{"id":281136,"date":"2022-02-28T01:43:49","date_gmt":"2022-02-28T04:43:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=281136"},"modified":"2022-02-28T04:47:59","modified_gmt":"2022-02-28T07:47:59","slug":"entre-um-traco-e-outro-saiu-o-desenho-de-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/entre-um-traco-e-outro-saiu-o-desenho-de-brasilia\/","title":{"rendered":"Entre um tra\u00e7o e outro, saiu o desenho de Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p>Entre um e outro tra\u00e7o, as curvas feitas com o l\u00e1pis no papel em branco abriam os caminhos para um sonho. As retas, de uma ponta \u00e0 outra, da cidade imaginada, demarcavam os percursos, as estruturas e os ideais para a nova capital desenhados pelo arquiteto brasileiro Lucio Costa, que nasceu h\u00e1 exatos 120 anos &#8211; em 27 de fevereiro de 1902. Croquis, documentos e fotografias da concep\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia fazem parte de um acervo, tanto particular como profissional, de aproximadamente 11 mil documentos de v\u00e1rios momentos da vida dele que poder\u00e3o ser acessados pela internet, gratuitamente, a partir de 13 de maio.<\/p>\n<p>A responsabilidade pela guarda e divulga\u00e7\u00e3o desse tesouro hist\u00f3rico \u00e9 da Casa de Arquitectura de Portugal, situada na cidade de Matosinhos, ao norte do pa\u00eds europeu. Mantida sem fins lucrativos e com parcerias p\u00fablicas e privadas, a entidade recebeu todo esse volume de materiais da fam\u00edlia do arquiteto. A neta de Lucio Costa, Julieta Sobral, afirmou, em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, que o acervo \u00e9 a totalidade dos documentos que estavam guardados no apartamento do arquiteto quando ele faleceu, em 1998. \u201cN\u00f3s catalogamos e organizamos. O apartamento dele era uma loucura. Os materiais estavam soltos. Se n\u00e3o organiz\u00e1ssemos, muito poderia ter ido para o lixo\u201d.<\/p>\n<p>No acervo de aproximadamente 11 mil documentos, h\u00e1 documentos pessoais (como fotografias de fam\u00edlia, inf\u00e2ncia, viagens e at\u00e9 documentos de identifica\u00e7\u00e3o) pe\u00e7as desenhadas, de cerca de 80 projetos de arquitetura, urbanismo e paisagismo, desenhos ou pinturas n\u00e3o relacionadas com arquitetura (a carv\u00e3o, aquarelas) obras escritas (como cinco livros, al\u00e9m de ensaios, artigos, depoimentos), correspond\u00eancia, registos fotogr\u00e1ficos e em v\u00eddeo. Documenta\u00e7\u00e3o que traz diferentes fases das concep\u00e7\u00f5es de obras como o projeto do pr\u00e9dio do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade P\u00fablica (Pal\u00e1cio Gustavo Capanema), no Rio de Janeiro, em 1936, o Pavilh\u00e3o Brasileiro na Feira Internacional de Nova Iorque, 1939, o Park Hotel, de Nova Friburgo, e o Parque Guinle, no Rio de Janeiro, ambos de 1944, A Casa de Arquitectura adiantou, com exclusividade, para a Ag\u00eancia Brasil, alguns desses documentos que ficar\u00e3o dispon\u00edveis para o p\u00fablico em maio.<\/p>\n<p>Assim, por mais de 20 anos, a fam\u00edlia buscou garantir a preserva\u00e7\u00e3o das obras e da mem\u00f3ria do genial arquiteto. Os materiais chegaram a ficar no Instituto Tom Jobim, no Rio de Janeiro. Mas, diante dos custos e da fragilidade de documentos antigos, decidiram recorrer \u00e0 entidade em Portugal. \u201cA Casa de Arquitectura tem uma estrutura para escaneamento, por exemplo, e outras t\u00e9cnicas de preserva\u00e7\u00e3o que n\u00e3o t\u00ednhamos aqui. Desde os anos 2000, a gente come\u00e7ou a inventariar esse material e, ap\u00f3s catalogar e proteger o acervo por 20 anos, entendemos que era necess\u00e1ria essa migra\u00e7\u00e3o\u201d, explica a neta do arquiteto.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de enviar a produ\u00e7\u00e3o do arquiteto para fora do pa\u00eds chegou a ser questionada. \u201cMuitas cr\u00edticas foram feitas \u00e0 fun\u00e7\u00e3o dessa decis\u00e3o da fam\u00edlia. Ao mesmo tempo, existem v\u00e1rias obras de Lucio Costa preciosas constru\u00eddas em solo brasileiro que est\u00e3o sendo destru\u00eddas pelo descaso\u201d.<\/p>\n<p><strong>Guarda com amor<\/strong><br \/>\nO cuidado da fam\u00edlia com os documentos foi o que garantiu a preserva\u00e7\u00e3o, segundo o diretor da Casa de Arquitectura, Nuno Sampaio. \u201cNitidamente, foi feito tudo com amor, com cuidado de preserva\u00e7\u00e3o. Se o acervo chegou at\u00e9 aos nossos dias, deve-se \u00e0 fam\u00edlia do Lucio Costa. Essa \u00e9 a realidade. A fam\u00edlia recolheu papel a papel e inventariou tudo. S\u00e3o documentos que, por exemplo, est\u00e3o guardados h\u00e1 60, 70 anos\u201d. O diretor explica que o material exigiu o trabalho t\u00e9cnico de especialistas em recupera\u00e7\u00e3o de diferentes \u00e1reas. Os filmes, por exemplo, passaram pelos cuidados de restaura\u00e7\u00e3o do som. O escaneamento do material foi todo refeito na Casa para a guarda das imagens em alta resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O diretor da Casa explica que a consulta \u00e0 documenta\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser feita em formato digital, nas instala\u00e7\u00f5es da Casa, ou atrav\u00e9s do futuro website (\u00e0 medida que a documenta\u00e7\u00e3o \u00e9 carregada na base de dados). A consulta \u00e0 document\u00e3o f\u00edsica, por causa do estado fr\u00e1gil dos documentos, \u00e9 permitida em casos de exce\u00e7\u00e3o. Sampaio explica que a maioria da documenta\u00e7\u00e3o se encontra digitalizada com baixa ou m\u00e9dia qualidade. Pelo menos 20% dos documentos est\u00e1 em alta qualidade.<\/p>\n<p>\u201cPara essa conserva\u00e7\u00e3o, tem havido uma grande for\u00e7a-tarefa dos funcion\u00e1rios aqui em Portugal. A recupera\u00e7\u00e3o de rasg\u00f5es em papeis, por exemplo, foi tamb\u00e9m feita\u201d. Pap\u00e9is amassados foram recuperados com o aux\u00edlio de pesos durante ao menos tr\u00eas meses. O acervo come\u00e7ou a chegar \u00e0 Casa em 2020, antes da pandemia.<\/p>\n<p>O primeiro contato da fam\u00edlia com a entidade portuguesa ocorreu em 2018, quando a Casa de Arquitectura realizou uma exposi\u00e7\u00e3o de trabalhos brasileiros, com o t\u00edtulo de Infinito V\u00e3o. O cuidado com os materiais chamou a aten\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia de Lucio Costa, que confiou na entidade para a guarda desse esp\u00f3lio. \u201c\u00c9 importante que o mundo reconhe\u00e7a a qualidade da arquitetura brasileira, mas essencialmente \u00e9 importante que a sociedade brasileira reconhe\u00e7a a qualidade dos seus arquitetos\u201d, avalia o diretor portugu\u00eas. A admira\u00e7\u00e3o pela cria\u00e7\u00e3o de brasileiros evocou outros eventos na entidade de Portugal, tanto na modalidade presencial quanto na virtual &#8211; como uma mostra, prevista para 2023, sobre a obra do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que morreu no ano passado, aos 92 anos de idade.<\/p>\n<p><strong>Vis\u00e3o humanit\u00e1ria\u00a0<\/strong><br \/>\nPesquisadores da obra e do legado de Lucio Costa entendem que o arquiteto modernista deve ser reconhecido como um autor vision\u00e1rio, generoso e vis\u00e3o humanit\u00e1ria. Ele defendia que a organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o deveria privilegiar a conviv\u00eancia entre pessoas de diferentes origens e classes sociais.<\/p>\n<p>\u201cLucio Costa \u00e9 um dos far\u00f3is do saber brasileiro. Ele n\u00e3o foi um arquiteto empreendedor, um ganhador de dinheiro. Ele era um intelectual que amava arquitetura, desenhava e escrevia impressionantemente bem\u201d, afirma o professor de arquitetura e urbanismo Frederico Fl\u00f3sculo. O pesquisador contextualiza que o brasileiro teve decisiva influ\u00eancia de europeus, como do arquiteto franc\u00eas Le Corbusier.<\/p>\n<p>A discri\u00e7\u00e3o e a qualidade do trabalho assinado por Lucio Costa ganhou, na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, a admira\u00e7\u00e3o de um dos alunos: Oscar Niemeyer, que encorajou Costa, que j\u00e1 contava com carreira reconhecida, a participar de um concurso diferente &#8211; o de projetos para a concep\u00e7\u00e3o de uma nova cidade. Lucio Costa entregou a proposta em cima da hora, no \u00faltimo dia de inscri\u00e7\u00f5es. Ao todo, foram 26 os projetos apresentados (leia mais).<\/p>\n<p>A simplicidade do tra\u00e7o de uma cidade no formato de uma lib\u00e9lula (de um avi\u00e3o ou de uma cruz), com a previs\u00e3o do cruzamento de dois eixos (rodovi\u00e1rio e monumental), dividindo o que chamou de Plano Piloto, em Asa Sul e Asa Norte, convenceu os julgadores. \u201cEra uma proposta muito e que foi aceita tamb\u00e9m por causa da defesa que ele fez na reda\u00e7\u00e3o. Era uma utopia de cidade\u201d, pontua Fl\u00f3sculo.<\/p>\n<p>Para a pesquisadora brasiliense Ludmila Correia, Lucio Costa colocou em pr\u00e1tica princ\u00edpios e pensamentos que estavam em grande parte somente na teoria. \u201cEsses pensamentos eram todos modernos, que estavam sendo discutidos e, ao mesmo tempo, traziam desafios \u00fanicos. Lucio Costa foi uma pessoa bastante vision\u00e1ria\u201d. Ele acreditava que, a partir da arquitetura e do urbanismo, seria poss\u00edvel transformar a sociedade: \u201cMas, depois, ele percebeu \u00e9 que a organiza\u00e7\u00e3o da cidade na pr\u00e1tica acabou incorporando os problemas da sociedade. Bras\u00edlia \u00e9 a experi\u00eancia mais ic\u00f4nica\u201d, diz a professora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre um e outro tra\u00e7o, as curvas feitas com o l\u00e1pis no papel em branco abriam os caminhos para um sonho. As retas, de uma ponta \u00e0 outra, da cidade imaginada, demarcavam os percursos, as estruturas e os ideais para a nova capital desenhados pelo arquiteto brasileiro Lucio Costa, que nasceu h\u00e1 exatos 120 anos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":281137,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[95],"class_list":["post-281136","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasilia","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281136","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=281136"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281136\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":281138,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281136\/revisions\/281138"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/281137"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=281136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=281136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=281136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}