{"id":279215,"date":"2022-01-29T14:52:07","date_gmt":"2022-01-29T17:52:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=279215"},"modified":"2022-01-29T21:59:15","modified_gmt":"2022-01-30T00:59:15","slug":"grupos-lgbt-se-reunem-em-para-lutar-por-direito-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/grupos-lgbt-se-reunem-em-para-lutar-por-direito-a-vida\/","title":{"rendered":"Grupos LGBT+ se re\u00fanem para lutar por direito \u00e0 vida"},"content":{"rendered":"<p>Desde 2018, pessoas transexuais podem buscar cart\u00f3rios de registro civil no pa\u00eds para corrigir seu primeiro nome e seu g\u00eanero na certid\u00e3o de nascimento ou casamento e, a partir da\u00ed, modificar os outros documentos pessoais.<\/p>\n<p>Quase quatro anos ap\u00f3s essa conquista, no entanto, ativistas transexuais e defensores dos direitos humanos ouvidos para o Dia da Visibilidade Trans, celebrado neste s\u00e1bado (29), apontam obst\u00e1culos \u00e0 efetiva\u00e7\u00e3o desse direito e se mobilizam para que a popula\u00e7\u00e3o tenha acesso a documentos que respeitem sua identidade de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Para a presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Keila Simpson, as barreiras j\u00e1 come\u00e7am nos custos de obten\u00e7\u00e3o das certid\u00f5es necess\u00e1rias para realizar o pedido no cart\u00f3rio, que incluem gastos com o deslocamento para ir aos \u00f3rg\u00e3os solicit\u00e1-las.<\/p>\n<p>Superada essa etapa, a retifica\u00e7\u00e3o do registro civil no cart\u00f3rio tamb\u00e9m requer o pagamento de taxas que variam de estado para estado. Keila explica que a informa\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel solicitar gratuidade nem sempre chega \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A burocracia existente e a n\u00e3o gratuidade s\u00e3o um grande empecilho. Estou falando de uma popula\u00e7\u00e3o que vive em subemprego, n\u00e3o tem recursos muitas vezes, e que tem que pagar pelas certid\u00f5es. Para muitas pessoas pode parecer valores irris\u00f3rios, mas para as pessoas trans \u00e9 significativo e muitas n\u00e3o t\u00eam como pagar&#8221;.<\/p>\n<p>Keila foi uma das ativistas trans que estiveram no Congresso Nacional, em 29 de janeiro de 2004, para um ato por respeito que foi considerado hist\u00f3rico e definiu a data do Dia Nacional da Visibilidade Trans.<\/p>\n<p>A presidente da Antra recomenda que pessoas trans que n\u00e3o saibam como pedir a corre\u00e7\u00e3o de seus documentos procurem defensorias p\u00fablicas e organiza\u00e7\u00f5es de defesas dos direitos humanos de sua regi\u00e3o para buscar orienta\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, ela indica que h\u00e1 guias dispon\u00edveis na internet, como no pr\u00f3prio site da associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A pessoa vai vivendo sem se identificar e passa por dificuldades, por viola\u00e7\u00f5es de direito, por constrangimento p\u00fablico quando precisar apresentar o documento. E ela vai continuar sofrendo essas viol\u00eancias que ela sofre porque tem uma burocracia nesse processo que precisa ser vencida&#8221;, afirma Keila Simpson.<\/p>\n<p><strong>Regras<\/strong><br \/>\nA retifica\u00e7\u00e3o de nome e g\u00eanero nos cart\u00f3rios segue as regras do Provimento n.\u00ba 73, publicado em 2018 pelo Conselho Nacional de Justi\u00e7a. Al\u00e9m de certid\u00e3o de nascimento, RG, CPF, t\u00edtulo de eleitor e outros documentos de identifica\u00e7\u00e3o, s\u00e3o exigidas certid\u00f5es da Justi\u00e7a Eleitoral e da Justi\u00e7a do Trabalho, certid\u00f5es dos distribuidores c\u00edvel e criminal do local de resid\u00eancia, certid\u00e3o de execu\u00e7\u00e3o criminal, certid\u00e3o dos tabelionatos de protestos e certid\u00e3o da Justi\u00e7a Militar, se for o caso.<\/p>\n<p>Reunidos todos esses documentos, a pessoa trans pode ir ao cart\u00f3rio solicitar que seja corrigido o primeiro nome e\/ou o g\u00eanero em sua certid\u00e3o de nascimento. Caso seja casada, a pessoa precisa do consentimento do c\u00f4njuge para alterar a certid\u00e3o de casamento.<\/p>\n<p>O provimento do CNJ s\u00f3 se tornou poss\u00edvel depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu, em 2018, o direito de as pessoas trans corrigirem seus documentos em cart\u00f3rio sem comprovar qualquer tipo de cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p><strong>Espera e humilha\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nPresidente do Grupo pela Vidda, Maria Eduarda Aguiar lembra que a retifica\u00e7\u00e3o de seus documentos, obtida antes da decis\u00e3o do STF e do provimento do CNJ, precisou ser realizada por via judicial.<\/p>\n<p>&#8220;Eu s\u00f3 consegui a retifica\u00e7\u00e3o civil depois do laudo de um psiquiatra. Teve que uma outra pessoa dizer quem eu sou. Hoje, demora 90 dias, mas o meu processo demorou tr\u00eas anos. E houve pessoas que esperaram mais, at\u00e9 seis anos&#8221;, conta ela, que lembra que o processo exigia a comprova\u00e7\u00e3o da cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o sexual, de tratamentos hormonais e ainda dependia da aprova\u00e7\u00e3o do juiz que fosse respons\u00e1vel pelo caso.<\/p>\n<p>No tempo de espera por seus documentos, Maria Eduarda viveu situa\u00e7\u00f5es que classifica como humilhantes, em que era acusada de inventar um nome que n\u00e3o podia provar que era o seu.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00f3 quem vive isso sabe o que \u00e9. \u00c9 uma tortura ter que, a toda hora, estar se explicando. Voc\u00ea vai a um lugar e tem que explicar e pedir, pelo amor de Deus, para a pessoa te tratar no nome social. Isso \u00e9 humilhante, n\u00e3o h\u00e1 dignidade nisso. A retifica\u00e7\u00e3o d\u00e1 cidadania \u00e0 pessoa, porque ela n\u00e3o precisa ficar se explicando, ela apresenta o documento e acabou&#8221;.<\/p>\n<p>Como ativista e advogada, Maria Eduarda decidiu ajudar outras pessoas trans a obter a adequa\u00e7\u00e3o de seus documentos e evitar esses constrangimentos. O Grupo pela Vidda realizou um mutir\u00e3o por meio do projeto TransVida, entre outubro e dezembro de 2021, para orientar pessoas trans na obten\u00e7\u00e3o das certid\u00f5es e no pedido de retifica\u00e7\u00e3o. Ao acompanhar esses casos, ela conta ter se deparado com barreiras que v\u00e3o al\u00e9m da burocracia.<\/p>\n<p>&#8220;Vimos cart\u00f3rios exigindo documentos que n\u00e3o est\u00e3o previstos, ou colocando em exig\u00eancia documentos que j\u00e1 foram apresentados&#8221;, conta ela, que exemplifica com um caso em que o cart\u00f3rio exigiu certid\u00f5es tamb\u00e9m no nome social do solicitante, o que n\u00e3o est\u00e1 previsto pelo CNJ.<\/p>\n<p>A advogada relata ainda mais de um caso em que o requerente n\u00e3o recebeu um protocolo comprovando que realizou o pedido. &#8220;A pessoa acaba tendo que refazer o pedido&#8221;.<\/p>\n<p>O mutir\u00e3o conseguiu realizar 70 atendimentos no Rio de Janeiro, e, em alguns casos, foi preciso acompanhar o requerente no cart\u00f3rio para questionar esses obst\u00e1culos. &#8220;Minha luta \u00e9 prestar um servi\u00e7o para que a decis\u00e3o do STF seja efetivada. E a gente tem conseguido bons resultados&#8221;.<\/p>\n<p>Uma das hist\u00f3rias que Maria Eduarda come\u00e7ou a acompanhar antes mesmo do mutir\u00e3o foi a de Tha\u00edsa Correia, de 31 anos. A auxiliar de cabeleireira fez sua primeira tentativa de retifica\u00e7\u00e3o dos documentos em 2014, ainda por via judicial, mas o processo caminhou a passos lentos at\u00e9 que ela decidiu pedir ajuda \u00e0 advogada, j\u00e1 em 2020.<\/p>\n<p>No caso de Tha\u00edsa, a principal dificuldade foi fazer com que o cart\u00f3rio de sua cidade natal, em Alagoas, enviasse a certid\u00e3o para a retifica\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro. &#8220;Como eu n\u00e3o tinha dinheiro para ir l\u00e1, demorou muito. Se eu tivesse, acredito que teria sido muito mais r\u00e1pido&#8221;, conta ela, que s\u00f3 conseguiu concluir o processo no fim de 2021.<\/p>\n<p>&#8220;Muitas trans ainda n\u00e3o t\u00eam nem ci\u00eancia de por onde come\u00e7ar. Tive auxilio da Duda [Maria Eduarda] e de outra amiga que j\u00e1 fizeram a retifica\u00e7\u00e3o, e por conta delas duas consegui galgar isso. Para uma trans leiga \u00e9 muito dif\u00edcil&#8221;.<\/p>\n<p>Nos quase sete anos em que viveu \u00e0 espera de ter sua identidade de g\u00eanero reconhecida nos documentos, Tha\u00edsa conta que perdeu oportunidades de trabalho e enfrentou constrangimentos ao buscar servi\u00e7os e apresentar documentos com o nome que recebeu ao nascer.<\/p>\n<p>&#8220;Mesmo que eu mandasse o curr\u00edculo s\u00f3 com o nome de Tha\u00edsa, na hora de ser chamada eu tinha que apresentar os documentos. Na primeira leitura, era lida como mulher, mas a\u00ed vinha o constrangimento&#8221;, lembra ela. &#8220;Quando recebi a certid\u00e3o, o sentimento foi de liberta\u00e7\u00e3o, porque depois de tanta luta finalmente respeitaram minha identidade. \u00c9 um al\u00edvio&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Mutir\u00f5es<\/strong><br \/>\nDiante das dificuldades e custos que o processo pode impor, cada vez mais mutir\u00f5es t\u00eam ocorrido para oferecer alternativas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o trans que n\u00e3o tem recursos para solicitar a retifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, a Defensoria P\u00fablica estadual, em parceria com a Justi\u00e7a Itinerante e a Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), garantiu 96 retifica\u00e7\u00f5es de documentos em um \u00fanico dia, em 26 de novembro.<\/p>\n<p>A coordenadora do N\u00facleo de Defesa dos Direitos Homoafetivos e Diversidade Sexual (Nudiversis), defensora Mirela Assad, conta que os interessados em obter a retifica\u00e7\u00e3o encontram um processo mais \u00e1gil no mutir\u00e3o, porque a presen\u00e7a da Justi\u00e7a Itinerante permite que, em um \u00fanico dia, os atendidos j\u00e1 saiam com uma senten\u00e7a que pode ser levada no cart\u00f3rio para altera\u00e7\u00e3o do nome e g\u00eanero.<\/p>\n<p>&#8220;A diferen\u00e7a \u00e9 que em um \u00fanico dia a pessoa se qualifica. Ela n\u00e3o precisa ficar batendo perna para conseguir certid\u00f5es, o que para pessoas pobres \u00e9 uma coisa custosa&#8221;, explica a coordenadora do Nudiversis<\/p>\n<p>Esse modelo tamb\u00e9m permite o atendimento a pessoas n\u00e3o-bin\u00e1rias, que ainda dependem de decis\u00f5es judiciais para ter o g\u00eanero reconhecido em seus documentos. Entre as retifica\u00e7\u00f5es realizadas na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do mutir\u00e3o, 47 foram de pessoas trans n\u00e3o-bin\u00e1rias, que sa\u00edram do mutir\u00e3o com uma senten\u00e7a judicial obrigando os cart\u00f3rios a corrigirem o g\u00eanero de seus registros civis para n\u00e3o-bin\u00e1rie, com grafia em linguagem neutra.<\/p>\n<p>&#8220;Quando fizemos a peti\u00e7\u00e3o e o juiz deu a senten\u00e7a, isso foi a primeira vit\u00f3ria, porque saiu uma senten\u00e7a por escrito de que o g\u00eanero deveria ser retificado para n\u00e3o-bin\u00e1rie, em linguagem neutra. Ficamos apreensivos se os cart\u00f3rios do registro civil iriam cumprir, mas para a nossa felicidade, eles est\u00e3o cumprindo&#8221;, conta a defensora.<\/p>\n<p>Um novo mutir\u00e3o est\u00e1 marcado para o dia 18 de fevereiro, se o cen\u00e1rio epidemiol\u00f3gico da covid-19 permitir, pondera a defensora. Mirela Assad conta que, por causa da pandemia, optou-se por realizar o mutir\u00e3o no campus da Fiocruz em Manguinhos, em um local aberto, onde o \u00f4nibus da Justi\u00e7a Itinerante pode estacionar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 2018, pessoas transexuais podem buscar cart\u00f3rios de registro civil no pa\u00eds para corrigir seu primeiro nome e seu g\u00eanero na certid\u00e3o de nascimento ou casamento e, a partir da\u00ed, modificar os outros documentos pessoais. Quase quatro anos ap\u00f3s essa conquista, no entanto, ativistas transexuais e defensores dos direitos humanos ouvidos para o Dia da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":279216,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-279215","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=279215"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279215\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":279240,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279215\/revisions\/279240"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/279216"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=279215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=279215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=279215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}