{"id":278630,"date":"2022-01-21T06:52:27","date_gmt":"2022-01-21T09:52:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=278630"},"modified":"2022-01-21T11:17:07","modified_gmt":"2022-01-21T14:17:07","slug":"pandemia-ainda-nao-entrou-no-calendario-do-dia-da-partida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pandemia-ainda-nao-entrou-no-calendario-do-dia-da-partida\/","title":{"rendered":"Pandemia ainda n\u00e3o entrou no calend\u00e1rio do dia da partida"},"content":{"rendered":"<p>Para muitos brasileiros, 2022 come\u00e7ou com um gosto amargo de 2020: ap\u00f3s meses de queda na m\u00e9dia de casos de covid-19 no pa\u00eds, o ano novo marcou a explos\u00e3o da transmiss\u00e3o comunit\u00e1ria da variante \u00d4micron.<\/p>\n<p>A not\u00edcia ruim: os dados hoje j\u00e1 registram o recorde de infec\u00e7\u00f5es por covid desde o in\u00edcio da pandemia, superando o pico de 2021. S\u00e3o dados incompletos e que provavelmente escondem uma curva ainda maior, realidade que se repete desde 2020 pelas limita\u00e7\u00f5es de testagem no Brasil.<\/p>\n<p>Parentes, colegas de trabalho, conhecidos e talvez mesmo voc\u00ea, que l\u00ea esta entrevista, podem ter se infectado pela covid no \u00faltimo m\u00eas e experimentado a dificuldade em fazer testes devido \u00e0 alta procura no sistema p\u00fablico ou os pre\u00e7os das farm\u00e1cias privadas.<\/p>\n<p>A not\u00edcia \u201cn\u00e3o t\u00e3o ruim\u201d: o n\u00famero de mortes n\u00e3o est\u00e1 perto do pico das ondas anteriores, ao menos por enquanto: h\u00e1 menos de um ano, marcamos mais de 2 mil mortes di\u00e1rias na m\u00e9dia semanal \u2014 em abril, o Brasil chegou a marcar 3 mil mortes por dia na m\u00e9dia semanal.<\/p>\n<p>Esse conjunto de not\u00edcias tem sido apontado por alguns pesquisadores como um an\u00fancio do fim da pandemia, que levaria a covid-19 a finalmente poder ser tratada como uma gripe sazonal \u2014 com vigil\u00e2ncia, vacina\u00e7\u00e3o e atendimento m\u00e9dico. Outros s\u00e3o mais c\u00e9ticos, afirmando que ainda \u00e9 cedo para ter certeza do futuro e alertam que o risco de colapso no sistema de sa\u00fade de algumas regi\u00f5es n\u00e3o pode ser descartado.<\/p>\n<p>A <em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em> entrevistou tr\u00eas pesquisadores sobre algumas das principais d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia em 2022: Roberto Kraenkel, professor do Instituto de F\u00edsica Te\u00f3rica da Universidade Estadual Paulista (Unesp), membro do Observat\u00f3rio Covid-19 BR e doutor em f\u00edsica, que trabalha com sistemas complexos aplicados a problemas de ecologia e epidemiologia; Anderson F. Brito, virologista, pesquisador cient\u00edfico do Instituto Todos pela Sa\u00fade (ITpS); e Expedito Luna, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>Para Luna, Brito e Kraenkel , ainda \u00e9 cedo para prever o futuro da pandemia; contudo, vacina\u00e7\u00e3o e testagem em massa continuam sendo grandes aliadas contra a covid-19. J\u00e1 est\u00e1 claro qual o impacto da \u00d4micron na pandemia? Est\u00e1 descartado um pico de mortes e hospitaliza\u00e7\u00f5es no Brasil igual aos de 2020 e 2021? S\u00e3o muitas perguntas e respostas que merecem toda a ten\u00e7\u00e3o, conforme pode ser visto a seguir:<\/p>\n<p><strong>Kraenkel:<\/strong> O que n\u00f3s sabemos de outros pa\u00edses, na Europa, por exemplo, ou de pa\u00edses vizinhos como a Argentina, \u00e9 que esta onda \u00e9 muito, muito maior que qualquer outra anterior [em n\u00famero de casos]. \u00c9 isso que se espera ver no Brasil, mas talvez a gente n\u00e3o veja bem porque n\u00e3o se faz testagem p\u00fablica no Brasil. Os dados brasileiros mais confi\u00e1veis s\u00e3o de hospitaliza\u00e7\u00f5es, n\u00e3o de testagem, apesar de j\u00e1 se notar uma alta muito grande de casos e de testes positivos. Fora os chamados casos aned\u00f3ticos, todo mundo conhece hoje v\u00e1rias pessoas com covid.<\/p>\n<p>A\u00ed vem a quest\u00e3o da \u00d4micron ser uma variante que faz com que as pessoas tenham uma doen\u00e7a menos severa \u2014 que tamb\u00e9m depende do status vacinal. Isso \u00e9 uma \u00f3tima not\u00edcia para cada uma das pessoas que pega o v\u00edrus: a chance individual de ir parar no hospital \u00e9 menor. J\u00e1 do ponto de vista de sa\u00fade coletiva, da popula\u00e7\u00e3o, pelo fato de ter muitos casos \u2014 mesmo que a chance de hospitaliza\u00e7\u00e3o seja menor \u2014 pode haver um novo pico de hospitaliza\u00e7\u00f5es, ainda que nas enfermarias, e que pode elevar o n\u00famero de mortes.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma competi\u00e7\u00e3o sobre qual variante \u00e9 mais tr\u00e1gica, mas como isso se traduz no contexto brasileiro. A quest\u00e3o da mortalidade \u00e9 muito mais complexa do que simplesmente a mortalidade do v\u00edrus. A mortalidade, claro, tem rela\u00e7\u00e3o com a severidade da doen\u00e7a, mas tamb\u00e9m do tipo de acolhimento hospitalar que voc\u00ea pode dar para as pessoas, a assist\u00eancia m\u00e9dica. A mortalidade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma consequ\u00eancia da severidade. Isso depende de n\u00e3o haver um colapso do sistema hospitalar.<\/p>\n<p>A gente espera que isso [a explos\u00e3o de casos] v\u00e1 acontecer ainda em janeiro. Esperamos que o crescimento seja r\u00e1pido e, se a situa\u00e7\u00e3o sul-africana se repetir, a dura\u00e7\u00e3o da crise n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o longa. \u00c9 razo\u00e1vel pensar que esperamos um auge em fevereiro, mas \u00e9 uma avalia\u00e7\u00e3o com muitos \u201csen\u00f5es\u201d. Depende de diversos fatores, tanto das pol\u00edticas p\u00fablicas quanto propriamente do v\u00edrus.<\/p>\n<p><strong>Brito<\/strong>: Em cada pa\u00eds h\u00e1 uma variedade diferente de variantes circulando. E isso gera repercuss\u00f5es diferentes. N\u00e3o podemos esquecer da Delta, que, quando invadiu os Estados Unidos, era a Alfa que estava dominando, mas a Delta se sobrep\u00f4s \u00e0 Alfa, e os impactos foram vis\u00edveis.<\/p>\n<p>Os impactos de uma nova variante em uma popula\u00e7\u00e3o que j\u00e1 tinha se infectado anteriormente por uma outra variante de v\u00edrus pode levar a resultados diferentes. Temos a quest\u00e3o das diferentes vacinas utilizadas, diferentes n\u00edveis de vacina\u00e7\u00e3o e qu\u00e3o homog\u00eanea essa vacina\u00e7\u00e3o \u00e9 em n\u00edvel nacional. Isso tudo somado vai mudar a resposta sobre o que a \u00d4micron ir\u00e1 representar em termos de crise de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Pessoas vacinadas tendem a ter, principalmente aquelas que j\u00e1 receberam dose de refor\u00e7o, casos mais leves. Isso \u00e9 algo que traz esperan\u00e7a de que a \u00d4micron possa vir a n\u00e3o gerar os impactos que se assemelham, por exemplo, \u00e0 Gama. Mas pode ter uma parcela pequena da popula\u00e7\u00e3o que, mesmo com essas doses, em fun\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de sa\u00fade particulares, se a pessoa \u00e9 imunocomprometida, ela pode eventualmente necessitar hospitaliza\u00e7\u00e3o. O v\u00edrus est\u00e1 circulando de maneira descontrolada, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender que essas pessoas ir\u00e3o necessitar de hospitaliza\u00e7\u00e3o. E eu incluo os idosos tamb\u00e9m, muitos ainda n\u00e3o receberam a terceira dose. Esse p\u00fablico est\u00e1 vulner\u00e1vel e as pessoas est\u00e3o sem informa\u00e7\u00e3o, est\u00e3o andando no escuro. Por isso n\u00e3o d\u00e1 para bater o martelo, n\u00e3o d\u00e1 pra dizer que n\u00e3o h\u00e1 chances de a gente passar por momentos delicados.<\/p>\n<p><strong>Luna<\/strong>: Aparentemente, n\u00f3s temos no mundo inteiro um aumento exponencial do n\u00famero de casos. Esse aumento est\u00e1 sendo verificado nos Estados Unidos e em v\u00e1rios pa\u00edses da Europa e foi observado, um pouco antes, na \u00c1frica do Sul. Na \u00c1frica do Sul houve um grande pico e, em seguida, voltou pros n\u00fameros anteriores.<\/p>\n<p>Aparentemente, com esse pico, ter\u00edamos alta transmissibilidade e menos gravidade. O Brasil est\u00e1 com dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o vacinada com duas doses e ainda um pouco a mais com uma dose, isso talvez influencie o curso da doen\u00e7a para que a gente tenha casos menos graves \u2014 agregado ao fato de que um grande n\u00famero de pessoas j\u00e1 teve covid.<\/p>\n<p>De qualquer forma, quando se tem um n\u00famero muito grande de pessoas doentes, o volume de casos que vai evoluir para maior gravidade pode aumentar tamb\u00e9m. Com a transmiss\u00e3o muito intensa, a gente pode ter um grande volume de casos necessitando de interna\u00e7\u00e3o e, possivelmente, concentrados naquelas parcelas da popula\u00e7\u00e3o que recusou a vacina. \u00c9 isso que est\u00e1 sendo observado, por exemplo, nos EUA.<\/p>\n<p><strong>O que se espera das demandas de equipamentos e suprimentos na pandemia neste ano de 2022? H\u00e1 riscos de falta de leitos de UTI, oxig\u00eanio, como vivemos anteriormente?\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Kraenkel<\/strong>: Neste momento, n\u00e3o estamos passando tanto por situa\u00e7\u00f5es como as anteriores de hospitaliza\u00e7\u00e3o em UTI, nem se fala tanto em defici\u00eancia de oxig\u00eanio, mas a gente precisa lembrar que cada lugar do Brasil \u00e9 muito diferente um do outro. O que voc\u00ea tem de problemas atualmente s\u00e3o outras coisas.<\/p>\n<p>Primeiro voc\u00ea tem uma quantidade enorme de gente ao mesmo tempo procurando postos de sa\u00fade e pronto-socorro, e podemos ter uma quantidade que o servi\u00e7o n\u00e3o d\u00ea conta. A maioria da popula\u00e7\u00e3o depende de servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Outra coisa \u00e9 que muita gente dos servi\u00e7os p\u00fablicos ou de toda a cadeia estrutural do servi\u00e7o de sa\u00fade adoece e fica em casa, a\u00ed voc\u00ea tem menos gente para cuidar das pessoas: menos m\u00e9dicos, menos enfermeiras.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m problemas em cadeias de suprimentos, como um problema em rela\u00e7\u00e3o aos insumos para fazer testes. A associa\u00e7\u00e3o brasileira dos laborat\u00f3rios privados soltou uma nota dizendo que existe uma crise mundial de insumos e que n\u00e3o conseguem dar conta de fazer os testes necess\u00e1rios por falta de insumos. S\u00e3o problemas ligados \u00e0 escala do n\u00famero muito grande de pessoas suspeitas de covid.<\/p>\n<p><strong>Brito:<\/strong> Tudo vai depender da escala de dissemina\u00e7\u00e3o dessa variante. Existe uma disparidade muito grande de cobertura vacinal Norte-Sul; na regi\u00e3o Norte, por exemplo, a cobertura \u00e9 mais baixa. Ent\u00e3o a gente tem que olhar estado por estado, cada um deles vive uma realidade diferente. E n\u00e3o est\u00e1 descartada essa possibilidade, n\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 tem se relatado a possibilidade de escassez de testes para a covid e que casos leves n\u00e3o sejam testados porque vai faltar para casos graves. Ent\u00e3o isso \u00e9 um sinal de alerta, porque as pessoas procuram testes. A falta de testes \u00e9 um term\u00f4metro que mostra que o v\u00edrus est\u00e1 sendo transmitido a taxas muito elevadas. Se a gente acompanhar o n\u00famero de casos crescente e tamb\u00e9m vier um aumento muito expressivo de hospitaliza\u00e7\u00f5es, a gente pode come\u00e7ar a chegar naquele limiar onde, em termos log\u00edsticos, os suprimentos come\u00e7am a ficar mais escassos. Sem dados n\u00e3o d\u00e1 para dizer nada, ent\u00e3o tem chance de alguns munic\u00edpios serem pegos de surpresa. Isso \u00e9 o ponto lament\u00e1vel dessa falta de dados.<\/p>\n<p><strong>Luna:<\/strong> Temos que ter cuidado nas nossas proje\u00e7\u00f5es. A pandemia\u00a0 foi um evento inusitado, est\u00e1 sendo um evento inusitado e tem nos surpreendido. Lembra que, em dezembro, n\u00f3s pens\u00e1vamos que estar\u00edamos chegando no per\u00edodo mais tranquilo? No come\u00e7o de dezembro, o n\u00famero de \u00f3bitos caiu e havia uma onda de otimismo, onde se chegou a discutir a libera\u00e7\u00e3o do uso de m\u00e1scaras. E isso foi muito fugaz. Em 15 dias mudou tudo e a gente voltou at\u00e9 um pico de transmiss\u00e3o da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Apesar de o presidente Bolsonaro criticar as vacinas \u2014 ele mesmo disse n\u00e3o ter se vacinado e que n\u00e3o vacinaria sua filha\u00a0 \u2014, o SUS tem realizado a vacina\u00e7\u00e3o dos brasileiros e o pa\u00eds passou at\u00e9 mesmo os EUA em porcentagem de pessoas vacinadas com duas doses. O que houve de acertos na condu\u00e7\u00e3o da pandemia no Brasil?<\/p>\n<p><strong>Kraenkel<\/strong>: O SUS, o sistema de aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, fez um excelente trabalho de vacinar com efici\u00eancia em quase qualquer ponto do Brasil. Mas isso n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma coisa que devemos elogiar [no governo federal], porque n\u00e3o \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o do governo, mas da estrutura de atendimento \u00e0 sa\u00fade. E que poderia ter sido muito melhor usada para medidas de conten\u00e7\u00e3o, de mitiga\u00e7\u00e3o, busca ativa de contactantes, de testes. A exist\u00eancia dessa rede, do SUS, foi fundamental para que a campanha de vacina\u00e7\u00e3o tenha sido at\u00e9 agora um sucesso, embora ainda falte gente. \u00c9 uma coisa, digamos, positiva.<\/p>\n<p><strong>Brito:<\/strong> Eu vejo um acerto que a gente aumentou a disponibilidade de vacinas de maneira um pouco mais ampla para a popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 ineg\u00e1vel que esse aumento na disponibilidade veio ap\u00f3s press\u00f5es da sociedade, e que muito disso veio tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o da CPI da Pandemia, que revelou quest\u00f5es muito cr\u00edticas, muito s\u00e9rias. E esses acertos se deram apesar das falas contr\u00e1rias \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 um \u00f3timo sinal no sentido de que a popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 conhece o hist\u00f3rico e a import\u00e2ncia do Programa Nacional de Imuniza\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o vem de hoje. S\u00e3o d\u00e9cadas de trabalho e de vacina\u00e7\u00e3o. Todos n\u00f3s temos a nossa caderneta de vacina\u00e7\u00f5es e sabemos, reconhecemos essa import\u00e2ncia. Ent\u00e3o, implantar a hesita\u00e7\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o \u00e9 uma tarefa muito f\u00e1cil, n\u00e3o, mas os negacionistas t\u00eam tentado ao m\u00e1ximo impor esses receios. Felizmente, n\u00e3o t\u00eam sido bem-sucedidos, mas \u00e9 um fato lament\u00e1vel mesmo.<\/p>\n<p><strong>E erros?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Kraenkel<\/strong>: Tem v\u00e1rios. O governo federal, que \u00e9 quem pode comprar vacinas, demorou muito para comprar. E falta um esfor\u00e7o especial para a vacina\u00e7\u00e3o da dose de refor\u00e7o. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade tamb\u00e9m n\u00e3o tem uma pol\u00edtica de mitiga\u00e7\u00e3o da pandemia sem ser a vacina, outra medida n\u00e3o existe, depende de estado por estado.<\/p>\n<p>Um grande vazio \u00e9 a quest\u00e3o da testagem, sobretudo por testes r\u00e1pidos, de ant\u00edgenos. Por qu\u00ea? N\u00f3s queremos algum momento em que essa pandemia acabe, que a gente consiga conviver com o v\u00edrus. E um dos ingredientes disso \u00e9 que as pessoas possam se testar facilmente. Voc\u00ea decide visitar, por exemplo, os pais idosos: \u00e9 importante poder se testar antes. Essa pol\u00edtica tem que ser uma pol\u00edtica p\u00fablica, n\u00e3o adianta deixar para as farm\u00e1cias privadas. A distribui\u00e7\u00e3o tem que ser p\u00fablica e de acesso muito f\u00e1cil para as pessoas de qualquer classe social. O auto teste resolve o problema de quem pode pagar.<\/p>\n<p><strong>Brito<\/strong>: S\u00e3o v\u00e1rios. Um dos principais foi a pouca campanha de comunica\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia da vacina\u00e7\u00e3o em r\u00e1dio e TV. Isso \u00e9 algo crucial, convence as pessoas ou lembra as pessoas da necessidade de se vacinar. Seja para covid ou para gripe.<\/p>\n<p>Outro erro central \u00e9 a demora na compra das vacinas. A CPI revelou que muito desse atraso foi em fun\u00e7\u00e3o de tentativas de lucrar em cima da compra da vacina, tentativas de corrup\u00e7\u00e3o, mesmo. Mas, apesar dessas falhas, o desejo da popula\u00e7\u00e3o de se vacinar foi muito maior. Isso explica o sucesso, que veio apesar dos v\u00e1rios erros.<\/p>\n<p><strong>Luna:<\/strong> Temos mais erros do que acertos. Falhamos na vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica, na capacidade de detectar casos e fazer o diagn\u00f3stico dos casos, e fazer o que a gente faz para todas as outras doen\u00e7as infecciosas: tentar isolar os pacientes e coloc\u00e1-los em quarentena. Os pa\u00edses que conseguiram fazer isso foram bem-sucedidos no controle da pandemia, principalmente os pa\u00edses da \u00c1sia e da Oceania.<\/p>\n<p>Houve uma grande falha no b\u00ea-\u00e1-b\u00e1 da sa\u00fade p\u00fablica, que \u00e9 a vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica e as medidas de barreira diante de cada caso. Houve iniciativas em munic\u00edpios, mas que foram isoladas. Conta com isso a falta de a\u00e7\u00f5es e sabotagem do governo federal em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s medidas de distanciamento social. Tivemos aquela crise aguda em Manaus, com pessoas morrendo na rua por falta de assist\u00eancia, leito e oxig\u00eanio para aliviar a dificuldade respirat\u00f3ria das pessoas. E falhamos tamb\u00e9m na vacina\u00e7\u00e3o porque houve uma uma a\u00e7\u00e3o deliberada do governo federal em sabotar a vacina\u00e7\u00e3o. A vacina\u00e7\u00e3o s\u00f3 andou porque houve uma press\u00e3o p\u00fablica do problema na CPI para aquisi\u00e7\u00e3o de vacina. O SUS tem uma grande experi\u00eancia em vacinar milh\u00f5es de pessoas, de fazer grandes campanhas, mas esse pr\u00f3prio SUS est\u00e1 muito sucateado.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as expectativas para os ciclos de vacina\u00e7\u00e3o? J\u00e1 se fala em quarta dose, isso \u00e9 uma certeza? De quanto em quanto tempo dever\u00e1 ser a vacina\u00e7\u00e3o contra a covid?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Brito<\/strong>: Doses anuais de vacinas contra v\u00edrus que mudam de maneira muito r\u00e1pida, como v\u00edrus influenza da gripe, j\u00e1 s\u00e3o uma realidade. Assim como acontece para a gripe, eu n\u00e3o veria com surpresa a necessidade da gente ter doses de refor\u00e7o anuais contra a covid-19.<\/p>\n<p>O fato da gente ter que vacinar, por exemplo, a cada seis meses para a covid \u00e9 a queda das nossas defesas: elas v\u00e3o caindo gradualmente, e isso \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o do nosso corpo. A gente desmonta certas defesas e com isso a gente vai tirando parte dessa armadura, dessa prote\u00e7\u00e3o, a ponto de ficar mais vulner\u00e1vel ap\u00f3s seis meses. Esses refor\u00e7os v\u00eam justamente para montar novamente essas prote\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Estamos em pleno ver\u00e3o e o v\u00edrus [da covid] segue se disseminando porque ele est\u00e1 encontrando possibilidades. Da\u00ed a necessidade de uma vacina\u00e7\u00e3o em um prazo mais curto a cada seis meses. O Sars-Cov-2 acumula de duas a tr\u00eas muta\u00e7\u00f5es ao m\u00eas. Isso \u00e9 um ritmo r\u00e1pido de evolu\u00e7\u00e3o. A \u00fanica forma \u00e9 evitar que o v\u00edrus seja transmitido e alcance novas pessoas, porque durante a infec\u00e7\u00e3o \u00e9 que ele acumula muta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pode ser que em um futuro pr\u00f3ximo esse v\u00edrus j\u00e1 n\u00e3o gere um impacto da sa\u00fade p\u00fablica t\u00e3o grande em fun\u00e7\u00e3o da imunidade adquirida ao longo dos anos, seja porque as pessoas foram infectadas ou porque elas foram vacinadas, a ponto de j\u00e1 n\u00e3o ter uma necessidade de uma vacina\u00e7\u00e3o t\u00e3o frequente. Mas at\u00e9 que a gente chegue nesse ponto, temos que continuar aplicando doses de refor\u00e7o, como fazemos contra o v\u00edrus da gripe.<\/p>\n<p><strong>Luna<\/strong>: Temos toda essa tarefa de fazer a terceira dose para aqueles que n\u00e3o tomaram e completar a vacina\u00e7\u00e3o com as duas doses. Temos que fazer essa amplia\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as de 5 a 11 anos de idade. Na situa\u00e7\u00e3o brasileira, \u00e9 isso que est\u00e1 na ordem do dia. E se ainda est\u00e1 na d\u00favida se vamos precisar de uma vacina anual, n\u00e3o temos certeza. Se for assim, o que eu prevejo \u00e9 uma dose anual semelhante ao que se faz com a influenza.<\/p>\n<p>Houve uma declara\u00e7\u00e3o do presidente da Pfizer de que vai ter uma vacina para \u00d4micron, mas n\u00e3o sabemos se esse \u00e9 o caminho. N\u00e3o h\u00e1 consenso cient\u00edfico sobre isso, mas eu creio que deva surgir alguma decis\u00e3o neste ano sobre esse assunto.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia \u00e9 que a pandemia \u201ctermine\u201d com a covid se tornando epidemias\/surtos sazonais, como a gripe? Quais ser\u00e3o as marcas\/indicadores de que a pandemia est\u00e1 chegando ao fim?<\/p>\n<p><strong>Kraenkel<\/strong>: Quem disse que s\u00f3 porque a \u00d4micron causa sintomas menos severos, qualquer coisa que venha a\u00ed tamb\u00e9m ir\u00e1 trazer sintomas menos severos? Os processos evolucion\u00e1rios t\u00eam uma grande parcela de indeterminismo. N\u00e3o d\u00e1 para dizer isso.<\/p>\n<p>Vamos precisar discutir uma gest\u00e3o flex\u00edvel \u2014 n\u00e3o sei se agora, talvez quando esta onda passar \u2014, mas de como vamos fazer. \u00c9 importante que exista um gabinete de crise com flexibilidade suficiente para fazer avalia\u00e7\u00f5es de qu\u00e3o grave a situa\u00e7\u00e3o \u00e9, quais as perspectivas e como vamos fazer para de certa forma conviver com o v\u00edrus, sem fazer com que muita gente v\u00e1 para o hospital ou morra de covid. Mas n\u00e3o vejo por parte do governo nenhuma discuss\u00e3o nesse sentido.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 preciso continuar acompanhando o n\u00famero de interna\u00e7\u00f5es, nas UTIs e enfermarias, qual o n\u00edvel de incid\u00eancia da doen\u00e7a na popula\u00e7\u00e3o geral, e ter uma rea\u00e7\u00e3o r\u00e1pida quando necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 muito cedo, a gente mal come\u00e7ou a subida da \u00d4micron e n\u00e3o sabemos ao certo como isso vai impactar a sociedade brasileira. Ainda \u00e9 cedo para dizer \u201ctudo bem ter covid\u201d. \u00c9 preciso ter monitoramento da situa\u00e7\u00e3o, por exemplo, gen\u00f4mico, precisaria ter uma maior organiza\u00e7\u00e3o para verificar se n\u00e3o est\u00e3o surgindo novas variantes que possam ser de maior preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Brito<\/strong>: Muitas pessoas perguntam quando a epidemia vai terminar. Uma coisa que precisamos ter bastante claro \u00e9 que n\u00e3o haver\u00e1 um marco temporal \u00fanico, em um dia espec\u00edfico, que defina \u201caqui foi o fim da pandemia\u201d. N\u00e3o \u00e9 em um dia espec\u00edfico, \u00e9 um processo.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia \u00e9 ver cada vez menos um impacto grande na sa\u00fade p\u00fablica. Esses impactos t\u00eam a tend\u00eancia de irem diminuindo at\u00e9 chegar em um momento onde o impacto j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 grande o suficiente para que a gente tenha que implementar medidas de restri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 outros quatro coronav\u00edrus que j\u00e1 infectaram provavelmente todos n\u00f3s ao longo da nossa inf\u00e2ncia e da nossa vida adulta tamb\u00e9m. Sempre pegamos esses v\u00edrus, s\u00e3o os sazonais. A gente sabe o per\u00edodo do m\u00eas, onde eles costumam circular com mais facilidade. Podemos provavelmente chegar nesse est\u00e1gio end\u00eamico em um futuro muito pr\u00f3ximo. Essa, por exemplo, j\u00e1 \u00e9 a realidade do v\u00edrus H1N1 da pandemia que a gente viu em 2009. Muitos pensam que o v\u00edrus desapareceu: n\u00e3o, de forma nenhuma. Esse v\u00edrus H1N1 pand\u00eamico segue com a gente. No Brasil, no ano de 2019 ele correspondeu a mais de 25% dos casos naquele ano.<\/p>\n<p>O v\u00edrus da covid vai seguir com a gente, muito provavelmente ele vai se somar aos outros quatro. Eu vi agora pessoas que contra\u00edram a variante Gama, que nunca desapareceu totalmente. \u00c9 tudo uma quest\u00e3o de acompanhar. Esse v\u00edrus j\u00e1 nos deu v\u00e1rios dribles. \u00c9 importante tirar essa ideia de que a \u00d4micron \u00e9 leve. Ela \u00e9 leve para quem? Para vacinados em todas as doses? Possivelmente sim, mas e para os n\u00e3o vacinados e para aquela popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel? Provavelmente n\u00e3o. A gente tem que enxergar as coisas por esse \u00e2ngulo. N\u00f3s temos uma diversidade populacional muito grande em termos de prote\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Luna:<\/strong> Talvez seja isso, quer dizer, o fim da pandemia seja que esse v\u00edrus se torne end\u00eamico. Se for assim, talvez a \u00d4micron represente que estejamos caminhando nesse sentido. Eu ainda acho precipitado fazer essa conclus\u00e3o. Penso que vamos ter mais elementos nesse ano de 2022 para confirmar essas hip\u00f3teses de que a doen\u00e7a est\u00e1 virando end\u00eamica.<\/p>\n<p>Para isso, eu vou voltar aqui l\u00e1 do come\u00e7o: essa menor gravidade talvez seja fruto da amplia\u00e7\u00e3o da vacina\u00e7\u00e3o. Para que ocorra essa endemiza\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, seria necess\u00e1rio que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o mundial fosse vacinada, mas n\u00e3o temos essa situa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o temos uma varia\u00e7\u00e3o muito grande, e os pa\u00edses mais pobres, que \u00e9 onde tem a maior popula\u00e7\u00e3o, continuam com uma cobertura vacinal muito baixa.<\/p>\n<p>Talvez, nesses lugares onde tem uma vacina\u00e7\u00e3o baixa, a gente continue a ter um cen\u00e1rio pand\u00eamico com a emerg\u00eancia de muitas outras variantes potencialmente muito graves. E essas variantes n\u00e3o ficam restritas a um lugar s\u00f3. E o que ficou claro \u00e9 que as barreiras sanit\u00e1rias como o fechamento das fronteiras s\u00e3o muito dif\u00edceis de ser operacionalizadas e n\u00e3o t\u00eam sido eficazes para barrar a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para muitos brasileiros, 2022 come\u00e7ou com um gosto amargo de 2020: ap\u00f3s meses de queda na m\u00e9dia de casos de covid-19 no pa\u00eds, o ano novo marcou a explos\u00e3o da transmiss\u00e3o comunit\u00e1ria da variante \u00d4micron. A not\u00edcia ruim: os dados hoje j\u00e1 registram o recorde de infec\u00e7\u00f5es por covid desde o in\u00edcio da pandemia, superando [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":278631,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-278630","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=278630"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278630\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":278632,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278630\/revisions\/278632"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/278631"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=278630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=278630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=278630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}