{"id":279528,"date":"2022-02-03T11:50:08","date_gmt":"2022-02-03T14:50:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=279528"},"modified":"2022-02-03T11:53:18","modified_gmt":"2022-02-03T14:53:18","slug":"inflacao-e-desemprego-devem-agravar-fome-no-brasil-em-2022","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/inflacao-e-desemprego-devem-agravar-fome-no-brasil-em-2022\/","title":{"rendered":"Infla\u00e7\u00e3o e desemprego devem agravar fome no Brasil em 2022"},"content":{"rendered":"<p>Coordenador da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar (Rede Penssan) e economista formado pela Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), o pesquisador Nilson Maciel de Paula \u00e9 pessimista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da fome e da inseguran\u00e7a alimentar no Brasil em 2022. \u201cO cen\u00e1rio \u00e9 complicado porque a cada dia a gente vai tendo not\u00edcias n\u00e3o muito animadoras. Nada indica que o quadro que veio \u00e0 tona no ano passado, em 2021, relacionado \u00e0 fome, v\u00e1 melhorar\u201d, disse em entrevista \u00e0 <em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em>. Dois fatores s\u00e3o cruciais para a afirma\u00e7\u00e3o do economista: a infla\u00e7\u00e3o e o desemprego que, segundo a maior parte dos progn\u00f3sticos econ\u00f4micos, devem permanecer em situa\u00e7\u00e3o preocupante nesse ano.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma tend\u00eancia de alta no pre\u00e7o dos alimentos que se observa h\u00e1 pelo menos tr\u00eas anos. Dados da Funda\u00e7\u00e3o Instituto de Pesquisas Econ\u00f4micas (Fipe) apontam que entre 2018 e 2021 os alimentos ficaram, em m\u00e9dia, 43% mais caros para o consumidor final. A pandemia agravou esse cen\u00e1rio. O mesmo ocorreu em rela\u00e7\u00e3o ao desemprego. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil s\u00f3 deve retornar ao n\u00edvel pr\u00e9-pandemia em 2024.<\/p>\n<p>A Rede Penssan foi respons\u00e1vel pelo \u201cInqu\u00e9rito Nacional sobre Inseguran\u00e7a Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil\u201d, uma pesquisa de alcance nacional que analisou o impacto da pandemia no aspecto da seguran\u00e7a alimentar da popula\u00e7\u00e3o brasileira e foi publicada no ano passado. A partir de uma amostra de 2.180 domic\u00edlios, a pesquisa concluiu que: 116 milh\u00f5es de pessoas \u2014 mais da metade dos lares brasileiros \u2014\u00a0 estavam em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar e 19 milh\u00f5es passavam fome.<\/p>\n<p>De Paula alerta para a infla\u00e7\u00e3o de alimentos observada no Brasil e a combina\u00e7\u00e3o de pouca atividade econ\u00f4mica com o cen\u00e1rio de aumento de pre\u00e7os, que classifica como uma \u201ccombina\u00e7\u00e3o explosiva\u201d.<\/p>\n<p><strong>Temos previs\u00f5es pouco animadoras para a infla\u00e7\u00e3o e o desemprego em 2022. Diante desse cen\u00e1rio, para onde vai essa situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar no Brasil em 2022?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil fazer uma proje\u00e7\u00e3o muito precisa, os economistas gostam muito de aplicar modelos de previs\u00e3o, e depois todos eles furam. O cen\u00e1rio \u00e9 complicado porque a cada dia a gente tem not\u00edcias n\u00e3o muito animadoras. Nada indica que o quadro que veio \u00e0 tona no ano passado, em 2021, relacionado \u00e0 fome, v\u00e1 melhorar. A cada dia que passa a gente tem algo que vai agravando esse quadro\u2026 Ent\u00e3o as perspectivas que temos s\u00e3o de agravamento da fome e da inseguran\u00e7a alimentar porque tem uma combina\u00e7\u00e3o terr\u00edvel, nefasta, que \u00e9 um quadro de infla\u00e7\u00e3o com a press\u00e3o dos pre\u00e7os da alimenta\u00e7\u00e3o. Estamos falando de uma infla\u00e7\u00e3o em cima do que \u00e9 essencial. Quando voc\u00ea v\u00ea a infla\u00e7\u00e3o pegando esse setor, vai atingir os segmentos mais vulner\u00e1veis. E a\u00ed voc\u00ea tem uma combina\u00e7\u00e3o que \u00e9 explosiva, que \u00e9 a infla\u00e7\u00e3o combinada com aus\u00eancia de demanda.<\/p>\n<p>\u00c9 uma coisa meio estranha, n\u00e9? Porque geralmente \u00e9 muito comum associar infla\u00e7\u00e3o com a press\u00e3o de demanda. E a\u00ed os economistas em geral, o governo, j\u00e1 aumentam a taxa de juros. Os economistas do mercado financeiro gostam dessa ideia, fazer uma restri\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria achando que v\u00e3o segurar a infla\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que isso n\u00e3o resolve o problema que estamos olhando:\u00a0 a pobreza, a fome, a falta de renda, o desemprego\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o temos uma economia aquecida, ao contr\u00e1rio, temos uma economia estagnada que n\u00e3o cresce, e nada indica que v\u00e1 ser diferente em 2022. E voc\u00ea tem a infla\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o indicador de que o quadro relacionado \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar pode se agravar. Junto com isso tem o problema da pobreza, do desemprego \u2014 n\u00e3o s\u00f3 o desemprego em si, a falta de oportunidades de trabalho, mas o emprego informal, que corr\u00f3i a qualidade do mercado de trabalho. Tamb\u00e9m h\u00e1 uma perda da qualidade do trabalho em fun\u00e7\u00e3o do deslocamento do eixo da economia rumo a uma reprimariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por exemplo, quando voc\u00ea tem um setor como o agroneg\u00f3cio, setores de commodities, puxando a economia, isso indica uma precariza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho. Voc\u00ea tem uma empresa montadora que fecha as portas, mas isso \u00e9 compensado no agregado macroecon\u00f4mico, no PIB, pelas exporta\u00e7\u00f5es do agroneg\u00f3cio. Quando voc\u00ea olha no geral, voc\u00ea pensa que a economia est\u00e1 crescendo, mas a qualidade do trabalho se alterou dramaticamente porque voc\u00ea empregava antes um engenheiro el\u00e9trico, mec\u00e2nico, com um trabalho de melhor qualidade, e agora voc\u00ea emprega o qu\u00ea? Ent\u00e3o voc\u00ea tem o deslocamento da qualidade do mercado de trabalho em fun\u00e7\u00e3o do deslocamento do eixo da economia.<\/p>\n<p><strong>O quanto dessa inseguran\u00e7a alimentar observada por voc\u00eas no inqu\u00e9rito foi fruto da pandemia e o quanto veio de condi\u00e7\u00f5es mais estruturais da economia brasileira?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que a pandemia fez com que a quest\u00e3o da fome e da inseguran\u00e7a alimentar se tornasse mais vis\u00edvel. A sociedade parou \u00e0 medida que a pandemia foi se agravando, e a\u00ed entrou em discuss\u00e3o a quest\u00e3o do aux\u00edlio emergencial em 2020. E a\u00ed voc\u00ea vai vendo as pessoas, a m\u00eddia, a sociedade de uma maneira geral, colocando a cabe\u00e7a para fora para ver o que tava acontecendo. Al\u00e9m disso, voc\u00ea tem de fato uma perda de dinamismo. A economia parou na pandemia, e n\u00e3o tem como negar isso: voc\u00ea tem fechamento de empresas, neg\u00f3cios, ou seja, voc\u00ea tem uma crise econ\u00f4mica que veio na esteira da pandemia.\u00a0 E a\u00ed vai se formando essa combina\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias crises, e o problema da inseguran\u00e7a alimentar aparece. Vem a pandemia e depois vem a perda de renda, de emprego etc. A inseguran\u00e7a alimentar \u00e9 um fen\u00f4meno socialmente identificado, assim como \u00e9 a pandemia: a pandemia n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tica, como muita gente dizia, ela atingiu muito mais os segmentos que n\u00e3o tinham como fazer distanciamento, como deixar de trabalhar.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que evoluiu historicamente assentado numa desigualdade social e econ\u00f4mica estrutural. \u00c9 uma marca do nosso processo de desenvolvimento. \u00c9 uma sociedade que se tornou moderna e complexa, mas manteve esse tra\u00e7o enraizado. Isso j\u00e1 \u00e9 algo que voc\u00ea tem h\u00e1 muito tempo. Voc\u00ea tem junto com isso o que foi feito no Brasil a partir de 2016, um desmonte das pol\u00edticas sociais e uma iniciativa de dobrar a aposta na agenda liberal, no sentido de reduzir o Estado. A\u00ed vieram as reformas para se redinamizar a economia\u2026 Com isso, v\u00e1rias pol\u00edticas foram precarizadas ou desmontadas. Isso afetou o setor da alimenta\u00e7\u00e3o frontalmente, em cheio. Voc\u00ea pega, por exemplo, o PAA [Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos da Agricultura Familiar], que tem um enraizamento no meio urbano para atender popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis, escolas, que teve o aporte or\u00e7ament\u00e1rio cortado violentamente. E junto com ele v\u00e1rias outras pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Houve um desmonte da estrutura de pol\u00edtica p\u00fablica que acabou contribuindo e se somou \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Se voc\u00ea pegar no nosso relat\u00f3rio, de 2004 a 2013, n\u00f3s tivemos um interregno que a inseguran\u00e7a alimentar diminuiu, o Brasil saiu do Mapa da Fome, toda aquela coisa. De l\u00e1 pra c\u00e1, a coisa desandou de novo. O contexto da pandemia veio simplesmente engrossar esse caldo e trazer tudo isso \u00e0 tona.<\/p>\n<p><strong>Pensando no cen\u00e1rio eleitoral, o que poderia ser feito para aplacar esse cen\u00e1rio de fome e inseguran\u00e7a alimentar?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o vai resolver essa situa\u00e7\u00e3o com uma elei\u00e7\u00e3o, com um governo. Eu acho que o caminho para se chegar \u00e0 solu\u00e7\u00e3o envolve uma mudan\u00e7a do modelo econ\u00f4mico, e essa mudan\u00e7a do modelo econ\u00f4mico implica recolocar a ind\u00fastria e os processos de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e competitividade na agenda da pol\u00edtica econ\u00f4mica. Ou seja, desprender a pol\u00edtica econ\u00f4mica da mera disciplina monet\u00e1ria. N\u00e3o adianta falar livre mercado, equil\u00edbrio social, se o terreno social est\u00e1 sendo todo corro\u00eddo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso reconduzir a economia para ela se afastar dessa economia prim\u00e1ria exportadora que \u00e9 pra onde esse governo nos levou at\u00e9 agora, com todas as implica\u00e7\u00f5es delet\u00e9rias: destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente, dos\u00a0 seus organismos e fiscalizadores. \u00c9 preciso reconduzir a economia para valorizar o n\u00facleo din\u00e2mico da economia. O n\u00facleo urbano, industrial.<\/p>\n<p>E na esteira disso voc\u00ea vai ter uma recupera\u00e7\u00e3o da qualidade do emprego. Ao inv\u00e9s de voc\u00ea ter um engenheiro civil dirigindo um Uber, voc\u00ea vai ter um engenheiro civil trabalhando numa ind\u00fastria, na constru\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o grande desafio que n\u00f3s temos. Outra coisa \u00e9 recolocar o Estado como protagonista de pol\u00edticas p\u00fablicas que sejam pol\u00edticas de Estado.<\/p>\n<p>Tem que ter uma recupera\u00e7\u00e3o do Estado como agente de pol\u00edtica p\u00fablica, porque o mercado n\u00e3o faz pol\u00edtica p\u00fablica. N\u00f3s precisamos de pol\u00edticas p\u00fablicas no campo da alimenta\u00e7\u00e3o, tem gente passando fome e o mercado n\u00e3o atende isso. Voc\u00ea pode ter a filantropia, que \u00e9 um esparadrapo que vai segurar por enquanto, mas o mercado tem falhas s\u00e9rias do ponto de vista social. Ent\u00e3o o Estado precisa fazer pol\u00edticas de Estado. Por isso tem que ter pol\u00edticas como o Bolsa Fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Quando o governo vem com esse Aux\u00edlio Brasil por um ano, ele est\u00e1 dizendo que o Estado vai dar [um aux\u00edlio por um tempo], mas n\u00e3o sabe se vai continuar dando. Ent\u00e3o isso j\u00e1 deixa de ser pol\u00edtica de Estado.<\/p>\n<p>No ano eleitoral, a gente entende que todo mundo vai falar a mesma coisa, que vai formular pol\u00edticas p\u00fablicas, mas a\u00ed \u00e9 que est\u00e1 o nosso n\u00f3 de que a sociedade vai conseguir decifrar os reais prop\u00f3sitos de quem est\u00e1 se candidatando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coordenador da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar (Rede Penssan) e economista formado pela Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), o pesquisador Nilson Maciel de Paula \u00e9 pessimista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da fome e da inseguran\u00e7a alimentar no Brasil em 2022. \u201cO cen\u00e1rio \u00e9 complicado porque a cada dia a gente vai [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":279529,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-279528","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279528","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=279528"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279528\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":279531,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279528\/revisions\/279531"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/279529"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=279528"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=279528"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=279528"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}