e neoliberal.<\/p>\n<p>No Equador, a elei\u00e7\u00e3o do banqueiro Guillermo Lasso como presidente; na Argentina, o empate nas elei\u00e7\u00f5es legislativas, que significou a perda da maioria do Senado pelo peronismo para o macrismo e o crescimento de figuras de extrema-direita.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ganharam corpo plataformas internacionais, como o F\u00f3rum de Madri, estimulado pelo partido espanhol de ultra-direitista Vox; o Projeto Veritas, idealizado pelo ex-estrategista da campanha de Donald Trump, Steve Bannon; ou eventos como a Confer\u00eancia de A\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica Conservadora (CPAC \u2013 siglas em ingl\u00eas), que teve sua edi\u00e7\u00e3o brasileira realizada em setembro, organizada pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL).<\/p>\n<p>Isso demonstra que a extrema direita continua a se articular e ainda \u00e9 um relevante advers\u00e1rio pol\u00edtico em v\u00e1rios pa\u00edses.<\/p>\n<p>\u201cHoje h\u00e1 uma estrat\u00e9gia continental de projeto de poder dos Estados Unidos, que necessita da regi\u00e3o para disputar a hegemonia de poder com a China, por exemplo. \u00c9 uma estrat\u00e9gia muito clara e muito agressiva contra a Am\u00e9rica Latina\u201d, comenta a professora da Universidade Aut\u00f4noma do M\u00e9xico (UNAM).<\/p>\n<p><strong>Perspectivas para 2022<\/strong><br \/>\nDiante desse cen\u00e1rio, as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es gerais na Col\u00f4mbia, em maio de 2022, e no Brasil, em outubro, s\u00e3o consideradas chave para determinar a capacidade dos governos e povos da Am\u00e9rica Latina e Caribe voltarem a atuar em bloco nos organismos multilaterais e no desenvolvimento de pol\u00edticas s\u00f3cioecon\u00f4micas integradas.<\/p>\n<p>Nos dois pa\u00edses, os candidatos do campo progressista t\u00eam ampla vantagem sobre seus advers\u00e1rios. O senador Gustavo Petro, do movimento Col\u00f4mbia Humana, possui cerca de 42% da prefer\u00eancia, segundo pesquisas divulgadas em dezembro pela empresa Invamer.<\/p>\n<p>Os dois meses de greve geral na Col\u00f4mbia, na primeira metade do ano, contribu\u00edram para a aumentar o recha\u00e7o da sociedade colombiana aos partidos tradicionais de direita e ao uribismo \u2013 corrente pol\u00edtica que governou o pa\u00eds nos \u00faltimos 20 anos.<\/p>\n<p>No Brasil, Lula da Silva tamb\u00e9m lidera todas as pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto, com 15 a 20 pontos de vantagem sobre o atual presidente Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>A proposta de fortalecer a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), como alternativa \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA), e o fortalecimento do Mercosul poderiam ser dois reflexos institucionais da pol\u00edtica exterior desses poss\u00edveis novos governos.<\/p>\n<p>\u201cO ano de 2022 pode augurar uma mudan\u00e7a de ciclo com o alinhamento das quatro maiores economias da regi\u00e3o: Brasil, Col\u00f4mbia, M\u00e9xico e Argentina e, ao mesmo tempo, pode mostrar que nem todas as propostas de mobiliza\u00e7\u00e3o de rua tem uma resposta com avan\u00e7os de direitos no aspecto partid\u00e1rio-institucional\u201d, comenta Cybel.<\/p>\n<p>Para o dirigente do MST, as for\u00e7as populares possuem desafios permanentes de forma\u00e7\u00e3o, milit\u00e2ncia pol\u00edtica e batalha ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>\u201cA esquerda precisa ter mais clareza de como deve fazer a disputa pol\u00edtica na sociedade, que n\u00e3o \u00e9 apenas ganhar governos, mas disputar o Estado ampliado, como dizia Gramsci \u2013 que \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, e estruturas como a m\u00eddia, o judici\u00e1rio. \u00c9 s\u00f3 isso que ir\u00e1 garantir que al\u00e9m das vit\u00f3rias eleitorais acumulemos for\u00e7as\u201d, afirma Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile.<\/p>\n<p>Se os movimentos populares conseguirem articular-se em plataformas continentais, h\u00e1 maior possibilidade de amplia\u00e7\u00e3o de direitos, analisa Yair Cybel. \u201cO que ser\u00e1 interessante de observar em 2022 ser\u00e1 ver o que acontece com os processos de levante popular que n\u00e3o terminam numa institucionaliza\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o\u201d, comenta o jornalista argentino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano de 2021 se encerra com uma nova configura\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas na Am\u00e9rica Latina e Caribe. 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