{"id":277921,"date":"2022-01-09T09:56:44","date_gmt":"2022-01-09T12:56:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=277921"},"modified":"2022-01-09T14:28:33","modified_gmt":"2022-01-09T17:28:33","slug":"pesquisadores-tentam-descobrir-agressividade-de-botos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pesquisadores-tentam-descobrir-agressividade-de-botos\/","title":{"rendered":"Pesquisadores tentam descobrir agressividade de botos"},"content":{"rendered":"<p>Um comportamento desconhecido, observado nos \u00faltimos anos por pesquisadores que estudam a vida dos botos cor-de-rosa, esp\u00e9cie tradicional da Amaz\u00f4nia, foi publicado na revista cient\u00edfica Behaviour, no ano passado, e dever\u00e1 continuar sendo objeto de acompanhamento este ano, t\u00e3o logo se resolva a quest\u00e3o de financiamento para o projeto. O comportamento agressivo \u00e9 o ataque de machos a filhotes, inclusive a rec\u00e9m-nascidos.<\/p>\n<p>A equipe de pesquisadores do Projeto Mam\u00edferos Aqu\u00e1ticos da Amaz\u00f4nia e do Projeto Boto \u00e9 liderada pela cientista brasileira Vera Maria da Silva, membro da Rede de Especialistas em Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (RECN), da Funda\u00e7\u00e3o Grupo Botic\u00e1rio, que h\u00e1 26 anos monitora os botos em campo, quase diariamente, na Reserva de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel Mamirau\u00e1. Nesse per\u00edodo, a popula\u00e7\u00e3o de botos marcados pelos bi\u00f3logos alcan\u00e7ou 758 animais de todas as faixas et\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 f\u00eameas que acompanhamos h\u00e1 cinco gera\u00e7\u00f5es: bisav\u00f3, av\u00f3, m\u00e3e, filha, neta. S\u00e3o v\u00e1rios animais bem conhecidos\u201d, disse Vera \u00e0 Ag\u00eancia Brasil. Todo ano s\u00e3o feitas expedi\u00e7\u00f5es para capturar e marcar os animais, antes de devolv\u00ea-los aos rios.<\/p>\n<p>Em 2013, foi observado o primeiro comportamento incomum na esp\u00e9cie Inia geoffrensis, que s\u00e3o os botos cor-de-rosa do Rio Amazonas. O \u00faltimo registro data de 2018. \u201cPara n\u00f3s, foi uma surpresa\u201d, disse a bi\u00f3loga. O comportamento observado destoa tamb\u00e9m de outras esp\u00e9cies de golfinhos. Os pesquisadores n\u00e3o tinham registrado isso antes desse primeiro evento. Os outros casos foram percebidos em 2014, 2016 e 2017.<\/p>\n<p><strong>Embaixo d\u2019\u00e1gua<\/strong><br \/>\nVera Maria explicou que, mesmo monitorando diariamente os botos, a chance de registrar esse tipo de comportamento \u00e9 reduzida, inclusive porque a maior parte ocorre embaixo d&#8217;\u00e1gua, o que n\u00e3o \u00e9 acompanhado pelas equipes. Ela destacou tamb\u00e9m que o fato de n\u00e3o registrar, n\u00e3o significa que os ataques n\u00e3o ocorram. \u201cN\u00f3s \u00e9 que n\u00e3o tivemos a oportunidade de registr\u00e1-los antes\u201d.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o \u00e9 que, com tantas horas de observa\u00e7\u00e3o desses animais, por que t\u00e3o poucos registros foram feitos e por que s\u00f3 recentemente?, comentou a pesquisadora. S\u00e3o perguntas para as quais os pesquisadores buscam respostas.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, Vera Maria afirmou que esse comportamento agressivo n\u00e3o era conhecido como uma caracter\u00edstica dos botos da Amaz\u00f4nia. Ela informou que um evento de agress\u00e3o foi registrado por equipe da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) com o boto-cinza, da Ba\u00eda de Guanabara, que n\u00e3o confirmou, entretanto, a morte do filhote.<\/p>\n<p>H\u00e1 casos relatados com o golfinho do tipo nariz-de-garrafa, ou flipper, que tem um comportamento reprodutivo diferente, no qual os machos formam uma \u201calian\u00e7a e controlam a f\u00eamea por um per\u00edodo\u201d, fato que n\u00e3o ocorre com o boto da Amaz\u00f4nia, segundo a l\u00edder da expedi\u00e7\u00e3o. Ela Informou que para cerca de 70 esp\u00e9cies de golfinhos no mundo, h\u00e1 registro apenas de agress\u00f5es desse tipo para quatro ou cinco delas. \u201c\u00c9 muito pouco\u201d, disse.<\/p>\n<p>A equipe pretende dar continuidade ao monitoramento, fazendo observa\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da popula\u00e7\u00e3o de botos marcados na Reserva de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel Mamirau\u00e1. \u201cSe aparecerem novas informa\u00e7\u00f5es, temos que registrar e ir reportando.\u201d<\/p>\n<p>Vera afirmou que existe a probabilidade de haver um per\u00edodo com maior frequ\u00eancia desse comportamento, que \u00e9 o correspondente ao nascimento dos filhotes, entre setembro e outubro de cada ano. \u201cPoderia ser que esse tipo de comportamento j\u00e1 fosse mais frequente.\u201d A meta da equipe n\u00e3o \u00e9 se dedicar especificamente a esse tipo de registro, mas continuar fazendo o monitoramento.<\/p>\n<p><strong>Felinos<\/strong><br \/>\nOs botos diferem de outros animais, como os felinos. Os le\u00f5es, por exemplo, t\u00eam comportamento agressivo mais conhecido. Quando eles chegam em um grupo de duas ou tr\u00eas leoas, matam os filhotes que encontram e que n\u00e3o s\u00e3o de sua linhagem, para garantir que apenas o seu DNA seja passado para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, matar a prole faz com que a f\u00eamea entre em ciclo estral, ou cio, mais rapidamente, ficando f\u00e9rtil para a reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEle cuida do seu har\u00e9m e garante que aqueles filhotes s\u00e3o seus\u201d. O boto n\u00e3o tem esse comportamento de ficar com a mesma f\u00eamea ou grupo de f\u00eameas por um tempo prolongado, apresentando uma caracter\u00edstica reprodutiva que os pesquisadores chamam de \u201cprom\u00edscua\u201d, porque v\u00e1rios machos copulam com v\u00e1rias f\u00eameas.<\/p>\n<p>A cientista explicou que para os botos, n\u00e3o h\u00e1 vantagem em matar os filhotes para garantir seu pr\u00f3prio filho, como no caso dos le\u00f5es, porque eles n\u00e3o permanecem com as f\u00eameas. \u201cComo s\u00e3o prom\u00edscuos, podem estar matando o pr\u00f3prio filhote. Por isso, do ponto de vista evolutivo, e tamb\u00e9m dessas teorias de sele\u00e7\u00e3o sexual, a gente v\u00ea que o boto n\u00e3o se encaixa, e essa agress\u00e3o pode ser muito mais uma coisa disfuncional n\u00e3o adaptativa. Os machos se agrupam e s\u00e3o muito agressivos entre eles, mas n\u00e3o formam esses grupos coesos e de longa dura\u00e7\u00e3o, como entre outras esp\u00e9cies existentes\u201d.<\/p>\n<p>A gravidez da f\u00eamea do boto da Amaz\u00f4nia dura um ano. O nascimento ocorre entre setembro e outubro, quando o n\u00edvel da \u00e1gua est\u00e1 mais baixo e h\u00e1 alimento em abund\u00e2ncia. Embora ela copule com v\u00e1rios machos, tem um filhote por gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o advento da pandemia do novo coronav\u00edrus, o projeto foi suspenso temporariamente, mas a expectativa \u00e9 que as atividades de monitoramento retornem este ano. Em dezembro de 2020, todos os membros da equipe de 18 pessoas pegaram a doen\u00e7a. Preocupa \u00e0 pesquisadora haver pessoas em campo em \u00e1reas remotas que, em caso de necessidade, possam ser removidas rapidamente.<\/p>\n<p><strong>Preserva\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nVera Maria destacou a import\u00e2ncia do boto no mundo. A primeira esp\u00e9cie de golfinhos de \u00e1gua doce j\u00e1 foi extinta na China. Na \u00cdndia e no Paquist\u00e3o, existem outras duas esp\u00e9cies de \u00e1gua doce, na bacia do Rio Ganges. Outras esp\u00e9cies s\u00e3o encontradas no rio Amazonas, no Brasil. \u201cS\u00e3o esp\u00e9cies end\u00eamicas, que vivem exclusivamente na Amaz\u00f4nia. E a press\u00e3o sobre a Amaz\u00f4nia e as \u00e1guas da Amaz\u00f4nia \u00e9 muito grande\u201d, disse a cientista.<\/p>\n<p>Segundo ela, os estudos que o projeto faz para conhecer melhor a biologia s\u00e3o uma forma de garantir informa\u00e7\u00f5es suficientes sobre essa esp\u00e9cie para proteg\u00ea-la, para ter uma conserva\u00e7\u00e3o mais efetiva, e mostrar a import\u00e2ncia desses animais para a Amaz\u00f4nia como um todo e o equil\u00edbrio do ecossistema aqu\u00e1tico. S\u00e3o esp\u00e9cies que est\u00e3o bastante amea\u00e7adas pela a\u00e7\u00e3o humana, principalmente, apontou a cientista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um comportamento desconhecido, observado nos \u00faltimos anos por pesquisadores que estudam a vida dos botos cor-de-rosa, esp\u00e9cie tradicional da Amaz\u00f4nia, foi publicado na revista cient\u00edfica Behaviour, no ano passado, e dever\u00e1 continuar sendo objeto de acompanhamento este ano, t\u00e3o logo se resolva a quest\u00e3o de financiamento para o projeto. 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