{"id":279704,"date":"2022-02-05T00:10:35","date_gmt":"2022-02-05T03:10:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=279704"},"modified":"2022-02-05T03:41:49","modified_gmt":"2022-02-05T06:41:49","slug":"fuga-de-guerra-civil-acaba-em-morte-por-selvageria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fuga-de-guerra-civil-acaba-em-morte-por-selvageria\/","title":{"rendered":"Fuga de guerra civil acaba em morte por selvageria"},"content":{"rendered":"<p>A vida de Mo\u00efse Kabagambe terminou como sua m\u00e3e temia quando a fam\u00edlia fugiu da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, arrasada pela guerra entre duas etnias, os hema e os lendu. &#8220;Mataram meu filho aqui como matam em meu pa\u00eds, mataram meu filho a socos e pontap\u00e9s, como um bicho&#8221;, disse Ivone Lay, a m\u00e3e de Mo\u00efse, espancado at\u00e9 a morte no Posto 8 da Barra da Tijuca, na valorizada orla carioca.<\/p>\n<p>&#8220;A gente vem para c\u00e1 achando que todo mundo vai viver junto. Que \u00e9 todo mundo igual, mas n\u00e3o&#8221;, disse Ivone no mesmo depoimento ao rep\u00f3rter Rafael Nascimento Souza, do jornal Extra, explicando que desde que os filhos eram pequenininhos sua fam\u00edlia, da etnia hema, era v\u00edtima da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O que ela teve que aprender por aqui, como acontece com haitianos, angolanos e tantos migrantes e refugiados de pa\u00edses negros, \u00e9 que em vez do &#8220;Brasil, m\u00e3e acolhedora&#8221;, como ironizou o irm\u00e3o de Mo\u00efse, o lugar que escolheram para viver \u00e9 um pa\u00eds violentamente racista. &#8220;\u00d3, meu Deus. Ele n\u00e3o merecia isso. Por qu\u00ea? Por que ele era pretinho? Negro? Eles mataram o meu filho porque ele era negro, porque era africano&#8221;, concluiu amargamente a mulher que deseja ir embora do Brasil depois que conseguir justi\u00e7a para o filho de 24 anos, assassinado por cobrar 200 reais devidos por dois dias de trabalho no quiosque Tropic\u00e1lia, onde o espancamento come\u00e7ou.<\/p>\n<p>Ivone s\u00f3 soube da morte do filho \u00e0s 11 horas da manh\u00e3 de ter\u00e7a-feira (25), cerca de doze horas depois do assassinato brutal. A pol\u00edcia n\u00e3o moveu uma palha at\u00e9 o s\u00e1bado (29), quando a fam\u00edlia, como tantos parentes de jovens negros assassinados, sabendo-se ignorada pelas autoridades, foi protestar na rua, chamando a aten\u00e7\u00e3o da imprensa para o crime b\u00e1rbaro. S\u00f3 ent\u00e3o a pol\u00edcia se mexeu para ouvir o dono do quiosque, que dep\u00f4s no dia 1o de fevereiro.<\/p>\n<p>Acontece que Carlos F\u00e1bio da Silva, o propriet\u00e1rio do Tropic\u00e1lia, sabia o que havia acontecido enquanto o corpo de Mo\u00efse ainda estava estirado no ch\u00e3o, sem identifica\u00e7\u00e3o, segundo a pol\u00edcia. Em seu depoimento na delegacia, disse ter recebido, na noite do dia 24, um telefonema de F\u00e1bio (conhecido como Belo), que aparece nas imagens golpeando 25 vezes com um porrete o jovem refugiado, para perguntar se as c\u00e2meras estavam em opera\u00e7\u00e3o. Carlos teria desconfiado e mentido, dizendo que elas estavam desligadas. Foi atrav\u00e9s dessas imagens, que teriam sido entregues ent\u00e3o para a pol\u00edcia (o MPF questiona a data da coleta de provas), \u00e9 que os tr\u00eas criminosos foram presos, acusados de homic\u00eddio duplamente qualificados: o pr\u00f3prio Belo, vendedor de caipirinhas na praia, o cozinheiro Aleson, que trabalha no quiosque Biruta, bem ao lado; e Brendon, o Totta, esse do quiosque do Juninho, dos mesmos donos do Biruta.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe ainda o porqu\u00ea de tanta viol\u00eancia. O que se sabe \u00e9 que antes da divulga\u00e7\u00e3o do crime a PM tentou intimidar a fam\u00edlia de Mo\u00efse quatro vezes. Tamb\u00e9m se sabe que, na noite do dia 24, o cozinheiro Aleson estava atuando como seguran\u00e7a do dono do Biruta, assim como o lutador de jiu-jitsu Totta. Por coincid\u00eancia, o patr\u00e3o de dois dos tr\u00eas agressores, Alauir Mattos de Faria, \u00e9 um policial militar, lotado no 41o batalh\u00e3o, o de Iraj\u00e1, conhecido como &#8220;batalh\u00e3o da morte&#8221; e denunciado por Marielle Franco pouco antes de ela ser assassinada.<\/p>\n<p>Depois de conhecer o racismo brasileiro, a fam\u00edlia Mo\u00efse est\u00e1 aprendendo agora a duras penas quem manda no Rio de Janeiro. Sempre com apoio de altas autoridades da Rep\u00fablica, a come\u00e7ar pelo maior f\u00e3 de milicianos da Barra da Tijuca: o presidente Jair Bolsonaro, que sequer se incomodou em comentar o crime mais recente da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Que os protestos envergonhados e indignados de todos n\u00f3s n\u00e3o deixem que mais esse assassinato fique sem resposta. Justi\u00e7a para Mo\u00efse e para todos os jovens negros mortos pela viol\u00eancia nesse pa\u00eds, cada vez menos acolhedor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida de Mo\u00efse Kabagambe terminou como sua m\u00e3e temia quando a fam\u00edlia fugiu da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, arrasada pela guerra entre duas etnias, os hema e os lendu. &#8220;Mataram meu filho aqui como matam em meu pa\u00eds, mataram meu filho a socos e pontap\u00e9s, como um bicho&#8221;, disse Ivone Lay, a m\u00e3e de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":279705,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-279704","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279704","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=279704"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279704\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":279706,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279704\/revisions\/279706"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/279705"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=279704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=279704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=279704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}