{"id":278353,"date":"2022-01-16T06:44:48","date_gmt":"2022-01-16T09:44:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=278353"},"modified":"2022-01-16T18:09:40","modified_gmt":"2022-01-16T21:09:40","slug":"diabeticos-vivem-os-dramas-da-cegueira-e-impotencia-sexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/diabeticos-vivem-os-dramas-da-cegueira-e-impotencia-sexual\/","title":{"rendered":"Diab\u00e9ticos vivem drama da cegueira e impot\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>O diabetes costuma ser chamado de doen\u00e7a silenciosa porque metade dos pacientes n\u00e3o sabem da presen\u00e7a dele e muitas vezes s\u00f3 descobrem isso tarde demais. N\u00e3o \u00e9 incomum que a pergunta &#8220;voc\u00ea tem diabetes?&#8221; interrompa a fundoscopia (exame de fundo de olho) em consult\u00f3rio oftalmol\u00f3gico e a resposta seja um &#8220;n\u00e3o que eu saiba, doutor&#8221;. &#8220;E nesse momento o paciente \u00e9 salvo pelo oftalmologista&#8221;, conta \u00e0 <em>BBC News Brasil<\/em> a m\u00e9dica endocrinologista Rosane Kupfer, membro do departamento de doen\u00e7as oculares da Sociedade Brasileira de Diabetes.<\/p>\n<p>Outro caso comum de descoberta por acaso do diabetes silencioso \u00e9 a disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til (ou impot\u00eancia sexual). H\u00e1 diversos fatores associados \u00e0 dificuldade de o p\u00eanis ficar ou permanecer ereto, mas o excesso de glicose no sangue tamb\u00e9m pode lesionar pequenos vasos e dificultar a circula\u00e7\u00e3o de sangue no corpo todo, inclusive no p\u00eanis. Estima-se que esse mal afete metade dos homens com diabetes e seja a principal causa de disfun\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Mas por que o diabetes, um problema ligado \u00e0 taxa de a\u00e7\u00facar no sangue que afeta 17 milh\u00f5es de pessoas no Brasil com idades entre 20 e 79 anos, pode impactar diversos \u00f3rg\u00e3os do corpo, como os olhos e o p\u00eanis?<\/p>\n<p>Primeiro, \u00e9 preciso entender o que \u00e9 o diabetes, mas em seguida a BBC News Brasil trar\u00e1 detalhes de sintomas e tratamentos dos impactos da doen\u00e7a na sa\u00fade sexual de homens e de mulheres tamb\u00e9m, al\u00e9m daquela que talvez seja a mais temida das consequ\u00eancias pelos pacientes: a cegueira.<\/p>\n<p>Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e a Sociedade Brasileira de Diabetes, um p\u00e2ncreas em condi\u00e7\u00f5es normais produz horm\u00f4nios que regulam o n\u00edvel de a\u00e7\u00facar no sangue. Essa taxa varia quando se ingere um alimento, por exemplo. Mas no caso do diabetes mellitus, o corpo se torna incapaz de controlar esses n\u00edveis de glicose no sangue por n\u00e3o ter o suficiente ou n\u00e3o conseguir usar direito o horm\u00f4nio que faz essa regula\u00e7\u00e3o, a famosa insulina. Isso leva a diversos desdobramentos problem\u00e1ticos no corpo, entre eles doen\u00e7as nos olhos que podem levar \u00e0 cegueira e a disfun\u00e7\u00e3o sexual em homens e mulheres.<\/p>\n<p>Os dois tipos principais de diabetes s\u00e3o o tipo 1 e o tipo 2. O tipo 1 frequentemente \u00e9 diagnosticado na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia por fatores gen\u00e9ticos e sintom\u00e1ticos, como sede e fome constantes, vontade frequente de urinar, cansa\u00e7o, fraqueza, perda de peso e mudan\u00e7a de humor.<\/p>\n<p>O tipo 2, que afeta 90% das pessoas com diabetes, t\u00eam poucos sintomas ou at\u00e9 nenhum e se caracteriza geralmente por seu surgimento mais lento e gradual. Por praticamente n\u00e3o ter sintomas, este \u00e9 o tipo considerado silencioso que pode ser descoberto por acaso num exame oftalmol\u00f3gico ou por epis\u00f3dios de disfun\u00e7\u00e3o sexual. A principal causa (ou fator de risco) do tipo 2 \u00e9 a obesidade.<\/p>\n<p>O diabetes pode interferir de v\u00e1rias formas no funcionamento do organismo humano, mas isso se d\u00e1 principalmente por duas vias: neurol\u00f3gica, porque o diabetes mexe com os nervos que regulam o funcionamento do corpo, e cardiovascular, pois piora a circula\u00e7\u00e3o do sangue \u2014 danos nos vasos sangu\u00edneos podem provocar complica\u00e7\u00f5es nos olhos e tamb\u00e9m na fun\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>&#8220;O diabetes \u00e9 uma doen\u00e7a que afeta as estruturas vasculares do organismo, e essas estruturas vasculares s\u00e3o respons\u00e1veis por levar oxig\u00eanio para as c\u00e9lulas. Ent\u00e3o, quando voc\u00ea tem a oclus\u00e3o (bloqueio) de um vaso, vai faltar oxig\u00eanio para um determinado \u00f3rg\u00e3o, para um determinado tipo de c\u00e9lula, para todo o organismo&#8221;, explica Kupfer, da Sociedade Brasileira de Diabetes.<\/p>\n<p>Especialistas lembram que, em 90% dos casos, todas essas doen\u00e7as e consequ\u00eancias poderiam ser prevenidas ou atenuadas com mudan\u00e7as na alimenta\u00e7\u00e3o inadequada e sedentarismo. Ou seja, com alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e pr\u00e1tica regular de exerc\u00edcios f\u00edsicos.<\/p>\n<p>Como citado acima, o diabetes pode interferir de v\u00e1rias formas no funcionamento do p\u00eanis, mas em linhas gerais s\u00e3o duas: a primeira \u00e9 a neurol\u00f3gica porque o diabetes pode mexer com os nervos que regulam o funcionamento de \u00f3rg\u00e3os como o p\u00eanis, por exemplo.<\/p>\n<p>A segunda \u00e9 a cardiovascular, devido a uma piora da circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea que leva a um pior funcionamento do bombeamento de sangue para dentro do p\u00eanis, o que aumenta a press\u00e3o e gera a rigidez no ato sexual.<\/p>\n<p>A disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til (a incapacidade que o homem tem de ter ou manter uma ere\u00e7\u00e3o suficiente para atividade sexual satisfat\u00f3ria) afeta mais da metade dos homens com diabetes, segundo uma an\u00e1lise de 145 estudos sobre o tema que foi publicada em 2017 na revista cient\u00edfica Diabetic Medicine. O diabetes \u00e9 a principal causa de disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til em adultos.<\/p>\n<p>&#8220;O homem pode ter uma falha, brochar (como se diz popularmente) de vez em quando. \u00c9 normal porque ningu\u00e9m \u00e9 uma m\u00e1quina&#8221;, diz \u00e0 BBC News Brasil o m\u00e9dico Eduardo de Paula Miranda, diretor do departamento de andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia. Quando isso pode ser um problema de sa\u00fade? &#8220;Quando come\u00e7a a ser persistente, falhas umas atr\u00e1s da outra, ao longo tempo e come\u00e7a a interferir na qualidade de vida do sujeito&#8221;, responde ele.<\/p>\n<p>No caso dos homens, quando acontecem altera\u00e7\u00f5es nesses vasos sangu\u00edneos e nos nervos do p\u00eanis, a ere\u00e7\u00e3o enfrenta obst\u00e1culos por causa do estreitamento das art\u00e9rias e da diminui\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o do sangue \u2014 e as termina\u00e7\u00f5es nervosas respons\u00e1veis pelo desejo sexual tamb\u00e9m podem ser afetadas.<\/p>\n<p>Nesse caso de problemas de irriga\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea, o p\u00eanis acaba com dificuldades de ficar e permanecer ereto. E a partir de ent\u00e3o \u00e9 recomendado que esse paciente tamb\u00e9m procure um m\u00e9dico especialista para avaliar o aparelho cardiovascular, explica Kupfer, da Sociedade Brasileira de Diabetes. &#8220;Ali pode haver pista para outros acometimentos do diabetes.&#8221;<\/p>\n<p>A excita\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9 importante ressaltar, est\u00e1 ligada aos mais diversos aspectos, como est\u00edmulo visual, imagina\u00e7\u00e3o, toque e cheiro. Quando h\u00e1 um problema recorrente de impot\u00eancia, especialistas ressaltam a import\u00e2ncia de que seja feita tamb\u00e9m uma consulta m\u00e9dica a dois, quando se \u00e9 um casal, pois as causas, al\u00e9m do diabetes, geralmente s\u00e3o org\u00e2nicas, psicog\u00eanicas (transtornos mentais) ou sexuais.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) afirma que a sexualidade \u00e9 influenciada pela intera\u00e7\u00e3o de alguns fatores, como biol\u00f3gicos, psicol\u00f3gicos, socioecon\u00f4micos, pol\u00edticos, culturais, \u00e9ticos, legais, hist\u00f3ricos, religiosos e espirituais. H\u00e1 tamb\u00e9m outras quest\u00f5es envolvidas, segundo especialistas, como identidades de g\u00eanero, sexo, orienta\u00e7\u00e3o sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de efeitos colaterais de rem\u00e9dios (como alguns para hipertens\u00e3o) e de procedimentos cir\u00fargicos na bexiga ou na pr\u00f3stata. Recomenda-se que o diagn\u00f3stico seja feito apenas por m\u00e9dicos especializados.<\/p>\n<p>Esse problema, por\u00e9m, n\u00e3o afeta apenas homens e p\u00eanis. As mulheres tamb\u00e9m sofrem com o impacto do diabetes na fun\u00e7\u00e3o sexual, mas esse tema raramente \u00e9 discutido, estudado ou divulgado.<\/p>\n<p>Para Nick Oliver, especialista em metabolismo e diabetes da Universidade Imperial College London, no Reino Unido, h\u00e1 diversas raz\u00f5es para isso. Em editorial publicado na Diabetic Medicine, explica que h\u00e1 falta de compreens\u00e3o sobre mudan\u00e7as na fun\u00e7\u00e3o sexual feminina em decorr\u00eancia do diabetes, desconforto em abordar o tema, tanto pela paciente quanto pelo profissional de sa\u00fade, e, por fim, falta de interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas com comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para tratar a disfun\u00e7\u00e3o sexual feminina.<\/p>\n<p>Um estudo assinado por sete pesquisadores da B\u00e9lgica, Holanda e Austr\u00e1lia, publicado em 2021 pela mesma Diabetic Medicine, apontou que 36% das mulheres com diabetes tipo 1 relataram disfun\u00e7\u00e3o sexual, n\u00famero maior que mulheres com diabetes tipo 2 e muito pr\u00f3ximo ao n\u00famero de homens com diabetes e impot\u00eancia. Um estudo na Noruega, com menos pacientes, chegou a apontar a incid\u00eancia de disfun\u00e7\u00e3o sexual em mais de 50% das mulheres com diabetes do tipo 1.<\/p>\n<p>Para Miranda, da Sociedade Brasileira de Urologia, &#8220;o controle estrito e rigoroso do diabetes \u00e9 fundamental para prevenir complica\u00e7\u00f5es da sa\u00fade sexual do homem e da mulher&#8221;. Ele explica que a sa\u00fade sexual tanto masculina quanto feminina est\u00e1 associada \u00e0 sa\u00fade geral deles, e a preven\u00e7\u00e3o passa pelo controle de comorbidades e da sa\u00fade f\u00edsica e emocional do paciente (mais especificamente alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, atividade f\u00edsica regular, sono de qualidade e redu\u00e7\u00e3o do estresse).<\/p>\n<p>&#8220;A sa\u00fade mental tamb\u00e9m \u00e9 um dos grandes determinantes da sa\u00fade sexual&#8221;, afirma Miranda. &#8220;Existe um problema na disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til que \u00e9: n\u00e3o importa o que levou o paciente a falhar, mas uma vez que ele falha, isso come\u00e7a a afetar muito a autoestima e a autoconfian\u00e7a dele, e ent\u00e3o entra um componente psicol\u00f3gico muito importante que agrava ainda mais o problema.&#8221;<\/p>\n<p>Os tratamentos da disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til podem ser de dois tipos: os n\u00e3o medicamentosos e os medicamentosos.<\/p>\n<p>Os primeiros giram em torno de terapias. \u00c9 sempre indicado que esse paciente tenha suporte terap\u00eautico para lhe ajudar a lidar com o estresse, excesso de adrenalina e preocupa\u00e7\u00e3o, que atrapalham a ere\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso das abordagens medicamentosas, para homens h\u00e1 rem\u00e9dios dispon\u00edveis no mercado que s\u00e3o capazes de melhorar a dura\u00e7\u00e3o, rigidez e capacidade de manter a ere\u00e7\u00e3o por mais tempo. &#8220;Eles melhoraram a circula\u00e7\u00e3o de sangue no p\u00eanis e aumentam a press\u00e3o dentro dos corpos cavernosos que s\u00e3o as c\u00e2meras da ere\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Miranda.<\/p>\n<p>H\u00e1 pelo menos sete medicamentos dispon\u00edveis com diferentes caracter\u00edsticas, sendo o mais comum o sildenafil (Viagra). Miranda alerta, no entanto, que esse comprimidos podem n\u00e3o funcionar no caso de pacientes com diabetes descontrolados e problemas mais severos nos nervos. &#8220;Muitas vezes esse paciente precisa ir para tratamentos farmacol\u00f3gicos mais intensivos ou invasivos, como as inje\u00e7\u00f5es que s\u00e3o administradas no pr\u00f3prio p\u00eanis na hora da rela\u00e7\u00e3o sexual para poder ter uma ere\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>A disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til aumenta com o passar da idade, mesmo sem diabetes. Em geral, a partir dos 45 anos, h\u00e1 maior ocorr\u00eancia de homens com problemas de ere\u00e7\u00e3o. No caso do paciente com diabetes, quanto mais tempo ele enfrenta essa doen\u00e7a, maior \u00e9 a chance de ele desenvolver problemas de ere\u00e7\u00e3o mais cedo ou mais severo. Isso pode ser atenuado caso o diabetes esteja sob controle.<\/p>\n<p>Segundo o Instituto Nacional de Diabetes e Doen\u00e7as Digestivas e Renais dos Estados Unidos, o diabetes afeta os olhos quando a taxa de glicose no sangue est\u00e1 muito alta e pode causar quatro doen\u00e7as oculares: retinopatia diab\u00e9tica, edema macular diab\u00e9tico, catarata e glaucoma.<\/p>\n<p>Uma pessoa com diabetes t\u00eam duas vezes mais chances de ter catarata e glaucoma, que pode ser uma complica\u00e7\u00e3o da retinopatia diab\u00e9tica que danifica o nervo \u00f3ptico (estrutura do sistema nervoso que conecta o olho ao c\u00e9rebro). Ambas as doen\u00e7as, quando n\u00e3o tratadas, podem levar \u00e0 perda de vis\u00e3o.<\/p>\n<p>A cegueira \u00e9 considerada uma das complica\u00e7\u00f5es mais graves e temidas do diabetes. &#8220;Se voc\u00ea perguntar para esse paciente qual \u00e9 o seu maior temor, a maioria vai dizer &#8216;eu n\u00e3o quero ficar cego'&#8221;, explica Kupfer, da Sociedade Brasileira de Diabetes.<\/p>\n<p>Mas como a les\u00e3o chega a esse ponto? No caso da retinopatia diab\u00e9tica, Rodrigo Jorge, professor da USP Ribeir\u00e3o Preto, explica que a glicose em excesso no sangue machuca uma c\u00e9lula chamada pericito, que d\u00e1 suporte ao menor vaso presente na retina, o capilar. Essa \u00e9 uma das primeiras altera\u00e7\u00f5es nos tecidos humanos causadas pela doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Perdendo esse suporte e com a morte dessas c\u00e9lulas, ocorre uma altera\u00e7\u00e3o nesse capilar da retina, revestimento interno no fundo do olho respons\u00e1vel por transformar a luz em sinais que o c\u00e9rebro interpreta para que enxergamos e compreendamos as coisas.<\/p>\n<p>&#8220;A hiperglicemia machuca a parede do capilar, e nesse movimento a retina \u00e9 machucada, mas n\u00e3o somente e a partir da\u00ed tem microangiopatias. Ou seja, um machucado na circula\u00e7\u00e3o: os vasos ficam fr\u00e1geis e rompem&#8221;, explica o oftalmologista. &#8220;O primeiro sinal que se encontra no fundo do olho s\u00e3o pequenos pontos hemorr\u00e1gicos ou os microaneurismas que s\u00e3o as dilata\u00e7\u00f5es na parede dos capilares da retina.&#8221;<\/p>\n<p>Para compreens\u00e3o da apresenta\u00e7\u00e3o do aneurisma, Jorge faz uma analogia com uma bola de futebol. &#8220;Quando ela perde um gomo, forma uma protuber\u00e2ncia e a c\u00e2mera sai para fora. O aneurisma \u00e9 isso.&#8221;<\/p>\n<p>Kupfer, da Sociedade Brasileira de Diabetes, acrescenta que &#8220;o diabetes acelera o processo de envelhecimento dos vasos sangu\u00edneos e pode provocar ent\u00e3o pequenas isquemias (falta de oxig\u00eanio no tecido) na retina&#8221;. Uma das consequ\u00eancias da retinopatia diab\u00e9tica \u00e9 um edema macular diab\u00e9tico (incha\u00e7o), principal causa de baixa de vis\u00e3o no paciente com diabetes. Outra \u00e9 que a vis\u00e3o pode ficar turva.<\/p>\n<p>Mas como se detecta tudo isso? Pelo exame do fundo do olho (ou fundoscopia) relatado no in\u00edcio desta reportagem. A retinopatia diab\u00e9tica \u00e9 dividida principalmente em duas fases.<\/p>\n<p><strong>1.N\u00e3o proliferativa<\/strong> &#8211; Sem novos vasos formados. No come\u00e7o da retinopatia diab\u00e9tica, esses vasos podem inchar, vazar para a retina. Aqui podem ocorrer pequenas dilata\u00e7\u00f5es, isquemias (falta de oxig\u00eanio no tecido). Se a m\u00e1cula (respons\u00e1vel por nos fazer enxergar com maior riqueza de detalhes, cores e nitidez) n\u00e3o for atingida, pode nem apresentar sintomas.<\/p>\n<p><strong>2.Proliferativa<\/strong> &#8211; Com novos vasos formados &#8211; &#8220;Se voc\u00ea abrir a retina e esticar, ela vai ficar que nem uma pizza. No meio dela h\u00e1 o nervo \u00f3ptico, com a m\u00e1cula ao lado. A circula\u00e7\u00e3o sai do nervo e vai para a periferia, a borda da &#8216;pizza&#8217;. Essa borda come\u00e7a a sofrer com a falta de nutri\u00e7\u00e3o. As paredes dos vasos, as c\u00e9lulas se desunem e formam novos canais e vasos e esses novos vasos tentam nutrir essa retina que est\u00e1 sem suprimento&#8221;, explica Jorge, da USP Ribeir\u00e3o Preto.<\/p>\n<p>A cegueira, por fim, \u00e9 causada pelo descolamento da retina. Os novos vasos que surgem t\u00eam poder contr\u00e1til. &#8220;Imagine uma folha de papel em uma mesa e de repente come\u00e7a a crescer um tecido em cima dela e ele retrai. A folha de papel fica enrugada e algumas partes v\u00e3o se separar da mesa, essa parte que separa \u00e9 o descolamento. S\u00f3 que \u00e9 um tecido que est\u00e1 forrando o fundo do olho&#8221;, explica o professor e oftalmologista.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel prevenir essa evolu\u00e7\u00e3o devastadora da retinopatia? Segundo especialistas, sim, com controle rigoroso da taxa de glicose no sangue e, por extens\u00e3o, do diabetes. Recomenda-se tamb\u00e9m reduzir a taxa de colesterol elevada, controlar a hipertens\u00e3o arterial e evitar o tabagismo, que aumentam o risco de doen\u00e7as oculares e outros problemas de sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;Se o paciente \u00e9 hipertenso, tem que tratar a hipertens\u00e3o. E se ele tem uma retinopatia, ele tem que ter um tratamento oftalmol\u00f3gico rigoroso para evitar que essa retinopatia evolua mal&#8221;, afirma Kupfer. Al\u00e9m disso, ela ressalta a import\u00e2ncia do controle da taxa glic\u00eamica: &#8220;A glicose bem controlada n\u00e3o vai acelerar o processo de envelhecimento das art\u00e9rias&#8221;.<\/p>\n<p>Jorge, da USP de Ribeir\u00e3o Preto, refor\u00e7a essa recomenda\u00e7\u00e3o. &#8220;O paciente que controla melhor tem mais anos de doen\u00e7a sem complica\u00e7\u00e3o. As complica\u00e7\u00f5es est\u00e3o relacionadas com a dura\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. Quanto melhor voc\u00ea controla, mais tempo passa sem complica\u00e7\u00f5es. Por exemplo, h\u00e1 paciente com diabetes tipo 2 que em cinco anos desenvolve as complica\u00e7\u00f5es e h\u00e1 paciente que passa 20 anos e praticamente n\u00e3o tem complica\u00e7\u00e3o nenhuma. Isso com certeza se deve ao controle, com uma pequena percentagem ligada a caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas tamb\u00e9m. Mas o principal fator \u00e9 o controle da glicemia.&#8221;<\/p>\n<p>E quando a retinopatia diab\u00e9tica evolui, h\u00e1 tratamento poss\u00edvel? Jorge afirma que atualmente as duas principais estrat\u00e9gias s\u00e3o o laser e a farmacol\u00f3gica.<\/p>\n<p>&#8220;No caso do laser, ele destr\u00f3i a retina perif\u00e9rica (a borda da pizza). Como na retina n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel amputar, a sa\u00edda \u00e9 queimar com o laser. Ao destruir uma retina que est\u00e1 produzindo o agente causador das altera\u00e7\u00f5es, o VEGF (que estimula a forma\u00e7\u00e3o de novos vasos) diminui.&#8221;<\/p>\n<p>A sa\u00edda farmacol\u00f3gica \u00e9 injetar um anticorpo contra a forma\u00e7\u00e3o de novos vasos (VEGF). Essa op\u00e7\u00e3o \u00e9 bem mais r\u00e1pida, por\u00e9m bem mais cara que o laser. &#8220;Os medicamentos intra oculares s\u00e3o uma realidade para poucos. Eles s\u00e3o caros e somente agora est\u00e3o come\u00e7ando a entrar no SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade)&#8221;, explica Kupfer, da Sociedade Brasileira do Diabetes.<\/p>\n<p>A endocrinologista explica que os medicamentos, por outro lado, t\u00eam um efeito indireto: manter o paciente sob vigil\u00e2ncia m\u00e9dica. &#8220;Isso porque os medicamentos s\u00e3o administrados em geral v\u00e1rias vezes. Ent\u00e3o, essa \u00e9 uma forma tamb\u00e9m de manter o paciente ligado \u00e0 sua sa\u00fade e de evitar o caminho para um desfecho da cegueira. Mas h\u00e1 um longo caminho at\u00e9 chegar nisso.&#8221;<\/p>\n<p>E em que momentos as pessoas devem procurar um m\u00e9dico para avaliar a suspeita de retinopatia diab\u00e9tica? H\u00e1 o surgimento de sintomas? Sim. Especialistas afirmam que pacientes com diabetes devem fazer consultas oftalmol\u00f3gicas todos os anos. Al\u00e9m disso, mudan\u00e7as bruscas e repentinas na vis\u00e3o, pontos e flashes de luz indicam a necessidade de se buscar atendimento m\u00e9dico com urg\u00eancia, pois podem estar ligados a um descolamento de retina.<\/p>\n<p>Mas nem sempre os pacientes que dependem do SUS (sete em cada 10 brasileiros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica, o IBGE) conseguem acesso a consultas, acompanhamentos e tratamentos oftalmol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>&#8220;No SUS, por exemplo, essa especialidade \u00e9 cada vez mais rara. O paciente que \u00e9 tratado na rede particular ou por conv\u00eanios de sa\u00fade, tendo mais conhecimento e mais acesso, t\u00eam mais chances ao fazer exames com um oftalmologista e evitar a evolu\u00e7\u00e3o para uma retinopatia muito grave. J\u00e1 o paciente que n\u00e3o tem acesso ao sistema de sa\u00fade ou tem, mas \u00e9 um sistema de sa\u00fade sem oftalmologistas suficientes para atender a demanda, esse paciente vai ser muito prejudicado&#8221;, diz Kuper.<\/p>\n<p>A melhor forma de proteger a vis\u00e3o e a fun\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 manter o controle do n\u00edvel glic\u00eamico, dos n\u00edveis de colesterol e press\u00e3o arterial. Aliados a uma boa dieta e exerc\u00edcios f\u00edsicos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O diabetes costuma ser chamado de doen\u00e7a silenciosa porque metade dos pacientes n\u00e3o sabem da presen\u00e7a dele e muitas vezes s\u00f3 descobrem isso tarde demais. N\u00e3o \u00e9 incomum que a pergunta &#8220;voc\u00ea tem diabetes?&#8221; interrompa a fundoscopia (exame de fundo de olho) em consult\u00f3rio oftalmol\u00f3gico e a resposta seja um &#8220;n\u00e3o que eu saiba, doutor&#8221;. 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