{"id":279943,"date":"2022-02-08T11:28:20","date_gmt":"2022-02-08T14:28:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=279943"},"modified":"2022-02-08T23:55:24","modified_gmt":"2022-02-09T02:55:24","slug":"chuva-de-veneno-cresce-rapido-e-aumenta-riscos-do-cerrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/chuva-de-veneno-cresce-rapido-e-aumenta-riscos-do-cerrado\/","title":{"rendered":"Chuva de veneno cresce e aumenta riscos do Cerrado"},"content":{"rendered":"<p>A 890 quil\u00f4metros de Teresina, adentrando o interior piauiense, Jovecino e Almerinda labutam para manter uma pequena produ\u00e7\u00e3o de alimentos para o seu sustento. A dificuldade \u00e9 percebida no preto das folhas do p\u00e9 de laranja. Incomum. Oleoso. Grudento. O mesmo preto se estende por todo o teto da casa de adobe em que vivem na comunidade Chup\u00e9, munic\u00edpio de Santa Filomena, Alto Parna\u00edba. Ali, o veneno, despejado nas imensid\u00f5es de monocultivos no alto das serras, descem para os baix\u00f5es e colocam em risco as planta\u00e7\u00f5es, os solos, as \u00e1guas e, sobretudo, a vida das pessoas.<\/p>\n<p>Naquele territ\u00f3rio, ao olhar para o c\u00e9u, a volumosa e rica paisagem do Cerrado deu lugar a vazios angustiantes. Vazios esses preenchidos apenas pelo rastro de avi\u00f5es pulverizadores de agrot\u00f3xicos em \u00e9pocas de plantio. T-o-d-o-s os dias. \u201cAt\u00e9 colher eles passam veneno todo dia. Quando planta soja \u00e9 veneno todo dia\u201d. A \u00e1gua que jorra da garrafa e garante vida \u00e0 horta da fam\u00edlia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 segura. A lagoa de \u00e1guas claras e esverdeadas corre o risco de se tornar impr\u00f3pria. Os corpos, j\u00e1 desgastados, sentem na pele as marcas de doen\u00e7as que antes, pra eles, n\u00e3o existiam.<\/p>\n<p>O contexto da contamina\u00e7\u00e3o de comunidades inteiras por agrot\u00f3xicos no Cerrado se acentua a cada ano, e nos \u00faltimos anos tem se evidenciado pela libera\u00e7\u00e3o indiscriminada de mais r\u00f3tulos de pesticidas. S\u00f3 em 2021, 562 novos produtos foram liberados pelo presidente Jair Bolsonaro, o maior n\u00famero registrado em 21 anos, segundo a s\u00e9rie hist\u00f3rica feita pelo Minist\u00e9rio da Agricultura. A publica\u00e7\u00e3o no Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o foi realizada no findar de dezembro e os n\u00fameros j\u00e1 somam 1.552 produtos venenosos liberados s\u00f3 nos tr\u00eas anos de mandato do presidente, quase metade (43%) do total de 3.550 produtos comercializados no pa\u00eds, segundo o levantamento da Ag\u00eancia P\u00fablica e da Rep\u00f3rter Brasil.<\/p>\n<p>Neste ano recorde, dos produtos que entraram em comercializa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, 33 s\u00e3o in\u00e9ditos e 8 possuem princ\u00edpios ativos qu\u00edmicos novos, exclusivos de uso industrial para a fabrica\u00e7\u00e3o de pesticidas. Alguns destes produtos n\u00e3o possuem libera\u00e7\u00e3o na Europa ou Estados Unidos, como o fungicida Fenpropimorfe, considerado muito perigoso para o meio ambiente e altamente t\u00f3xico para organismos aqu\u00e1ticos. Seu uso \u00e9 recomendado para lavouras de soja e algod\u00e3o e sua toxicidade em humanos ainda \u00e9 desconhecida.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que a utiliza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos \u00e9 ampliada e incentivada no pa\u00eds, cresce a devasta\u00e7\u00e3o ambiental do Cerrado. Foi tamb\u00e9m nas \u00faltimas horas de 2021, em uma tentativa de n\u00e3o causar alarde, que os dados sobre o desmatamento do bioma foram publicados pelo o Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00f5es e revelaram um cen\u00e1rio alarmante. Entre o per\u00edodo de agosto de 2020 e julho de 2021, o Cerrado brasileiro, considerando suas \u00e1reas de transi\u00e7\u00e3o, perdeu 8.531 km\u00b2 de vegeta\u00e7\u00e3o nativa. O n\u00famero representa um aumento de 7,9% em rela\u00e7\u00e3o aos dados de 2020 e \u00e9 a maior taxa desde 2015.<\/p>\n<p>De acordo com a nota do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), as taxas mais expressivas de desmatamento se concentraram em tr\u00eas dos quatro estados que comp\u00f5em a maior regi\u00e3o de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria agr\u00edcola e expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio do Brasil, o Matopiba, sendo eles Maranh\u00e3o, Tocantins e Bahia. A partir de an\u00e1lise realizada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia (Ipam), a regi\u00e3o bateu o recorde de desmatamento desde 2017, respondendo por mais da metade (61,3%) do total da vegeta\u00e7\u00e3o do Cerrado suprimida no per\u00edodo, ou seja, 5.227,32 km\u00b2 dos 8.531 km\u00b2 registrados.<\/p>\n<p>Ainda segundo an\u00e1lise do \u00f3rg\u00e3o, a cidade de Balsas, localizada no Sul do Maranh\u00e3o, ocupa o primeiro lugar da lista dos dez munic\u00edpios onde houve a maior derrubada de vegeta\u00e7\u00e3o. Quatro desses munic\u00edpios est\u00e3o situados apenas na Bahia e comp\u00f5em a lista logo ap\u00f3s a cidade maranhense \u2013 s\u00e3o eles: S\u00e3o Desid\u00e9rio (BA), Formosa do Rio Preto (BA), Jaborandi (BA) e Correntina (BA) -, respectivamente. O \u00fanico munic\u00edpio da rela\u00e7\u00e3o fora do Matopiba \u00e9 Santa Maria das Barreiras, no Par\u00e1.<\/p>\n<p>A ocorr\u00eancia acelerada do desmatamento, ligado a diversos processos consolidados pelo agroneg\u00f3cio no pa\u00eds, como a financeiriza\u00e7\u00e3o de terras \u2013 que transforma o Cerrado em uma regi\u00e3o de interesse para grileiros -, se relaciona diretamente com normativas mais permissivas em rela\u00e7\u00e3o ao uso de agrot\u00f3xicos. Neste contexto, as chapadas Cerradeiras s\u00e3o transformadas em lavouras de soja e milho, verdadeiros desertos entre plantios, e simultaneamente abrem espa\u00e7o para a incid\u00eancia de diversas viol\u00eancias contra popula\u00e7\u00f5es camponesas, tradicionais e ind\u00edgenas. E os agrot\u00f3xicos se consolidam como uma das principais armas nesse processo.<\/p>\n<p>Desde 2008 a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT) registra situa\u00e7\u00f5es de conflitos envolvendo agrot\u00f3xicos nos territ\u00f3rios. Dados sistematizados de 2008 a 2020 revelam a ocorr\u00eancia de 186 situa\u00e7\u00f5es de conflitos no campo relacionados \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o pelas subst\u00e2ncias qu\u00edmicas. Deste n\u00famero, 47,31% ocorreram no Cerrado e em suas \u00e1reas de transi\u00e7\u00e3o, estas consideradas a partir das defini\u00e7\u00f5es do Laborat\u00f3rio de Estudos de Movimento Sociais e Territorialidades (Lemto) da Universidade Federal Fluminense (UFF).<\/p>\n<p>A partir da an\u00e1lise dos n\u00fameros ao longo deste per\u00edodo, \u00e9 poss\u00edvel concluir que, entre 2008 e 2018 os conflitos no campo envolvendo agrot\u00f3xicos triplicaram, com um pico em 2013 (20 casos). Os anos de 2019 e 2020 \u2013 os dois primeiros do mandato de Jair Bolsonaro \u2013 somam juntos 55 ocorr\u00eancias, e representam recordes hist\u00f3ricos de conflitos com agrot\u00f3xicos, sendo quatro vezes maior do que em 2008 (6 casos).<\/p>\n<p>O Tribunal Permanente em Defesa dos Povos do Cerrado (TPP), uma tribuna de visibilidade e de afirma\u00e7\u00e3o dos direitos dos povos expostos a viola\u00e7\u00f5es graves e sistem\u00e1ticas no campo brasileiro, conduzida desde o ano passado pela Campanha Nacional Em Defesa do Cerrado, evidencia que \u201co desmatamento e a grilagem de terras, a expuls\u00e3o dos povos, a seca dos rios e a contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas\u201d configuram um crime de ecoc\u00eddio e genoc\u00eddio contra as popula\u00e7\u00f5es do campo.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a de acusa\u00e7\u00e3o apresentada pelo Tribunal exp\u00f5e que \u201ca expans\u00e3o devastadora e violenta da fronteira agr\u00edcola sobre o Cerrado tem contado com algumas \u2018armas\u2019 concretas: o corrent\u00e3o, os inc\u00eandios criminosos, as cercas sobre terras de uso comum, os agrot\u00f3xicos, as sementes transg\u00eanicas, os piv\u00f4s centrais e grupos de seguran\u00e7a p\u00fablica e privada\u201d. Retoma, ainda, a problem\u00e1tica da pol\u00edtica de controle e monitoramento do uso de agrot\u00f3xicos, que est\u00e1 sendo sistematicamente desestruturada.<\/p>\n<p><strong>Pacote de veneno avan\u00e7a<\/strong><br \/>\nOs recordes de libera\u00e7\u00e3o de defensivos e o alarmante n\u00famero em comercializa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds s\u00e3o caracter\u00edsticas do atual projeto pol\u00edtico. As pol\u00edticas agr\u00edcolas estabelecidas por parte do Estado possuem apoio significativo no financiamento da expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio e consequentemente exercem papel fundamental no aumento do consumo de agrot\u00f3xicos. Nesse sentido, uma publica\u00e7\u00e3o da campanha Agro \u00c9 Fogo destaca que as recentes iniciativas por parte do Estado brasileiro, as quais visam a amplia\u00e7\u00e3o do financiamento via t\u00edtulos financeiros, a expans\u00e3o do cr\u00e9dito p\u00fablico e a redu\u00e7\u00e3o dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, tamb\u00e9m procuram reduzir a regula\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>Nesta cadeia, \u00e9 o Estado o ator respons\u00e1vel pelas flexibiliza\u00e7\u00f5es de pol\u00edticas ambientais vigentes e pelo desmonte das institui\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o como Ibama e Anvisa. No dia 8 de outubro de 2021, o presidente Jair Bolsonaro alterou a Lei dos Agrot\u00f3xicos, em vigor desde 1989. O Decreto N\u00ba 10.833 publicado no Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o traz, entre as s\u00e9ries de mudan\u00e7as, a inser\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Agricultura em mais processos referentes a fiscaliza\u00e7\u00e3o, regulamenta\u00e7\u00e3o e uso de pesticidas.<\/p>\n<p>Com essa altera\u00e7\u00e3o, cria-se uma categoria chamada \u201ctramita\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria\u201d, na qual o Minist\u00e9rio da Agricultura definir\u00e1 a ordem de registro de novos produtos. O texto tamb\u00e9m destaca atua\u00e7\u00e3o em protocolo antes destinado apenas ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, por meio da Anvisa, o parecer sobre o monitoramento de res\u00edduos de agrot\u00f3xicos em produtos de origem animal e vegetal.<\/p>\n<p>Segundo a engenheira agr\u00f4noma Fran Paula, educadora da Federa\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os para Assist\u00eancia Social e Educacional (Fase) no Mato Grosso e pesquisadora sobre impactos dos agrot\u00f3xicos, \u201ca flexibiliza\u00e7\u00e3o do registro de agrot\u00f3xicos e as aprova\u00e7\u00f5es dessas subst\u00e2ncias no Brasil tem sido a marca do governo Bolsonaro, que tem batido recorde de libera\u00e7\u00f5es. O decreto nada mais \u00e9 do que uma estrat\u00e9gia dos setores ruralistas e da ind\u00fastria qu\u00edmica para legitimar o \u2018Pacote do Veneno\u2019 que est\u00e1 ancorado no PL 6299\/2002 \u201c. A pesquisadora refor\u00e7a que a altera\u00e7\u00e3o da Lei de Agrot\u00f3xicos \u201cviola os direitos fundamentais, pois possibilita o registro de mais subst\u00e2ncias cancer\u00edgenas, mutag\u00eanicas, teratog\u00eanicas, que causam dist\u00farbios hormonais e que tem um alto potencial de adoecimento na popula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as t\u00eam como objetivo apressar a regulamenta\u00e7\u00e3o de novos produtos, atendendo aos interesses econ\u00f4micos do agroneg\u00f3cio no pa\u00eds. Por exemplo, a insistente tentativa na aprova\u00e7\u00e3o do PL 6299\/02, conhecido como \u201cPacote do Veneno\u201d, que entrou em vota\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados durante o \u00faltimo dia legislativo de 2021, sendo retirado de pauta ap\u00f3s press\u00e3o dos movimentos sociais e organiza\u00e7\u00f5es socioambientais. A promessa do presidente da C\u00e2mara e aliado de Bolsonaro, Arthur Lira (PP-AL), foi a de votar o projeto j\u00e1 no in\u00edcio deste ano, a qualquer momento. \u201cOs ruralistas est\u00e3o pressionando para a vota\u00e7\u00e3o do \u201cPL do Veneno\u201d, de cara, j\u00e1 no in\u00edcio do ano legislativo de 2022. O projeto que j\u00e1 est\u00e1 sendo pautado na C\u00e2mara dos Deputados, representa um retrocesso e maior exposi\u00e7\u00e3o e riscos \u00e0 sa\u00fade humana\u201d, alerta Fran.<\/p>\n<p>Entre as principais armadilhas do projeto de lei est\u00e3o a flexibiliza\u00e7\u00e3o do marco regulat\u00f3rio de agrot\u00f3xicos e a redu\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o ao meio ambiente e \u00e0 sa\u00fade, permitindo, agora, a libera\u00e7\u00e3o de pesticidas que causam doen\u00e7as como o c\u00e2ncer, muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o fetal.<\/p>\n<p><strong>Caso Chup\u00e9<\/strong><br \/>\nO territ\u00f3rio ribeirinho de Chup\u00e9, constitu\u00eddo pelas comunidades Barra da Lagoa e Chup\u00e9, finca ra\u00edzes \u00e0s margens do Riozinho, afluente do Rio Parna\u00edba, no munic\u00edpio de Santa Filomena (PI). S\u00e3o cerca de 20 fam\u00edlias ribeirinhas que ocupam tradicionalmente as terras, vivendo da subsist\u00eancia do Cerrado, da pesca e da agricultura familiar. Em fevereiro de 2020, os moradores do territ\u00f3rio identificaram res\u00edduos de cor avermelhada e espumoso em uma das fontes de \u00e1gua das comunidades. Segundo os moradores, seria contamina\u00e7\u00e3o pelo agrot\u00f3xico 2,4-D, amplamente utilizado nas lavouras da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O 2,4-D, um dos agrot\u00f3xicos mais utilizados no pa\u00eds, ficando atr\u00e1s apenas do glifosato, teve sua aplica\u00e7\u00e3o banida em diversos pa\u00edses como Austr\u00e1lia e Canad\u00e1 e est\u00e1 desde 2006 em processo de reavalia\u00e7\u00e3o pela Anvisa. A contamina\u00e7\u00e3o pelo fungicida tem graves efeitos ao corpo humano, sendo classificado como possivelmente cancer\u00edgeno, al\u00e9m de estar relacionado a patologias hormonais e reprodutivas.<\/p>\n<p>Organiza\u00e7\u00f5es socioambientais cobram a proibi\u00e7\u00e3o do uso desta subst\u00e2ncia no pa\u00eds. Em nota, a Campanha Permanente Contra os Agrot\u00f3xicos considera a decis\u00e3o de manter o registro do pesticida irrespons\u00e1vel e que a mesma \u201cfoi influenciada pelo agroneg\u00f3cio, em especial pelas transnacionais agroqu\u00edmicas que s\u00e3o as maiores interessadas em seguir obtendo lucros com a venda deste veneno\u201c.<\/p>\n<p>O agrot\u00f3xico tamb\u00e9m possui riscos durante sua utiliza\u00e7\u00e3o devido a ocorr\u00eancia de deriva, quando a aplica\u00e7\u00e3o n\u00e3o atinge corretamente o alvo e se espalha pelo solo e \u00e1guas, contaminando a vegeta\u00e7\u00e3o e os rios, como ocorre no Territ\u00f3rio de Chup\u00e9. Jovecino Silva \u00e9 um dos mais antigos moradores da comunidade Chup\u00e9, vive da agricultura de subsist\u00eancia e cria\u00e7\u00e3o de animais e tem sua vida e produ\u00e7\u00f5es diretamente impactadas pelo uso excessivo de venenos nas lavouras pr\u00f3ximas \u00e0 sua resid\u00eancia, principalmente, via pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea.<\/p>\n<p>\u201cMinhas plantas est\u00e3o com sinal de veneno, as laranjas est\u00e3o ficando com as folhas pretas, tipo um \u2018grude\u2019. T\u00f4 vendo at\u00e9 nas telhas da casa, est\u00e3o com um sujo tipo uma poeira com \u00f3leo, at\u00e9 dentro de casa. Isso nunca tinha acontecido antes\u2026Eles passam jogando de avi\u00e3o por cima de casa, tanto vindo dos munic\u00edpios de Santa Filomena, como de Baixa Grande\u201d, relata Jovecino, que destaca os riscos de pulveriza\u00e7\u00e3o di\u00e1ria durante o per\u00edodo da safra de soja, que coincide com as chuvas.<\/p>\n<p>Moradores do territ\u00f3rio tamb\u00e9m relatam que o principal fazendeiro da regi\u00e3o, Jo\u00e3o Augusto Philippsen, propriet\u00e1rio da fazenda J.A.P, utiliza a aplica\u00e7\u00e3o de veneno tamb\u00e9m como uma tentativa de expuls\u00e3o das comunidades do Territ\u00f3rio Chup\u00e9. Em nota publicada pela Comiss\u00e3o Pastoral da Terra \u2013 Regional Piau\u00ed, expondo o caso de contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas do Rio Riozinho, destaca-se a den\u00fancia de intimida\u00e7\u00e3o por parte de Jo\u00e3o Philippsen. \u201cO fazendeiro, disse \u00e0s fam\u00edlias que usou o agrot\u00f3xico para matar uma moita de mato existente dentro de sua propriedade e que elas deveriam sair dali e irem morar na cidade. Afirmou ainda que ir\u00e1 cercar toda a \u00e1rea de uso coletivo do territ\u00f3rio, \u00e1rea essa utilizada pelas fam\u00edlias para cria\u00e7\u00e3o de animais e plantio de legumes. \u00c9 importante destacar que o brejo contaminado des\u00e1gua no Rio Riozinho, que, al\u00e9m de ser utilizado pelas fam\u00edlias do territ\u00f3rio, \u00e9 um dos afluentes do Rio Parna\u00edba, importante fonte h\u00eddrica do Piau\u00ed e do Maranh\u00e3o. Acompanhava o fazendeiro o senhor Vanderlei Pompeu de Matos, que se apresentava como advogado da fazenda, inclusive declarou para fam\u00edlias que deveriam sair da \u2018porta\u2019 de Jo\u00e3o Augusto\u201c.<\/p>\n<p>A contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos atravessa diversas comunidades da regi\u00e3o sudoeste do Piau\u00ed, que desde 2017 denunciam coletivamente o envenenamento do Cerrado, baix\u00f5es e rios. A estrat\u00e9gia para o enfrentamento dessas viol\u00eancias foi a cria\u00e7\u00e3o de um coletivo de comunidades no ano de 2018, que re\u00fane povos ribeirinhos e ind\u00edgenas situados entre os munic\u00edpios de Santa Filomena e Gilbu\u00e9s. \u201cO coletivo vem fortalecer a lutas das comunidades, e mostrar ao Estado que n\u00f3s existimos muito antes da soja chegar aqui\u201c, contou Jovecino, durante plen\u00e1ria de cria\u00e7\u00e3o do coletivo.<\/p>\n<p><strong>Caso Guyraroka<\/strong><br \/>\nA realidade do povo Guarani e Kaiow\u00e1, no Mato Grosso do Sul, tamb\u00e9m \u00e9 alarmante quando se trata das consequ\u00eancias do uso excessivo de agrot\u00f3xicos nas fazendas de monocultura que rodeiam os territ\u00f3rios tradicionais no estado. O territ\u00f3rio Guyraroka, situado no munic\u00edpio de Caarap\u00f3 (MS), possui 11 mil e 400 hectares de extens\u00e3o de terras ind\u00edgenas declaradas, por\u00e9m, apenas 50 hectares s\u00e3o de fato ocupados pelos Guarani e Kaiow\u00e1. De acordo Matias Rempel, mission\u00e1rio do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi) no Mato Grosso do Sul, todo o territ\u00f3rio \u00e9 cercado por lavouras do agroneg\u00f3cio que fazem uso excessivo de agrot\u00f3xicos por meio de dispers\u00e3o com o uso de tratores e pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea.<\/p>\n<p>Em 2021, em raz\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), realizada por conta do impacto da pandemia do coronav\u00edrus na vida dos povos ind\u00edgenas e camponeses, o povo Guarani e Kaiow\u00e1 recebeu a doa\u00e7\u00e3o de quatro toneladas de sementes crioulas \u2013 fundamentais para a manuten\u00e7\u00e3o da soberania alimentar e de seus modos de vida, sobretudo em tempos pand\u00eamicos de fome e mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Entretanto, o plantio destas sementes n\u00e3o vingou no territ\u00f3rio Guyraroka e acredita-se que o motivo esteja diretamente relacionado ao uso de agrot\u00f3xicos na regi\u00e3o. \u201cN\u00f3s tentamos plantar as sementes no Guyraroka, fazer um processo de cultivo agroecol\u00f3gico, mas nenhum dos plantios vingou. Acreditamos que esse problema com a terra esteja diretamente ligado com o uso de agrot\u00f3xicos nas lavouras em \u00e1reas do entorno e, tamb\u00e9m, por conta da presen\u00e7a de cupins e outros insetos que fogem das \u00e1reas de monocultivo contaminadas pelo veneno e se refugiam dentro da comunidade ind\u00edgena, migrando para as planta\u00e7\u00f5es do povo Guarani e Kaiow\u00e1\u201d, explica Matias.<\/p>\n<p>Segundo lideran\u00e7as do povo Guarani e Kaiow\u00e1, algumas fam\u00edlias que vivem no territ\u00f3rio Guyraroka foram for\u00e7adas a se mudar por conta da dispers\u00e3o de agrot\u00f3xicos. \u201cEm alguns casos, o veneno era despejado a metros de dist\u00e2ncia das casas ind\u00edgenas, localizadas pr\u00f3ximas \u00e0 cerca que divide o territ\u00f3rio tradicional das fazendas do agroneg\u00f3cio. Com isso o agrot\u00f3xico era tamb\u00e9m dispersado nos moradores do Guyraroka, sendo trazido pelo vento\u201d, comenta o mission\u00e1rio do Cimi.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias que vivem na terra ind\u00edgena tamb\u00e9m denunciam que escolas e postos de sa\u00fade da \u00e1rea s\u00e3o impactados pela dispers\u00e3o dos agrot\u00f3xicos, com relatos de crian\u00e7as que foram atingidas durante o per\u00edodo de aula. Em setembro de 2019, a Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) emitiu ao estado brasileiro uma medida cautelar para a prote\u00e7\u00e3o da comunidade Guarani e Kaiow\u00e1, visando \u201cgarantir o direito \u00e0 vida e \u00e0 integridade pessoal\u201d dos e das ind\u00edgenas, apontando que as fam\u00edlias que vivem no territ\u00f3rio \u201cse encontram em uma situa\u00e7\u00e3o de gravidade e urg\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>O Cimi e lideran\u00e7as locais tamb\u00e9m denunciam a contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas do territ\u00f3rio, que acontece por conta do despejo de tambores com compostos qu\u00edmicos em um rio localizado pr\u00f3ximo ao territ\u00f3rio \u2013 fonte que abastecia as fam\u00edlias da terra ind\u00edgena com \u00e1gua pot\u00e1vel. Tito Guarani Kaiow\u00e1 conta que em uma noite achou que estava chovendo em sua comunidade mas, quando olhou \u201cpara cima e estava o avi\u00e3o jogando agrot\u00f3xicos em n\u00f3s, com o vento espalhando o veneno pelo ar\u201d, denuncia o anci\u00e3o.<\/p>\n<p>Seu Tito, como \u00e9 conhecido na regi\u00e3o, conta que sente falta do canto dos p\u00e1ssaros em sua terra. Segundo a lideran\u00e7a ind\u00edgena, houve uma diminui\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica da presen\u00e7a de animais no territ\u00f3rio, fato que pode ser relacionado com o desmatamento associado ao monocultivo do agroneg\u00f3cio, mas tamb\u00e9m com a dispers\u00e3o abusiva de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>De acordo com o Cimi, o uso dos agrot\u00f3xicos como arma qu\u00edmica \u00e9 um elemento central do contexto sistem\u00e1tico de viol\u00eancias que o povo ind\u00edgena Guarani Kaiow\u00e1 sofre h\u00e1 d\u00e9cadas. \u201cAtaques, queimas de Casa de Reza e amea\u00e7as \u00e0 integridade f\u00edsica s\u00e3o frequentes na rotina dos e das ind\u00edgenas. O uso excessivo de agrot\u00f3xicos na regi\u00e3o sem d\u00favidas faz parte deste pacote de viola\u00e7\u00f5es de direitos\u201d, enfatiza Rempel. Neste momento, de acordo com informa\u00e7\u00f5es do Cimi e de fam\u00edlias do territ\u00f3rio, os ind\u00edgenas est\u00e3o desassistidos no campo da sa\u00fade, pois atualmente n\u00e3o h\u00e1 m\u00e9dicos para prestar atendimento na regi\u00e3o. \u201cO atendimento \u00e9 muito prec\u00e1rio e os problemas de sa\u00fade causados pelo veneno s\u00e3o recorrentes. Alguns dos sintomas mais comuns s\u00e3o as brotoejas, erup\u00e7\u00f5es e inflama\u00e7\u00f5es no corpo, al\u00e9m das dores de cabe\u00e7a que s\u00e3o relatadas pelos moradores do Guyraroka\u201d, finaliza.<\/p>\n<p><strong>Sa\u00fade coletiva<\/strong><br \/>\nOs danos \u00e0 sa\u00fade provocados por agrot\u00f3xicos n\u00e3o est\u00e3o restritos aos povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais do Cerrado. De acordo com informa\u00e7\u00f5es da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva (Abrasco), moradores de regi\u00f5es rurais s\u00e3o os mais afetados pela intoxica\u00e7\u00e3o de pesticidas, mas nenhum grupo est\u00e1 isento. \u201cMesmo nos grandes centros urbanos, os consumidores tamb\u00e9m s\u00e3o afetados ao ingerirem \u00e1gua, frutas, verduras e at\u00e9 mesmo produtos industrializados\u201d, enfatiza Ada Cristina Pontes Aguiar, professora na Faculdade de Medicina na Universidade Federal de Cariri, no Cear\u00e1, e pesquisadora da Abrasco.<\/p>\n<p>Segundo relat\u00f3rio do Programa de An\u00e1lise de Res\u00edduos de Agrot\u00f3xicos em Alimentos (Para), da Anvisa, 232 tipos de pesticidas foram monitorados em 25 alimentos diferentes que s\u00e3o consumidos pelos brasileiros. Do total de 12 mil amostras analisadas, aproximadamente 20% possu\u00edam res\u00edduos \u201cque excederam os n\u00edveis permitidos por lei ou apresentavam agrot\u00f3xicos n\u00e3o autorizados para a cultura em que foram identificados\u201d.<\/p>\n<p>Ainda de acordo com dados da Abrasco, problemas de sa\u00fade causados pela exposi\u00e7\u00e3o ou ingest\u00e3o de alimentos contaminados podem aparecer de 24 a 72 horas ap\u00f3s o ocorrido, sendo os sintomas mais comuns a diarreia, febre, v\u00f4mito, dores na cabe\u00e7a e abd\u00f4men.<\/p>\n<p>A pesquisadora tamb\u00e9m aponta para o risco que todos corremos por conta da ingest\u00e3o cotidiana de pequenas doses destes compostos qu\u00edmicos por um longo per\u00edodo de tempo. \u201cDepois de cinco a 20 anos, o paciente pode apresentar problemas neurol\u00f3gicos, c\u00e2ncer, doen\u00e7as no f\u00edgado, desregula\u00e7\u00f5es end\u00f3crinas, malforma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas, puberdade precoce. Inclusive, estudos t\u00eam mostrado rela\u00e7\u00f5es dos agrot\u00f3xicos com Parkinson, Alzheimer e s\u00edndrome metab\u00f3lica\u201d, explica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A 890 quil\u00f4metros de Teresina, adentrando o interior piauiense, Jovecino e Almerinda labutam para manter uma pequena produ\u00e7\u00e3o de alimentos para o seu sustento. A dificuldade \u00e9 percebida no preto das folhas do p\u00e9 de laranja. Incomum. Oleoso. Grudento. O mesmo preto se estende por todo o teto da casa de adobe em que vivem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":279944,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[95],"class_list":["post-279943","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasilia","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279943","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=279943"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279943\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":279996,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279943\/revisions\/279996"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/279944"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=279943"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=279943"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=279943"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}