{"id":280142,"date":"2022-02-11T00:49:31","date_gmt":"2022-02-11T03:49:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=280142"},"modified":"2022-02-11T09:31:47","modified_gmt":"2022-02-11T12:31:47","slug":"mulheres-cientistas-apontam-dificuldades-na-carreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mulheres-cientistas-apontam-dificuldades-na-carreira\/","title":{"rendered":"Mulheres cientistas apontam dificuldades na carreira"},"content":{"rendered":"<p>Desde menina, ela j\u00e1 dava aulas \u00e0s bonecas sobre a estrutura do \u00e1tomo e como dominar a transforma\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria. Sonhava em ser professora, mas primeiro se formou em medicina, porque acreditou que esse era o caminho de unir as aptid\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cEu sempre quis ser professora, talvez pelo fato de minha m\u00e3e acreditar que esse \u00e9 o of\u00edcio mais honrado, e tamb\u00e9m por acreditar que tenho necessidade de cuidar e orientar. Fazer medicina foi o meio. Sempre me interessei pela ci\u00eancia da vida e do indiv\u00edduo, e na minha cabe\u00e7a de 18 anos, al\u00e9m de ser desafio para uma pessoa comum como eu, iria me trazer experi\u00eancias humanas extraordin\u00e1rias, dignas de Tolstoi, mas em campo de batalha hospitalar, em que o oponente e companheiro seria a doen\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Foi assim que a cientista Rebecca Stival, pneumologista dos hospitais Marcelino Champagnat e Universit\u00e1rio Cajuru, em Curitiba (PR), e mestranda em medicina interna pela Universidade Federal do Paran\u00e1, conta como iniciou a carreira. Atualmente, estuda impactos e tratamentos de enfisema na doen\u00e7a pulmonar obstrutiva cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ci\u00eancia, comemorado nesta sexta-feira (11), a Ag\u00eancia Brasil conversou com duas cientistas para apresentar panorama sobre o mercado de trabalho na \u00e1rea e como as meninas de hoje podem se tornar cientistas.<\/p>\n<p><strong>Papel da mulher na ci\u00eancia<\/strong><br \/>\nAs contribuic\u0327o\u0303es que as mulheres podem oferecer \u00e0 cie\u0302ncia, tecnologia e inovac\u0327a\u0303o sa\u0303o inu\u0301meras, a come\u00e7ar pela resili\u00eancia, diz Rebecca. \u201cA mulher tem como prerrogativa a resili\u00eancia. Por isso, o seu olhar para a ci\u00eancia se torna importante. Acredito que por termos enorme capacidade de adapta\u00e7\u00e3o, que inclusive \u00e9 biol\u00f3gica &#8211; basta olhar para uma mulher gestante, todas as varia\u00e7\u00f5es hormonais e modifica\u00e7\u00f5es corporais que ocorrem ao longo de nove meses &#8211; enfrentamos adversidades e geramos solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas rapidamente\u201d.<\/p>\n<p>Ela cita uma das mais famosas cientistas da hist\u00f3ria, Marie Curie, como exemplo de resili\u00eancia \u00e0s frustra\u00e7\u00f5es e resposta r\u00e1pida e pr\u00e1tica \u00e0s adversidades. \u201cBasta lembrar de sua contribui\u00e7\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o de radiografias durante a Primeira Guerra Mundial, que beneficiou muitas pessoas em campo de batalha. Ela conseguiu transformar conhecimento de bancada em ferramenta de utilidade p\u00fablica, outra caracter\u00edstica importante de um cientista.<\/p>\n<p>No entanto, o caminho para conquistar esse espa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, e os homens ainda s\u00e3o maioria na \u00e1rea. De acordo com o relat\u00f3rio &#8220;A Jornada do Pesquisador pela Lente de G\u00eanero&#8221;, publicado pela empresa holandesa Elsevier em 2020, a participa\u00e7\u00e3o de mulheres nos mais diversos campos da ci\u00eancia oscila entre 20%.<\/p>\n<p>O Brasil figura entre os mais pr\u00f3ximos do equil\u00edbrio na propor\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres na autoria de artigos cient\u00edficos, com 0,8 mulher por cada homem. O desempenho \u00e9 superior ao do Reino Unido, com 0,6, e ao dos Estados Unidos e da Alemanha, ambos com 0,5.<\/p>\n<p>Para a professora e coordenadora de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Paran\u00e1 (PUCPR), Cristina Baena, os desafios podem ser resumidos na quest\u00e3o da produtividade. \u201cSe voc\u00ea olha, a produtividade anual das mulheres \u00e9 a mesma, mas ao longo da carreira elas produzem menos, porque ficam menos tempo que os homens em papel de lideran\u00e7a na produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e cient\u00edfica. Isso ocorre por causa da dificuldade da mulher de se manter nessa carreira juntando todas as responsabilidades que acumula\u201d.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o da pesquisadora, h\u00e1 como incentivar a carreira da mulher cientista. \u201cS\u00e3o quest\u00f5es b\u00e1sicas: por exemplo, a bolsa da pesquisadora deve levar em considera\u00e7\u00e3o a maternidade. Hoje, a gente n\u00e3o tem estrutura para acolher os filhos das pesquisadoras nem em eventos cient\u00edficos, o que dificulta a presen\u00e7a delas. \u00c9 preciso dar condi\u00e7\u00f5es para essas mulheres continuarem na carreira, porque quando conseguem, h\u00e1 impacto muito importante na forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos e na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d, defende Cristina, que passou por esse desafio e dividiu o tempo entre a cria\u00e7\u00e3o de um filho enquanto fazia mestrado, doutorado e p\u00f3s-doutorado.<\/p>\n<p>Muito antes da pandemia, Cristina tinha rotina muito comum \u00e0 das m\u00e3es que trabalharam e ainda trabalham em tripla jornada em casa, devido ao distanciamento social. \u201cHouve per\u00edodo em que tive que fazer muitas escolhas dif\u00edceis, sobretudo financeiramente, porque vivia com a bolsa de doutorado. A minha receita diminuiu muito porque a bolsa no Brasil hoje tem valor muito pequeno, e me lembro claramente de um per\u00edodo em que tinha de responder e-mails em ingl\u00eas para l\u00edderes internacionais. Ao mesmo tempo, precisava cozinhar o feij\u00e3o, tinha que terminar a limpeza da casa e tinha que escrever um artigo, ir \u00e0 reuni\u00e3o da escola do meu filho, ent\u00e3o fui muito desafiada em todos os sentidos. Acho que se a gente n\u00e3o tem muita persist\u00eancia, n\u00e3o tem ajuda, apoio, \u00e9 natural que acabe desistindo mais cedo da carreira cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Hoje, Cristina Baena \u00e9 coordenadora do ambulat\u00f3rio p\u00f3s-covid montado pelo Hospital Universit\u00e1rio Cajuru, em parceria com a PUCPR, em Curitiba (PR), e coordenadora do Centro de Ensino, Pesquisa e Inova\u00e7\u00e3o dos hospitais Marcelino Champagnat e Universit\u00e1rio Cajuru. Ela participou de dezenas de estudos para compreender o comportamento da covid-19. O ambulat\u00f3rio que Baena coordena estudas as sequelas da doen\u00e7a e pr\u00e1ticas para reverter esses problemas.<\/p>\n<p><strong>Equidade na ci\u00eancia<\/strong><br \/>\nO \u00faltimo relat\u00f3rio do F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial mostrou que a despropor\u00e7\u00e3o de g\u00eanero no trabalho aumentou, e apenas daqui a 267 anos o equil\u00edbrio ser\u00e1 alcan\u00e7ado. Ou seja, a atual gera\u00e7\u00e3o de mulheres cientistas ainda n\u00e3o ver\u00e1 equidade na \u00e1rea, mas indica os caminhos para chegar l\u00e1.<\/p>\n<p>Para Rebecca Stival, sal\u00e1rios iguais s\u00e3o o primeiro passo. \u201cBuscar equipara\u00e7\u00e3o salarial nas fun\u00e7\u00f5es que a mulher representa. Em 1928, [a escritora] Virginia Woolf j\u00e1 nos contou que s\u00f3 h\u00e1 possibilidade de cria\u00e7\u00e3o depois de garantido o p\u00e3o, a independ\u00eancia financeira. E \u00e9 fato que a pesquisa no Brasil recebe pouco ou nenhum financiamento. Pesquisadores de dedica\u00e7\u00e3o exclusiva s\u00e3o raros\u201d.<\/p>\n<p>A segunda medida, completa a cientista, \u00e9 garantir equidade de acesso \u00e0s mulheres, considerando seu papel intr\u00ednseco na perpetua\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. \u201cApesar de direitos j\u00e1 adquiridos, mas ainda n\u00e3o completamente respeitados, o per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a, mesmo nos dias atuais &#8211; pasmem &#8211; ainda pode significar retrocesso profissional. E digo isso, pois j\u00e1 fui questionada, em entrevista de acesso a uma das minhas especializa\u00e7\u00f5es, sobre o meu relacionamento conjugal e o meu desejo de ser m\u00e3e. Isso foi pelo menos uns 50 anos depois de minha m\u00e3e conquistar o seu CPF\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 Cristina Baena, considera a longevidade na carreira um dos pontos para alcan\u00e7ar equidade. \u201cAcho que vai haver certa equidade na ci\u00eancia quando tivermos a mesma longevidade de carreira. E tamb\u00e9m quando a gente aqui no Brasil, principalmente, parar de ouvir que a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica cient\u00edfica n\u00e3o \u00e9 considerada trabalho. S\u00e3o mudan\u00e7as culturais que a sociedade deve resolver antes de termos essa igualdade\u201d.<\/p>\n<p><strong>Pandemia<\/strong><br \/>\nMulheres cientistas, at\u00e9 ent\u00e3o conhecidas somente no meio acad\u00eamico, ficaram famosas no pa\u00eds pelo papel relevante na pesquisa sobre o novo coronav\u00edrus e na divulga\u00e7\u00e3o, destaca Cristina. \u201cNo Brasil, a gente pode citar a Ester Sabino, a Jaqueline de Jesus, que decodificaram o genoma dos primeiros casos de covid-19 em tempo recorde &#8211; informa\u00e7\u00e3o que ajudou o mundo inteiro a combater a doen\u00e7a. Tivemos na m\u00eddia tamb\u00e9m algumas cientistas que fizeram papel muito importante de comunicadora, como Natalia Pasternak e Margareth Dalcolmo que s\u00e3o \u00f3timos exemplo. A Mellanie Fontes Dutra \u00e9 excelente exemplo no Twitter. A Luana Ara\u00fajo, com forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tamb\u00e9m se colocou de forma muito firme contra onda de fake news que estava tomando conta do pa\u00eds naquele momento\u201d.<\/p>\n<p>Ela acredita ainda que outros exemplos servir\u00e3o de inspira\u00e7\u00e3o. \u201cEm n\u00edveis individuais e dentro dos hospitais, na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento r\u00e1pido da pandemia, tivemos mulheres com pap\u00e9is fundamentais. Tenho a impress\u00e3o de que isso ajudou a inspirar algumas meninas que v\u00eam na mulher cientista a contribui\u00e7\u00e3o que pode ser dada \u00e0 sociedade\u201d.<\/p>\n<p>Rebecca Stival refor\u00e7a: \u201cAs mulheres representam a maioria dos profissionais dedicados ao cuidado das pessoas, cuidar \u00e9 uma prerrogativa da mulher. Somos aproximadamente 79% da for\u00e7a de trabalho na \u00e1rea da sa\u00fade. Apesar de o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade ser ocupado por um homem, as batalhas na pandemia foram lideradas, em sua grande maioria, por mulheres cientistas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Conselho<\/strong><br \/>\nRebecca d\u00e1 um conselho \u00e0s meninas que t\u00eam o sonho de ser cientista. \u201cResili\u00eancia. Outras vieram antes para garantir o que conquistamos at\u00e9 agora, temos que persistir para assegurar plena equidade \u00e0s que vir\u00e3o depois\u201d.<\/p>\n<p>S\u00f4nia Baena d\u00e1 a mesma sugest\u00e3o feita \u00e0s alunas que orienta em pesquisas na universidade. \u201cSobretudo no Brasil hoje, a forma\u00e7\u00e3o e a carreira cient\u00edfica devem ser plano quase familiar. Porque vai haver aus\u00eancias na fam\u00edlia. \u00c9 bom que algu\u00e9m possa cobrir esse papel, um parceiro ou equivalente, que ajude na cria\u00e7\u00e3o e na presen\u00e7a com os filhos. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o de recompensa muito grande quando a gente percebe que conseguiu produzir conhecimento, que \u00e9 aplicado na ponta e tem impacto na vida das pessoas\u201d, afirma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde menina, ela j\u00e1 dava aulas \u00e0s bonecas sobre a estrutura do \u00e1tomo e como dominar a transforma\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria. 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