{"id":279773,"date":"2022-02-06T07:30:04","date_gmt":"2022-02-06T10:30:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=279773"},"modified":"2022-02-06T07:32:04","modified_gmt":"2022-02-06T10:32:04","slug":"futuro-da-mudanca-climatica-chegou-com-raios-e-tempestades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/futuro-da-mudanca-climatica-chegou-com-raios-e-tempestades\/","title":{"rendered":"Futuro da mudan\u00e7a clim\u00e1tica chegou com raios e tempestades"},"content":{"rendered":"<p>Um dos respons\u00e1veis por acompanhar e tentar prever as chuvas e inunda\u00e7\u00f5es que cada vez mais t\u00eam afetado e colocado em risco a vida de muitos brasileiros, o climatologista peruano Jos\u00e9 Marengo \u2014 coordenador geral do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) \u2014 diz que n\u00e3o \u00e9 preciso olhar para cima ou esperar o futuro para se dar conta da emerg\u00eancia clim\u00e1tica que vivemos: o clima j\u00e1 est\u00e1 mudando no presente. E a tend\u00eancia \u00e9 que os eventos extremos se tornem cada vez mais extremos \u2014 e corriqueiros.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um problema do que seria o clima do futuro. N\u00e3o tanto um clima quente, seco, frio ou chuvoso, mas um clima extremo\u201d, diz Marengo, que \u00e9 um dos respons\u00e1veis pelos relat\u00f3rios sobre o Brasil do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC, na sigla em ingl\u00eas). Ele tamb\u00e9m est\u00e1 entre os mil cientistas de clima mais influentes do planeta segundo classifica\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia Reuters, que selecionou apenas cinco cientistas no Brasil e sete na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>\u201cE isso \u00e9 perigoso. Porque esse clima extremo aumenta o risco de desastres naturais associados a extremos de chuva, de seca etc.\u201d Na avalia\u00e7\u00e3o do cientista, mais que a mitiga\u00e7\u00e3o dos efeitos que levam ao aquecimento global e \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, precisamos nos adaptar a um planeta inevitavelmente mais quente e aos desastres clim\u00e1ticos associados a essa mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cO que mata as pessoas n\u00e3o \u00e9 a chuva, \u00e9 o desastre natural consequ\u00eancia de uma chuva intensa para as popula\u00e7\u00f5es que vivem em \u00e1reas vulner\u00e1veis. \u00c9 isso que temos que pensar. Se vai chover mais, temos que come\u00e7ar a reduzir a vulnerabilidade nas \u00e1reas perif\u00e9ricas, nas \u00e1reas que pessoas morrem, para que, ainda que a chuva aumente no futuro, n\u00e3o tenhamos mais fatalidades como as que est\u00e3o acontecendo agora em Minas e no sul da Bahia.\u201d<\/p>\n<p>Marengo faz um alerta: a agenda ambiental \u00e9 algo de que precisamos falar o tempo todo. Porque o meio ambiente est\u00e1 sempre mudando. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.<\/p>\n<p><strong>No in\u00edcio de janeiro, tivemos recordes de calor hist\u00f3ricos no Sul do Brasil, fruto de uma onda de calor que j\u00e1 deixou parte da Argentina sem energia el\u00e9trica. Em Minas Gerais e no sul da Bahia, a popula\u00e7\u00e3o sofre com chuvas muito acima da m\u00e9dia, para citar apenas algumas das regi\u00f5es do pa\u00eds com cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas. Podemos relacionar esses fen\u00f4menos \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil atribuir um evento isolado \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. \u00c9 algo que, sim, j\u00e1 est\u00e1 acontecendo, que estamos detectando nos \u00faltimos 50, 60 anos, n\u00e3o s\u00f3 aqui no Brasil como em todo o mundo. Os extremos clim\u00e1ticos est\u00e3o virando mais extremos. O que significa isso? Que podemos ter uma maior frequ\u00eancia de eventos de chuva, por exemplo. Dias com chuva isolada de 100, cento e poucos mil\u00edmetros, que levam quatro horas, como tamb\u00e9m podemos ter mais ondas de calor, menos ondas de frio. Todas essas irregularidades tendem a complicar a situa\u00e7\u00e3o, amplificar a magnitude e a frequ\u00eancia destes fen\u00f4menos.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que precisamos fazer estudos de atribui\u00e7\u00e3o para ver se esses extremos est\u00e3o associados \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Quando se fala em mudan\u00e7a clim\u00e1tica, se fala de influ\u00eancia humana, basicamente. Em janeiro de 2020, tivemos fortes chuvas em Belo Horizonte que mataram 67 pessoas. Tem estudos que mostram que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas contribu\u00edram em pelo menos 70% para que esse fen\u00f4meno fosse intenso e que esse evento n\u00e3o teria acontecido sem a a\u00e7\u00e3o humana. As chuvas acontecem normalmente, s\u00e3o um processo natural. Mas as atividades humanas fazem com que esse processo natural seja mais intenso e mais frequente.<\/p>\n<p><strong>Ou seja, ter\u00edamos o La Ni\u00f1a de qualquer forma, mas a intensidade desse fen\u00f4meno \u00e9 influenciada pela a\u00e7\u00e3o humana&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Isso. O La Ni\u00f1a \u00e9 um fen\u00f4meno natural, previsto, mas tamb\u00e9m \u00e9 um sinal. Outro sinal \u00e9 o aquecimento global. E muitas vezes esses sinais v\u00eam juntos. Durante o La Ni\u00f1a, por exemplo, n\u00f3s esperamos estatisticamente \u2014 digo \u201cestatisticamente\u201d quando voc\u00ea faz a correla\u00e7\u00e3o entre indicadores de Ni\u00f1o e La Ni\u00f1a \u2014 menos chuvas no Sul, que significam basicamente c\u00e9u claro, altas temperaturas e seca. Ent\u00e3o o que est\u00e1 acontecendo agora \u00e9 uma mistura de La Ni\u00f1a com um sinal de longo prazo, porque em 2020 n\u00f3s tivemos uma onda de calor muito intensa que afetou basicamente toda a regi\u00e3o central da Am\u00e9rica do Sul, aconteceu junto com a seca no Pantanal. \u00c9 o que n\u00f3s chamamos de \u201ccompound events\u201d, eventos compostos. \u00c9 um extremo junto do outro. \u00c9 uma seca junto com uma onda de calor. E isso amplifica e aumenta o risco de queimadas, de fogo.<\/p>\n<p><strong>Considerando que o senhor \u00e9 especialista em modelos clim\u00e1ticos, que cen\u00e1rios podemos prever para essas \u00e1reas daqui alguns anos se a a\u00e7\u00e3o humana continuar nesse ritmo?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Sem ir muito longe: estamos no ver\u00e3o. No ver\u00e3o \u00e9 normal que chova na regi\u00e3o Sudeste. Se n\u00e3o chovesse seria anormal. S\u00f3 que est\u00e1 chovendo mais. Se em uma regi\u00e3o chove mais, \u00e9 porque em regi\u00f5es adjacentes est\u00e1 chovendo menos. Em termos meteorol\u00f3gicos, para chover voc\u00ea tem que ter o ar que se eleva e esse ar se elevando aumenta a precipita\u00e7\u00e3o. Mas esse ar que se eleva tem que descer em um outro lugar. Quando desce, n\u00e3o permite a forma\u00e7\u00e3o de chuva. E uma \u00e1rea onde est\u00e1 descendo \u00e9 no Sul do Brasil e outra no interior do Nordeste. Ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea muita chuva aqui, mas n\u00e3o v\u00ea chuva no Nordeste e na regi\u00e3o Sul do Brasil.<\/p>\n<p>O que os modelos clim\u00e1ticos projetam para o futuro \u00e9 mais ou menos uma situa\u00e7\u00e3o similar \u00e0 que n\u00f3s temos agora. Eventos extremos mais frequentes, ou seja, aumento na frequ\u00eancia de chuvas extremas em quase toda a regi\u00e3o sudeste da Am\u00e9rica do Sul. Agora, as chuvas extremas podem estar concentradas em poucos dias. Se voc\u00ea tem 300 mil\u00edmetros num m\u00eas, pode acontecer que chova 200 mil\u00edmetros em tr\u00eas dias. E o restante um per\u00edodo seco, longo e quente. A\u00ed voc\u00ea tem uma sensa\u00e7\u00e3o de seca. \u00c9 um clima muito vari\u00e1vel. \u00c9 um problema do que seria o clima do futuro. N\u00e3o tanto um clima quente, seco, frio ou chuvoso, mas um clima extremo. E isso \u00e9 perigoso. Porque esse clima extremo aumenta o risco de desastres naturais associados a extremos de chuva, de seca etc.<\/p>\n<p><strong>Caminhamos, ent\u00e3o, para essas situa\u00e7\u00f5es extremas serem rotineiras?<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. Muitas cidades e muitas \u00e1reas da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o adaptadas a esse clima. Se fala muito em adapta\u00e7\u00e3o. N\u00f3s temos que nos adaptar a um clima mais quente. Temos a agricultura, por exemplo. \u00c9 preciso pensar em armazenar \u00e1gua, fazer melhoramento gen\u00e9tico de variedades agr\u00edcolas para resistir a climas mais quentes e mais secos. O que est\u00e1 acontecendo este ano, e j\u00e1 come\u00e7ou novembro do ano passado, um ver\u00e3o chuvoso por\u00e9m at\u00edpico, \u00e9 um exemplo. Normalmente, essa \u00e1rea de chuva, que n\u00f3s chamamos de zona de converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul, onde voc\u00ea converge a umidade que vem da Amaz\u00f4nia e do Atl\u00e2ntico, est\u00e1 no Sudeste. Minas Gerais, Esp\u00edrito Santo, Rio, S\u00e3o Paulo, est\u00e1 a\u00ed. S\u00f3 que em dezembro esta \u00e1rea estava mais ao norte, sobre o sul da Bahia. O pessoal n\u00e3o estava preparado [para o excesso de chuva] porque essa regi\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 habituada a essa chuva como o Sudeste.<\/p>\n<p><strong>O senhor falou em adapta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 como os governos se adaptarem para lidar e minimizar o impacto desses eventos extremos?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Olha, a adapta\u00e7\u00e3o \u00e9, como voc\u00ea falou, uma pol\u00edtica de governo. O que seria a adapta\u00e7\u00e3o? Se n\u00f3s estamos pensando que vamos ter mais extremos de chuva \u2014 e j\u00e1 sabemos por experi\u00eancia que extremos de chuva em \u00e1reas urbanas significam enxurradas, significam mortos \u2014, precisamos come\u00e7ar a repensar o planejamento urbano das cidades. Muitas vezes as galerias pluviais n\u00e3o foram preparadas, n\u00e3o foram adaptadas para esse volume de chuva que est\u00e1 caindo agora, e que n\u00e3o \u00e9 o volume que se esperaria no passado.<\/p>\n<p>E, claro, h\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o morando em \u00e1reas de risco, em em \u00e1reas de encosta, em morros ou onde antes existiam c\u00f3rregos, que precisa ser levada em conta. \u00c9 algo que tem que ser feito atrav\u00e9s de governos. Pol\u00edticas p\u00fablicas, infraestrutura f\u00edsica\u2026 Com, por exemplo, a constru\u00e7\u00e3o de barragens ou diques para proteger as cidades da eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar ou tamb\u00e9m o que n\u00f3s chamamos de adapta\u00e7\u00e3o baseada em ecossistemas, em que voc\u00ea usa o pr\u00f3prio ecossistema para se proteger. Revitalizar os manguezais, para que os manguezais sejam como que filtros naturais.<\/p>\n<p>O Brasil tem um plano nacional de adapta\u00e7\u00e3o criado em 2016, que est\u00e1 sendo revisado e inclui todo esse tipo de coisa. A adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 um conceito relativamente novo aqui, mas que j\u00e1 existe no resto do mundo.<\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m ter\u00edamos que ampliar a vigil\u00e2ncia clim\u00e1tica nas cidades para acompanhar esses eventos extremos?<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, s\u00e3o dois processos diferentes. Um que n\u00f3s chamamos de crise clim\u00e1tica e outro, de risco clim\u00e1tico, o risco de desastre. Por exemplo, um instituto meteorol\u00f3gico emitiu um alerta de chuva intensa. Pode ser uma chuva intensa em uma \u00e1rea que n\u00e3o tem popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vai ter impacto. Mas pode ser uma chuva intensa numa \u00e1rea vulner\u00e1vel em Recife.<\/p>\n<p>Depois do desastre das chuvas na Serra Fluminense em janeiro 2011, o governo federal \u2014 na \u00e9poca, a presidente Dilma Rousseff \u2014 criou o Cemaden, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, que \u00e9 o centro em que eu trabalho atualmente, para poder monitorar e fazer previs\u00e3o de risco de desastres. No Brasil, os desastres est\u00e3o associados, por um lado, ao risco clim\u00e1tico \u2014 se mais chuva ou menos chuva, por exemplo \u2013, mas, por outro lado, h\u00e1 outros fatores que nada t\u00eam a ver com o clima, como a vulnerabilidade, o perfil social da popula\u00e7\u00e3o. A essa combina\u00e7\u00e3o de risco clim\u00e1tico com fatores socioambientais n\u00f3s chamamos de risco de desastres, que \u00e9 o que o Brasil monitora agora.<\/p>\n<p>O Cemaden faz um monitoramento de risco de desastres e, quando v\u00ea que passa a ser um risco moderado ou alto e muito alto, emite alertas imediatamente que passam para a Defesa Civil, e a Defesa Civil repassa para a popula\u00e7\u00e3o. Depois daquele desastre no Rio onde morreram mais de mil pessoas e outros tantos ficaram desaparecidos, o n\u00famero de mortos tem diminu\u00eddo. Foram 26 no sul da Bahia. Nessa \u00e1rea, normalmente chove entre 150 a 200 mil\u00edmetros em dezembro. Mas em dezembro de 2021 essa regi\u00e3o chegou a ter 500 at\u00e9 800 mil\u00edmetros de chuva. Quatro, cinco vezes mais que o esperado. E morreram 26 pessoas. Por qu\u00ea? Porque j\u00e1 existia o sistema de monitoramento, de alerta de desastres. A Defesa Civil foi muito mais ativa evacuando a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>As popula\u00e7\u00f5es socioeconomicamente mais vulner\u00e1veis s\u00e3o as mais afetadas pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, em todos os lugares do mundo esse perfil de pessoas \u00e9 o mais exposto. Mas veja que em novembro de 2008 tivemos aquele desastre em Blumenau, em Santa Catarina \u2014 um dos estados com o maior IDH (\u00cdndice de Desenvolvimento Humano) \u2014, em que casas grandes, mans\u00f5es, foram destru\u00eddas pela enxurrada. N\u00e3o \u00e9 exclusividade dos mais pobres. Os mais pobres podem ser os mais vulner\u00e1veis, mas, quando tem um desastre, todos s\u00e3o afetados. Se voc\u00ea lembrar de 2021, daquelas chuvas na Alemanha, na Fran\u00e7a, na B\u00e9lgica, pessoas morreram, e estamos falando de cidades grandes, modernas, sem casebres, favelas. Qualquer pessoa \u00e9 vulner\u00e1vel aos extremos clim\u00e1ticos.<\/p>\n<p><strong>Como o desmatamento da Amaz\u00f4nia e o desmatamento no pa\u00eds em geral influenciam o clima?<\/strong><\/p>\n<p>Durante as secas, o risco de fogo, de destrui\u00e7\u00e3o da floresta em consequ\u00eancia do fogo, \u00e9 alto. O desmatamento acaba criando combust\u00edvel para mais fogo quando se tem a esta\u00e7\u00e3o de seca. Isso \u00e9 extremamente importante porque parte do regime de chuvas do Sudeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil, e at\u00e9 da Argentina, vem justamente da reciclagem da umidade da Amaz\u00f4nia. Ent\u00e3o, se n\u00f3s tirarmos essa umidade da Amaz\u00f4nia, podemos de fato ter um clima mais quente, mais seco, mais extremo.<\/p>\n<p>Segundo as previs\u00f5es do IPCC, na regi\u00e3o Sul, Sudeste, n\u00f3s ter\u00edamos um aumento na frequ\u00eancia de chuvas extremas em conjunto com um aumento nas temperaturas. Ent\u00e3o a consequ\u00eancia do que pode acontecer na Amaz\u00f4nia \u00e9 um clima mais extremo. O desmatamento \u00e9 uma forma de eliminar \u00e1rvores, e as \u00e1rvores s\u00e3o extremamente importantes para o ciclo hidrol\u00f3gico. Se voc\u00ea cortar \u00e1rvores, o ciclo hidrol\u00f3gico ser\u00e1 afetado. E as atividades humanas, atrav\u00e9s do desmatamento, podem alterar este ciclo, esse papel da Amaz\u00f4nia, de regulador de clima. E alterando o ciclo hidrol\u00f3gico voc\u00ea tem uma altera\u00e7\u00e3o do clima na Amaz\u00f4nia, nas regi\u00f5es adjacentes e basicamente em todo o mundo.<\/p>\n<p><strong>Vivemos em um continente majoritariamente agr\u00edcola, em que governos privilegiam o agroneg\u00f3cio frente \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o ambiental. O uso da terra \u00e9 um dos agravantes da crise clim\u00e1tica na Am\u00e9rica Latina, especialmente no Brasil? \u00c9 poss\u00edvel conciliar essa vis\u00e3o de mundo com o combate \u00e0 crise clim\u00e1tica?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Quando falamos de uso da terra, estamos falando de desmatamento, urbaniza\u00e7\u00e3o e agricultura. \u00c1reas, por exemplo, que s\u00e3o desmatadas para poder criar gado ou colocar agricultura, agroind\u00fastria, agroneg\u00f3cio, commodities. Por um lado, precisamos de alimentos, mas, por outro, temos que ver se estamos entrando na Amaz\u00f4nia, se estamos afetando o clima e se eventualmente essa altera\u00e7\u00e3o no clima pode afetar o regime chuvoso na regi\u00e3o do agroneg\u00f3cio. \u00c9 um tiro no p\u00e9.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos esquecer que, quando voc\u00ea fala em uso da terra, voc\u00ea est\u00e1 falando de desmatamento, de implementa\u00e7\u00e3o de agricultura, mas tamb\u00e9m de urbaniza\u00e7\u00e3o. Cidades como Rio e S\u00e3o Paulo est\u00e3o onde antes era Mata Atl\u00e2ntica, e antes era mais chuvoso nessa regi\u00e3o. Isso mudou porque mudou o uso da terra.<\/p>\n<p><strong>O pr\u00f3prio agroneg\u00f3cio n\u00e3o deveria ser o mais interessado na preserva\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que disso depende o seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio?<\/strong><\/p>\n<p>Deveria ser, sim, mas o agroneg\u00f3cio, pelo pouco contato que n\u00f3s temos, entra no que n\u00f3s chamamos de grupo dos c\u00e9ticos. Eles n\u00e3o acreditam que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o verdade porque acham que as pessoas est\u00e3o culpando o agroneg\u00f3cio, a agroind\u00fastria, pela polui\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m est\u00e1 dizendo para matar todo o gado para n\u00e3o emitir metano, o g\u00e1s do efeito estufa, mas simplesmente para fazer algo mais sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Muitos grandes supermercados de fora n\u00e3o est\u00e3o comprando carne brasileira porque dizem que a carne vem de \u00e1reas desmatadas. Pode n\u00e3o ser verdade, mas\u00a0infelizmente a d\u00favida nos complica. Falta ao pessoal do agroneg\u00f3cio ter esse tipo de percep\u00e7\u00e3o, de como eles tamb\u00e9m est\u00e3o sendo afetados. Eles mesmos reclamam de secas \u2014 o rio Paraguai est\u00e1 em n\u00edveis muito baixos \u2014, e isso complica o transporte de commodities para os portos de Paranagu\u00e1, por exemplo. A\u00ed eu tenho um preju\u00edzo econ\u00f4mico. Imagina como ser\u00e1 no futuro se for mais seco?<\/p>\n<p>O pior que pode acontecer \u00e9 essa ignor\u00e2ncia, deixar o problema de lado. Temos que ter uma percep\u00e7\u00e3o de que o clima j\u00e1 est\u00e1 mudando, j\u00e1 est\u00e1 mais extremo. N\u00e3o precisamos esperar o futuro, j\u00e1 est\u00e1 mudando no presente.<\/p>\n<p><strong>Cientistas como o senhor v\u00eam alertando para os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas h\u00e1 d\u00e9cadas. Mas somente quando inc\u00eandios florestais destroem vastas regi\u00f5es, ou quando enchentes deixam dezenas de mortos, parece que a popula\u00e7\u00e3o percebe a gravidade do problema. Nesses casos, parece que se percebe que h\u00e1 uma crise, mas n\u00e3o h\u00e1 nada a ser feito, que \u00e9 tarde demais. \u00c9 tarde demais? J\u00e1 chegamos ao ponto de n\u00e3o retorno?<\/strong><\/p>\n<p>Dentro do contexto das Conven\u00e7\u00f5es para Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, as famosas Cops, se chegou em 2015 a uma decis\u00e3o de limitar o aquecimento global a at\u00e9 2\u00b0C. Com isso o clima vai mudar, mas de uma forma que o ser humano pode enfrentar. Se chegarmos a um aquecimento global superior a 4 \u00b0C, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ser\u00e3o t\u00e3o radicais, t\u00e3o extremas, que talvez a gente, a agricultura, a biodiversidade nem consigam sobreviver. Acima desse patamar \u00e9 um planeta mais hostil para o ser humano e um mundo que n\u00e3o conhecemos agora. Por isso a pressa para, nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, reduzir a emiss\u00e3o de gases do efeito estufa, o desmatamento.<\/p>\n<p>Mas veio a covid, veio a crise econ\u00f4mica, e a agenda ambiental foi deixada de lado. Cada vez que acontece algum extremo todo mundo fala \u201cah, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, compromissos, a bandeira ambiental\u201d, e depois que acaba s\u00f3 \u00e9 assunto no pr\u00f3ximo desastre. N\u00e3o \u00e9 assim que deve ser.<\/p>\n<p>A agenda ambiental \u00e9 algo que voc\u00ea precisa falar o tempo todo. Porque o meio ambiente est\u00e1 mudando o tempo todo. Estamos em aproximadamente 1,2\u00b0C de aquecimento. Se a situa\u00e7\u00e3o continuar como est\u00e1 agora em termos de aumento do desmatamento, efeito estufa, n\u00f3s poder\u00edamos chegar em 2050, 2060 nesses 4 \u00b0C. Estamos apontando para essa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O Brasil tem uma capacidade imensa de produzir energia limpa, mas estamos flertando com a possibilidade de um apag\u00e3o e o governo tem recorrido com frequ\u00eancia \u00e0s t\u00e9rmicas, movidas a combust\u00edvel f\u00f3ssil. H\u00e1 possibilidade de uma crise energ\u00e9tica no Brasil? O que podemos fazer para evit\u00e1-la?<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds com 70% da matriz energ\u00e9tica baseada em hidroel\u00e9tricas, \u00e9 uma matriz limpa, tudo bem. Mas j\u00e1 foi comprovado que a \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 ilimitada. Se falta \u00e1gua, chuva, como aconteceu em 2014 e 2015, a gente entra num regime de escassez h\u00eddrica e depende das termel\u00e9tricas, que s\u00e3o uma energia mais cara e mais poluidora. A\u00ed temos um fator: somos vulner\u00e1veis \u00e0 falta de \u00e1gua.<\/p>\n<p>O que os colegas da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] falam \u00e9 na necessidade de um portf\u00f3lio de energia. Uma combina\u00e7\u00e3o entre hidrel\u00e9trica, f\u00f3ssil, e\u00f3lica, solar, biomassa. Voc\u00ea n\u00e3o pode largar o combust\u00edvel f\u00f3ssil de um dia para o outro. \u00c9 um processo gradativo. O melhor \u00e9 depender de uma combina\u00e7\u00e3o em que tenhamos maior parte de energias limpas e menor parte de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Da\u00ed, quando as energias limpas ficam escassas, entra o combust\u00edvel f\u00f3ssil no resgate por um tempo, depois volta.<\/p>\n<p><strong>E quais seriam as solu\u00e7\u00f5es para a emerg\u00eancia clim\u00e1tica no Brasil?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Dentre as solu\u00e7\u00f5es, a primeira e talvez a principal seja a mitiga\u00e7\u00e3o. Reduzir as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, reduzir o desmatamento em geral, n\u00e3o s\u00f3 da Amaz\u00f4nia, porque isso ajuda o ciclo hidrol\u00f3gico. Pensar em adapta\u00e7\u00e3o, pensar em um planejamento urbano para que \u00e1reas que s\u00e3o vulner\u00e1veis, por exemplo, a extremos de chuva e a desastres n\u00e3o sejam mais no futuro. Pensar em infraestrutura f\u00edsica para eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. \u00c9 todo um processo de adapta\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o que o Brasil tem que fazer.<\/p>\n<p>A parte da mitiga\u00e7\u00e3o o Brasil j\u00e1 come\u00e7ou faz muito tempo, mas \u00e9 importante que tenha tamb\u00e9m a adapta\u00e7\u00e3o. O importante \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de que o clima est\u00e1 mudando, que o clima est\u00e1 mais irregular. Que de fato \u00e9 um processo natural, mas atividades humanas est\u00e3o agravando esse processo. E que uma crise clim\u00e1tica, uma emerg\u00eancia clim\u00e1tica, poder\u00e1 dar lugar a um risco de desastres muito grande.<\/p>\n<p>O que mata as pessoas n\u00e3o \u00e9 a chuva, \u00e9 o desastre natural em consequ\u00eancia de uma chuva intensa para as popula\u00e7\u00f5es que vivem em \u00e1reas vulner\u00e1veis. \u00c9 isso que temos que pensar. Se vai chover mais, temos que come\u00e7ar a reduzir a vulnerabilidade nas \u00e1reas perif\u00e9ricas, nas \u00e1reas em que pessoas morrem, para que, ainda que a chuva aumente no futuro, n\u00e3o tenhamos mais fatalidades como as que est\u00e3o acontecendo agora em Minas. no sul da Bahia e em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos respons\u00e1veis por acompanhar e tentar prever as chuvas e inunda\u00e7\u00f5es que cada vez mais t\u00eam afetado e colocado em risco a vida de muitos brasileiros, o climatologista peruano Jos\u00e9 Marengo \u2014 coordenador geral do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) \u2014 diz que n\u00e3o \u00e9 preciso olhar para cima [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":279774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-279773","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279773","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=279773"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279773\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":279776,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279773\/revisions\/279776"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/279774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=279773"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=279773"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=279773"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}