{"id":281510,"date":"2022-03-06T02:04:49","date_gmt":"2022-03-06T05:04:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=281510"},"modified":"2022-03-06T01:58:53","modified_gmt":"2022-03-06T04:58:53","slug":"ucrania-e-seus-algozes-ja-fazem-parte-da-nova-historia-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ucrania-e-seus-algozes-ja-fazem-parte-da-nova-historia-mundial\/","title":{"rendered":"Ucr\u00e2nia e seus algozes j\u00e1 fazem parte da nova hist\u00f3ria mundial"},"content":{"rendered":"<p>A geopol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 monocrom\u00e1tica, e a pe\u00e7a que se escreve no teatro da guerra em curso (um territ\u00f3rio que compreende a Ucr\u00e2nia, mas que se expande por metade do mundo) tem mais bandido do que mocinho, e uma s\u00f3 v\u00edtima: as popula\u00e7\u00f5es civis, mortas ou desterradas. Por um imperativo moral, os socialistas n\u00e3o tergiversam na den\u00fancia da invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia, ao tempo em que se recusam a sancionar a pol\u00edtica de guerra do Pent\u00e1gono, nossa advers\u00e1ria t\u00e1tica e estrat\u00e9gica desde o fim da segunda guerra mundial.<\/p>\n<p>A defesa da paz, tema caro ao humanismo socialista, implica a ativa condena\u00e7\u00e3o da guerra, necessidade do desenvolvimento capitalista, com a qual a Europa flagelou o mundo no s\u200b\u00e9culo passado. O pacifismo socialista, por\u00e9m, considera as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, como demonstram o esfor\u00e7o dos trabalhadores russos no af\u00e3 de consolidar a revolu\u00e7\u00e3o de 1917 e derrotar 14 ex\u00e9rcitos invasores, e o empenho da jovem URSS na guerra contra a amea\u00e7a nazifascista, e seu posterior engajamento nas lutas de liberta\u00e7\u00e3o nacional e descoloniza\u00e7\u00e3o em todos os continentes, no curso do \u00faltimo s\u00e9culo. Os socialistas, ao lado dos trabalhadores brasileiros defenderam o envio de tropas para os campos de batalha da It\u00e1lia: a Hist\u00f3ria dizia que a prioridade era derrotar o nazifascismo.<\/p>\n<p>Os socialistas brasileiros sempre defenderam a autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos e hoje, mais do que nunca, desconhecem justificativa para rever essas posi\u00e7\u00f5es que, ali\u00e1s, v\u00eam norteando a pol\u00edtica brasileira desde Rio Branco, enriquecida a partir das experi\u00eancias de pol\u00edtica externa independente formuladas por Afonso Arinos e San Tiago Dantas nos anos 60 do s\u00e9culo passado, revista e enriquecida pela pol\u00edtica &#8220;ativa e altiva&#8221; de Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimar\u00e3es e Marco Aur\u00e9lio Garcia. Uma s\u00f3 vez, na Rep\u00fablica, o pa\u00eds desonrou essa hist\u00f3ria de altivez, quando, sob ditadura militar, misturou-se aos marines dos EUA que em 1965 invadiram a Rep\u00fablica Dominicana para depor o governo constitucional e democr\u00e1tico de Juan Bosch.<\/p>\n<p>A soberania pol\u00edtica e a integridade territorial de todos os pa\u00edses devem ser mutuamente respeitadas, e \u00e9 evidente que uma soberania est\u00e1 sendo violada quando parte do territ\u00f3rio de uma na\u00e7\u00e3o livre e independente \u00e9 invadida por tropas estrangeiras, como ocorre com a base de Guant\u00e1namo, em Cuba, ocupada pelos EUA. Claro, tamb\u00e9m, que a integridade nacional \u00e9 golpeada quando o territ\u00f3rio de um pa\u00eds soberano se v\u00ea cercado por instala\u00e7\u00f5es militares de pot\u00eancias declaradamente inimigas.<\/p>\n<p>Em 1962, ao descobrir que a URSS havia instalado armas estrat\u00e9gicas no territ\u00f3rio cubano, os EUA decretaram o bloqueio naval da ilha, e colocaram o mundo \u00e0 beira da hecatombe nuclear, afinal afastada pela negocia\u00e7\u00e3o de um acordo que, assegurando os EUA que n\u00e3o invadiriam Cuba, criava condi\u00e7\u00f5es para a URSS retirar seus m\u00edsseis. Como foi a norte-americana naquele ent\u00e3o, \u00e9 leg\u00edtima a preocupa\u00e7\u00e3o da R\u00fassia de hoje com o que significaria, para sua seguran\u00e7a, o ingresso da Ucr\u00e2nia na OTAN.<\/p>\n<p>Nas circunst\u00e2ncias conhecidas, o primeiro e imediato vencedor dessa crise (vis\u00edvel pelo menos partir do rompimento dos acordos de Minsk pelo governo da Ucr\u00e2nia, com a interessada benevol\u00eancia das pot\u00eancias europeias) \u00e9 o imperialismo, que sai das cordas para a retomada da lideran\u00e7a moral do Ocidente; imperialismo que mais ganha, pol\u00edtica e economicamente, quanto mais a humanidade se dilacera nos conflitos por ele promovidos em todo o mundo.<\/p>\n<p>Com os EUA, igualmente fortalecida sai a OTAN (que deveria ter sido extinta com o t\u00e9rmino da Guerra Fria em 1991) e, nela, seu lado mais agressivo e militarista; a ind\u00fastria da guerra e o tr\u00e1fico internacional de armas festejam os novos tempos. Ao fim e ao cabo, a Ucr\u00e2nia contar\u00e1 seus mortos e arcar\u00e1 com insond\u00e1vel d\u00edvida de guerra, que haver\u00e1 de pagar aos aliados de hoje, por quem lutam e morrem seus soldados. Sobreviver\u00e1 uma nova ordem internacional ainda mais fr\u00e1gil.<\/p>\n<p>A R\u00fassia, que neste evento perdeu a batalha ideol\u00f3gica, j\u00e1 \u00e9 tratada como p\u00e1ria, e sua economia pagar\u00e1 alto pre\u00e7o pelo isolamento, e dificilmente escapar\u00e1 de uma crise cambial. No entanto, est\u00e1 menos isolada do que nossos jornais nacionais asseveram: tem ao seu lado mais de trinta pa\u00edses, que ocupam cerca de metade do globo e incluem China e \u00cdndia. Quase metade da popula\u00e7\u00e3o mundial. Enfim, Putin, jogando seu xadrez, entregou as bandeiras da defesa da paz e da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos nas m\u00e3os da velha Europa colonialista, escravista e racista, da Alemanha do holocausto e dos EUA cujo belicismo e desprezo pelos princ\u00edpios que fundam a Carta da ONU (e deveriam presidir a ordem internacional) ningu\u00e9m ignora..<\/p>\n<p>De 1950 aos nossos dias, em guerra permanente, os EUA (que, ao final da segunda guerra mundial, com as tropas do Eixo derrotadas e o Jap\u00e3o recuando de todos os fronts, explodiram duas bombas at\u00f4micas sobre as popula\u00e7\u00f5es civis de Hiroshima e Nagasaki) j\u00e1 promoveram mais de 700 interven\u00e7\u00f5es militares ou golpes de Estado em na\u00e7\u00f5es e pa\u00edses soberanos. Nesse rol est\u00e3o a Guerra da Coreia (1950-1953); a longa guerra (1965 a 1973) contra o Vietn\u00e3 (onde cometeram todos os crimes de guerra elencados pela legisla\u00e7\u00e3o internacional, a come\u00e7ar pelo emprego de napalm contra popula\u00e7\u00f5es civis); o cerco \u00e0 S\u00edria; a destrui\u00e7\u00e3o do Iraque; as invas\u00f5es da L\u00edbia e do Afeganist\u00e3o; o assassinato de l\u00edderes e governantes nacionalistas como Patrice Lumumba, a sustenta\u00e7\u00e3o de todas as ditaduras de direita contempor\u00e2neas, como as da fam\u00edlia Duvalier, de Salazar, de Franco, Stroessner e Somoza.<\/p>\n<p>S\u00e3o os EUA, ainda, s\u00f3cios das ditaduras do Qatar e da Ar\u00e1bia Saudita, e respons\u00e1veis pela instala\u00e7\u00e3o de um governo protofascista em Kiev. Os EUA t\u00eam, espalhadas em 40 pa\u00edses, nada menos de 400 bases militares, 1,4 milh\u00e3o de soldados, um sem n\u00famero de naves e aeronaves armadas de ogivas nucleares distribu\u00eddas estrategicamente por toda a orbe. Quando as aten\u00e7\u00f5es s\u00e3o atra\u00eddas para a Ucr\u00e2nia, e milhares de pessoas justamente tomam as ruas em defesa das vidas dos civis daquela na\u00e7\u00e3o europeia, os EUA bombardeiam a Som\u00e1lia, e sua aliada Ar\u00e1bia Saudita destr\u00f3i o vizinho I\u00eamen.<\/p>\n<p>A R\u00fassia capitalista, sucessora da URSS e herdeira do czarismo, viu-se presa da armadilha norte-americana que vem dos tempos de Clinton, quando os EUA, ao inv\u00e9s de renunciar \u00e0 Guerra Fria, que, ali\u00e1s, perdera objeto com a crise do &#8220;socialismo real&#8221;, trataram de fortalecer a coaliz\u00e3o belicista e avan\u00e7ar temerariamente sobre a vizinhan\u00e7a da R\u00fassia, fazendo ouvidos de mercador para seus apelos de seguran\u00e7a, desafiando o orgulho de um povo de longas e profundas ra\u00edzes hist\u00f3ricas imperialistas e guerreiras. E fazendo t\u00e1bula rasa da hist\u00f3ria comum da Ucr\u00e2nia e da R\u00fassia, que nasceu em Kiev (sua capital a partir de 882) formando um s\u00f3 pa\u00eds nos s\u00e9culos IX e XII, de cujo seio a Ucr\u00e2nia de hoje foi sacada no bojo do esquartejamento da URSS \u2013 um imp\u00e9rio, relembro para lamentar, desfeito como um castelo de cartas, ap\u00f3s 75 anos de hegemonia do partido comunista, dilacerantes guerras civis, conquistas e perdas de territ\u00f3rio, e uma dolorosa guerra contra a Alemanha e seus aliados, que lhe ceifou mais de 27 milh\u00f5es de vidas.<\/p>\n<p>Por obra e gra\u00e7a do imperialismo, a Ucr\u00e2nia foi convertida em enclave estadunidense na fronteira com sua irm\u00e3 g\u00eamea, que, com o pretendido ingresso na OTAN, converter-se-ia em base de m\u00edsseis de m\u00e9dio alcance mirando o territ\u00f3rio vizinho. Ao inv\u00e9s de cumprir com seu papel estabilizador na regi\u00e3o, transformava-se em pe\u00e3o da disputa geopol\u00edtica, sem que esse papel atendesse qualquer sorte de necessidade.<\/p>\n<p>Estavam dadas as condi\u00e7\u00f5es objetivas para o conflito.<\/p>\n<p>N\u00e3o resultaria mais simples e soberbamente mais l\u00f3gico que a Ucr\u00e2nia optasse por operar como ponte entre os dois polos? O questionamento est\u00e1 em Henry Kissinger (&#8220;To settle the Ukrnie crises, start at the end&#8221;, Washington Post, 5\/03\/2014) que via no ingresso da Ucr\u00e2nia nas fileiras da OTAN como mais uma pe\u00e7a na perigosa montagem do confronto Leste-Oeste que arruinaria por d\u00e9cadas qualquer perspectiva de conduzir a R\u00fassia e o Ocidente para um sistema internacional cooperativo.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o \u00e9 a temida terceira guerra mundial, embora o czar russo j\u00e1 tenha posto de prontid\u00e3o seu arsenal at\u00f4mico. O m\u00ednimo que podemos afirmar \u00e9 que as grandes pot\u00eancias est\u00e3o edificando um mundo ainda mais perigoso do que aquele presidido pela Guerra Fria.<\/p>\n<p>Vitoriosa j\u00e1 \u00e9 a ind\u00fastria da guerra; a invas\u00e3o russa \u00e9 o clique que acionou o armamentismo, prometendo novos conflitos que tendem a se espalhar pelo planeta e crescer de intensidade fugindo ao controle dos jogadores de um xadrez macabro, pois, no tabuleiro, ao inv\u00e9s de meras pe\u00e7as de jogo, est\u00e3o seres humanos.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria certamente julgar\u00e1 com severidade o presidente russo; julgar\u00e1, por\u00e9m, como julgou a hedionda hist\u00f3ria do colonialismo europeu, que escravizou povos e desestruturou continentes inteiros como a \u00c1frica, a \u00c1sia e o Oriente M\u00e9dio, e como julga os EUA e sua saga de interven\u00e7\u00f5es militares em pa\u00edses estrangeiros e a desestabiliza\u00e7\u00e3o de um sem n\u00famero de estados, desconstituindo governos democr\u00e1ticos e legitimamente eleitos e instalando ditaduras militares como as que assolaram o Brasil e o Chile.<\/p>\n<p><strong>*Ex-ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A geopol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 monocrom\u00e1tica, e a pe\u00e7a que se escreve no teatro da guerra em curso (um territ\u00f3rio que compreende a Ucr\u00e2nia, mas que se expande por metade do mundo) tem mais bandido do que mocinho, e uma s\u00f3 v\u00edtima: as popula\u00e7\u00f5es civis, mortas ou desterradas. Por um imperativo moral, os socialistas n\u00e3o tergiversam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":281511,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-281510","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281510","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=281510"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281510\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":281512,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281510\/revisions\/281512"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/281511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=281510"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=281510"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=281510"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}