{"id":278202,"date":"2022-01-14T06:13:34","date_gmt":"2022-01-14T09:13:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=278202"},"modified":"2022-01-14T06:33:14","modified_gmt":"2022-01-14T09:33:14","slug":"sentenca-inovadora-enaltece-o-cara-da-galera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sentenca-inovadora-enaltece-o-cara-da-galera\/","title":{"rendered":"Senten\u00e7a inovadora enaltece o cara da galera"},"content":{"rendered":"<p>Escolado por uma longa e proveitosa passagem pelos escal\u00f5es superiores e inferiores do Poder Judici\u00e1rio, vi e vivi uma evolu\u00e7\u00e3o que poucos mortais do s\u00e9culo passado imaginavam experimentar no poder. Resisti para afirmar que nada \u00e9 imut\u00e1vel, nem mesmo as pessoas providas de sentimentos ainda muito primitivos. Por exemplo, j\u00e1 ouvi de amigos absolutamente ateus o chamamento por Deus no momento mais tenso do fim da vida. Morreram, mas passam bem depois do perd\u00e3o divino. Tergiversa\u00e7\u00f5es \u00e0 parte, vamos direto ao assunto. J\u00e1 no in\u00edcio do s\u00e9culo 21, durante 17 anos, estive respons\u00e1vel pela Comunica\u00e7\u00e3o Social de tr\u00eas dos cinco tribunais superiores. Por meio dos jornais, revistas, sites, r\u00e1dios e televis\u00f5es, a tarefa era mostrar \u00e0 sociedade que os ministros s\u00e3o seres humanos igualzinho a qualquer um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Sempre em nome da lei, erram e acertam diariamente. Em outras palavras, n\u00e3o existem anjos entre os cerca de 15 mil ju\u00edzes em atividade no pa\u00eds. Tempos glamorosos, de muito aprendizado, mas de muito trabalho para convencer determinados ministros do STF, TSE e STJ da necessidade \u2013 na verdade obriga\u00e7\u00e3o \u2013 de prestar contas ao povo de seus afazeres como magistrados. Como? Quando necess\u00e1rio e poss\u00edvel, dando conhecimento de seus julgados ao contribuinte, sobretudo aquele com interesse na decis\u00e3o. Respeitemos os sigilos e nada mais. Claro que havia exce\u00e7\u00e3o, mas boa parte dos merit\u00edssimos \u00e0 moda antiga adorava se livrar do compromisso de dar declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas sobre seu trabalho. Para isso, usava um bord\u00e3o t\u00e3o antigo como o direito: juiz s\u00f3 fala nos autos.<\/p>\n<p>Perdoem-me os que um dia pensaram desse modo, mas sempre avaliei o clich\u00ea como mito, uma interpreta\u00e7\u00e3o m\u00edope do direito. Considerando que tanto ontem quanto hoje ou amanh\u00e3 a sociedade tem o direito de ter conhecimento sobre os representantes do Poder Judici\u00e1rio, as atribui\u00e7\u00f5es forenses t\u00eam de ser claras. Ou seja, juiz pode, e deve, falar fora dos autos. Obviamente, desde que n\u00e3o tenha pretens\u00f5es art\u00edsticas ou queira usar os holofotes em benef\u00edcio pr\u00f3prio. Um representante da justi\u00e7a de Goi\u00e1s resolveu inovar. E inovou com um tema que ainda \u00e9 tabu em varias fam\u00edlias brasileiras, notadamente as despudoradamente conservadoras.<\/p>\n<p>Em uma senten\u00e7a que deu e ainda dar\u00e1 muito o que falar, o magistrado goiano lamentou que se relacionar com prostitutas n\u00e3o \u00e9 mais um fato de boa reputa\u00e7\u00e3o. Publicada no Di\u00e1rio da Justi\u00e7a de Goi\u00e1s em 27 de setembro, o juiz Thiago Brand\u00e3o Boghi lembrou que, no seu tempo, esse tipo de relacionamento era salutar, inclusive garantindo ao pervertido alcoviteiro enaltecimento e destaque entre os amigos mais pudendos. &#8220;Era o cara da galera&#8221;. Segundo sua excel\u00eancia, lament\u00e1vel como os tempos mudaram. &#8220;Agora virou ofensa! Tempos sombrios!&#8221;, escreveu o mo\u00e7o de toga. Tudo isso porque um homem registrou queixa contra uma mulher que o acusou de usar drogas e &#8220;estar com putas&#8221;.<\/p>\n<p>O autor do processo acusa a r\u00e9 de cal\u00fania, inj\u00faria e difama\u00e7\u00e3o. A tal mulher teria feito fotos da orgia e enviado para a namorada do querelado. Afirmando que agiria do mesmo jeito se a situa\u00e7\u00e3o fosse inversa \u2013 algu\u00e9m enviar fotos da namorada do acusador com outro homem -, o juiz decidiu em favor da r\u00e9, assegurando que os fatos narrados n\u00e3o constituem crime. N\u00e3o sei qual o contexto \u2013 a a\u00e7\u00e3o corre em segredo de Justi\u00e7a -, mas, na mesma senten\u00e7a, o magistrado salientou que o ex-deputado Jean Willys \u00e9 queridinho da <em>Rede Globo<\/em> e que a legenda de esquerda PSOL \u00e9 &#8220;queridinha do STF&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o interessa o que ele quis dizer. Importante \u00e9 que sua excel\u00eancia tirou um peso da consci\u00eancia de 49,2% da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Os 50,8% restantes querem escalpelar o juiz. Para o bem de todos, melhor os homens optarem pela velha e desavergonhada manipula\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que, embora menos pudica, a atual nomenclatura (programa com meninas) est\u00e1 muito al\u00e9m do jardim dos senhores recatados. Quem sabe o progressista juiz n\u00e3o amplie o pr\u00f3prio habeas corpus \u00e0queles que ainda fazem da fuleragem e da devassid\u00e3o um bom meio de vida. Eu prefiro o recesso do lar.<\/p>\n<p><strong>*Mathuzal\u00e9m J\u00fanior \u00e9 jornalista profissional desde 1978<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escolado por uma longa e proveitosa passagem pelos escal\u00f5es superiores e inferiores do Poder Judici\u00e1rio, vi e vivi uma evolu\u00e7\u00e3o que poucos mortais do s\u00e9culo passado imaginavam experimentar no poder. 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