{"id":278317,"date":"2022-01-15T18:40:08","date_gmt":"2022-01-15T21:40:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=278317"},"modified":"2022-01-16T09:20:26","modified_gmt":"2022-01-16T12:20:26","slug":"garimpo-ilegal-contamina-mulheres-ferteis-com-mercurio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/garimpo-ilegal-contamina-mulheres-ferteis-com-mercurio\/","title":{"rendered":"Garimpo ilegal contamina mulheres com merc\u00fario"},"content":{"rendered":"<p>Numa casa de madeira \u2013 com dois c\u00f4modos, m\u00f3veis velhos e muitas goteiras \u2013 no munic\u00edpio de Porto Grande, interior do Amap\u00e1, uma jovem de 23 anos, que nasceu e criou os tr\u00eas filhos na regi\u00e3o, explica, com certo receio, que o garimpo pr\u00f3ximo \u00e0 resid\u00eancia sempre foi a \u00fanica fonte de renda da fam\u00edlia e, atualmente, tamb\u00e9m \u00e9 cen\u00e1rio de preocupa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade. \u201cTenho medo do que pode vir\u201d, diz.<\/p>\n<p>A identidade da jovem ser\u00e1 preservada e, por isso, a chamaremos por um nome fict\u00edcio: Ana. O medo de Ana est\u00e1 relacionado aos rumores de haver contamina\u00e7\u00e3o decorrente de produtos usados na explora\u00e7\u00e3o de ouro. A regi\u00e3o foi uma das quatro da Am\u00e9rica Latina que participaram de uma pesquisa para analisar a exposi\u00e7\u00e3o de mulheres ao merc\u00fario. O estudo \u2013 publicado pelas organiza\u00e7\u00f5es International Pollutants Elimination Network (IPEN) e Biodiversity Research Institute (BRI), com o apoio do Instituto de Pesquisa e Forma\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena (Iep\u00e9), que divulgou a pesquisa no Brasil em dezembro \u00faltimo \u2013 coletou amostras de fios de cabelo de 34 mulheres brasileiras e de outras 129 na Bol\u00edvia, Venezuela e Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>As mulheres que participaram do estudo t\u00eam entre 18 e 44 anos, idades classificadas como f\u00e9rteis. Em 58,8% dos casos analisados, identificou-se um n\u00edvel de contamina\u00e7\u00e3o por merc\u00fario superior ao limite de 1 ppm (parte por milh\u00e3o) estabelecido pela Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental dos Estados Unidos (USEPA) para a percep\u00e7\u00e3o dos efeitos negativos em fetos. Al\u00e9m disso, 66,8% excederam 0,58 ppm, n\u00edvel no qual, segundo os pesquisadores, os efeitos negativos podem come\u00e7ar a ocorrer.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o brasileira apresentou o segundo maior \u00edndice de contamina\u00e7\u00e3o, com o n\u00edvel m\u00e9dio de 2,98 ppm. O merc\u00fario \u00e9 um elemento l\u00edquido usado nos garimpos para ajudar na coleta e separa\u00e7\u00e3o do ouro, por conta da facilidade de se unir a outros metais e formar am\u00e1lgamas \u2013 ligas met\u00e1licas utilizadas na minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A <em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em> foi at\u00e9 a comunidade Vila Nova e investigou \u2013 com exclusividade \u2013 os impactos da contamina\u00e7\u00e3o para as mulheres.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso andar muito na estreita rua do vilarejo para ouvir d\u00favidas sobre problemas de sa\u00fade comuns entre os moradores. Esposas de garimpeiros relataram \u00e0s pesquisadoras a ocorr\u00eancia frequente de abortos espont\u00e2neos, crian\u00e7as com dificuldades respirat\u00f3rias e aparecimento de doen\u00e7as sem diagn\u00f3sticos definidos.<\/p>\n<p>\u201cO merc\u00fario pode atingir o sistema nervoso, o sistema reprodutivo da mulher. Ent\u00e3o muitas querem saber se o teor [de contamina\u00e7\u00e3o] delas est\u00e1 alto para terem, pelo menos, um horizonte para saber por onde come\u00e7ar a pesquisar doen\u00e7as que elas apresentam e que, hoje, n\u00e3o t\u00eam explica\u00e7\u00e3o\u201d, explicou Renata Ferreira, pesquisadora do Iep\u00e9 e uma das respons\u00e1veis pela coleta de fios de cabelo e aplica\u00e7\u00e3o de question\u00e1rios.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade \u00e9 recente. Antes, a ang\u00fastia local voltava-se, principalmente, para os riscos estruturais da garimpagem. O tio de Ana, por exemplo, morreu soterrado por uma encosta que desabou durante a extra\u00e7\u00e3o de ouro. Ana \u00e9 neta, filha e esposa de garimpeiro e disse que voltou a pensar em trabalhar como agricultora para distanciar os filhos dos perigos do garimpo. \u201cDepois que a gente soube [da contamina\u00e7\u00e3o], a nossa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que venha a acontecer outras doen\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p>Mas a falta de apoio e limita\u00e7\u00f5es financeiras, entre outras dificuldades, impedem mudan\u00e7as imediatas na vida de Ana e das outras mulheres que residem no local. \u201c\u00c9 mais a falta de recurso, ideia e espa\u00e7o a gente tem. Se eu pudesse eu escolheria isso [agricultura]. Tem gente que pensa que tem muito ouro, mas a gente t\u00e1 aqui s\u00f3 pra conseguir o b\u00e1sico pra viver.\u201d<\/p>\n<p><strong>Amea\u00e7as e boatos<\/strong><br \/>\nCom o dif\u00edcil acesso a sinais de telefone e internet, a not\u00edcia sobre a contamina\u00e7\u00e3o por merc\u00fario se espalhou na comunidade em forma de boato no segundo semestre de 2021. Na localidade, o n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o dos moradores \u00e9 baixo: a maioria n\u00e3o concluiu o ensino fundamental. Em uma das casas visitadas pela reportagem, apenas um dos cinco membros da fam\u00edlia frequentou a escola.<\/p>\n<p>Os problemas estruturais e sociais facilitaram a dissemina\u00e7\u00e3o de fake news sobre pesquisas cient\u00edficas e os danos do merc\u00fario \u00e0 sa\u00fade. \u201cDisseram que colocando filtro na torneira j\u00e1 resolve\u201d, disse uma moradora em rela\u00e7\u00e3o ao consumo de \u00e1gua possivelmente contaminada. \u201cTamb\u00e9m j\u00e1 ouvi que tem gente com azougue [merc\u00fario] no sangue, n\u00e3o sei se \u00e9 verdade\u201d, completou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a pobreza, o medo da fome e a falta de informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o fatores que levam muitos ali a defender a atividade garimpeira. Em julho de 2021, as atividades da Cooperativa dos Garimpeiros do Vale do Vila Nova (Coopgavin) deveriam ter sido paralisadas ap\u00f3s a interdi\u00e7\u00e3o do garimpo para a regulariza\u00e7\u00e3o estrutural das barragens de rejeitos, conforme parecer t\u00e9cnico da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema). Contudo, a explora\u00e7\u00e3o mineral permanece ilegalmente e em menor escala por, justificam os garimpeiros, n\u00e3o haver outro meio de trabalho.<\/p>\n<p>Um membro da Coopgavin nos disse que, ap\u00f3s a interdi\u00e7\u00e3o, parte da comunidade passou a se alimentar somente com os produtos oferecidos em cestas b\u00e1sicas doadas por empresas do munic\u00edpio vizinho. \u201cVem arroz, feij\u00e3o, essas coisas, mas falta a prote\u00edna.\u201d Com isso, os moradores decidiram voltar ao garimpo, que gera de R$ 200 a R$ 500 semanais \u00e0 cada fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A regulariza\u00e7\u00e3o da \u00e1rea est\u00e1 condicionada a mudan\u00e7as estruturais e n\u00e3o engloba requisitos sobre a redu\u00e7\u00e3o ou elimina\u00e7\u00e3o do uso de metais l\u00edquidos. Em 2018, o Brasil promulgou a Conven\u00e7\u00e3o de Minamata sobre Merc\u00fario, que limita o uso do elemento no territ\u00f3rio nacional. A P\u00fablica entrou em contato com o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama), mas n\u00e3o obteve respostas sobre as a\u00e7\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es relacionadas ao controle do com\u00e9rcio e produ\u00e7\u00e3o de merc\u00fario no Brasil.<\/p>\n<p>Em regi\u00f5es pr\u00f3ximas \u00e0 comunidade Vila Nova, h\u00e1 garimpos que nunca tiveram autoriza\u00e7\u00e3o de funcionamento e s\u00e3o administrados por grupos que geram tens\u00e3o entre os garimpeiros licenciados e os que atuam clandestinamente. Quem mora no local tem receio de falar sobre os conflitos.<\/p>\n<p>O vilarejo, assim como outras comunidades localizadas em \u00e1reas de garimpo, \u00e9 visto como \u201cterra sem lei\u201d pelos moradores, em decorr\u00eancia da falta de seguran\u00e7a p\u00fablica e da domina\u00e7\u00e3o de pequenos grupos que controlam o com\u00e9rcio de ouro. \u201cAcontece de tudo por aqui, tr\u00e1fico, prostitui\u00e7\u00e3o\u2026\u201d, contou uma pessoa \u00e0 nossa equipe, apontando para um pequeno barraco onde, segundo ela, ocorreria a explora\u00e7\u00e3o sexual de jovens. Apesar disso, \u00e9 muito presente um clima de solidariedade nas vizinhan\u00e7as \u2013 as fam\u00edlias ajudam umas \u00e0s outras nos momentos de dificuldade financeira, com alimenta\u00e7\u00e3o e transporte, por exemplo.<\/p>\n<p>Esse contexto regional ajuda a explicar os desafios da pesquisa e por que os resultados ainda n\u00e3o foram entregues \u00e0s mulheres, que participaram voluntariamente. A pesquisadora do Iep\u00e9, Renata Ferreira, contou que as participantes estavam curiosas e sol\u00edcitas com o estudo, mas as mulheres teriam ficado com receio de passar informa\u00e7\u00f5es ap\u00f3s a chegada do presidente da cooperativa na comunidade. N\u00e3o ficou claro se houve uma proibi\u00e7\u00e3o expl\u00edcita. \u201cCom a presen\u00e7a dele, muitas se retra\u00edram e n\u00e3o quiseram mais participar.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as pesquisadoras relataram amea\u00e7as de garimpeiros para impedir a continua\u00e7\u00e3o dos trabalhos. Uma caminhonete \u2014 o dono do ve\u00edculo n\u00e3o foi identificado \u2014 chegou a ser incendiada para enviar uma \u201cmensagem\u201d sobre as consequ\u00eancias do prosseguimento do estudo. O \u201crecado\u201d teria sido repassado pelo frentista de um posto de gasolina de um munic\u00edpio pr\u00f3ximo tamb\u00e9m afetado pela minera\u00e7\u00e3o, Pedra Branca do Amapari.<\/p>\n<p>\u201cInformou a gente que seria melhor n\u00e3o entrar mais no garimpo. Eu perguntei por que n\u00e3o e ele: \u2018Ah, vai ter um recado para voc\u00eas na estrada\u2019. Continuamos na estrada e vimos uma caminhonete queimando\u201d, contou a pesquisadora, destacando que esse foi o motivo para a n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o de um segundo dia de coleta. \u201cEle [frentista] havia nos dito que poderia acontecer conosco o que aconteceu com o outro carro. Decidimos retornar com as poucas amostras que a gente tinha.\u201d<\/p>\n<p>Com as amea\u00e7as, as pesquisadoras est\u00e3o com medo de retornar ao local e entregar os resultados das an\u00e1lises. As mulheres que aceitaram doar amostras de cabelo teriam sido advertidas pelos maridos. H\u00e1 tamb\u00e9m relatos de que a pesquisa foi tema de um serm\u00e3o na \u00fanica igrejinha evang\u00e9lica constru\u00edda na comunidade. Testemunhas relataram que o l\u00edder religioso orientou as fi\u00e9is a n\u00e3o colaborar com o estudo por representar um atentado ao \u201cv\u00e9u\u201d \u2013 denomina\u00e7\u00e3o utilizada pelo pastor para se referir ao cabelo das crist\u00e3s.<\/p>\n<p>Mesmo com as limita\u00e7\u00f5es, a quantidade de amostras coletadas foi suficiente para evidenciar os efeitos indiretos do garimpo artesanal. Apontam um alto \u00edndice de contamina\u00e7\u00e3o em mulheres que n\u00e3o atuam na explora\u00e7\u00e3o de ouro, mas consomem regularmente peixes do rio Vila Nova. As consequ\u00eancias, no entanto, podem alcan\u00e7ar um n\u00famero muito maior de regi\u00f5es, a partir do com\u00e9rcio das esp\u00e9cies contaminadas, explicou o coordenador de gest\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o do Iep\u00e9, Decio Yokota.<\/p>\n<p>\u201cA parte nefasta do merc\u00fario \u00e9 essa. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma contamina\u00e7\u00e3o localizada das pessoas que est\u00e3o trabalhando nisso, que moram ali. As pessoas est\u00e3o sendo exploradas. As pessoas n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia do que ocorre com a pr\u00f3pria vida. Elas est\u00e3o contaminando o meio ambiente com o uso desse elemento, e essa contamina\u00e7\u00e3o est\u00e1 indo para a popula\u00e7\u00e3o em geral atrav\u00e9s do pescado\u201d, disse Yokota.<\/p>\n<p>Pelo menos mil pessoas vivem na comunidade Vila Nova. Quando a reportagem chegou ao local, o fornecimento de energia el\u00e9trica estava interrompido havia mais de dois dias. No \u00fanico posto de sa\u00fade, apenas uma t\u00e9cnica de enfermagem realizava, havia quase duas semanas, o atendimento dos moradores. \u201cEla faz trabalho de m\u00e9dico, enfermeiro, de tudo\u201d, contou uma ribeirinha.<\/p>\n<p>A localidade est\u00e1 situada no meio da selva amaz\u00f4nica, tem estreitos corredores de \u00e1gua e p\u00e2ntanos de floresta baixa e densa. H\u00e1 reflexos n\u00edtidos da atividade de garimpo no cotidiano das fam\u00edlias: maquin\u00e1rio pesado estacionado em frente a algumas resid\u00eancias, garimpeiros caminhando com roupas sujas de barro e segurando peneiras de madeira, por exemplo. As irregularidades no solo e os relevos resultantes de escava\u00e7\u00f5es podem ser percebidos em v\u00e1rios pontos, como na casa de uma mulher de 28 anos que tem de \u201cquintal\u201d uma imensa \u00e1rea utilizada na minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Nome, sobrenome e CNPJ<\/strong><br \/>\nPara ela, o garimpo \u00e9 uma fonte de renda e inseguran\u00e7a \u00e0 vida dos quatro filhos. Na esperan\u00e7a de evitar uma poss\u00edvel contamina\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, o marido construiu um po\u00e7o artesiano para n\u00e3o utilizar mais a \u00e1gua do rio. Um outro estudo j\u00e1 havia apontado a contamina\u00e7\u00e3o de peixes por merc\u00fario em comunidades tradicionais do Amap\u00e1. Os n\u00edveis mais altos de contamina\u00e7\u00e3o foram detectados nas esp\u00e9cies carn\u00edvoras mais consumidas pelos moradores: pirarucu, tucunar\u00e9 e trair\u00e3o. As coletas foram realizadas pelo Iep\u00e9, ICMBio, Instituto de Pesquisas Cient\u00edficas e Tecnol\u00f3gicas do Amap\u00e1 (Iepa) e WWF.<\/p>\n<p>As medidas adotadas pelos moradores s\u00e3o insuficientes diante dos perigos do merc\u00fario, que, presente em res\u00edduos tamb\u00e9m despejados no meio ambiente, evapora e se espalha atrav\u00e9s do solo para os cursos d\u2019\u00e1gua. \u201cO garimpo traz uma s\u00e9rie de problemas, mas a sa\u00fade tem o impacto mais amplo; e as mulheres s\u00e3o as mais afetadas a longo prazo por conta da gravidez\u201d, refor\u00e7ou Yokota.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da comunidade Vila Nova, a pesquisa envolveu El Callao (Venezuela), onde, assim como no Brasil, o merc\u00fario \u00e9 usado para a extra\u00e7\u00e3o de ouro; \u00cdnquiria (Col\u00f4mbia), local em que o elemento deixou de ser utilizado h\u00e1 mais de cinco anos; e uma \u00e1rea ao redor do rio Beni, na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>As bolivianas apresentaram os n\u00edveis mais preocupantes de contamina\u00e7\u00e3o, com 7,58 ppm. S\u00e3o ind\u00edgenas que fazem parte dos povos Eyiyo Quibo e Portachuelo e n\u00e3o t\u00eam contato com a minera\u00e7\u00e3o nem s\u00e3o beneficiadas pela explora\u00e7\u00e3o de ouro, mas se alimentam de peixes do rio Beni. O relat\u00f3rio que resultou do estudo descreve que a \u00e1rea sofre com polui\u00e7\u00e3o da fauna e de recursos h\u00eddricos, em decorr\u00eancia do funcionamento de dragas \u2013 grandes maquin\u00e1rios usados para a dragagem de ouro \u2013 itinerantes na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, salienta o coordenador de gest\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o do Iep\u00e9, interesses de grupos pol\u00edticos, inclusive no Brasil, s\u00e3o empecilhos para a conscientiza\u00e7\u00e3o dos setores mais afetados por essa contamina\u00e7\u00e3o. \u201cOs trabalhadores do garimpo s\u00e3o as maiores v\u00edtimas; os donos do garimpo \u00e9 que se beneficiam com essa pol\u00edtica. No fundo, tudo tem a ver com a cadeia econ\u00f4mica e quem t\u00e1 se beneficiando l\u00e1 em cima.\u201d<\/p>\n<p><strong>Peixes e contamina\u00e7\u00e3o por cianeto<\/strong><br \/>\nPr\u00f3ximo \u00e0 comunidade Vila Nova, ribeirinhos convivem com os efeitos imediatos da minera\u00e7\u00e3o industrial de ouro. Comunidades pesqueiras do munic\u00edpio de Pedra Branca do Amapari, centro-oeste do Amap\u00e1, passaram a registrar a mortandade peri\u00f3dica de peixes na regi\u00e3o. Um dos registros mais recentes, de novembro de 2021, evidencia mais de duas toneladas de peixes mortos, al\u00e9m de manchas na pele, dores de cabe\u00e7a e mal-estar nos moradores.<\/p>\n<p>A altera\u00e7\u00e3o da qualidade da \u00e1gua e a mortandade dos peixes foram atribu\u00eddas ao despejo de cianeto decorrente das opera\u00e7\u00f5es da Mina Tucano, subsidi\u00e1ria da mineradora canadense a Great Panther Mining Limited, conforme um relat\u00f3rio t\u00e9cnico da Sema. O \u00f3rg\u00e3o aplicou tr\u00eas autos de infra\u00e7\u00e3o ambiental \u00e0 mineradora, somando multa de R$ 50 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A P\u00fablica teve acesso a relatos que mostram o desespero de ribeirinhos diante dos preju\u00edzos para atividade pesqueira e sa\u00fade dos moradores, sem alternativas de renda e subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cMoro h\u00e1 40 anos aqui e nunca tinha visto isso. Me deu vontade de chorar quando eu vi aquilo tudo [peixes mortos]. A gente n\u00e3o v\u00ea peixe e n\u00e3o se pode mais pescar e nem tomar banho no rio\u201d, lamentou uma idosa de 70 anos, da comunidade de Xivete, a mais afetada pelos danos ambientais.<\/p>\n<p>Em nota, a Great Panther \u2013 que atua tamb\u00e9m no M\u00e9xico e Peru com a explora\u00e7\u00e3o de ouro e prata \u2013 informou estar investigando as rela\u00e7\u00f5es dos danos ambientais com as opera\u00e7\u00f5es da empresa e que preparou uma defesa formal contra a multa milion\u00e1ria, que tem prazo de pagamento estipulado at\u00e9 30 de janeiro.<\/p>\n<p>Entre os atingidos est\u00e1 um vereador do munic\u00edpio. Ele disse ter presenciado imagens de uma barragem que teria se rompido e provocado a trag\u00e9dia. \u201cEst\u00e1 um lama\u00e7al muito grande por onde a \u00e1gua desaguou e veio trazendo a mortandade de peixes at\u00e9 chegar ao rio Amapari.\u201d<\/p>\n<p>O Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) ingressou com den\u00fancia no Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), que a encaminhou ao Minist\u00e9rio P\u00fablico (MP) do Amap\u00e1. O \u00f3rg\u00e3o estadual estava de recesso at\u00e9 o dia 6 de janeiro e ainda n\u00e3o apresentou um posicionamento oficial sobre o caso.<\/p>\n<p>Os ribeirinhos atingidos, enquanto n\u00e3o h\u00e1 ressarcimento dos danos, est\u00e3o sobrevivendo com doa\u00e7\u00f5es de \u00e1gua mineral e alimentos, e permanecem com d\u00favidas sobre o futuro. \u201cA gente n\u00e3o sabe dizer o que foi que jogaram a\u00ed pra cima, n\u00e9 [para gerar a contamina\u00e7\u00e3o]? A gente s\u00f3 sabe que t\u00e1 passando aqui no nosso terreno\u201d, relatou uma das pessoas afetadas. \u201cA gente n\u00e3o pode mais pescar. A gente depende disso aqui.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa casa de madeira \u2013 com dois c\u00f4modos, m\u00f3veis velhos e muitas goteiras \u2013 no munic\u00edpio de Porto Grande, interior do Amap\u00e1, uma jovem de 23 anos, que nasceu e criou os tr\u00eas filhos na regi\u00e3o, explica, com certo receio, que o garimpo pr\u00f3ximo \u00e0 resid\u00eancia sempre foi a \u00fanica fonte de renda da fam\u00edlia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":278318,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-278317","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278317","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=278317"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278317\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":278366,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278317\/revisions\/278366"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/278318"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=278317"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=278317"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=278317"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}