{"id":282306,"date":"2022-03-17T07:56:20","date_gmt":"2022-03-17T10:56:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=282306"},"modified":"2022-03-17T07:59:35","modified_gmt":"2022-03-17T10:59:35","slug":"consumo-de-carne-vai-cair-ao-ponto-de-um-bife-chamuscado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/consumo-de-carne-vai-cair-ao-ponto-de-um-bife-chamuscado\/","title":{"rendered":"Consumo de carne vai cair ao ponto de um bife chamuscado"},"content":{"rendered":"<p>A carne bovina, protagonista da refei\u00e7\u00e3o do dia a dia no Brasil nos \u00faltimos s\u00e9culos, vai perder essa posi\u00e7\u00e3o em um futuro n\u00e3o t\u00e3o long\u00ednquo por uma mistura de fatores econ\u00f4micos, ambientais e grandes mudan\u00e7as culturais em curso. Em 2021, o consumo do produto no pa\u00eds caiu para o menor n\u00edvel em 25 anos.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros devem ter um aumento neste ano, mas v\u00e3o &#8220;estagnar antes de 2025&#8221; segundo Guilherme Cunha Malafaia, pesquisador e coordenador do Centro de Intelig\u00eancia da Carne Bovina da Embrapa Gado de Corte.<\/p>\n<p>&#8220;Os n\u00edveis de consumo permanecer\u00e3o muito baixos na maioria dos pa\u00edses em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia global at\u00e9 2025, devido \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o mais lenta da covid-19 em alguns destes pa\u00edses, bem como aos crescentes d\u00e9ficits de oferta de carne bovina&#8221;, afirma Malafaia.<\/p>\n<p>E &#8220;n\u00e3o retornar\u00e1 aos n\u00edveis de picos anteriores&#8221; na Am\u00e9rica Latina, complementa.<\/p>\n<p>A carne j\u00e1 \u00e9 um item raro nas casas de dezenas de milh\u00f5es de brasileiros que enfrentam algum n\u00edvel de inseguran\u00e7a alimentar &#8211; ou seja, passam fome ou t\u00eam acesso irregular a comida em geral.<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o da carne no acumulado de 12 meses at\u00e9 janeiro foi de 9,95%, segundo o \u00edndice IPCA-15 do IBGE. Em junho do ano passado, o acumulado chegou a 35,76%.<\/p>\n<p>A Guerra da Ucr\u00e2nia vai influenciar ainda mais os pre\u00e7os por causa do aumento nos valores do milho e dos fertilizantes &#8211; pe\u00e7as da cadeia de produ\u00e7\u00e3o de carne.<\/p>\n<p>Malafaia explica que em torno de 15% da produ\u00e7\u00e3o mundial de milho sai do Mar Negro, que banha metade do litoral ucraniano.<\/p>\n<p>&#8220;Nos bovinos, o impacto maior ser\u00e1 sentido na termina\u00e7\u00e3o que utiliza a ra\u00e7\u00e3o. O aumento nos custos far\u00e1 com que haja um press\u00e3o de repasse ao longo da cadeia de produ\u00e7\u00e3o atingindo o consumidor final, que j\u00e1 se defronta com uma situa\u00e7\u00e3o inflacion\u00e1ria no mercado dom\u00e9stico.&#8221;<\/p>\n<p>Mesmo antes da guerra, o cen\u00e1rio mais otimista para trajet\u00f3ria de queda no pre\u00e7o da carne era 2023.<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o que restringe o acesso ao produto se junta a outros incentivos para tir\u00e1-lo do card\u00e1pio.<\/p>\n<p>Principalmente a partir da d\u00e9cada de 1980, pesquisas cient\u00edficas come\u00e7aram a ligar a carne vermelha a doen\u00e7as cardiovasculares, a alguns tipos de c\u00e2ncer e a problemas como diabetes.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo 21, outros questionamentos ganharam for\u00e7a: a preocupa\u00e7\u00e3o com os impactos ambientais da produ\u00e7\u00e3o e o tratamento dado aos animais nessa ind\u00fastria. S\u00e3o press\u00f5es exercidas por um p\u00fablico cada vez maior &#8211; e jovem.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos novos adeptos do veganismo e vegetarianismo, h\u00e1 uma corrente bastante significativa de diminui\u00e7\u00e3o do consumo.<\/p>\n<p>Pesquisa do Ipec (antigo Ibope Intelig\u00eancia) com 2.002 pessoas das cinco regi\u00f5es do pa\u00eds em 2021, encomendada pela Sociedade Vegetariana Brasileira, indicou que quase metade (46%) dos entrevistados deixam o item de fora do prato por vontade pr\u00f3pria ao menos uma vez por semana.<\/p>\n<p>\u00c9 um movimento que chega at\u00e9 a pessoas que se definem como grandes apreciadoras de carne.<\/p>\n<p>&#8220;Moro com meu namorado tem uns 4 anos. Sempre fomos apaixonados por carne. Nossas refei\u00e7\u00f5es sempre tinham alguma prote\u00edna sen\u00e3o parecia que estava incompleta&#8221;, diz Camila Fuck, de Blumenau (SC), de 28 anos [o sobrenome de origem alem\u00e3 sempre inspira curiosidade, ela conta].<\/p>\n<p>Ela est\u00e1 limitando a carne a cinco ocasi\u00f5es por m\u00eas. &#8220;Por enquanto, quero manter a rotina de baixo consumo. Ainda sinto falta, porque gosto muito de carne&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;Mas tenho consumido mais conte\u00fados de receitas vegetarianas e entendido mais sobre esse universo.&#8221;<\/p>\n<p>Uma conjun\u00e7\u00e3o de diferentes fatores influenciou a redu\u00e7\u00e3o de consumo do casal: dilemas \u00e9ticos sobre o uso de animais na produ\u00e7\u00e3o, o ciclo atual de alta do pre\u00e7o e a preocupa\u00e7\u00e3o com o custo ambiental.<\/p>\n<p><strong>Pegada da ind\u00fastria<\/strong><br \/>\n&#8220;As pegadas ambientais da cadeia produtiva da carne bovina est\u00e3o bem documentadas&#8221;, diz Josefa Garzillo, pesquisadora do N\u00facleo de Pesquisas Epidemiol\u00f3gicas em Nutri\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade (Nupens), da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>&#8220;V\u00e3o desde as elevadas emiss\u00f5es de gases do efeito estufa, uso de \u00e1gua, pisoteamento e degrada\u00e7\u00e3o do solo, at\u00e9 a supress\u00e3o florestal, destrui\u00e7\u00e3o de habitats e dos biomas. Tudo isso numa \u00e9poca em que j\u00e1 chegamos a limites cr\u00edticos de degrada\u00e7\u00e3o ambiental.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 estimado que o gado bovino necessite 28 vezes mais terra e 11 vezes mais irriga\u00e7\u00e3o que a cria\u00e7\u00e3o de su\u00ednos e aves. A prote\u00edna bovina \u00e9 apontada como o alimento que mais contribui para emiss\u00f5es de gases do efeito estufa.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, &#8220;a ind\u00fastria da carne vai al\u00e9m da carne bovina e dos produtos \u00e0 base de carne. Trata-se de um complexo agroindustrial bastante sofisticado, verticalizado, concentrado em poucos &#8216;players'&#8221;.<\/p>\n<p>Garzillo considera que falta aos produtores ir &#8220;al\u00e9m da burocracia&#8221; e demonstrar &#8220;interesse genu\u00edno&#8221; por quem \u00e9 afetado por pr\u00e1ticas e resultados de empresas do setor.<\/p>\n<p>&#8220;As formas de prestar contas e publicizar os resultados ambientais deveriam chegar ao consumidor final para facilitar escolhas esclarecidas, como selos ou certifica\u00e7\u00f5es, e as declara\u00e7\u00f5es das pegadas de carbono por quilo de produto nos r\u00f3tulos&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>A BBC News Brasil questionou a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Ind\u00fastrias Exportadoras de Carnes (Abiec) sobre as cr\u00edticas ao modo de produ\u00e7\u00e3o das empresas, mas n\u00e3o recebeu resposta.<\/p>\n<p>Para Gus Guadagnini, diretor-executivo do The Good Food Institute Brasil, a necessidade de enquadrar pr\u00e1ticas para ter acesso a mercados internacionais preocupados com sustentabilidade j\u00e1 traz impactos estruturais na ind\u00fastria e na oferta de carne.<\/p>\n<p>&#8220;Existe um movimento mundial de ter normas ambientais e de bem estar animal mais r\u00edgidas, existe a preocupa\u00e7\u00e3o com o controle de doen\u00e7as zoon\u00f3ticas, ent\u00e3o, h\u00e1 uma s\u00e9rie de tend\u00eancias globais que apontam para um cen\u00e1rio onde a carne tende a ficar talvez at\u00e9 mais cara e mais dif\u00edcil de produzir.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 algo ecoado por Malafaia, da Embrapa Gado de Corte, que enxerga uma tend\u00eancia da carne bovina se tornar um produto cada vez mais &#8220;premium&#8221;, em meio a uma &#8220;percep\u00e7\u00e3o de mais sa\u00fade, qualidade e experi\u00eancia&#8221; no seu consumo.<\/p>\n<p>Em paralelo, o consumo per capita de carne de aves vai crescer intensamente e superar em muito a carne bovina no mundo nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p><strong>O mercado do futuro<\/strong><br \/>\nGuadagnini diz que a ind\u00fastria est\u00e1 sob press\u00e3o, mas &#8220;a cadeia de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 grande demais, importante demais para desaparecer da noite para o dia&#8221;. O mercado do futuro, no entanto, ter\u00e1 altera\u00e7\u00f5es cruciais.<\/p>\n<p>Ele cita um estudo da consultoria global Kearney que prev\u00ea o aumento do mercado mundial do produto entre 2020 e 2040 de US$ 1,2 trilh\u00e3o para US$ 1,8 trilh\u00e3o &#8211; mas apenas 40% ser\u00e1 de carne tradicional. Os 60% restantes ser\u00e3o divididos entre carne de base vegetal ou cultivada a partir de c\u00e9lulas.<\/p>\n<p>&#8220;Existem relatos de que em alguns supermercados a venda de hamb\u00farguer vegetal j\u00e1 supera a venda de hamb\u00farguer de carne&#8221;, diz S\u00e9rgio Pflanzer, professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).<\/p>\n<p>Mas ele enumera uma s\u00e9rie de desafios para que esse tipo de produto ganhe a mesma relev\u00e2ncia e escala da carne tradicional.<\/p>\n<p>&#8220;O consumidor precisa entender que os produtos an\u00e1logos, feitos de plantas, s\u00e3o muito diferentes do alimento vegetal in natura. A soja e a ervilha s\u00e3o baratas, mas transformar isso em prote\u00edna isolada ou texturizada, juntar com mais 15 ou 20 ingredientes e processar na forma de hamb\u00farguer, por exemplo, \u00e9 um processo muito caro&#8221;, afirma Pflanzer.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos produtos feitos a partir de vegetais, h\u00e1 a carne de laborat\u00f3rio, cultivada a partir de c\u00e9lulas de animais. O primeiro hamb\u00farguer do mundo criado em laborat\u00f3rio foi feito a partir de fibras musculares produzidas com o cultivo de c\u00e9lulas retiradas de uma vaca.<\/p>\n<p>Pflanzer tamb\u00e9m v\u00ea com ceticismo a populariza\u00e7\u00e3o dessa modalidade: &#8220;Os custos de produ\u00e7\u00e3o, mesmo que infinitamente menores hoje do que quando foram inicialmente idealizados, ainda \u00e9 proibitivo. N\u00e3o existe no mundo uma cadeia de suprimentos preparada para atender os volumes necess\u00e1rios para uma queda brutal nos pre\u00e7os&#8221;.<\/p>\n<p>Passar pela aprova\u00e7\u00e3o dos consumidores, incluindo vencer a resist\u00eancia por ser um produto &#8220;de laborat\u00f3rio&#8221;, enquanto h\u00e1 forte prefer\u00eancia por alimentos naturais, deve ser o desafio mais decisivo, diz Malafaia, da Embrapa Gado de Corte.<\/p>\n<p>&#8220;Al\u00e9m de sensorialmente aceit\u00e1vel (vis\u00e3o e paladar) e com pre\u00e7o competitivo, ela deve manter esses atributos consistentemente.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Comida para 10 bilh\u00f5es<\/strong><br \/>\nH\u00e1 uma quest\u00e3o mais ampla na vis\u00e3o de Guadagnini, que \u00e9 equacionar e repensar a produ\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas (e alimentos em geral) para as 10 bilh\u00f5es de pessoas que viver\u00e3o no mundo em 2050.<\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o monumental: ser\u00e3o 3 bilh\u00f5es a mais de pessoas que precisar\u00e3o ser alimentadas, mas, ao mesmo tempo, h\u00e1 o desafio de limitar a emiss\u00e3o de gases em tempos de aquecimento global.<\/p>\n<p>&#8220;Para cada caloria que eu extraio da carne, dez calorias foram usadas para a cria\u00e7\u00e3o do animal ao longo da vida. Temos hoje 75% das terras ar\u00e1veis do planeta gerando 12% das calorias consumidas. Porque eu planto grandes \u00e1reas de gr\u00e3os, alimento os animais com esses gr\u00e3os e esses animais viram caloria numa propor\u00e7\u00e3o de 10 para 1&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o eu desperdi\u00e7o 90% das calorias que s\u00e3o produzidas pelo sistema de alimenta\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 dif\u00edcil fazer crescer essa produ\u00e7\u00e3o. A planta\u00e7\u00e3o de milho e soja para alimentar os animais e as \u00e1reas de cria\u00e7\u00e3o j\u00e1 ocupam a maior parte do planeta Terra.&#8221;<\/p>\n<p>Mas Guadagnini (que \u00e9 vegano) afirma que o sabor da carne \u00e9 algo que vem acompanhando as pessoas h\u00e1 muitas gera\u00e7\u00f5es e n\u00e3o pode ser ignorado.<\/p>\n<p>&#8220;Olhando para quatro problemas &#8211; seguran\u00e7a alimentar, meio ambiente, a sa\u00fade humana e a \u00e9tica animal \u00e9 que come\u00e7a a se pensar: &#8216;beleza, o que a gente come ent\u00e3o?&#8217;. Talvez a grande dificuldade disso seja exatamente a quest\u00e3o dos h\u00e1bitos e tradi\u00e7\u00f5es alimentares: as pessoas querem comer carne. Carne \u00e9 gostoso. A comida mostra de onde a gente vem, mostra a nossa cultura, s\u00e3o as nossas receitas de fam\u00edlia.&#8221;<\/p>\n<p>Ele v\u00ea nas prote\u00ednas alternativas o caminho para solucionar o desafio e considera a tecnologia o meio que vai possibilitar isso.<\/p>\n<p>Para Pflanzer, &#8220;alimentar a popula\u00e7\u00e3o do planeta n\u00e3o \u00e9 e nunca foi uma tarefa f\u00e1cil, tanto que at\u00e9 hoje milh\u00f5es de pessoas passam fome. Mas isso n\u00e3o \u00e9 devido \u00e0 falta de alimentos: 1\/3 do que produzimos vai para o lixo&#8221;.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o do professor da Unicamp, &#8220;o ser humano sempre teve uma liga\u00e7\u00e3o direta com os animais&#8221; e ser\u00e1 dif\u00edcil abrir totalmente m\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de animais para consumo humano.<\/p>\n<p>Ele diz que \u00e9 poss\u00edvel viver sem carne e leite, mas apenas com uma dieta planejada e acompanhamento m\u00e9dico e de nutricionistas &#8211; a vitamina B12 tamb\u00e9m precisa ser suplementada. &#8220;Qual propor\u00e7\u00e3o dos habitantes do planeta pode fazer isso? Poucos.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A carne bovina, protagonista da refei\u00e7\u00e3o do dia a dia no Brasil nos \u00faltimos s\u00e9culos, vai perder essa posi\u00e7\u00e3o em um futuro n\u00e3o t\u00e3o long\u00ednquo por uma mistura de fatores econ\u00f4micos, ambientais e grandes mudan\u00e7as culturais em curso. 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