{"id":281857,"date":"2022-03-10T05:53:01","date_gmt":"2022-03-10T08:53:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=281857"},"modified":"2022-03-09T22:57:02","modified_gmt":"2022-03-10T01:57:02","slug":"jovens-da-periferia-no-combate-a-emergencia-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jovens-da-periferia-no-combate-a-emergencia-climatica\/","title":{"rendered":"Jovens da periferia no combate \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p>O \u00faltimo relat\u00f3rio do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), divulgado no fim de fevereiro, soou o alarme: praticamente metade da popula\u00e7\u00e3o mundial \u2013 de 3,3 bilh\u00f5es a 3,6 bilh\u00f5es de pessoas \u2013 j\u00e1 vive em regi\u00f5es ou contextos \u201caltamente vulner\u00e1veis\u201d aos impactos da mudan\u00e7a do clima.<\/p>\n<p>A vulnerabilidade clim\u00e1tica \u00e9 maior em \u00e1reas pobres, com desafios de governan\u00e7a e acesso limitado a servi\u00e7os e recursos b\u00e1sicos, agravando-se ainda mais por desigualdades de ra\u00e7a, renda e g\u00eanero. Em outras palavras, o IPCC revela que, nas cidades do Brasil e do mundo, as popula\u00e7\u00f5es de periferias e favelas formam a linha de frente da crise do clima.<\/p>\n<p>Essa realidade n\u00e3o \u00e9 nova para os moradores desses lugares. Como revela o Painel do Clima, de 2010 a 2020, a mortalidade causada por enchentes, secas e tempestades foi 15 vezes superior em regi\u00f5es mais vulner\u00e1veis do que nas menos vulner\u00e1veis. A situa\u00e7\u00e3o pode piorar, visto que a ci\u00eancia j\u00e1 identificou que o aquecimento global, provocado pela alta concentra\u00e7\u00e3o de gases de efeito estufa na atmosfera, aumenta a intensidade, dura\u00e7\u00e3o e frequ\u00eancia dos eventos clim\u00e1ticos extremos.<\/p>\n<p>Sentindo na pele os efeitos mais severos de um planeta mais quente, ativistas das periferias brasileiras t\u00eam se articulado para se fazer ouvir no debate clim\u00e1tico nacional e mundial, frequentando espa\u00e7os como as confer\u00eancias do clima da ONU, as COPs. Durante o \u00faltimo m\u00eas, a Ag\u00eancia P\u00fablica conversou com quatro desses jovens.<\/p>\n<p>De diferentes estados do pa\u00eds, eles trabalham para colocar as discuss\u00f5es sobre ra\u00e7a e desigualdade social no cerne da luta contra o aquecimento global e levantam a bandeira da justi\u00e7a clim\u00e1tica como crucial para que suas realidades sejam contempladas. Isso porque \u201cquem mais contribuiu com a crise clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 a galera que est\u00e1 sofrendo as suas principais consequ\u00eancias\u201d, argumenta Amanda Costa, ativista e moradora da Brasil\u00e2ndia, em S\u00e3o Paulo. \u201cMuitas vezes, n\u00e3o est\u00e1 atribuindo o nome t\u00e9cnico para isso, mas est\u00e1 num processo emp\u00edrico \u2013 ou seja, nas viv\u00eancias \u2013 sentindo o efeito dessa crise.\u201d<\/p>\n<p><strong>Ra\u00e7a no centro da mesa<\/strong><br \/>\nAmanda, de 25 anos, nasceu, cresceu e vive no Jardim Almanara, bairro do distrito da Brasil\u00e2ndia, no extremo norte da capital paulista. Formada em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, come\u00e7ou sua trajet\u00f3ria de ativismo clim\u00e1tico aos 21 anos na ONG Engajamundo, que atua preparando lideran\u00e7as jovens para participar de processos pol\u00edticos internacionais, como as COPs do clima, para as quais j\u00e1 foi por tr\u00eas vezes \u2013 incluindo a \u00faltima, realizada em novembro na Esc\u00f3cia.<\/p>\n<p>\u201cQuando a gente pensa em justi\u00e7a clim\u00e1tica, estamos pensando em um sentido mais amplo, de que os pa\u00edses do Sul Global sofrem as principais consequ\u00eancias pelo modelo de desenvolvimento encabe\u00e7ado pelos pa\u00edses do Norte Global\u201d, diz ao lembrar que o termo leva em conta o cen\u00e1rio mundial de desigualdade. Entre as na\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis \u00e0s mudan\u00e7as do clima \u2013 que se organizam em um f\u00f3rum e em blocos de negocia\u00e7\u00e3o para defender seus interesses no \u00e2mbito da Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a Mudan\u00e7a do Clima (UNFCCC) \u2013 est\u00e3o, por exemplo, os pequenos Estados insulares, que podem simplesmente desaparecer com o aumento do n\u00edvel dos oceanos. A Am\u00e9rica do Sul, um dos \u201chotspots de vulnerabilidade clim\u00e1tica\u201d segundo o IPCC, tem como representantes no f\u00f3rum apenas Col\u00f4mbia e a Guiana \u2013 o Brasil ainda n\u00e3o o integra.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 uma luta para que esse debate inclua tamb\u00e9m a perspectiva de ra\u00e7a. Isso traz para o centro da mesa as discuss\u00f5es sobre racismo clim\u00e1tico, segundo o qual popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis no campo e na cidade est\u00e3o mais sujeitas aos efeitos do aquecimento global e s\u00e3o menos assistidas por pol\u00edticas de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Normalmente, essas popula\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m t\u00eam acesso restrito a recursos e servi\u00e7os ambientais b\u00e1sicos \u2013 como \u00e1gua limpa, saneamento e tratamento de lixo, por exemplo \u2013 e sofrem desproporcionalmente as consequ\u00eancias da degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente, o que \u00e9 conhecido como racismo ambiental. \u201cAl\u00e9m dos pa\u00edses perif\u00e9ricos sofrerem as principais consequ\u00eancias da crise clim\u00e1tica, dentro deles, a galera preta, que historicamente foi exclu\u00edda e invisibilizada nessas discuss\u00f5es, est\u00e1 sofrendo os principais impactos\u201d, destaca Amanda.<\/p>\n<p>Na Brasil\u00e2ndia j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel perceber esses efeitos. \u00c9 l\u00e1, por exemplo, que fica a favela da Capad\u00f3cia, onde 730 casas foram constru\u00eddas na encosta de um morro. Segundo levantamento de risco hidrol\u00f3gico feito pela Defesa Civil de S\u00e3o Paulo, que analisou o grau de perigo a que est\u00e3o submetidas moradias \u00e0 beira de c\u00f3rregos e em barrancos, a Capad\u00f3cia \u00e9 a \u00e1rea de risco \u201cmuito alto\u201d mais populosa da cidade.<\/p>\n<p>\u201cGeralmente, as ocupa\u00e7\u00f5es que a gente chama de periferias ocorrem em regi\u00f5es com maior inclina\u00e7\u00e3o ou muito pr\u00f3ximas aos rios. \u00c9 a\u00ed que os eventos extremos pegam\u201d, explica o bi\u00f3logo e professor da Universidade de S\u00e3o Paulo Marcos Buckeridge, que j\u00e1 foi autor de relat\u00f3rios do IPCC e coordena o programa USP-Cidades Globais. Ele explica que, em encostas, o risco \u00e9 agravado pelo desmatamento, que facilita o escorregamento de terra em caso de chuvas fortes. J\u00e1 o problema das constru\u00e7\u00f5es em \u00e1reas pr\u00f3ximas aos leitos dos rios e mananciais s\u00e3o as enchentes. Ambos os cen\u00e1rios representam tanto amea\u00e7as materiais, com a destrui\u00e7\u00e3o de moradias e infraestruturas fundamentais \u2013 redes de energia, \u00e1gua e transporte, por exemplo \u2013, como tamb\u00e9m \u00e0s vidas das pessoas.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quando ocorrem grandes trag\u00e9dias que os moradores das periferias s\u00e3o impactados pelo aquecimento do planeta. Segundo Buckeridge, se nas cidades a temperatura m\u00e9dia j\u00e1 \u00e9 \u201centre 2 ou 3 graus maior\u201d devido ao uso massivo de materiais como concreto nas constru\u00e7\u00f5es e \u00e0 impermeabiliza\u00e7\u00e3o do solo \u2013 fen\u00f4meno conhecido como ilhas de calor \u2013, nas regi\u00f5es mais pobres a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda pior por conta da falta de vegeta\u00e7\u00e3o, o que acarreta problemas de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Em 2012, uma pesquisa da Unesp em parceria com o laborat\u00f3rio da Nasa j\u00e1 havia constatado que a discrep\u00e2ncia de temperatura entre os bairros de S\u00e3o Paulo chegava a atingir a casa dos 14\u00b0C. \u201cH\u00e1 um tipo de constru\u00e7\u00e3o muito compactado, que deixa pouco espa\u00e7o para arboriza\u00e7\u00e3o, e isso aumenta ainda mais a temperatura\u201d, aponta. Nesse sentido, \u201cas periferias v\u00e3o sofrer primeiro, e dentro delas, as crian\u00e7as e idosos v\u00e3o sofrer mais.\u201d<\/p>\n<p>Os moradores dessas \u00e1reas n\u00e3o se submetem a tais riscos por vontade pr\u00f3pria, mas porque est\u00e3o sujeitos a uma s\u00e9rie de vulnerabilidades socialmente constru\u00eddas,\u00a0 de acordo com a professora Norma Valencio, vice-coordenadora do N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Sociais em Desastres (NEPED) da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (Ufscar).<\/p>\n<p>\u201cSe os desastres cont\u00eam todos os ingredientes do modelo de desenvolvimento, com a pol\u00edtica econ\u00f4mica de cada governo que vai fragilizando os direitos de cidadania, as potencialidades econ\u00f4micas da comunidade e os compromissos do Estado em manter sistemas que devem estar presentes para as necessidades vitais e sociais da comunidade, quando ocorrerem os eventos extremos do clima, essa seria, entre aspas, a popula\u00e7\u00e3o preferencial do desastre, porque est\u00e1 em um grau de exposi\u00e7\u00e3o a riscos de v\u00e1rias naturezas \u2013 geol\u00f3gico, eventos clim\u00e1ticos, viol\u00eancia e todo o tipo de inseguran\u00e7a, sa\u00fade p\u00fablica\u201d, avalia Valencio. \u201c\u00c9 claro que, quando ela se depara com esses gatilhos, ser\u00e1 de uma forma cuja vulnerabilidade se expressar\u00e1 da maneira mais tr\u00e1gica poss\u00edvel. Por isso que [a quest\u00e3o] n\u00e3o \u00e9 a chuva de 100mm, depende: se for em Alphaville [bairro nobre a 30 km de S\u00e3o Paulo], \u00e9 um efeito, mas se for no Morro do S\u00e3o Carlos, no Rio de Janeiro [favela no centro da cidade], \u00e9 outro.\u201d<\/p>\n<p>Vendo tudo isso acontecer no lugar onde vive, Amanda ajudou a fundar, em 2019, o Instituto Perifa Sustent\u00e1vel, cujo objetivo \u00e9 mobilizar as juventudes das periferias do pa\u00eds a pensar solu\u00e7\u00f5es para problemas clim\u00e1ticos e ambientais em seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios, como a quest\u00e3o do descarte do lixo \u2013 hoje, o projeto conta com articuladores em diversos estados. Apesar de, enquanto ativista, trabalhar em outras frentes \u2013 como consultoria de diversidade para empresas, palestras e produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado nas redes sociais \u2013, Amanda diz que o Perifa Sustent\u00e1vel \u00e9 a parte que \u201cfaz seus olhos brilharem\u201d justamente por envolver atua\u00e7\u00e3o em rede e ajudar na forma\u00e7\u00e3o de novas lideran\u00e7as clim\u00e1ticas de origem perif\u00e9rica. \u201cUm dos objetivos que eu coloquei de vida \u00e9 que n\u00e3o quero e n\u00e3o vou aceitar ser a \u00fanica nesses espa\u00e7os\u201d, afirma. \u201cJ\u00e1 defini que vou investir meu conhecimento, minhas viv\u00eancias e conex\u00f5es para fazer com que outras manas pretas de quebrada tamb\u00e9m acessem esses lugares.\u201d<\/p>\n<p>Ela defende que diversificar as vozes \u00e9 condi\u00e7\u00e3o fundamental para descolonizar as discuss\u00f5es sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o que significa n\u00e3o somente valorizar outros saberes e perspectivas al\u00e9m dos ocidentais, mas coloc\u00e1-los em posi\u00e7\u00f5es de participa\u00e7\u00e3o efetiva e tomada de decis\u00e3o. \u201cPensar em algo que englobe todo mundo, que seja realmente inclusivo para al\u00e9m do discurso, \u00e9 trazer pessoas diversas para mesa de debate\u201d, aponta. \u201cComo posso criar algo sustent\u00e1vel para a periferia se eu n\u00e3o sei a viv\u00eancia de uma periferia, se n\u00e3o cresci numa periferia, se n\u00e3o sei quais s\u00e3o os desafios, os perrengues, os problemas de um ambiente perif\u00e9rico? A\u00ed vou trazer uma solu\u00e7\u00e3o neocolonizadora, uma vis\u00e3o elitista que vai funcionar enquanto eu estiver l\u00e1, mas a partir do momento em que me retiro, vai molhar o projeto, vai dar ruim, porque n\u00e3o \u00e9 daquilo que o territ\u00f3rio necessita.\u201d<\/p>\n<p><strong>Justi\u00e7a clim\u00e1tica, \u201co lugar onde me encontro\u201d<\/strong><br \/>\nA bi\u00f3loga maranhense Karina Penha, de 26 anos, tamb\u00e9m acredita que a inclus\u00e3o das periferias no debate clim\u00e1tico s\u00f3 acontecer\u00e1 pelas m\u00e3os de quem entende de verdade esse contexto. Ela foi criada e mora em S\u00e3o Jos\u00e9 de Ribamar, na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Lu\u00eds. Seu bairro n\u00e3o \u00e9 totalmente urbanizado: as ruas n\u00e3o s\u00e3o pavimentadas \u2013 e viram um \u201clama\u00e7al\u201d em \u00e9poca de chuva, o que dificulta muito a mobilidade dos moradores \u2013 e n\u00e3o h\u00e1 saneamento b\u00e1sico. Realidade diferente da amiga Amanda, a quem conheceu no Engajamundo, onde j\u00e1 coordenou o grupo de trabalho sobre clima. Embora de lugares distintos, suas milit\u00e2ncias s\u00e3o movidas por for\u00e7as parecidas.<\/p>\n<p>\u201cO que eu observava antes de discutir justi\u00e7a clim\u00e1tica eram pessoas que sempre foram marginalizadas se tornando culpadas pela crise do clima. A pessoa que andou de \u00f4nibus a vida inteira e quer comprar um carro quando tem condi\u00e7\u00e3o se sentindo culpada. A pessoa que trabalhou a semana inteira, n\u00e3o teve um lazer, n\u00e3o almo\u00e7ou direito, e no final de semana quer fazer um churrasco se sentido culpada por estar comendo carne\u201d, analisa. \u201cPor isso, para mim, faz muito sentido a justi\u00e7a clim\u00e1tica: n\u00e3o existe uma f\u00f3rmula correta, existe voc\u00ea debater com as comunidades, entender seu estilo de vida e come\u00e7ar a cobrar quem de fato est\u00e1 sendo o mais culpado por aquilo, que s\u00e3o as ind\u00fastrias, o governo, o sistema.\u201d Ela reconhece o impacto de atitudes individuais, mas refor\u00e7a: \u201co que voc\u00ea faz de mudan\u00e7a n\u00e3o vai ser o mesmo que funciona para uma pessoa que mora em um outro lugar, diferente do seu, e que tem uma viv\u00eancia diferente.\u201d<\/p>\n<p>Ela relata sempre ter vivido as consequ\u00eancias do racismo ambiental, por\u00e9m se reconheceu enquanto mulher negra justamente ao entrar em contato com as discuss\u00f5es sobre justi\u00e7a clim\u00e1tica. \u201cQuando a gente come\u00e7a a falar sobre desigualdades, sobre quem s\u00e3o as pessoas mais afetadas, a gente se v\u00ea. Voc\u00ea come\u00e7a a se reconhecer: pera a\u00ed, \u00e9 o que acontece comigo, com quem vem de periferia, de regi\u00f5es do sub\u00farbio\u201d, narra. \u201cDentro da causa ambiental, \u00e9 o lugar onde me encontro.\u201d<\/p>\n<p>Evang\u00e9lica, foi na igreja que, ainda crian\u00e7a, Karina iniciou seu caminho de mobiliza\u00e7\u00e3o social a partir do trabalho volunt\u00e1rio. O interesse pelo meio ambiente, no entanto, sempre esteve ali. Quando era crian\u00e7a e escutava dos pais a famosa pergunta \u201co que quer ser quando crescer?\u201d, j\u00e1 tinha a resposta no ponta da l\u00edngua: ambientalista. \u201cN\u00e3o sabia nem o que significava, mas era uma palavra parecida com \u2018ambiente\u2019 \u2013 nem eles sabiam\u201d, relembra, rindo.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que foi crescendo, sentiu a necessidade de ampliar sua milit\u00e2ncia e se aproximou do Engajamundo, onde descobriu a pauta do clima. Mesmo antes dos 30 anos, j\u00e1 tem no curr\u00edculo quatro COPs \u2013 em novembro passado, esteve em Glasgow \u2013 e o Muvuca, um projeto de ativismo clim\u00e1tico para jovens amaz\u00f4nicos idealizado por ela na ONG Nossas, que cria estrat\u00e9gias de mobiliza\u00e7\u00e3o em diversas \u00e1reas.<\/p>\n<p>A ativista tamb\u00e9m integra a iniciativa F\u00e9 no Clima, pelo qual o Instituto de Estudos da Religi\u00e3o (ISER) re\u00fane lideran\u00e7as religiosas de diferentes vertentes para pensar e discutir a crise clim\u00e1tica. Karina \u2013 assim como Amanda, tamb\u00e9m evang\u00e9lica \u2013 acredita que a milit\u00e2ncia sobre clima e f\u00e9 podem andar juntas, o que seria especialmente importante nas periferias. \u201cObservo o quanto, \u00e0s vezes, o pastor ou o padre s\u00e3o os \u00fanicos l\u00edderes comunit\u00e1rios naquela regi\u00e3o. As pessoas ouvem muito o que eles falam, s\u00e3o a refer\u00eancia delas\u201d, conta. \u201cA igreja \u00e9 um lugar que, se tomasse essa pauta como pr\u00f3pria, teria um impacto incr\u00edvel nas comunidades.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u201cSer um ativista perif\u00e9rico envolve coragem e enfrentamento\u201d<\/strong><br \/>\nO ato de transformar a milit\u00e2ncia clim\u00e1tica \u2013\u00a0 e ser transformado por ela \u2013 n\u00e3o vem sem dor para os jovens que vivem na periferia. \u201c\u00c9 um processo de enfrentamento constante, porque in\u00fameros espa\u00e7os debatem mudan\u00e7as clim\u00e1ticas captadas a partir de outras lentes, mas s\u00e3o poucos os que de fato se prop\u00f5em a escutar esses outros lugares\u201d, aponta a pedagoga Ana Rosa Cyrus, de 25 anos. \u201c\u00c9 quase como se fosse um movimento de se reconhecer, de se encontrar enquanto um ativista que est\u00e1 circulando pelas pautas ambientais a partir da sua realidade.\u201d<\/p>\n<p>Mestre em Geografia, Ana Rosa \u00e9 tamb\u00e9m diretora executiva do Engajamundo desde maio de 2021. Sua atua\u00e7\u00e3o como ambientalista, entretanto, come\u00e7ou bem antes, aos 19 anos, junto ao Coletivo Jovem de Meio Ambiente do Par\u00e1, em Bel\u00e9m, cidade onde nasceu e morou at\u00e9 se mudar para Manaus h\u00e1 alguns meses por motivos profissionais.<\/p>\n<p>H\u00e1 anos na caminhada, ela diz que \u201cser um ativista perif\u00e9rico envolve coragem e enfrentamento\u201d pela necessidade de se afirmar a todo momento para se fazer ouvir em espa\u00e7os ainda ocupados majoritariamente por pessoas brancas. \u201cSe seu corpo \u00e9 diferente e voc\u00ea vem de outro lugar fora do que se \u00e9 esperado, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 daquele ambiente e n\u00e3o faz parte daquela agenda\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A ativista sempre viveu com sua fam\u00edlia em Icoaraci, a 20 km de dist\u00e2ncia do centro da capital paraense. O distrito, cortado por rios, sofre h\u00e1 anos com a contamina\u00e7\u00e3o de suas \u00e1guas por metais pesados devido\u00a0\u00e0 atividade irregular de curtumes, o que traz problemas \u00e0 sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o local e \u00e0 sua qualidade de vida, por conta dos maus odores liberados pela opera\u00e7\u00e3o das empresas \u2013 mais um cl\u00e1ssico caso de racismo ambiental.<\/p>\n<p>Os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tamb\u00e9m j\u00e1 se fazem sentir ali. \u201cUma coisa que minha av\u00f3 me disse quando a gente conversou por liga\u00e7\u00e3o \u00e9 que fazia muito tempo que ela n\u00e3o via tanta \u00e1gua caindo do c\u00e9u. As pessoas est\u00e3o notando que tem algo estranho, algo acontecendo\u201d, conta, ao lembrar das chuvas do \u00faltimo inverno, que na Amaz\u00f4nia vai de novembro a maio. \u201cPessoas como a minha av\u00f3, que viveram mais tempo que a gente e conseguem olhar para o passado a partir daquele espa\u00e7o, trazem muito o que ensinar sobre como analisar essas m\u00e9tricas de altera\u00e7\u00f5es. Por exemplo, olhar para a beira do rio e saber que o n\u00edvel est\u00e1 cada vez mais alto, diferente do que era h\u00e1 vinte anos, e que consequentemente isso vai alterar o consumo do distrito em rela\u00e7\u00e3o a peixes.\u201d<\/p>\n<p>Ana Rosa destaca que a percep\u00e7\u00e3o dessas transforma\u00e7\u00f5es ocorre por meio da viv\u00eancia. \u201cOs efeitos chegam muito mais como \u2018o que estou sentindo, como isso est\u00e1 atingindo o meu corpo e dos que est\u00e3o ao meu redor\u2019 do que necessariamente uma an\u00e1lise macro, de dizer que s\u00e3o as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. O que chega para as pessoas j\u00e1 \u00e9 a consequ\u00eancia, o processo de silenciamento e subalterniza\u00e7\u00e3o daquela realidade\u201d, indica.<\/p>\n<p>Por isso, para ela, \u00e9 ineficaz discutir estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o urbana aos efeitos do aquecimento global apenas pelo \u00e2ngulo da tecnologia, sem contemplar os recortes de ra\u00e7a, classe social e g\u00eanero, que incorporam as demandas e necessidades das periferias. \u201cNo final das contas, quem s\u00e3o as pessoas que podem morar em pr\u00e9dios com \u00e1rvores no topo ou ter carros el\u00e9tricos? N\u00e3o s\u00e3o as pessoas das periferias, mas outros corpos supervalorizados em rela\u00e7\u00e3o a acessos. Se a gente esvaziar o olhar cr\u00edtico e pensar apenas no estrutural, vamos perpetuar [as desigualdades]\u201d, defende.<\/p>\n<p><strong>\u201c\u00c9 preciso semear para florescer, apesar da urg\u00eancia\u201d<\/strong><br \/>\nIncluir as periferias no processo de constru\u00e7\u00e3o de cidades sustent\u00e1veis e resilientes \u00e0s mudan\u00e7as do clima n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 considerar suas demandas, mas tamb\u00e9m o universo de respostas que j\u00e1 existem ali. \u201cA favela ensina. Basta olhar, se envolver e investir, que as solu\u00e7\u00f5es v\u00e3o surgindo cada vez mais fortes\u201d, afirma o empreendedor social Raull Santiago, de 33 anos. \u201cCria do Complexo do Alem\u00e3o\u201d, na zona norte do Rio de Janeiro, e com um longo hist\u00f3rico de ativismo pelos direitos humanos e das favelas, nos \u00faltimos anos Raull tem atuado tamb\u00e9m como militante clim\u00e1tico.<\/p>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao assunto come\u00e7ou em 2012, durante a Rio+20, que marcou os vinte anos da primeira confer\u00eancia do Meio Ambiente realizada pela ONU em 1992. A \u00e1gua tamb\u00e9m estreitou os la\u00e7os de Raull com a pauta. \u201cComecei a pegar onda e, no mar, nas praias, conheci pessoas e projetos que pensavam a preserva\u00e7\u00e3o dos oceanos. O tema foi me abra\u00e7ando\u201d, recorda. Depois disso, em 2019, passou a estudar os Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS) da ONU \u2013 diretrizes para erradicar a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir qualidade de vida \u00e0s popula\u00e7\u00f5es \u2013 e, a partir dessa experi\u00eancia, criou, em 2020, o projeto Favela &amp; ODSs, \u201cque discute a crise clim\u00e1tica e ambiental a partir da favela e com a favela\u201d, explica.<\/p>\n<p>Para isso, Raull mira na pot\u00eancia intr\u00ednseca das comunidades para se adaptar \u00e0s mudan\u00e7as do clima. \u201cAs favelas e periferias j\u00e1 realizam coisas diversas, s\u00e3o a pr\u00f3pria resili\u00eancia em diferentes situa\u00e7\u00f5es absurdas, mas de forma independente\u201d, avalia. \u201cTem projetos diversos que reciclam \u00f3leo, pl\u00e1stico, fazem reflorestamento, limpeza coletiva para evitar entupimento de esgoto, monitoramento de encostas por conta pr\u00f3pria. As pessoas j\u00e1 est\u00e3o dentro do tema, muitas vezes n\u00e3o t\u00eam o discurso sobre ele por estarem experimentando solu\u00e7\u00f5es, mas com foco na sobreviv\u00eancia e n\u00e3o totalmente por ter consci\u00eancia do tema.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m do Favela &amp; ODSs, ele ajudou a fundar o PerifaConnection, que o levou \u00e0 COP-26 no ano passado. A organiza\u00e7\u00e3o tem como um de seus pilares de atua\u00e7\u00e3o um programa de forma\u00e7\u00e3o em clima para lideran\u00e7as e comunicadores perif\u00e9ricos, o LABClima, em que os alunos t\u00eam aulas com especialistas e ativistas refer\u00eancias na \u00e1rea, em encontros semanais de tr\u00eas horas de dura\u00e7\u00e3o cada.<\/p>\n<p>Com a milit\u00e2ncia coletiva, Raull espera facilitar o cruzamento de caminhos entre as viv\u00eancias e saberes perif\u00e9ricos sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o conhecimento cient\u00edfico e os espa\u00e7os de tomada de decis\u00e3o da agenda. Para ele, \u00e9 preciso falar sobre tudo isso de \u201cforma constante, pois \u00e9 um tema central \u00e0 vida de todas as pessoas e de nossas futuras gera\u00e7\u00f5es\u201d, declara. \u201cMas \u00e9 preciso falar sem romantizar, nem for\u00e7ar as coisas, \u00e9 preciso semear para florescer, apesar da urg\u00eancia.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u00faltimo relat\u00f3rio do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), divulgado no fim de fevereiro, soou o alarme: praticamente metade da popula\u00e7\u00e3o mundial \u2013 de 3,3 bilh\u00f5es a 3,6 bilh\u00f5es de pessoas \u2013 j\u00e1 vive em regi\u00f5es ou contextos \u201caltamente vulner\u00e1veis\u201d aos impactos da mudan\u00e7a do clima. 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