{"id":278178,"date":"2022-01-13T10:39:05","date_gmt":"2022-01-13T13:39:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=278178"},"modified":"2022-01-13T16:06:55","modified_gmt":"2022-01-13T19:06:55","slug":"novo-pico-de-covid-pega-profissionais-de-surpresa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/novo-pico-de-covid-pega-profissionais-de-surpresa\/","title":{"rendered":"Novo pico de Covid pega profissionais de surpresa"},"content":{"rendered":"<p>O pico de novos casos de covid-19 por enquanto n\u00e3o tem, segundo ind\u00edcios iniciais, levado a um aumento na mortalidade. Mas a doen\u00e7a avan\u00e7a diante de equipes de sa\u00fade esgotadas, fragilizadas e desesperan\u00e7osas com os rumos da pandemia, segundo dizem pesquisadores, psiquiatras e especialistas que acompanham esses profissionais da sa\u00fade desde os prim\u00f3rdios da batalha contra o coronav\u00edrus, em mar\u00e7o de 2020. \u00c9 tamb\u00e9m o que dizem os pr\u00f3prios profissionais.<\/p>\n<p>&#8220;O que temos escutado \u00e9 que existe uma grande sensa\u00e7\u00e3o de exaust\u00e3o &#8211; de profissionais de sa\u00fade dizendo &#8216;n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Vou ter que tirar f\u00e9rias, n\u00e3o vou aguentar&#8217;, ao verem as emerg\u00eancias cheias novamente&#8221;, diz \u00e0 BBC News Brasil o psiquiatra Helian Nunes, um dos idealizadores do projeto Telepan Sa\u00fade, que desde o in\u00edcio da pandemia oferece sess\u00f5es de aconselhamento psicol\u00f3gico gratuito online a mais de 640 profissionais de sa\u00fade de todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de 200 pacientes ainda sendo acompanhados pelo Telepan (uma parceria da Universidade Federal de Minas Gerais com a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Neuropsiquiatria), alguns deles com sintomas de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico, explica Nunes.<\/p>\n<p>&#8220;Ficamos surpresos, porque ach\u00e1vamos que, quando a situa\u00e7\u00e3o melhorasse, ir\u00edamos zerar os atendimentos. Mas n\u00e3o foi o que aconteceu. Muitas pessoas seguem em atendimento at\u00e9 hoje, n\u00e3o pudemos dar alta. E quem vai ocupar o lugar delas nos hospitais?&#8221;<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de Nunes corrobora o que pesquisadores da Escola de Administra\u00e7\u00e3o de Empresas da FGV-SP escutaram de profissionais de sa\u00fade p\u00fablica do pa\u00eds, em rodadas de entrevistas que t\u00eam sido conduzidas desde abril de 2020. A mais recente foi publicada em outubro de 2021.<\/p>\n<p>&#8220;Nossa expectativa era de que os resultados seriam sempre melhores: que os profissionais iriam aprender (a lidar com a doen\u00e7a), que sentiriam menos medo, que as quest\u00f5es de sa\u00fade mental iriam se acomodar. E n\u00e3o \u00e9 isso o que os dados mostram&#8221;, explica \u00e0 BBC News Brasil a pesquisadora Gabriela Lotta, professora de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica e Governo da FGV.<\/p>\n<p>O medo dos profissionais de sa\u00fade entrevistados pela pesquisa &#8211; de t\u00e9cnicos de enfermagem a m\u00e9dicos &#8211; frente \u00e0 covid-19 se manteve em patamares acima de 80% ao longo de todas as rodadas da pesquisa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m mais de 80% deles sentiram que sua sa\u00fade mental foi afetada negativamente pela pandemia, mas menos de um ter\u00e7o (30%) afirmou ter recebido algum tipo de apoio para lidar com isso.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Esperan\u00e7a de normalidade que se perdeu&#8217;<\/strong><br \/>\n&#8220;Eles est\u00e3o l\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es muito ruins de sa\u00fade f\u00edsica e mental, e com a sensa\u00e7\u00e3o de falta de apoio de pol\u00edticas p\u00fablicas e uma esperan\u00e7a de normalidade que se perdeu&#8221;, avalia Lotta. &#8220;Uma frase que apareceu em muitas respostas \u00e9: &#8216;somos soldados largados na frente da batalha&#8217;. A sensa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o \u00e9 muito forte.&#8221;<\/p>\n<p>E, embora tenha havido um aprendizado t\u00e9cnico importante sobre como prevenir, enfrentar e tratar o coronav\u00edrus, a sucess\u00e3o de muta\u00e7\u00f5es do v\u00edrus e de novas ondas de covid-19 faz com que a sensa\u00e7\u00e3o de despreparo frente a doen\u00e7a continue elevada, explica Lotta.<\/p>\n<p>A enfermeira Alessandra Alencar Gadelha de Melo sente isso em seu dia a dia em dois hospitais (um p\u00fablico e um privado) em Salvador (BA), apesar de j\u00e1 acumular quase tr\u00eas d\u00e9cadas de experi\u00eancia na profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 claro que a gente sabe lidar melhor com o paciente de covid-19 ou de s\u00edndrome respirat\u00f3ria aguda grave. E a vacina\u00e7\u00e3o (em altos n\u00edveis no pa\u00eds) tamb\u00e9m d\u00e1 um conforto. Mas sempre vem uma apreens\u00e3o e ansiedade diante das novas variantes do coronav\u00edrus&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>Melo tamb\u00e9m \u00e9 presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Estado da Bahia e recebe relatos di\u00e1rios de colegas queixando-se da rotina em prontos-socorros lotados com pacientes com sintomas de covid-19 e influenza. Ela notou, ao longo da pandemia, a deteriora\u00e7\u00e3o da sa\u00fade f\u00edsica e mental dos enfermeiros de seu Estado.<\/p>\n<p>At\u00e9 2020, as principais queixas recebidas no sindicato eram relacionadas a atrasos salariais, explica a enfermeira. &#8220;Agora, a maioria das reclama\u00e7\u00f5es \u00e9 por quest\u00f5es de sa\u00fade mental, esgotamento mental e ass\u00e9dio moral, (por conta de) rela\u00e7\u00f5es de trabalho muito desgastadas e precarizadas.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s nos contaminamos muito e adoecemos muito &#8211; houve um escancaramento das fragilidades e da precariedade da profiss\u00e3o. Os enfermeiros precisam ter v\u00e1rios v\u00ednculos trabalhistas (empregos), e quase todos esses v\u00ednculos s\u00e3o prec\u00e1rios.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Os mais vulner\u00e1veis<\/strong><br \/>\nEnfermeiros, t\u00e9cnicos em enfermagem e agentes de sa\u00fade est\u00e3o entre os profissionais mais vulner\u00e1veis nas circunst\u00e2ncias atuais, avalia Gabriela Lotta.<\/p>\n<p>At\u00e9 porque esses grupos s\u00e3o compostos em sua maioria por mulheres, e muitos s\u00e3o negros, o que significa que j\u00e1 sofrem o peso de outras desigualdades socioecon\u00f4micas, e t\u00eam sal\u00e1rios relativamente baixos.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o pessoas em condi\u00e7\u00f5es piores para enfrentar a pandemia. Fazem dupla ou tripla jornada, muitas vezes n\u00e3o t\u00eam com quem deixar os filhos, ou t\u00eam de cuidar dos pr\u00f3prios pais. A sobrecarga mental \u00e9 ainda pior&#8221;, prossegue Lotta.<\/p>\n<p>O psiquiatra Helian Nunes observou, tamb\u00e9m, muita fragilidade entre um grupo ainda mais amplo de profissionais.<\/p>\n<p>&#8220;J\u00e1 no in\u00edcio a gente viu que a vulnerabilidade \u00e9 de todo o trabalhador (envolvido no atendimento a pacientes): desde o porteiro do hospital at\u00e9 o motorista da ambul\u00e2ncia&#8221;, pondera.<\/p>\n<p>Enfermarias, prontos-socorros e postos de sa\u00fade tamb\u00e9m sofrem com uma carga de trabalho e uma carga hor\u00e1ria crescentes, dizem os pesquisadores.<\/p>\n<p>&#8220;Chamou nossa aten\u00e7\u00e3o o fato de os profissionais de sa\u00fade prim\u00e1ria, como os que atendem em postos de sa\u00fade, mostrarem um n\u00edvel de sofrimento bastante alto, maior at\u00e9 de quem trabalha em hospitais&#8221;, explica \u00e0 BBC News Brasil D\u00e9bora Dupas Nascimento, doutora em Ci\u00eancias e pesquisadora em Sa\u00fade P\u00fablica da Fiocruz Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>Dupas \u00e9 coordenadora de uma pesquisa que entrevistou 518 profissionais de sa\u00fade sul-mato-grossenses entre outubro de 2020 e mar\u00e7o de 2021, cujos resultados foram publicados em novembro. E mais da metade dos entrevistados apresentaram sintomas &#8211; de leves a severos &#8211; de ansiedade, estresse e depress\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A literatura j\u00e1 mostra que, em contextos normais, profissionais da sa\u00fade j\u00e1 s\u00e3o mais suscet\u00edveis a esses transtornos. Agora, na pandemia, isso se agravou, reduzindo o n\u00famero de profissionais dispon\u00edveis por conta do n\u00famero de afastamentos&#8221;, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u00c9 que o contexto atual cria uma esp\u00e9cie de ciclo vicioso: quanto mais exaust\u00e3o e cont\u00e1gio, mais profissionais precisam ser temporariamente afastados de seus trabalhos, aumentando a press\u00e3o &#8211; e o risco de adoecimento &#8211; dos profissionais que ficam.<\/p>\n<p>\u00c9 comum nesses cen\u00e1rios, diz Dupas, que trabalhadores sejam pressionados a encurtar suas licen\u00e7as m\u00e9dicas ou a trabalhar doentes para suprir a demanda e cumprir plant\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;A gente tem ficado muito preocupado com esse desgaste, porque as equipes est\u00e3o sobrecarregadas novamente&#8221;, agrega Helian Nunes. &#8220;N\u00e3o estamos favorecendo a sa\u00fade dos nossos trabalhadores, e n\u00e3o tem profissional sobrando no mercado.&#8221;<\/p>\n<p>Dois m\u00e9dicos intensivistas consultados pela BBC News Brasil dizem que (felizmente), at\u00e9 o momento, o pico de casos de covid-19 n\u00e3o resultou em aumentos dr\u00e1sticos de casos graves que exijam interna\u00e7\u00f5es em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Mas ambos dizem que suas equipes est\u00e3o cansadas.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1 todo mundo exausto. Reviver outra onda \u00e9 mobilizar recursos e energias, e uma UTI de covid-19 exige o dobro ou o triplo (de esfor\u00e7o) do que uma UTI normal&#8221;, diz o m\u00e9dico Matheus Alves, intensivista em Bras\u00edlia. &#8220;Mas quem est\u00e1 na sa\u00fade vai tentar segurar, tirar for\u00e7a de onde n\u00e3o tem. Sen\u00e3o, quem que vai ser? A gente torce para as vacinas darem conta e para os casos pararem no m\u00e1ximo nas enfermarias.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Os colegas est\u00e3o meio resignados, s\u00e3o gato escaldado&#8221;, afirma Edino Parolo, intensivista em Porto Alegre (RS). &#8220;Mas tem v\u00e1rias pessoas que conhe\u00e7o que fazem planos de mudar de \u00e1rea (e sair de UTIs), se especializar em outras \u00e1reas. Porque ainda est\u00e3o se recuperando (da experi\u00eancia na pandemia).&#8221;<\/p>\n<p>O al\u00edvio da pandemia vivido entre meados e o final do ano passado havia aberto uma &#8220;janela de esperan\u00e7a&#8221; entre profissionais de sa\u00fade prim\u00e1ria &#8211; janela que \u00e9 fechada com a atual explos\u00e3o de casos, acredita Gabriela Lotta.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje eles conciliam a fila de testagem para o coronav\u00edrus com a fila de vacina\u00e7\u00e3o e com a fila de pacientes passando mal, e tudo isso com um componente a mais: o apag\u00e3o de dados na sa\u00fade&#8221;, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p>Embora os dados da pesquisa mais recente da FGV sejam do ano passado, &#8220;a hip\u00f3tese \u00e9 de que esses profissionais estejam agora com um sentimento muito ruim, com a sa\u00fade mental muito abalada. E, em todos os momentos em que a pandemia cresceu, isso era escancarado pelos n\u00fameros. Agora, isso \u00e9 muito mais invisibilizado&#8221;.<\/p>\n<p>Para D\u00e9bora Dupas Nascimento, da Fiocruz, \u00e9 preocupante o fato de t\u00e3o poucos profissionais de sa\u00fade terem acompanhamento psicol\u00f3gico em um momento t\u00e3o dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 preciso pensar em pol\u00edticas p\u00fablicas locais e nacionais para dar esse apoio a eles&#8221;, argumenta. &#8220;E tamb\u00e9m \u00e9 preciso haver momentos de lazer, com suas fam\u00edlias ou de atividade f\u00edsica, e momentos de autocuidado. Porque ele (profissional da sa\u00fade) cuida dos outros, mas n\u00e3o (tem podido) cuidar de si mesmo.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pico de novos casos de covid-19 por enquanto n\u00e3o tem, segundo ind\u00edcios iniciais, levado a um aumento na mortalidade. Mas a doen\u00e7a avan\u00e7a diante de equipes de sa\u00fade esgotadas, fragilizadas e desesperan\u00e7osas com os rumos da pandemia, segundo dizem pesquisadores, psiquiatras e especialistas que acompanham esses profissionais da sa\u00fade desde os prim\u00f3rdios da batalha [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":278179,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-278178","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278178","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=278178"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278178\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":278182,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278178\/revisions\/278182"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/278179"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=278178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=278178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=278178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}