{"id":278380,"date":"2022-01-17T08:37:04","date_gmt":"2022-01-17T11:37:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=278380"},"modified":"2022-01-17T11:41:30","modified_gmt":"2022-01-17T14:41:30","slug":"exploracao-de-petroleo-ameaca-a-foz-do-rio-sao-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/exploracao-de-petroleo-ameaca-a-foz-do-rio-sao-francisco\/","title":{"rendered":"Explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo amea\u00e7a foz do Velho Chico"},"content":{"rendered":"<p>As \u00e1guas se agitam no encontro do S\u00e3o Francisco com o oceano, mas Jailton Souza, pescador desde menino, leva o barco com tranquilidade. Ele est\u00e1 acostumado a conduzir\u00a0turistas at\u00e9 a desembocadura do rio, entre os estados de Sergipe e Alagoas. O lugar \u00e9 um deslumbre de manguezais e praias de areia branca, onde tartarugas desovam. S\u00f3 que ali j\u00e1 transbordam sinais de degrada\u00e7\u00e3o. \u201cA \u00e1gua salgada queimou os coqueirais e as planta\u00e7\u00f5es de arroz\u201d, mostra Jailton.<\/p>\n<p>O Velho Chico n\u00e3o consegue mais conter o avan\u00e7o do mar porque perdeu vaz\u00e3o com hidrel\u00e9tricas, transposi\u00e7\u00e3o e outras interfer\u00eancias no seu curso. A nova amea\u00e7a \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s na regi\u00e3o da foz. \u00c9 bem perto do estu\u00e1rio do rio em que a multinacional ExxonMobil quer perfurar 11 po\u00e7os de petr\u00f3leo, na Bacia Sergipe-Alagoas.<\/p>\n<p>A \u00e1rea de influ\u00eancia, sujeita a impactos diretos e indiretos do chamado Projeto SEAL, vai de Alagoas at\u00e9 o Rio de Janeiro. Em caso de vazamento, pelo menos 52 unidades de conserva\u00e7\u00e3o podem ser diretamente afetadas, entre elas a \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (APA) Costa dos Corais, uma das sete \u00e1reas de prioridade m\u00e1xima para a conserva\u00e7\u00e3o dos recifes de coral no Brasil.<\/p>\n<p>A petrol\u00edfera ainda depende da licen\u00e7a ambiental do Ibama para iniciar as perfura\u00e7\u00f5es, mas, mesmo sem essa permiss\u00e3o, come\u00e7ou a treinar popula\u00e7\u00f5es locais para lidarem com poss\u00edveis vazamentos. Pescadores disseram \u00e0 Ag\u00eancia P\u00fablica que a empresa pagou di\u00e1rias de at\u00e9 R$ 2.500 por barco para ensinar, por exemplo, como conter petr\u00f3leo na \u00e1gua. A reportagem percorreu mais de 400 quil\u00f4metros entre Alagoas e Sergipe, por estradas de terra e de \u00e1gua, para ouvir popula\u00e7\u00f5es potencialmente afetadas, deixadas \u00e0 margem das discuss\u00f5es.<\/p>\n<p>O Ibama informou ao InfoS\u00e3oFrancisco que n\u00e3o autorizou os treinamentos sobre derramamento de petr\u00f3leo, mas n\u00e3o respondeu \u00e0 P\u00fablica se as programa\u00e7\u00f5es fazem parte das etapas de licenciamento. O hist\u00f3rico de desastres da ExxonMobil inclui um dos maiores vazamentos da hist\u00f3ria, em 1989, quando o petroleiro Exxon Valdez despejou 42 mil toneladas de petr\u00f3leo no Alasca, epis\u00f3dio conhecido como \u201cmar\u00e9 negra\u201d.<\/p>\n<p>Segundo os relatos, as atividades foram realizadas pelo menos nos munic\u00edpios alagoanos de\u00a0Pia\u00e7abu\u00e7u, Coruripe, Jequi\u00e1 da Praia e Barra de S\u00e3o Miguel e no povoado de Saram\u00e9m, do lado sergipano. Em cada um desses lugares, duraram aproximadamente dez dias e, em muitos casos, foram divulgadas pelas pr\u00f3prias prefeituras. Um comunicado oficial da prefeitura de Pia\u00e7abu\u00e7u informou \u00e0 popula\u00e7\u00e3o sobre a montagem de uma estrutura, ao lado da sede da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, para o \u201ctreinamento pr\u00e1tico de prote\u00e7\u00e3o da costa\u201d. Para Divaneide Sousa, coordenadora da Articula\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco, as prefeituras est\u00e3o sendo coniventes por interesse. \u201cEst\u00e3o de olho nos royalties do petr\u00f3leo\u201d, comenta.<\/p>\n<p>Os treinamentos foram ministrados pela americana WittO\u2019brien\u2019s e a brasileira OceanPact, especializadas em planos de conting\u00eancia de petr\u00f3leo e respostas a emerg\u00eancias ambientais. As empresas se uniram numa joint venture em 2011. A WittObriens \u00e9 a consultora ambiental que assina o Estudo de Impacto do projeto da ExxonMobil no estu\u00e1rio do S\u00e3o Francisco. Em outubro de 2019, o juiz Francisco Eduardo Guimar\u00e3es, da 14\u00ba Vara Criminal Federal no Rio Grande do Norte, requereu mandados de busca e apreens\u00e3o na empresa, citada por ele como \u201cindiv\u00edduo qualificado\u201d na investiga\u00e7\u00e3o do navio petroleiro grego Bouboulina, da Deltankers, que j\u00e1 foi apontado como respons\u00e1vel pelo derramamento de \u00f3leo no litoral brasileiro entre 2019 e 2020. Na \u00e9poca, cerca de cinco mil toneladas de petr\u00f3leo foram retiradas de mais de mil localidades em 11 estados \u2013 nove deles no Nordeste. A subst\u00e2ncia t\u00f3xica contaminou 3 mil quil\u00f4metros da costa, sendo considerado o maior crime ambiental em extens\u00e3o da hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Apenas em dezembro passado, a PF concluiu a investiga\u00e7\u00e3o do desastre, indicando um navio petroleiro de bandeira grega como o respons\u00e1vel, mas n\u00e3o confirmou se era mesmo o Bouboulina nem divulgou o nome da empresa respons\u00e1vel. A pol\u00edcia tamb\u00e9m n\u00e3o esclareceu se a WittO\u2019brien\u2019s teria rela\u00e7\u00f5es com a embarca\u00e7\u00e3o. Em nota, a WittO\u2019Brien\u2019s garantiu que a empresa \u201cn\u00e3o possui qualquer envolvimento no desastre do \u00f3leo na costa brasileira\u201d, nem \u201cqualquer rela\u00e7\u00e3o com a Delta Tankers\u201d. Informou ainda que \u201cn\u00e3o foi indicada no inqu\u00e9rito policial\u201d, como mostra documento expedido pela PF em novembro de 2019, mas que foi procurada durante as investiga\u00e7\u00f5es da Opera\u00e7\u00e3o M\u00e1cula, da PF, para \u201cfornecer eventuais informa\u00e7\u00f5es que pudessem colaborar com a investiga\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u201c\u00c9 o fim do rio\u201d<\/strong><br \/>\nCaso ocorra um vazamento de petr\u00f3leo na opera\u00e7\u00e3o da ExxonMobil, os pr\u00f3prios estudos da empresa mostram que Pia\u00e7abu\u00e7u seria um dos primeiros locais atingidos. L\u00e1 est\u00e1 a praia do Pontal do Peba, \u00faltima faixa de areia no ponto de des\u00e1gue do rio para o mar. O munic\u00edpio de pouco mais de 19 mil habitantes j\u00e1 foi um grande produtor de arroz, mas o aumento da salinidade da \u00e1gua, causada pelo definhamento do rio, acabou com a produ\u00e7\u00e3o. Sobraram a pesca \u2013 sobretudo de crust\u00e1ceos, porque ali est\u00e1 o maior banco de camar\u00f5es do Nordeste, quarto do Brasil \u2013 e o turismo. Isso tudo tamb\u00e9m vem minguando desde o desastre do \u00f3leo, seguido pelos anos de pandemia.<\/p>\n<p>A \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (APA) de Pia\u00e7abu\u00e7u, que protege esp\u00e9cies amea\u00e7adas, como esp\u00e9cies de tartarugas marinhas, funciona com pouca estrutura. Por causa do projeto da ExxonMobil, em setembro de 2021 o\u00a0Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) em Alagoas questionou \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o sobre condi\u00e7\u00f5es operacionais, caso ocorra um acidente. O gestor da APA de Pia\u00e7abu\u00e7u respondeu por of\u00edcio afirmando que a unidade tem apenas \u201cdois servidores e uma viatura\u201d e, por isso, n\u00e3o tem \u201ccapacidade operacional para proteger nem minimizar os impactos decorrentes da chegada do \u00f3leo\u201d.<\/p>\n<p>O servidor n\u00e3o concedeu entrevista porque a comunica\u00e7\u00e3o do ICMBio, \u00f3rg\u00e3o federal ao qual a APA \u00e9 ligada, est\u00e1 centralizada em Bras\u00edlia. O ICMBio n\u00e3o nos respondeu.<\/p>\n<p>No fim do ano passado, representantes da ExxonMobil estiveram na col\u00f4nia de pescadores de Pia\u00e7abu\u00e7u. \u201cPediram indica\u00e7\u00e3o de pescadores para os treinamentos\u201d, conta Ant\u00f4nio Amorim, presidente da col\u00f4nia, com quase 4 mil associados. Sessenta barcos foram selecionados \u2013 os maiores, de seis cilindros, receberam R$ 2,5 mil por di\u00e1ria; os de quatro cilindros, R$ 2 mil. \u201cAjudou quem estava parado, dependendo do Bolsa Fam\u00edlia\u201d, diz Amorim. Ele evitou cr\u00edticas, mas admitiu que um novo acidente, numa regi\u00e3o que j\u00e1 sofreu com o petr\u00f3leo, \u201c\u00e9 uma grande preocupa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O dinheiro dos treinamentos foi uma forma de \u201csilenciar as pessoas\u201d, para Jasiel Martins, fundador da ONG Olha o Chico. A organiza\u00e7\u00e3o fazia parte do conselho gestor da APA de Pia\u00e7abu\u00e7u, desmantelado durante o governo Bolsonaro, que dissolveu v\u00e1rias estruturas de participa\u00e7\u00e3o da sociedade na gest\u00e3o estatal. A ONG\u00a0assina, com mais de cem organiza\u00e7\u00f5es, uma carta p\u00fablica contra a instala\u00e7\u00e3o da petrol\u00edfera na foz. O texto aponta fragilidades nos estudos de impacto ambiental da ExxonMobil e exige que as comunidades impactadas sejam consultadas em audi\u00eancias p\u00fablicas presenciais, n\u00e3o realizadas por causa da Covid-19.<\/p>\n<p>Risco de vazamento de petr\u00f3leo na opera\u00e7\u00e3o da ExxonMobil preocupa moradores que dependem do rio para sobreviver<br \/>\nNa linha de frente da luta pelo S\u00e3o Francisco, Martins assegura que \u201cum acidente ser\u00e1 o fim do rio\u201d. \u201cE o rio \u00e9 sobreviv\u00eancia. N\u00e3o tem mais as aningas [plantas de \u00e1gua doce], os peixes mudaram. A gente vive na beira do S\u00e3o Francisco sacrificado, dependendo de caminh\u00f5es-pipa porque a \u00e1gua est\u00e1 salobra.\u201d<\/p>\n<p><strong>Quilombos na rota do \u00f3leo<\/strong><br \/>\nA estrada entre Pia\u00e7abu\u00e7u (AL) e Brejo Grande (SE) \u00e9 o pr\u00f3prio rio S\u00e3o Francisco. A balsa leva aproximadamente uma hora para atingir as margens do munic\u00edpio sergipano, ponto mais pr\u00f3ximo da costa do local de perfura\u00e7\u00e3o, apenas 50 quil\u00f4metros. O \u00f3leo poderia chegar l\u00e1 em aproximadamente dois dias, numa situa\u00e7\u00e3o de escape grave, segundo as previs\u00f5es da ExxonMobil.<\/p>\n<p>Quatro territ\u00f3rios quilombolas est\u00e3o no munic\u00edpio: Brejo Grande, Santa Cruz (onde est\u00e1 a comunidade de Brej\u00e3o dos Negros), Resina e Carapitanga. S\u00e3o 480 fam\u00edlias, sobretudo de pescadores artesanais e agricultores, vivendo sob tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora seja certificado pela Funda\u00e7\u00e3o Palmares, o territ\u00f3rio ainda \u00e9 ocupado por n\u00e3o quilombolas, donos de grandes fazendas de carcinicultura, que \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o do camar\u00e3o. \u201cSomos impedidos de plantar e de pescar nas nossas terras. Colocam seguran\u00e7as armados, c\u00e2meras para nos vigiar\u201d, explica Maria Jos\u00e9 Bezerra, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Quilombola, conhecida como Deca.<\/p>\n<p>\u00c1gua encanada n\u00e3o \u00e9 uma constante nas casas, muito menos internet. Assim, o convite para uma audi\u00eancia digital sobre o projeto n\u00e3o fez sentido. \u201cChamaram para ver a transmiss\u00e3o no tel\u00e3o, em Aracaju (SE), quatro horas de carro daqui. S\u00f3 pra ver, n\u00e3o nos ouvir\u201d, reclama Domenicio dos Santos, uma das lideran\u00e7as quilombolas. \u201cA empresa chega assediando, oferecendo dinheiro, treinamentos. N\u00e3o participamos porque entendemos os riscos\u201d, comenta En\u00e9as Rosa, pescador e l\u00edder da comunidade quilombola de Resina.<\/p>\n<p>Cansada depois de ter preparado um almo\u00e7o farto, com o caranguejo-u\u00e7\u00e1 pescado na pr\u00f3pria comunidade, galinha de capoeira e um suco de mangaba, daqueles que refrescam e colam os l\u00e1bios, Maria Isaltina Silva, lideran\u00e7a quilombola da comunidade de Brej\u00e3o dos Negros, se recostou na janela de casa. De l\u00e1, ela v\u00ea a lagoa do sumidouro, cheia de hist\u00f3rias de encanto e mal-assombros. Seus antepassados habitam este lugar h\u00e1 pelo menos 300 anos, pescando siri, peixes e caranguejos. Ali tamb\u00e9m ela celebra cocos e maracatus.\u00a0 \u201cFalam de liberta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o fomos libertos. Nos perseguem de outras formas\u201d, pranteia. \u201cSe queremos preservar o mangue, chegam para destruir. Nosso emprego \u00e9 o rio e o mangue. A gente n\u00e3o sabe fazer outra coisa.\u201d<\/p>\n<p><strong>Imbr\u00f3glio da audi\u00eancia virtual<\/strong><br \/>\nJane Teresa e Jer\u00f4nimo Bas\u00edlio, advogados ambientalistas da Sociedade Canoa de Tolda, em Sergipe, assinaram uma A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica que tentou impedir a audi\u00eancia p\u00fablica em formato virtual, como noticiou o site InfoS\u00e3oFrancisco. De forma resumida, eles dizem que a programa\u00e7\u00e3o, uma etapa fundamental para o licenciamento ambiental, n\u00e3o cumpriu requisitos legais, como a consulta pr\u00e9via das comunidades tradicionais prevista na Conven\u00e7\u00e3o 169 da OIT.<\/p>\n<p>O MPF, tanto em Sergipe quanto em Alagoas, tentou suspender a audi\u00eancia, no intuito de garantir a escuta adequada e presencial das popula\u00e7\u00f5es, observando medidas sanit\u00e1rias, mas a Justi\u00e7a n\u00e3o acatou o pedido. No dia 14 de setembro de 2021, o Ibama conduziu uma Audi\u00eancia P\u00fablica Virtual, transmitida pelo YouTube, com representantes da ExxonMobil e da WittO\u2019brien\u2019s. Algumas pessoas receberam um link para interven\u00e7\u00f5es orais ao vivo, por\u00e9m as falhas na conex\u00e3o, problemas com \u00e1udio e v\u00eddeo foram queixas constantes.<\/p>\n<p>Os questionamentos foram selecionados e lidos pelo diretor de licenciamento ambiental do Ibama, J\u00f4natas Trindade. Ele chegou a interromper um representante dos pescadores, quando lia a carta aberta dos povos contra o projeto, alegando limite de tempo da participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo a advogada Jane, h\u00e1 pelo menos 116 comunidades quilombolas na zona de influ\u00eancia do empreendimento. \u201cMuitas n\u00e3o t\u00eam sinal de internet, como iam participar?\u201d Ela conta que \u201co EIA [Estudo de Impacto Ambiental] foi entregue pela ExxonMobil em cima da hora para consulta, ferindo o princ\u00edpio da publicidade\u201d. Para o advogado Jer\u00f4nimo, seria necess\u00e1rio realizar mais de uma audi\u00eancia on-line, \u201ccomo prev\u00ea a Resolu\u00e7\u00e3o do Conama 9\/87, dada a complexidade dos impactos, que envolvem pelo menos cinco estados e 76 munic\u00edpios em sua zona de influ\u00eancia\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Procuradora do MPF em Alagoas, Juliana C\u00e2mara quer anular a audi\u00eancia por preju\u00edzo \u00e0 efetiva participa\u00e7\u00e3o popular. A A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica apresentada por ela, com tutela de urg\u00eancia, requer o agendamento de uma nova audi\u00eancia presencial com participa\u00e7\u00e3o das comunidades tradicionais pesqueiras, que foram exclu\u00eddas do debate por falta de acesso \u00e0 internet. Pede tamb\u00e9m a realiza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias audi\u00eancias p\u00fablicas, \u201cdada a abrang\u00eancia geogr\u00e1fica dos impactos ambientais\u201d, e sinaliza \u201cmulta de R$ 10 mil por ato administrativo praticado sem o agendamento de nova audi\u00eancia presencial com a participa\u00e7\u00e3o de comunidades tradicionais\u201d. A Justi\u00e7a ainda n\u00e3o se posicionou.<\/p>\n<p>Juliana est\u00e1 acostumada a acompanhar atividades com grande impacto socioambiental, mas alguns pontos chamam sua aten\u00e7\u00e3o nesse caso. O primeiro \u00e9 a pressa nos processos para o licenciamento ambiental. \u201cTamb\u00e9m o comportamento do Ibama, que aponta problemas, mas logo depois acata a justificativa apresentada pelo empreendedor\u201d, observa. Ela diz que a empresa, que esperava iniciar perfura\u00e7\u00f5es no segundo semestre, vem demonstrando descontentamento com os questionamentos do MPF e a resist\u00eancia das comunidades. \u201cDisseram que eventual retardo na licen\u00e7a ambiental afetar\u00e1 o interesse em sua concess\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A procuradora pediu an\u00e1lise pericial dos estudos de impacto ambiental. \u201cOs peritos apontaram o uso de dados defasados e que n\u00e3o levam em conta a sinergia das atividades, onde est\u00e3o envolvidas n\u00e3o apenas a extra\u00e7\u00e3o, bem como a movimenta\u00e7\u00e3o dos navios transportando o \u00f3leo, o g\u00e1s e os res\u00edduos, que ser\u00e3o tratados em Niter\u00f3i (RJ)\u201d, explica.<\/p>\n<p><strong>Novo desastre<\/strong><br \/>\nEmerson Soares, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), lembra de quando avistou as primeiras marcas do petr\u00f3leo enquanto caminhava na praia de Ipioca (AL). Era agosto de 2019. \u201cEncontrei bolachas-do-mar [uma esp\u00e9cie marinha prima do ouri\u00e7o] com manchas. Recolhi para analisar. Depois de 15 dias, chegou uma tartaruga contaminada.\u201d Engenheiro de pesca e doutor em biotecnologia, ele esteve \u00e0 frente da for\u00e7a-tarefa do \u00f3leo em Alagoas e coordena expedi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas pelo S\u00e3o Francisco, coletando dados e promovendo a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>\u201cSe o bom senso fosse levado em conta, explorar petr\u00f3leo pr\u00f3ximo \u00e0 foz seria a \u00faltima coisa a se fazer\u201d, argumenta. Ele contesta a modelagem utilizada pelos estudos de impacto e dispers\u00e3o de \u00f3leo do Projeto SEAL, que considera atrasada. \u201cN\u00e3o levaram em conta as pesquisas locais mais recentes, e j\u00e1 publicadas, sobre a vaz\u00e3o do rio S\u00e3o Francisco, constantemente em muta\u00e7\u00e3o. Nem os n\u00edveis de metais pesados, que aumentaram substancialmente desde o acidente de petr\u00f3leo em 2019, porque a regi\u00e3o da foz foi contaminada.\u201d<\/p>\n<p>Como os reais impactos socioambientais do desastre do \u00f3leo nunca foram amplamente mensurados, muito menos sanados, o pesquisador se preocupa com o alto risco da nova atividade. Embora os t\u00e9cnicos da ExxonMobil garantam que a chance de vazamento dos po\u00e7os a serem perfurados \u00e9 baixa [na ordem de 1 para mais de 30 mil], Soares detalha, no quadro-branco pendurado em seu escrit\u00f3rio, as preocupantes proje\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por causa da baixa vaz\u00e3o, causada pela crise h\u00eddrica, constru\u00e7\u00e3o de hidrel\u00e9tricas, como a de Xing\u00f3, e tantas outras vari\u00e1veis, o S\u00e3o Francisco n\u00e3o conseguiria conter o avan\u00e7o de um derramamento de \u00f3leo pr\u00f3ximo do seu estu\u00e1rio. Fatalmente, o material contaminaria a regi\u00e3o da foz. No pior cen\u00e1rio, segundo Soares, o petr\u00f3leo chegaria \u00e0 parte dos munic\u00edpios do litoral norte de Sergipe e do sul de Alagoas \u2013 de Jequi\u00e1 da Praia (AL), passando por toda a regi\u00e3o de desembocadura, at\u00e9 pr\u00f3ximo a Aracaju (SE). \u201cCom a influ\u00eancia das mar\u00e9s, um derramamento de \u00f3leo poderia se deslocar at\u00e9 a cidade de Penedo, no sul de Alagoas.\u201d<\/p>\n<p>Tudo depende da gravidade do escape e do tempo de resposta. Tamb\u00e9m da \u00e9poca do ano e das correntes. Mas mesmo nos cen\u00e1rios mais moderados, os munic\u00edpios da foz do S\u00e3o Francisco s\u00e3o os mais vulner\u00e1veis \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o. Isso implica dizer que todas as \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o ambiental, comunidades locais e atividades econ\u00f4micas de alta import\u00e2ncia para a regi\u00e3o, como turismo e pesca, inclusive do camar\u00e3o, de ostras e do ma\u00e7unim, um marisco muito consumido em Alagoas, podem ser afetadas. \u201cSem falar do manguezal do S\u00e3o Francisco, que fornece cerca de 50% das esp\u00e9cies da regi\u00e3o\u201d, acrescenta o pesquisador. \u201cN\u00e3o apenas acidentes, como a pr\u00f3pria atividade tem impactos no descarte de materiais t\u00f3xicos e no pr\u00f3prio fluxo de navios nas atividades de extra\u00e7\u00e3o, que modificam toda a din\u00e2mica local, trazendo esp\u00e9cies invasoras em seus cascos.\u201d<\/p>\n<p><strong>Poeta de Penedo<\/strong><br \/>\nAs janelas dos casar\u00f5es da hist\u00f3rica Penedo, no sul de Alagoas, t\u00eam vista para as margens do Baixo S\u00e3o Francisco. Na beira do rio, a est\u00e1tua de Dom Pedro II lembra a visita do imperador ao primeiro povoado do estado. Ant\u00f4nio Gomes dos Santos, o Toinho Pescador de Penedo, \u00e9 mem\u00f3ria viva do lugar. E as \u00e1guas do Velho Chico s\u00e3o o fluxo cont\u00ednuo de suas lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>\u201cHoje o rio t\u00e1 pobrezinho. Antigamente ficava azul de tanto peixe\u201d, recorda. Aos 89 anos, na pesca desde os 11, Toinho \u00e9 uma das principais lideran\u00e7as populares em defesa do rio. Na d\u00e9cada de 1960, em plena ditadura militar, ajudou a fundar o Conselho da Pastoral dos Pescadores do estado, cujo papel na resist\u00eancia pol\u00edtica e na mobiliza\u00e7\u00e3o foi fundamental na conquista de direitos dos pescadores artesanais, como os previdenci\u00e1rios, garantidos na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Nessa \u00e9poca, ele chegou a ser at\u00e9 amea\u00e7ado de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Poeta e testemunha tanto das mudan\u00e7as hist\u00f3ricas como das ambientais no S\u00e3o Francisco, o pescador denuncia as amea\u00e7as ao rio em versos. Sobre a mortandade de peixes depois da constru\u00e7\u00e3o de barragens, escreveu: \u201cFecharam todas as v\u00e1rzeas\/ Barragens foi por demais\/ Acabou-se a produ\u00e7\u00e3o dos peixes\/ J\u00e1 se foram os animais\/ Agrot\u00f3xicos matam os passarinhos\/ J\u00e1 se foram os animais\u201d.<\/p>\n<p>Toinho, seus versos e sua experi\u00eancia n\u00e3o foram ouvidos pelos empreendedores do Projeto SEAL. Ele lamenta n\u00e3o ter sido convidado para debater o projeto. \u201cN\u00e3o sou contra explorar petr\u00f3leo, mas n\u00e3o tem outro lugar que n\u00e3o seja um rio produtivo, que d\u00e1 alimento? A foz do S\u00e3o Francisco j\u00e1 tem o seu petr\u00f3leo, que \u00e9 o peixe.\u201d<\/p>\n<p><strong>Ainda tem \u00f3leo por aqui<\/strong><br \/>\nO pescador Genildo Luz, conhecido como Bumba, vestia um bon\u00e9 azul com a marca da ExxonMobil quando chegamos \u00e0 praia de Coruripe (AL), regi\u00e3o da foz. Ele recebeu camisa e um certificado de participa\u00e7\u00e3o no treinamento de limpeza de praias. \u201cPagaram R$ 2,5 mil por di\u00e1ria durante 11 dias. Foi bom demais\u201d, comemora.<\/p>\n<p>Bumba aprendeu a colocar boias de conten\u00e7\u00e3o para evitar a chegada do \u00f3leo. Contou que 50 mulheres foram convocadas para tirar lixo das praias, ganhando R$ 150 cada uma, que a empresa ainda deu brinquedos para crian\u00e7as. De quebra, seus t\u00e9cnicos movimentaram pousadas e restaurantes locais. Toda empolga\u00e7\u00e3o parece contradit\u00f3ria quando ele lembra o preju\u00edzo tomado no desastre do petr\u00f3leo, poucos anos atr\u00e1s. \u201cFiquei sem vender peixe\u201d, diz. \u201cAgora, se tiver vai ser ruim, mas a empresa vai pagar a gente pra trabalhar\u201d, ameniza.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 hoje tem \u00f3leo nas pedras do pontal do Coruripe\u201d, comenta Zilma Borges, do Instituto Amigos da Natureza, que fez diagn\u00f3sticos locais em 2019. Naquele ano, Rosedite Pereira, presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Ostricultores do munic\u00edpio, se voluntariou na limpeza das praias. \u201cO petr\u00f3leo grudava nas telas onde criamos as ostras. Cheguei a tirar cinco baldes de ostras mortas na \u00e9poca\u201d, lembra.<\/p>\n<p>O material t\u00f3xico fazia mal para a sa\u00fade. A pele de Rosedite ficou vermelha e co\u00e7ando. Sentiu n\u00e1useas, tonturas, mas nunca teve os n\u00edveis de intoxica\u00e7\u00e3o monitorados para saber se desenvolveria alguma doen\u00e7a com o passar dos anos. Ela tamb\u00e9m n\u00e3o recebeu compensa\u00e7\u00e3o pelas perdas financeiras, nem agora, na pandemia, quando os restaurantes chiques de Macei\u00f3 suspenderam as compras de ostras. \u201cPenso no dinheiro, mas penso mais no meio ambiente, no mangue, que chamo do meu segundo marido\u201d, comenta. \u201cSer\u00e1 que as pessoas est\u00e3o prontas para evitar uma trag\u00e9dia ou s\u00f3 est\u00e3o pensando no dinheiro?\u201d<\/p>\n<p>Em resposta aos questionamentos da reportagem, a ExxonMobil enviou a seguinte\u00a0nota:<\/p>\n<p>\u201cCom rela\u00e7\u00e3o aos po\u00e7os mar\u00edtimos na Bacia de Sergipe-Alagoas, a ExxonMobil est\u00e1 seguindo as recomenda\u00e7\u00f5es e protocolos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama). Nossa prioridade \u00e9 preservar a sa\u00fade e a seguran\u00e7a da comunidade e do meio ambiente. Refor\u00e7amos que foram realizadas in\u00fameras reuni\u00f5es com representantes das comunidades na \u00e1rea de abrang\u00eancia do projeto, e tamb\u00e9m audi\u00eancia p\u00fablica virtual no dia 14 de setembro de 2021, liderada pelo Ibama. A audi\u00eancia foi aberta \u00e0 sociedade e transmitida em plataforma Zoom, pelo Youtube\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As \u00e1guas se agitam no encontro do S\u00e3o Francisco com o oceano, mas Jailton Souza, pescador desde menino, leva o barco com tranquilidade. Ele est\u00e1 acostumado a conduzir\u00a0turistas at\u00e9 a desembocadura do rio, entre os estados de Sergipe e Alagoas. O lugar \u00e9 um deslumbre de manguezais e praias de areia branca, onde tartarugas desovam. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":278382,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-278380","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278380","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=278380"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278380\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":278399,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278380\/revisions\/278399"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/278382"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=278380"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=278380"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=278380"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}