{"id":281935,"date":"2022-03-11T05:29:23","date_gmt":"2022-03-11T08:29:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=281935"},"modified":"2022-03-11T10:15:41","modified_gmt":"2022-03-11T13:15:41","slug":"copacabana-e-logo-ali-aqui-fica-e-gramacho-a-cidade-lixo-do-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/copacabana-e-logo-ali-aqui-fica-e-gramacho-a-cidade-lixo-do-rio\/","title":{"rendered":"Copacabana \u00e9 logo ali; aqui fica \u00e9 Gramacho, a cidade-lixo do Rio"},"content":{"rendered":"<p>T\u00e1bua por t\u00e1bua, o barraco de Nina saiu do ch\u00e3o, e peda\u00e7os de madeira ganharam o nome de casa. Quando chove, o aguaceiro atravessa o teto e molha tudo. Esse m\u00eas j\u00e1 foram tr\u00eas dias seguidos \u00e0 luz de velas, sem eletricidade. \u00c1gua nas pias e privada, s\u00f3 tr\u00eas dias por semana, e h\u00e1 ruas que nunca foram abastecidas. Saneamento b\u00e1sico \u00e9 uma promessa a mais no esgoto a c\u00e9u aberto dessa terra de gente esquecida. Nina se mudou para o barraco pouco tempo ap\u00f3s fecharem o lix\u00e3o. Com\u00a0seis filhos e tr\u00eas netos, sonha com uma casa de alvenaria, mas o sonho est\u00e1 empoeirado junto com os sacos de cimento largados no seu quintal, pois n\u00e3o h\u00e1 dinheiro para mais material de constru\u00e7\u00e3o. Ou ela compra arroz e feij\u00e3o ou encomenda tijolos, areia, argamassa.<\/p>\n<p>Arina da Cunha Lopes, a Nina, \u00e9 uma mulher negra de 42 anos nascida numa fam\u00edlia de catadores de Jardim Gramacho, Duque de Caxias, regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro. Sua casa fica a 30 km de Copacabana, mas entre a vida que ela vive e a vida de quem mora perto do mar h\u00e1 uma dist\u00e2ncia oce\u00e2nica. Por 34 anos, Nina viu caminh\u00f5es da empresa de limpeza da capital entupirem seu bairro com res\u00edduos s\u00f3lidos de quase sete milh\u00f5es de cariocas. O lugar tornou-se uma cidade do lixo, com uma montanha de 60 metros de altura de rejeitos, uma favela que se formou ao redor \u2013 onde Nina mora \u2013 e a maior ind\u00fastria de reciclagem do Brasil com cerca de dois mil catadores. Nina, sua fam\u00edlia e seus vizinhos viviam at\u00e9 2012 das 9 mil toneladas de material levados todos os dias por 600 caminh\u00f5es da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana), fora outros incont\u00e1veis caminh\u00f5es de constru\u00e7\u00e3o civil, lixo hospitalar e comida estragada.<\/p>\n<p>Quando os ve\u00edculos chegavam carregados de res\u00edduos s\u00f3lidos, os catadores j\u00e1 sabiam \u00e0 dist\u00e2ncia o que vinha em cada um. Urubus e ratos tamb\u00e9m \u2013 eles se misturavam entre as mulheres e homens, a maioria mulheres negras, todos em busca de sobreviv\u00eancia. O lixo era vertido sobre a montanha t\u00f3xica, um lugar chamado at\u00e9 hoje de \u201crampa\u201d e de onde se avista, l\u00e1 do alto, a imensa e polu\u00edda Ba\u00eda de Guanabara.<\/p>\n<p>A realidade dos catadores de Gramacho foi exibida para o mundo todo no document\u00e1rio \u201cLixo Extraordin\u00e1rio\u201d, do artista pl\u00e1stico carioca Vik Muniz, que n\u00e3o venceu a estatueta, mas chegou ao Oscar em 2011. O filme mostra o cotidiano dos trabalhadores enquanto eles ajudam a transformar parte do lixo recolhido em obras de arte. Apenas um ano ap\u00f3s o lan\u00e7amento do longa metragem, o aterro foi fechado para sempre \u2013 mas seu cheiro e at\u00e9 um certo calor do metano, um dos gases que agravam o efeito estufa, ainda se sente no ar, com tanta mat\u00e9ria org\u00e2nica apodrecendo debaixo da terra.<\/p>\n<p>O maior lix\u00e3o da Am\u00e9rica Latina foi fechado \u00e0s pressas pelo prefeito Eduardo Paes, ent\u00e3o no MDB, um homem h\u00e1bil em propaganda pol\u00edtica, apenas duas semanas antes do in\u00edcio da Rio+20, a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, em junho de 2012. Disse ele naquele dia que \u201co Rio n\u00e3o vai mais admitir viol\u00eancias contra o meio ambiente\u201d. No mundo ideal, trancar a porta do aterro com um cadeado, como fez Paes (que reassumiu a prefeitura em 2021), seria o come\u00e7o de uma gest\u00e3o moderna de res\u00edduos, com o fechamento de todos os lix\u00f5es do pa\u00eds e a urbaniza\u00e7\u00e3o total do bairro \u2013 uma quest\u00e3o urgente e global em um planeta com 8 bilh\u00f5es de pessoas, cada uma produzindo uma m\u00e9dia superior a 1 quilo de res\u00edduos por dia. Mas no mundo real de Gramacho, as leis da vida s\u00e3o duras e impuseram fome, mis\u00e9ria e medo desde o fechamento do aterro, h\u00e1 quase dez anos.<\/p>\n<p>Da noite para o dia, catadores perderam sua \u00fanica fonte de renda e ca\u00edram em um limbo do qual nunca conseguiram sair, levando junto maridos e esposas, filhos e netos, tias e sobrinhos \u2013 gente que ouviu promessas que nunca sa\u00edram dos sonhos, como cursos de capacita\u00e7\u00e3o, urbaniza\u00e7\u00e3o, centro esportivo, escola, hospital, plantio de \u00e1rvores, apartamentos sociais. Uma caminhada pelas ruas de terra do bairro revela que aumentou o n\u00famero de lix\u00f5es clandestinos em terrenos pr\u00f3ximos \u2013 um deles a poucos minutos da portaria principal do antigo aterro. O movimento de caminh\u00f5es \u00e9 constante, mas eles carregam principalmente lixo de constru\u00e7\u00e3o, com pouco ou nenhum recicl\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nina acorda todos os dias antes das 5h. Seu despertador \u00e9 o galo de um sobrinho que canta na casa ao lado. Outros parentes, tios e primos tamb\u00e9m moram no mesmo terreno \u2014 todos eram catadores ou dependiam em casa do dinheiro que vinha do lix\u00e3o. Ela prepara o caf\u00e9 e se arruma na penumbra do amanhecer \u2013 mas sua casa \u00e9 escura mesmo com sol de meio-dia, pela posi\u00e7\u00e3o nos fundos do terreno e pelas janelas muito pequenas. Nina vai caminhando para a Coopergramacho, atravessando toda a Rua Tocantins, onde ela mora, at\u00e9 um dos acessos da comunidade, onde trabalha como vice-presidente da cooperativa de reciclagem, uma das 18 que ainda existem na regi\u00e3o, cada uma em situa\u00e7\u00e3o pior que a outra.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 uma lideran\u00e7a tanto na comunidade quanto na cooperativa. \u00c0s 6h30 j\u00e1 est\u00e1 varrendo o ch\u00e3o no trabalho. Uma das promessas n\u00e3o cumpridas pelo poder p\u00fablico \u00e9 um galp\u00e3o para os cooperativados armazenarem os recicl\u00e1veis. Todo o material fica ao relento, sob sol e chuva, o que deprecia os valores. Cada cooperativa \u00e9 respons\u00e1vel por conseguir e buscar o pr\u00f3prio material \u2013 seja em condom\u00ednios ricos do Leblon, na zona sul do Rio, ou em empresas privadas do Centro.<\/p>\n<p>\u201cFecharam nosso lix\u00e3o e passaram a mandar os caminh\u00f5es para Serop\u00e9dica [munic\u00edpio da Baixada Fluminense a cerca de 50 km de Gramacho], onde tudo \u00e9 aterrado, inclusive material de reciclagem. Por que n\u00e3o trazem pra c\u00e1 como prometeram? A Comlurb s\u00f3 permite que a gente v\u00e1 buscar material com nosso caminh\u00e3o uma vez por m\u00eas. Por que n\u00e3o podemos ir todos os dias? Est\u00e3o enterrando ouro l\u00e1, e a gente aqui passando fome. O que as pessoas ainda n\u00e3o entendem \u00e9 que lixo \u00e9 ouro\u201d, afirma Nina, enquanto os primeiros dos sete trabalhadores da cooperativa chegam para o servi\u00e7o. \u201cSe a Comlurb desse mais material pra gente, poder\u00edamos empregar pelo menos 100 mulheres. Hoje s\u00f3 tenho tr\u00eas batedeiras (pessoas que separam os recicl\u00e1veis na esteira) e quatro homens. A promessa era que, com o fechamento do aterro, as cooperativas seriam fortalecidas. A gente mexia no lixo, mas era um bom trabalho, porque t\u00ednhamos valor como trabalhador. Qual \u00e9 o valor que a gente tem agora?\u201d<\/p>\n<p>Dom\u00edcio Moreira de Sousa, de 62 anos, \u00e9 um catador triste que trabalha desde os 15 anos com reciclagem. Sentado em uma cadeira na porta de seu barraco enquanto esperava o almo\u00e7o ficar pronto, ele \u00e9 bem mais jovem do que aparenta seu rosto talhado pelo sol e pela labuta. O homem est\u00e1 bravo: trabalhou das 4h \u00e0s 14h, conseguiu apenas R$ 25. Com esse dinheiro, o pai de 11 filhos consegue alimentar dez pessoas \u2013 R$ 2,5 por dia para cada uma.<\/p>\n<p>Ele acompanha desde garoto as mudan\u00e7as do destino do lixo do Rio de Janeiro: da estrada Rio-Petr\u00f3polis para a Chacrinha, em Duque de Caxias, antes de abrirem em 1974 o lix\u00e3o de Jardim Gramacho. Ele e sua fam\u00edlia foram seguindo o caminho do lixo, trabalhando e morando em cada um desses lugares, pois \u00e9 no lixo que sabem transformar fome em barriga cheia. Mas desde que o aterro foi fechado, h\u00e1 dez anos, a renda familiar caiu 75% \u2013 antes eram no m\u00ednimo R$ 100 por dia.<\/p>\n<p>O que ter\u00e1 hoje para o almo\u00e7o, Seu Dom\u00edcio? \u201cFil\u00e9 mignon\u201d, ele responde em tom de chacota, mas sem perder o mau humor, provocando riso nos filhos e netos. O menu daquele dia era ovo, arroz e feij\u00e3o \u2014 fil\u00e9 mignon \u00e9 como eles passaram a chamar ovo na pandemia, uma piada com a falta de carne na dieta. O comum \u00e9 comerem isso \u2014 quando o dinheiro sobra, compram carne de frango.<\/p>\n<p>\u201cTenho v\u00e1rias marcas no corpo, eu chamo de \u2018cicatrizes do lixo\u2019, principalmente por causa do vidro quebrado, que corta nossa carne. Uma vez um peda\u00e7o de ferro no meio do lixo atravessou meu p\u00e9. Continuei trabalhando at\u00e9 o fim do dia, e no dia seguinte tamb\u00e9m\u201d, recorda.<\/p>\n<p>Sua filha Elaine Sousa da Silva, de 32 anos, tamb\u00e9m trabalhou na rampa de Gramacho. Conta que naquele tempo levava \u201cvida de luxo\u201d: tinham dinheiro para comprar casa, moto, carro. De vez em quando ela gosta de ir escondida at\u00e9 o local onde o lixo era despejado, e come\u00e7ava a corrida de mulheres e homens pelos materiais. Conta que, por cima da montanha de lixo coberta por grama, nasceram v\u00e1rias \u00e1rvores frut\u00edferas, como goiaba, maracuj\u00e1, coco e maxixe. Depois que acabou a rampa, diz Elaine, muita gente est\u00e1 passando fome, pois era o ganha-p\u00e3o de todo dia.<\/p>\n<p>\u201cEra uma vida de luxo. Minha m\u00e3e era cheia de anel nos dedos. A gente achava d\u00f3lar, achava ouro, encontrava at\u00e9 o que n\u00e3o estava procurando. Lembro de uma senhora de cabelos brancos que achou um ter\u00e7o de reza feito de ouro e o vendeu por R$ 600\u201d, Elaine conta, sem saber o que \u00e9 trabalhar h\u00e1 anos, sem espa\u00e7o em nenhuma cooperativa, sem perspectivas. \u201cS\u00f3 a garrafa de \u00f3leo est\u00e1 custando R$ 10. O botij\u00e3o de g\u00e1s, R$ 100. Tudo o que ganhamos de uma igreja como cesta b\u00e1sica de Natal j\u00e1 acabou. O que falta pra gente \u00e9 trabalho.\u201d<\/p>\n<p>Nina tem um papel social importante na comunidade: ela \u00e9 quem articula os vizinhos na luta por melhorias. Organizou uma vaquinha de R$ 1,8 mil, por exemplo, para trocar a fia\u00e7\u00e3o da rede el\u00e9trica ap\u00f3s um curto-circuito: cada morador deu apenas R$ 20. Nina \u00e9 um ponto de equil\u00edbrio em Jardim Gramacho, sempre atenta ao que foi prometido e ao que foi entregue como melhoria.<\/p>\n<p>\u201cMostraram uma maquete pra gente com pr\u00e9dios e \u00e1rvores, parecia at\u00e9 outro lugar de t\u00e3o bonito. Dez anos depois, nem asfaltada essa rua foi. Cad\u00ea o hospital, cad\u00ea o centro esportivo com quadras pras crian\u00e7as? Cad\u00ea a escola nova, que s\u00f3 aqui em casa tenho duas crian\u00e7as e n\u00e3o consigo vaga pra elas? Aqui \u00e9 uma terra sem oportunidade. Muitas pessoas saem de Gramacho para trabalhar com lixo em outros lugares, como no bairro do Caju, ou catando latinha na rua. Sa\u00edmos para trabalhar e nem temos com quem deixar nossos filhos. Muitas crian\u00e7as est\u00e3o sem aula, o que obriga as m\u00e3es a ficarem em casa com os filhos \u2014 ou irm\u00e3os mais velhos, tamb\u00e9m crian\u00e7as ainda.\u201d<\/p>\n<p>Nas ruas sem asfalto de Jardim Gramacho, a poeira sobe quando passam caminh\u00f5es de lixo que, clandestinamente, continuam a despejar res\u00edduos s\u00f3lidos em terrenos dominados por traficantes de drogas \u2014 na aus\u00eancia de prefeito e governador, s\u00e3o os donos do lugar. As autoridades sabem que h\u00e1 dezenas de lix\u00f5es clandestinos, a pol\u00edcia sabe, mas \u00e9 como se ningu\u00e9m soubesse, porque ningu\u00e9m faz nada. Em alguns dias da semana, caminh\u00f5es com restos de comida tamb\u00e9m despejam lixo org\u00e2nico. Porcos procuram restos de comida junto a um cavalo em frente a um muro onde se l\u00ea a pixa\u00e7\u00e3o \u201cn\u00f3s nasce, cresce, fuma, cheira, rouba, reproduz e morre\u201d. H\u00e1 lixo por todos os lados.<\/p>\n<p>A falta de trabalho e de assist\u00eancia social \u00e9 dram\u00e1tica e obriga mulheres que sempre ganharam a vida com reciclagem a fazerem o que antes era impens\u00e1vel para alimentar seus filhos. Vera L\u00facia Lemos, de 29 anos, tornou-se catadora logo ap\u00f3s virar m\u00e3e pela primeira vez aos 16 anos. Corria o ano de 2010, e a rampa ficou aberta apenas mais dois anos. Vera diz que era \u201cdinheiro f\u00e1cil\u201d, mas desde que o aterro fechou, ela depende de doa\u00e7\u00f5es para sustentar seus tr\u00eas filhos e ficou deslocada no mercado de trabalho. Nunca lhe foi oferecido nem sequer um curso de forma\u00e7\u00e3o profissional em outra \u00e1rea, ao contr\u00e1rio do que foi exaustivamente prometido pelas autoridades.<\/p>\n<p>\u201cNunca achei ruim trabalhar no lix\u00e3o. Era muito bom, comecei muito nova e l\u00e1 eu me sentia em casa. Mas depois que eu me separei do Eduardo, pai dos meus filhos, tudo piorou muito. Brigamos porque ele queria ficar comigo e com outra mulher, e eu n\u00e3o aceitei. Olha, eu vou ser muito sincera. Eu s\u00f3 n\u00e3o mato e n\u00e3o roubo. O resto eu fa\u00e7o de tudo. Se depender de eu sair com algu\u00e9m pra dar comida pros meus filhos, eu saio, e n\u00e3o tenho vergonha de falar. \u00c9 melhor eu fazer o que for necess\u00e1rio do que meus filhos passarem fome. As aulas est\u00e3o voltando: como vou comprar material escolar pra eles, mochila, t\u00eanis, uniforme? Por isso estou na rua, pra ver se consigo dinheiro\u201d, explica Vera, que \u00e9 comadre de Nina, enquanto caminha sob o sol quente da regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><strong>Novos \u201ctigres\u201d<\/strong><br \/>\nNingu\u00e9m parece interessado em desenvolver Jardim Gramacho, ou ao menos n\u00e3o deixar as pessoas desse bairro agonizarem a c\u00e9u aberto, com m\u00e3es se prostituindo para seus filhos n\u00e3o morrerem de fome. O munic\u00edpio de Duque de Caxias, cidade da regi\u00e3o metropolitana que tem um dos PIBs (Produto Interno Bruto) mais altos do Brasil, por incr\u00edvel que pare\u00e7a n\u00e3o possui nenhum projeto de reciclagem, embora tenha abrigado por tanto tempo o maior lix\u00e3o do continente.<\/p>\n<p>E o munic\u00edpio do Rio, maior respons\u00e1vel pelo lixo levado durante 34 anos para l\u00e1, por mais absurdo que pare\u00e7a est\u00e1 liberado de responsabilidade, pois pelo Plano Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos, aprovado em 2010, a coleta de lixo \u00e9 de responsabilidade de cada munic\u00edpio \u2014 e Jardim Gramacho fica em outra cidade, embora esteja colado ao Rio. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o inacredit\u00e1vel, j\u00e1 que uma parte do aterro sanit\u00e1rio ainda pertence ao Rio. Em 2013, a prefeitura de Paes iniciou o aproveitamento do g\u00e1s metano acumulado no solo do aterro para gerar energia para a Refinaria de Duque de Caxias (Reduc). Por contrato, o munic\u00edpio recebe 18% da arrecada\u00e7\u00e3o com esse neg\u00f3cio. Apesar disso, a Comlurb afirmou em nota que o projeto \u201cainda est\u00e1 sendo finalizado\u201d. A engenheira ambiental Luise Valentim, que h\u00e1 nove anos atua em Jardim Gramacho, n\u00e3o sabe que tipo de \u201cvida \u00fatil\u201d esse projeto teve, mas garante que ele existiu. Um funcion\u00e1rio da prefeitura que acompanhou o caso diz que o volume de g\u00e1s foi superdimensionado pelo munic\u00edpio, a empresa lucrou menos que o esperado e abandonou o projeto \u2013 mas nem um real do biog\u00e1s chegou a Jardim Gramacho.<\/p>\n<p>E o que aconteceu com os outros lix\u00f5es do pa\u00eds al\u00e9m de Jardim Gramacho? Em 2020, ainda havia 2.707 lix\u00f5es \u2013 no ano anterior eram 3.257. Mas essa conta n\u00e3o inclui os lix\u00f5es clandestinos que surgiram posteriormente: apenas na Baixada Fluminense, no territ\u00f3rio mais perto de Gramacho, s\u00e3o pelo menos 20. Wellington Cunha de Souza, de 18 anos, tem se arriscado em um dos lix\u00f5es irregulares de Caxias, mas n\u00e3o recomenda:<\/p>\n<p>\u201cA vida \u00e9 muito barata nesses lugares, as pessoas te matam por causa de um real. Se fossem s\u00f3 catadores, n\u00e3o teria problema, mas tem muita \u00e1rea de mil\u00edcia aqui, e eles est\u00e3o sempre rondando os lix\u00f5es para ocultar cad\u00e1veres. Olha o tipo de coisa que precisamos enfrentar para ganhar uma merda de dinheiro\u201d, disse o jovem, que abandonou a escola porque precisava pagar as despesas de casa (ele sonha seguir carreira militar, mas o curso de prepara\u00e7\u00e3o para a prova que deseja custa R$ 350 por m\u00eas, valor imposs\u00edvel para ele).<\/p>\n<p>\u00c9 de pessoas pretas que estamos falando, principais v\u00edtimas do racismo ambiental no Brasil que exp\u00f5e a condi\u00e7\u00f5es desumanas de exist\u00eancia especialmente negros e ind\u00edgenas. S\u00e3o eles que trabalham com lixo desde a chegada da fam\u00edlia real portuguesa. Naquela \u00e9poca, uma nova categoria de escravos foi criada pelo imperador Dom Jo\u00e3o VI para limpar as ruas insalubres do Centro da cidade, repletas de lixo, fezes e restos de comida. Os catadores de dejetos coletavam lixo nas ruas e nas casas dos ricos portugueses em balaios de madeira e argila. Com o chorume \u00e1cido que escorria dos balaios pelos seus corpos, suas peles ficavam manchadas e, por isso, eram chamados de \u201ctigres\u201d. A exclus\u00e3o de Jardim Gramacho \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o desse passado de exclus\u00e3o que, assim como antes, n\u00e3o atinge apenas brasileiros: h\u00e1 uma comunidade congolesa que se formou em Jardim Gramacho, mas a maioria j\u00e1 saiu de l\u00e1 traumatizada, e muitos decidiram seguir para os Estados Unidos por um tortuoso caminho conduzido por coiotes.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sei o que ainda estou fazendo nesse lugar. Na verdade, n\u00e3o tenho dinheiro para comer, imagine sair do pa\u00eds. Meus irm\u00e3os j\u00e1 foram, s\u00f3 falta eu. \u00c9 uma viagem cara, de 3 a 4 mil d\u00f3lares. Tenho medo de acabar aqui pra sempre\u201d, relata o congol\u00eas Gerard Nzuzi, de 48 anos.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil acreditar que essa trag\u00e9dia em um bairro de 50 mil pessoas esteja ocorrendo sem que ningu\u00e9m fa\u00e7a nada em um lugar que recebeu tanta aten\u00e7\u00e3o internacional nos \u00faltimos anos, especialmente a partir do document\u00e1rio \u201cLixo Extraordin\u00e1rio\u201d. O artista perdeu o Oscar, mas Jardim Gramacho ganhou notoriedade. Anos antes, em 2006, o documentarista Marcos Prado lan\u00e7ou \u201cEstamira\u201d, retrato de uma s\u00e1bia catadora de Gramacho que sofria de dist\u00farbios mentais.<\/p>\n<p>Protagonista de \u201cLixo Extraordin\u00e1rio\u201d, Sebasti\u00e3o Santos preside at\u00e9 hoje a Coopergramacho, cooperativa fundada em 1996. Foi de sua m\u00e3e, primeira catadora da fam\u00edlia, que ele herdou \u201ca arte de trabalhar com materiais recicl\u00e1veis\u201d, como diz. Depois do filme, Ti\u00e3o, como \u00e9 conhecido por todos,\u00a0 correu o mundo falando sobre a causa de sua categoria, valorizando o trabalho desses 800 mil profissionais respons\u00e1veis por reciclar de forma prec\u00e1ria quase todo o lixo do pa\u00eds. Apesar da falta de apoio governamental e da iniciativa privada, a cooperativa de Ti\u00e3o, com apenas dez trabalhadores contratados, reciclou no ano passado 460 toneladas de papel\u00e3o, pl\u00e1stico, alum\u00ednio, metal e vidro, gerando 360 mil reais. Ti\u00e3o sente-se triste por ter tido a oportunidade de ver e viver experi\u00eancias que seus companheiros n\u00e3o tiveram. Mas o que fez ele ir ao fundo do po\u00e7o da depress\u00e3o foi algo ainda mais perturbador.<\/p>\n<p>\u201cEu achava que era culpado pelo aterro ter fechado. Choro at\u00e9 hoje por isso. Carrego a culpa de quem acreditou em um monte de coisas, um monte de promessas falsas. N\u00e3o s\u00f3 culpa, tamb\u00e9m muita raiva, raiva de mim, raiva de tudo. Hoje sou um homem de 43 anos, tenho a mente muito mais madura, mas ainda me sinto culpado.\u201d<\/p>\n<p>Nesse processo interior, Ti\u00e3o decidiu sair de Jardim Gramacho, mas vive a poucos minutos de l\u00e1, em outra comunidade de Caxias. Tornou-se mais recluso para reencontrar seu lugar no mundo, come\u00e7ou a ser atendido por uma psic\u00f3loga e agora est\u00e1 ainda mais forte para lutar, ciente de que n\u00e3o pode contar com ningu\u00e9m al\u00e9m dos companheiros da lida. Seus olhos brilham quando ele fala sobre reciclagem.<\/p>\n<p>\u201cNa Lei 12.305, que instituiu a Pol\u00edtica Nacional dos Res\u00edduos S\u00f3lidos, os catadores somos citados mais de 20 vezes. A lei fala sobre nossos direitos e diz que \u2018quem \u00e9 poluidor, \u00e9 pagador, e quem \u00e9 despoluidor, \u00e9 recebedor\u2019. Mas quantos recebem pelo servi\u00e7o prestado? Quase nenhum, 95% n\u00e3o recebem um centavo. Nossa luta \u00e9 solit\u00e1ria, tudo \u00e9 feito por n\u00f3s, com nosso dinheiro, sem apoio da prefeitura de Caxias, da prefeitura do Rio, do governo estadual ou federal\u201d, diz Ti\u00e3o, com os olhos fervendo. \u201cEsse lugar sofreu por 34 anos com derramamento de res\u00edduos e, mesmo assim, constru\u00edmos nessa comunidade o maior mecanismo de gera\u00e7\u00e3o de trabalho e renda com reciclagem do pa\u00eds. E que foi desativado.\u201d<\/p>\n<p>Como pode um local que viveu a exclus\u00e3o com a chegada do aterro passar por uma nova exclus\u00e3o ap\u00f3s seu fechamento? A \u00fanica promessa cumprida pelos governantes foi o pagamento de uma indeniza\u00e7\u00e3o de R$ 13,9 mil para 1.707 catadores que estavam cadastrados \u2013 pouco para quem tem fam\u00edlia, mas n\u00e3o tem trabalho. Sem orienta\u00e7\u00e3o sobre como usar esse recurso, a maioria acabou deixando o dinheiro nos mercados e bares locais. Segundo Ti\u00e3o, que se emociona ao contar sua hist\u00f3ria, \u00e9 preciso romper um ciclo vicioso para que haja um basta na exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNingu\u00e9m se torna catador porque \u00e9 ambientalista, porque quer salvar o planeta. E mesmo assim n\u00f3s fazemos um trabalho essencial, somos respons\u00e1veis por 90% do lixo reciclado no pa\u00eds. Minha m\u00e3e n\u00e3o era nenhuma maluca para pegar oito filhos e levar para dentro do lix\u00e3o. Meu pai se tornou alco\u00f3latra, ficou desempregado, e minha m\u00e3e teve que cuidar de oito filhos. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria da maioria dos catadores do Brasil, e na verdade a maioria (63% segundo o Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada) s\u00e3o mulheres negras, m\u00e3es de fam\u00edlia. Como a Nina, que \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da minha m\u00e3e. A gente s\u00f3 \u00e9 capaz de quebrar esse ciclo com pol\u00edticas p\u00fablicas, n\u00e3o com promessas.\u201d<\/p>\n<p>Ti\u00e3o recorda que, quando o aterro foi fechado, autoridades do Rio firmaram o Plano de Encerramento de Jardim Gramacho. Recupera\u00e7\u00e3o do passivo social e ambiental, gera\u00e7\u00e3o de trabalho e renda, constru\u00e7\u00e3o de condom\u00ednio para as pessoas viverem com dignidade: tudo ficou no mundo da fantasia. Estava previsto, por exemplo, o uso da explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s metano presente no solo como compensa\u00e7\u00e3o por todos os danos causados em Jardim Gramacho pela segunda maior cidade do pa\u00eds.\u00a0 A maioria dos 7 milh\u00f5es de moradores do Rio n\u00e3o faz a menor ideia do que se passa no antigo lix\u00e3o, e nem imagina o caminho percorrido por seu pr\u00f3prio lixo, como se ele desaparecesse feito m\u00e1gica assim que sai de casa. Ningu\u00e9m sabe quanto o munic\u00edpio arrecada com o g\u00e1s metano, e nem um real desse dinheiro jamais foi usado para qualificar o bairro e seus catadores. Segundo Ti\u00e3o, \u201cdesde o fechamento, nunca mais se falou nesse assunto\u201d.<\/p>\n<p>Em uma cooperativa vizinha, a Cooper Nova Era, onde trabalham no momento dez profissionais, a situa\u00e7\u00e3o piorou especialmente depois que o pre\u00e7o do papel\u00e3o despencou para R$ 0,30 o quilo \u2013 h\u00e1 poucas semanas era R$ 1,20. O ideal para eles seria mudar de endere\u00e7o e ir para o Rio, mas como v\u00e3o pagar aluguel? A prefeitura de Caxias nunca deu nenhum apoio \u2014 eles n\u00e3o conseguiram nem mesmo ter acesso \u00e0 secretaria municipal de Meio Ambiente.<\/p>\n<p>\u201cNossa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 terr\u00edvel, mas somos brasileiros, tentamos at\u00e9 o fim. A Comlurb doa material pra gente dizendo que \u00e9 recicl\u00e1vel, mas quando a gente busca l\u00e1, v\u00ea que \u00e9 tudo lixo. Lixo mesmo, n\u00e3o tem nada de recicl\u00e1vel, e ainda temos que pagar o frete. Eles deveriam ter alguma obriga\u00e7\u00e3o com Gramacho, mas mandam essa esmola porque n\u00e3o existe Justi\u00e7a nesse pa\u00eds. Ent\u00e3o temos que implorar para receber esse material, mesmo sendo uma esmola\u201d afirma Ana Paula Serafim da Silva, 47 anos, tamb\u00e9m uma mulher negra, presidente da cooperativa e catadora desde os 11 anos.<\/p>\n<p>Com tamanho abandono dos trabalhadores, n\u00e3o \u00e9 uma surpresa que a reciclagem seja um dos gargalos da Pol\u00edcia Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos, e que o Rio tenha \u00edndices p\u00edfios de reciclagem h\u00e1 tantos anos: somente de 5% a 7% dos materiais potencialmente recicl\u00e1veis s\u00e3o de fato reciclados, segundo a Comlurb. Cerca de 12 milh\u00f5es de toneladas de res\u00edduos s\u00f3lidos acabaram descartados no meio ambiente, deixando de gerar trabalho, renda e reuso de materiais. Por ano, em todo o pa\u00eds, s\u00e3o gerados quase 80 milh\u00f5es de toneladas de lixo, mas apenas 4% s\u00e3o reciclados. S\u00e3o dados da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Empresas de Limpeza P\u00fablica e Res\u00edduos Especiais (Abrelpe). O Brasil deixa de gerar R$ 14 bilh\u00f5es anuais com falta de destina\u00e7\u00e3o apropriada. No Rio de Janeiro, segundo pesquisa de setembro de 2021 da Firjan com base em dados p\u00fablicos oficiais, a perda \u00e9 de R$ 1 bilh\u00e3o a cada ano.<\/p>\n<p>\u201cTemos 50 mil pessoas em Jardim Gramacho que sabem tudo de res\u00edduos. Por que n\u00e3o capacitamos elas e usamos esse conhecimento? Estamos falando de vidas. Ningu\u00e9m nunca puniu os respons\u00e1veis pelo que vem acontecendo l\u00e1. Hist\u00f3rico tem, pessoas morrendo t\u00eam, pessoas na mis\u00e9ria t\u00eam, falta \u00e1gua, falta saneamento, falta sa\u00fade, falta educa\u00e7\u00e3o. O que falta para atuarem? Existe uma coisa que \u00e9 viver, e boa parte da nossa popula\u00e7\u00e3o vive bem. Outra coisa \u00e9 sobreviver: em Gramacho, sobrevive-se\u201d, afirma a engenheira Valentim, que tamb\u00e9m consultora de sustentabilidade .<\/p>\n<p>\u00c9 meio-dia, hora do almo\u00e7o na casa de Nina. Ela faz uma ora\u00e7\u00e3o antes de servir a comida. Filhos e netos sorriem: \u00e9 dia de carne.<\/p>\n<p>\u201cSou evang\u00e9lica e recebi durante um culto a mensagem que Deus me daria um emprego. Eu estava com muitas d\u00edvidas, sem saber como iria pagar. Esse trabalho na cooperativa \u00e9 b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus\u201d, diz Nina, com um leve batom na boca e um pouco de maquiagem no rosto para aproveitar sua semana de f\u00e9rias. \u201cSei que est\u00e1 ruim, mas muita gente est\u00e1 pior. N\u00e3o deixo de agradecer.\u201d<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m no barraco sabe quando voltar\u00e1 a comer carne de novo, muito menos quando ter\u00e3o uma casa de tijolos onde n\u00e3o falte \u00e1gua para cozinhar e tomar banho, nem luz para as crian\u00e7as verem desenhos. Mas, na hora de comer, tudo parece em paz. Com o quilo da carne a pre\u00e7o de ouro, Nina reparte tr\u00eas peda\u00e7os pequenos para cada um e os espalha no prato das crian\u00e7as \u2014 eles desaparecem na brancura do arroz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00e1bua por t\u00e1bua, o barraco de Nina saiu do ch\u00e3o, e peda\u00e7os de madeira ganharam o nome de casa. Quando chove, o aguaceiro atravessa o teto e molha tudo. Esse m\u00eas j\u00e1 foram tr\u00eas dias seguidos \u00e0 luz de velas, sem eletricidade. \u00c1gua nas pias e privada, s\u00f3 tr\u00eas dias por semana, e h\u00e1 ruas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":281937,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-281935","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281935","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=281935"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281935\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":281938,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281935\/revisions\/281938"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/281937"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=281935"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=281935"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=281935"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}