{"id":279853,"date":"2022-02-07T00:16:41","date_gmt":"2022-02-07T03:16:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=279853"},"modified":"2022-02-07T13:40:01","modified_gmt":"2022-02-07T16:40:01","slug":"as-criancas-guarani-kaiowa-e-as-avos-do-brasil-d-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/as-criancas-guarani-kaiowa-e-as-avos-do-brasil-d-hoje\/","title":{"rendered":"As crian\u00e7as Guarani-Kaiow\u00e1 e as av\u00f3s do Brasil de hoje"},"content":{"rendered":"<p>Oh! av\u00f3s e m\u00e3es deste Brasil varonil, suspeito que v\u00f3s tereis interesse em conhecer como os Guarani-Kaiow\u00e1 categorizam as crian\u00e7as de suas aldeias. Tal suspeita surgiu quando, numa live com minhas irm\u00e3s, lhes falei dos tipos de crian\u00e7a descritos na disserta\u00e7\u00e3o de mestrado de Hu\u00b4y yapu, nome de batismo de Valentim Pires, defendida na segunda (31) na Universidade Federal da Grande Dourados (MS). Minhas oito irm\u00e3s, todas elas av\u00f3s, ca\u00edram na tenta\u00e7\u00e3o de usar o modelo guarani para checar o perfil de suas netas e netos e descobriram, encantadas, que ele permite tipificar tamb\u00e9m a sua pr\u00f3pria prole, extrapolando a aldeia.<\/p>\n<p>Segundo Valentim, a sabedoria guarani, que durante s\u00e9culos observou o comportamento das crian\u00e7as, categorizou-as em quatro tipos: as s\u00e1bias, as inocentes, as tristes e as observadoras. Se m\u00e3es e av\u00f3s n\u00e3o-ind\u00edgenas buscarem essas afinidades em seus n\u00facleos familiares, talvez encontrem o que h\u00e1 de universal nesta classifica\u00e7\u00e3o, identificando comportamentos comuns a qualquer sociedade, embora a parte po\u00e9tica que a fundamenta esteja ancorada na ancestralidade e na cosmogonia Guarani. Essa foi a grande contribui\u00e7\u00e3o do pesquisador kaiow\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Tipos de crian\u00e7as<\/strong><br \/>\nAs primeiras \u2013 mit\u00e3 tujakue\u00b4i ha guaiguikue\u00b4i \u2013 s\u00e3o crian\u00e7as s\u00e1bias, possuem muito conhecimento e sabedoria, parecem at\u00e9 com o velhinho ou a velhinha que j\u00e1 morreram, s\u00e3o vistas como super inteligentes, surpreendem os pais e os parentes com sua criatividade, suas proezas e suas tiradas, com frases que assombram pela clareza e precis\u00e3o. S\u00e3o iluminadas.<\/p>\n<p>No segundo tipo \u2013 mit\u00e3 tee\u00b4i \u2013 est\u00e3o aquelas crian\u00e7as de conduta inocente, dotadas de certa candura. \u00c9 a primeira vez que vieram a este mundo e n\u00e3o sabem quase nada de como \u00e9 a viv\u00eancia aqui na Terra. Necessitam de criterioso acompanhamento do pai e da m\u00e3e no seu processo de desenvolvimento, que pode at\u00e9 retardar, mas isso n\u00e3o quer dizer que sejam bobas, sem criatividade. Elas tamb\u00e9m surpreendem, pois transcendem as influ\u00eancias diretas da maldade e da imperfei\u00e7\u00e3o humana, j\u00e1 que a refer\u00eancia mais presente \u00e9 aquela que trazem dos patamares celestes, de onde est\u00e3o vindo pela primeira vez.<\/p>\n<p>A terceira categoria \u00e9 a da crian\u00e7a mit\u00e3 \u00f1eroyr\u00f5kue\u00b4i, que ocorre pelas expectativas dos pais, que \u00e0s vezes s\u00e3o contrariadas. Por exemplo, pai ou m\u00e3e esperam um menino, mas acaba nascendo uma menina e a fam\u00edlia n\u00e3o a recebe muito bem. Nessa situa\u00e7\u00e3o, a filha carrega no sangue muita tristeza. Essa atitude de rejei\u00e7\u00e3o prejudica o amadurecimento da crian\u00e7a, que precisa de um tratamento medicinal espec\u00edfico, com banhos e massagens realizados pelo pai e pela m\u00e3e, para ela ent\u00e3o carregar energia sadia no sangue.<\/p>\n<p>Existe ainda um quarto tipo: as observadoras \u2013 ojapysaka. S\u00e3o aquelas crian\u00e7as enviadas por \u00d1ande Ru \u2013 o criador e princ\u00edpio de tudo \u2013 com a miss\u00e3o de escutar o mundo e de testemunhar as formas de conviv\u00eancia que est\u00e3o florescendo na Terra, para levar as observa\u00e7\u00f5es do que viram \u00e0 Morada Eterna de onde vieram. Neste caso, essas mensageiras n\u00e3o conseguem viver por muito tempo e podem chegar a falecer com pouca idade. S\u00e3o chamadas de angelito na aldeia Pirajuy, por influ\u00eancia da l\u00edngua espanhola.<\/p>\n<p><strong>O som da flecha<\/strong><br \/>\nPara desvelar o mundo da inf\u00e2ncia guarani, Hu\u00b4y Ryapu (o som da flecha na l\u00edngua kaiow\u00e1), conhecido na universidade como Valentim, usou v\u00e1rios procedimentos: observou o comportamento das crian\u00e7as na aldeia Pirajuy, munic\u00edpio de Paranhos (MS), fronteira com o Paraguai, anotando tudo em seu caderno de campo; conversou e entrevistou av\u00f3s, parteiras, rezadores; leu teses de pesquisadores guarani e de antrop\u00f3logos e historiadores n\u00e3o-ind\u00edgenas, al\u00e9m dos cl\u00e1ssicos que abordaram o tema. Enfim, trabalhou com duas mestrias, uma n\u00e3o acad\u00eamica e a outra que buscou a academia, como observou o antrop\u00f3logo Amir Geiger, em outro contexto.<\/p>\n<p>Valentim recorre ao recurso da autobiografia, uma estrat\u00e9gia de constru\u00e7\u00e3o e legitima\u00e7\u00e3o do lugar de fala dos ind\u00edgenas na universidade. Ele relata a gravidez de sua m\u00e3e, o parto, o saber da parteira, o seu nascimento, a sua inf\u00e2ncia e discute como a trajet\u00f3ria de forma\u00e7\u00e3o da pessoa do pesquisador se liga com o modo de ser guarani, em especial o praticado pela parentela \u00e0 qual pertence. Trata com distanciamento cr\u00edtico a Miss\u00e3o Evang\u00e9lica Unida, que atrav\u00e9s de uma enfermeira alem\u00e3 se recusou a registr\u00e1-lo com seu nome guarani, impondo o Valentim em 1969, ano de seu nascimento. Meses depois a Igreja Cat\u00f3lica cassou S\u00e3o Valentim por colocar em d\u00favida sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma reflex\u00e3o sobre a escola colonizadora, que se op\u00f5e \u00e0 pedagogia guarani, \u00e9 feita por Valentim. Conta como uma mission\u00e1ria alem\u00e3 chamada Fridigat tapou com esparadrapo a boca do seu primo Adriano Pires por ter ele falado na sua l\u00edngua materna. Relata sua passagem aos 13 anos pela Miss\u00e3o Evang\u00e9lica Caiu\u00e1 em Dourados, as humilha\u00e7\u00f5es da professora no internato \u2013 \u201cAqui na sala de aula n\u00e3o \u00e9 aldeia para conversar em Guarani. Se quiser continuar volte para a aldeia\u201d \u2013 e aborda a rela\u00e7\u00e3o com os colegas: \u201cNa sala onde eu estudava ningu\u00e9m queria falar comigo, porque eu n\u00e3o sabia falar direito a l\u00edngua portuguesa\u201d.<\/p>\n<p><strong>Aldeia Curumim<\/strong><br \/>\n\u2013 A crian\u00e7a, para os Guarani, \u00e9 muito importante porque ela \u00e9 enviada por \u00d1ande Ru, com uma miss\u00e3o aqui na Terra. Ent\u00e3o, mit\u00e3 significa crian\u00e7a, mit\u00e3\u00b4i \u00e9 criancinha. J\u00e1 kunumi , que deu curumim na l\u00edngua portuguesa, pode ser traduzido como \u201cternurinha\u201d. Che kunumi \u00e9 \u201cminha ternurinha\u201d. Com o passar do tempo, kunumi foi perdendo espa\u00e7o na linguagem, substitu\u00eddo por mit\u00e3 \u2013 escreve Valentim, para quem \u201co guarani hoje convive com o conhecimento ocidental (karai arandu) atrav\u00e9s de diversas formas de intera\u00e7\u00e3o como escola, igreja, com\u00e9rcio, trabalho, \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, etc\u201d \u2013 em contato permanente com o conhecimento tradicional (arandu ypy).<\/p>\n<p>Os conhecimentos guarani sobre cuidados com o crescimento saud\u00e1vel da crian\u00e7a s\u00e3o abordados no terceiro cap\u00edtulo, assim como a conviv\u00eancia entre os ore mbo\u2019e ypy omboheko mit\u00e3 e os modos de conhecimento do karai reko.<\/p>\n<p>Acontece que os mais velhos perceberam que a escola feita pelo mission\u00e1rio e pelo chefe de posto estava a servi\u00e7o da domina\u00e7\u00e3o para acabar com a l\u00edngua e as cren\u00e7as ind\u00edgenas. Queriam transformar as crian\u00e7as da aldeia Pirajuy em crian\u00e7as diferentes seguindo a orienta\u00e7\u00e3o imposta por outros ypy (origem, tempo espa\u00e7o primordial) \u2013 diz Valentim e ao ler isso ouvimos o som da flecha disparada.<\/p>\n<p>A classifica\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as que tanto encantou minhas irm\u00e3s estaria perdida se a Miss\u00e3o Alem\u00e3 tivesse sido vitoriosa. L\u00e1, os Guarani eram ensinados a abandonar suas cren\u00e7as e os saberes tradicionais e a negar seu jeito pr\u00f3prio de ser e sua identidade. Embora tenha ocorrido profundas transforma\u00e7\u00f5es na vida guarani descritas na disserta\u00e7\u00e3o, eles reagiram.<\/p>\n<p><strong>A resist\u00eancia<\/strong><br \/>\nConsiderando que a vida na reserva ind\u00edgena era dominada e controlada pelo branco, inicialmente s\u00f3 restava aos Guarani \u2013 segundo Valentim \u2013 \u201ca resist\u00eancia silenciosa no procedimento denominado de o\u00f1ombotavy \u2013 \u201cfazer-se de bobo\u201d, para que os mission\u00e1rios e o chefe de posto acreditassem que os Guarani estavam \u2018virando\u2019 brancos. Mas nunca acabavam de \u2018virar\u2019 e at\u00e9 hoje \u00e9 assim: \u201cTodas essas formas de dissimula\u00e7\u00e3o s\u00e3o formas de proteger os nossos conhecimentos na reserva ind\u00edgena de Pirajuy\u201d.<\/p>\n<p>Outra forma de resistir foi a organiza\u00e7\u00e3o dos professores bilingues e o movimento ind\u00edgena. Valentim, a quem conheci na Confer\u00eancia Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena realizada em novembro de 2009 em Luzi\u00e2nia, na periferia de Bras\u00edlia, denunciou na ocasi\u00e3o o assassinato que acabara de ocorrer de dois professores \u2013 Genivaldo e Rolindo \u2013 seus colegas na Escola Municipal Adriano Pires. Oito dias depois do homic\u00eddio, a mulher de Rolindo, gr\u00e1vida, deu \u00e0 luz uma crian\u00e7a. Uma semana depois foi a vez de a mulher de Genivaldo, tamb\u00e9m gr\u00e1vida, trazer ao mundo uma mit\u00e3\u00b4i.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oh! av\u00f3s e m\u00e3es deste Brasil varonil, suspeito que v\u00f3s tereis interesse em conhecer como os Guarani-Kaiow\u00e1 categorizam as crian\u00e7as de suas aldeias. 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