{"id":279152,"date":"2022-01-29T05:15:01","date_gmt":"2022-01-29T08:15:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=279152"},"modified":"2022-01-29T05:16:21","modified_gmt":"2022-01-29T08:16:21","slug":"lula-deve-resgatar-licoes-de-arraes-e-brizola-para-ser-eleito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-deve-resgatar-licoes-de-arraes-e-brizola-para-ser-eleito\/","title":{"rendered":"Lula deve resgatar li\u00e7\u00f5es de Arraes e Brizola para ser eleito"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei com quantos estadistas o processo social contemplou nossa fr\u00e1gil rep\u00fablica. Mas, principalmente na sequ\u00eancia dos anos 1930, dois nomes saltam \u00e0 vista: Get\u00falio Vargas e Leonel Brizola. O primeiro inaugura o ciclo trabalhista; o segundo, encerrando-o, cede caminho para a emerg\u00eancia do lulismo, vertente que negara o varguismo, cadinho de todos os v\u00edcios do sindicalismo brasileiro, na conclus\u00e3o prim\u00e1ria da socialdemocracia paulista, que, no governo, prometeu &#8220;enterrar a era Vargas&#8221;.<\/p>\n<p>Get\u00falio \u2013 dominando a pol\u00edtica e o imagin\u00e1rio nacional desde 1930, e, com o pequeno intervalo de 1945-1950, governando o pa\u00eds por 19 anos \u2013 constitui-se, at\u00e9 aqui, como nossa maior lideran\u00e7a popular. Riqu\u00edssima, \u00e9 ao mesmo tempo personalidade pol\u00edtica a mais contradit\u00f3ria, ao transitar da revolu\u00e7\u00e3o conservadora de 1930 (movimento liderado por tr\u00eas governadores de Estado e operado pela elite do &#8220;tenentismo&#8221;) \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o do pais, da democracia representativa de 1934 \u00e0 ditadura do &#8220;Estado novo&#8221;, para enfim encerrar seus dias de forma tr\u00e1gica na condu\u00e7\u00e3o frustrada de um governo democr\u00e1tico e nacionalista. Deixou como heran\u00e7a, em um rol extens\u00edssimo, a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, uma plataforma nacionalista e um partido pol\u00edtico popular, bem como duas lideran\u00e7as, seus conterr\u00e2neos Jo\u00e3o Goulart e Leonel Brizola.<\/p>\n<p>Embora jamais lograsse a presid\u00eancia da rep\u00fablica, que tanto perseguiu, e para a qual se preparara no curso de sua longa carreira pol\u00edtica \u2013 deputado estadual, prefeito de Porto Alegre, governador do Rio Grande do Sul, deputado federal pelo antigo Estado da Guanabara, duas vezes governador do Rio de Janeiro &#8211; Brizola foi sem d\u00favida o mais influente e longevo quadro da pol\u00edtica brasileira a partir dos anos 1960, quando, com seu voluntarismo e sua coragem quase temer\u00e1ria, alterou o curso da hist\u00f3ria escrita pela classe dominante e impediu o golpe militar de 1961, por meio da Campanha da Legalidade.<\/p>\n<p>A posse de Jango mantinha de p\u00e9 a ordem institucional e ensejaria \u00e0 j\u00e1 ent\u00e3o enferma democracia representativa brasileira, uma dram\u00e1tica sobrevida de quase quatro anos, com o permanentemente contestado governo Goulart, durante o qual o pa\u00eds, nada obstante as contradi\u00e7\u00f5es que militavam em seu bojo, assistiu, ainda que aos trancos e barrancos, a um dos mais largos per\u00edodos de liberdades democr\u00e1ticas e debates em torno de suas vicissitudes e alternativas, ponto de partida para a eleva\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o das massas, que apavorou as classes dominantes.<\/p>\n<p>A fonte desse Brasil posto em discuss\u00e3o, a ser &#8220;passado a limpo&#8221; na academia e nas assembleias, como reclamava Darcy Ribeiro, remontava \u00e0s lides de agosto de 1961. N\u00e3o f\u00f4ra, por\u00e9m, uma rebeldia qualquer aquela do jovem governador ga\u00facho, pois materializava-se mediante a mobiliza\u00e7\u00e3o popular, levantando o pa\u00eds amorfo na defesa de um princ\u00edpio tornado caro: a legalidade democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A concilia\u00e7\u00e3o que se seguiu, qual seja, a condicionante do parlamentarismo de fancaria, traficada no Congresso com os militares e os representantes de sempre da casa-grande, n\u00e3o diminui os m\u00e9ritos do levante ga\u00facho, e mais ainda justificar\u00e1 o radicalismo que pautar\u00e1 a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Leonel Brizola, da\u00ed em diante, correndo o pa\u00eds que pretendia organizar, conhecendo as fragilidades do regime democr\u00e1tico (e, nele, do governo Jango), e certamente antevendo a retomada golpista, pois a partir de certo momento a conspira\u00e7\u00e3o se fazia \u00e0 luz do dia: da Campanha da Legalidade resultara a semeadura da li\u00e7\u00e3o de que o povo organizado pode decidir seu destino, o que sobressaltava, e sobressalta ainda, os herdeiros do escravismo e da subservi\u00eancia colonial.<\/p>\n<p>Com seus acertos e seus tantos erros, as esquerdas brasileiras e as for\u00e7as trabalhistas e populares de um modo geral (a\u00ed inclu\u00eddas as correntes comunistas tradicionais) haviam assumido um novo papel na pol\u00edtica, e os temas paroquianos foram substitu\u00eddos pelas quest\u00f5es que diziam respeito \u00e0 soberania nacional, ao desenvolvimento e ao combate \u00e0s injusti\u00e7as sociais.<\/p>\n<p>Explica-se, pois, a ojeriza com que Brizola sempre foi tratado pelos militares, cujos 21 anos de mandarinato fustigou, como poucos dentre os chamados &#8220;grandes exilados&#8221;. Ali\u00e1s, com Miguel Arraes, outro pol\u00edtico longevo e de ra\u00edzes populares pr\u00f3ximas do antigo petebismo, seria o \u00fanico sobrevivente da Rep\u00fablica de 1946 e da frustrada experi\u00eancia liderada por Jo\u00e3o Goulart, contestada internamente pela onda conservadora daqueles anos, e desestabilizada pelos governos dos EUA, de John Kennedy a Lyndon Johnson, a quem caberia ligar o sinal de partida para a conclus\u00e3o do golpe, operado pelos militares brasileiros.<\/p>\n<p>Sobreviveriam, ambos, Brizola e Arraes, tamb\u00e9m ao ocaso da ditadura militar e, cada um ao seu modo, os modos distintos do ga\u00facho e do sertanejo, com idas e vindas, converg\u00eancias e conflitos, terminariam por contribuir, nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, para a ascens\u00e3o do PT de Lula e do &#8220;novo trabalhismo&#8221; ao poder.<\/p>\n<p>Os velhos caciques fizeram chegar bandeiras avan\u00e7adas \u00e0s grandes massas, sotopostas desde o ocaso do varguismo e a crise das esquerdas, e por isso mesmo devem ser vistos como tribut\u00e1rios talvez conscientes da elei\u00e7\u00e3o de Lula em 2002, decisiva para o estabelecimento de uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, essa que com altos e baixos chega esperan\u00e7osa aos nossos dias, ap\u00f3s os desarranjos que levaram \u00e0 ascens\u00e3o do protofascismo.<\/p>\n<p>Brizola trouxe para o debate nacional a den\u00fancia do imperialismo, levantado por Vargas em sua carta-testamento. Ambos sempre contaram com a resist\u00eancia da burguesia associada dos grandes cart\u00e9is, servidoras das grandes pot\u00eancias, da Inglaterra aos EUA, cujos interesses ele afrontou ao nacionalizar a filial da International Telephone &amp; Telegraph (ITT) no Rio Grande do Sul. A grande imprensa nunca lhe perdoou por isso. Brizola foi duramente combatido pelos poderosos &#8220;Di\u00e1rios e r\u00e1dios associados&#8221; de Assis Chateaubriand e pelo poderos\u00edssimo Grupo Globo que, considerando ser insuficiente enxovalhar sua imagem p\u00fablica, tentou, numa opera\u00e7\u00e3o associada com o poder militar, surrupiar-lhe a elei\u00e7\u00e3o de 1982 para o governo do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Que a feliz coincid\u00eancia do centen\u00e1rio de Brizola com a expectativa da elei\u00e7\u00e3o de Lula seja a oportunidade de uma reflex\u00e3o dos brasileiros sobre a crise pol\u00edtica que nos alcan\u00e7a em seu \u00e1pice. A figura do l\u00edder ga\u00facho chama a responsabilidade cada uma de nossas organiza\u00e7\u00f5es e lideran\u00e7as comprometidas com a democracia, o desenvolvimento e o combate sem recesso \u00e0 ignominiosa desigualdade social que, em pleno s\u00e9culo XXI, impede a constru\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o que merecemos ser.<\/p>\n<p><strong>*Ex-ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei com quantos estadistas o processo social contemplou nossa fr\u00e1gil rep\u00fablica. Mas, principalmente na sequ\u00eancia dos anos 1930, dois nomes saltam \u00e0 vista: Get\u00falio Vargas e Leonel Brizola. 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