{"id":283416,"date":"2022-04-06T07:10:52","date_gmt":"2022-04-06T10:10:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=283416"},"modified":"2022-04-06T07:12:52","modified_gmt":"2022-04-06T10:12:52","slug":"ifood-infiltra-espioes-para-que-cliente-e-entregador-sifu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ifood-infiltra-espioes-para-que-cliente-e-entregador-sifu\/","title":{"rendered":"iFood infiltra espi\u00f5es para f%&#038;* cliente e entregador"},"content":{"rendered":"<p>De colete preto e cal\u00e7a verde-escura no estilo militar, um homem de cerca de 40 anos perambulava em frente ao est\u00e1dio do Pacaembu, em S\u00e3o Paulo, ao redor de um grupo de entregadores que protestava contra as condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos aplicativos de delivery, no dia 16 de abril de 2021. Carregando uma faixa de cerca de 3 metros, o homem exibia dois adesivos que pediam \u201cvacina pros entregadores de aplicativo j\u00e1\u201d: um colado no bon\u00e9, outro no face shield. Nas m\u00e3os, carregava pacotes com adesivos iguais para distribuir na manifesta\u00e7\u00e3o. Parecia ser um entregador que levava suas reivindica\u00e7\u00f5es para o movimento. Mas, de acordo com a apura\u00e7\u00e3o da reportagem, n\u00e3o era.<\/p>\n<p>Documentos, fotos e relatos obtidos pela <em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em> indicam que o homem seria um funcion\u00e1rio de uma ag\u00eancia de intelig\u00eancia e monitoramento digital que prestava servi\u00e7os em uma campanha contratada pelo iFood. A presen\u00e7a do funcion\u00e1rio teria como objetivo implantar a pauta da vacina\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria para motofretistas, como uma estrat\u00e9gia de esvaziamento da narrativa de greve \u2014 indicam as fontes ouvidas e relat\u00f3rios consultados com exclusividade pela reportagem. Durante o ato, o homem dos adesivos divulgou um abaixo-assinado que pedia a vacina\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria. A peti\u00e7\u00e3o online havia sido criada sete dias antes pela equipe da ag\u00eancia de publicidade que o contratou.<\/p>\n<p>Naquele abril de 2021, os adesivos e a faixa que pediam \u201cvacina\u00e7\u00e3o j\u00e1\u201d no est\u00e1dio do Pacaembu, na zona oeste de S\u00e3o Paulo, vieram acompanhados pela dissemina\u00e7\u00e3o de posts e coment\u00e1rios de usu\u00e1rios falsos, que teriam sido criados por ag\u00eancias de publicidade a servi\u00e7o do iFood no Twitter e Facebook. Em paralelo, as ag\u00eancias contratadas teriam criado duas p\u00e1ginas que deram suporte \u00e0 narrativa: a fanpage de conte\u00fado pol\u00edtico N\u00e3o Breca Meu Trampo e a p\u00e1gina de memes Garfo na Caveira.<\/p>\n<p>A P\u00fablica acessou mais de 30 documentos das campanhas \u2014 entre relat\u00f3rios de entrega, cronograma de postagens, v\u00eddeos, atas de reuni\u00f5es e trocas de mensagens \u2014, al\u00e9m de conversar com pessoas que trabalharam nas ag\u00eancias e acompanharam a campanha desenvolvida para o iFood durante pelo menos 12 meses. As pessoas entrevistadas ser\u00e3o mantidas em anonimato nesta reportagem por temerem repres\u00e1lias profissionais ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da den\u00fancia.<\/p>\n<p><strong>Marketing 4.0<\/strong><br \/>\nA situa\u00e7\u00e3o, descreve uma das fontes que afirma ter trabalhado nas campanhas contratadas pelo iFood, \u201c\u00e9 o que chamam de marketing 4.0\u201d. \u201cVoc\u00ea posta memes, piadas e v\u00eddeos que promovem uma marca ou ideia, mas sem mostrar quem est\u00e1 por tr\u00e1s. Sem assinar\u201d, explica. \u201c\u00c9 aquele tipo de conte\u00fado que te deixa em d\u00favida: voc\u00ea n\u00e3o sabe se foi um meme, uma coisa que surgiu na internet ou se teve algu\u00e9m por tr\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p>Segundo os relatos, o objetivo da publicidade n\u00e3o assinada era disseminar ideias e opini\u00f5es em um formato que imitasse a forma dos entregadores de se comunicarem, simulando que as postagens e narrativas vinham de verdadeiros entregadores. Um documento acessado pela reportagem descreve: \u201cToda vez que trabalhamos com o iFood criamos estrat\u00e9gias para o \u2018LADO B\u2019.\u00a0 Essas estrat\u00e9gias t\u00eam como objetivo criar um leve rumor nas redes sociais sobre o assunto que queremos abordar no momento\u201d.<\/p>\n<p>O documento, que seria usado como guia pelas ag\u00eancias de publicidade, explica a t\u00e1tica:\u00a0 \u201cUsamos P\u00e1ginas de Facebook, Perfis do Instagram, Perfis de Twitter, Perfis de Facebook, criados por n\u00f3s para gerar esses rumores. Como? Comentamos em publica\u00e7\u00f5es que falam do assunto, vamos em perfis que abordam o assunto e comentamos de forma indireta [\u2026], mas NUNCA assinado como iFood para que ningu\u00e9m desconfie\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO modelo era o de propaganda lado B. Tipo o que o Bolsonaro faz com o gabinete do \u00f3dio, mas que as ag\u00eancias j\u00e1 fazem h\u00e1 muito tempo\u201d, diz uma das fontes. No universo da propaganda pol\u00edtica, esse tipo de a\u00e7\u00e3o \u00e9 comum, explicou uma especialista ouvida pela reportagem. \u201cO lado B \u00e9 uma pr\u00e1tica de campanha pol\u00edtica, eles sempre fazem. Toda campanha grande tem uma equipe lado B que basicamente faz conte\u00fado sobre um inimigo. Sempre sem assinar.\u201d<\/p>\n<p>O conjunto de documentos e os relatos indicam que, entre julho de 2020 e, ao menos, novembro de 2021, a ag\u00eancia Benjamim Comunica\u00e7\u00e3o e depois tamb\u00e9m a ag\u00eancia Social Qi (SQi) monitoraram greves de entregadores. A documenta\u00e7\u00e3o indica que at\u00e9, pelo menos outubro de 2021, as ag\u00eancias teriam produzido conte\u00fado para redes sociais e feito campanha pela vacina\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria dos motofretistas a servi\u00e7o da empresa de delivery.<\/p>\n<p><strong>Desmobilizando entregadores<\/strong><br \/>\nNo dia 1o de julho de 2020, entregadores de aplicativos paralisaram as atividades em 13 estados do pa\u00eds e no Distrito Federal, em uma mobiliza\u00e7\u00e3o nacional que ficou conhecida como o primeiro grande \u201cBreque dos Apps\u201d. Com a greve, os entregadores reivindicavam aumento no valor pago por entrega, medidas de prote\u00e7\u00e3o contra a covid-19 e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Durante aquele dia, coment\u00e1rios sobre a paralisa\u00e7\u00e3o inundaram as redes sociais e o \u201cBreque\u201d foi o assunto mais falado no Twitter durante cinco horas. Com mobiliza\u00e7\u00e3o online e nas ruas, a greve se estendeu de manh\u00e3 at\u00e9 o final da tarde, simultaneamente em capitais e cidades do interior.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, poucas horas depois do \u201cBreque\u201d, o iFood lan\u00e7ou uma carta e um site para rebater cr\u00edticas, divulgando em hor\u00e1rio nobre da TV aberta um an\u00fancio que destacava que a empresa \u201coferece seguro contra acidentes pessoais e que a maioria [dos entregadores] valoriza o fato de ter flexibilidade de hor\u00e1rio e liberdade para compor sua renda\u201d. Come\u00e7ava ali uma campanha da empresa contra as manifesta\u00e7\u00f5es dos entregadores.<\/p>\n<p>Com a visibilidade alcan\u00e7ada pela greve, a estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o do iFood n\u00e3o se limitaria a comerciais na TV que defendessem a reputa\u00e7\u00e3o da empresa. Oito dias ap\u00f3s o \u201cBreque dos Apps\u201d foi criada a p\u00e1gina N\u00e3o Breca Meu Trampo no Facebook. \u201cO objetivo era suavizar o impacto das greves e desnortear a mobiliza\u00e7\u00e3o dos entregadores\u201d, explicou \u00e0 reportagem uma pessoa que afirma ter acompanhado o trabalho desenvolvido pelas ag\u00eancias de publicidade.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o da p\u00e1gina dizia: \u201cA gente quer melhorar de vida e ganhar mais. SEM patr\u00e3o e sal\u00e1rio m\u00ednimo. No corre bem feito a gente tira mais e n\u00e3o tem chefe pra encher o saco. A gente quer liberdade pra trampar pra quem a gente quiser!\u201d.<\/p>\n<p>Nas primeiras semanas, a p\u00e1gina se concentrou em hostilizar a mobiliza\u00e7\u00e3o dos entregadores, acusando o movimento de \u201cfazer politicagem\u201d. Nos meses seguintes, al\u00e9m de atacar as manifesta\u00e7\u00f5es, fez oposi\u00e7\u00e3o a projetos de lei que visavam regulamentar o trabalho dos entregadores e previam benef\u00edcios para a categoria.<\/p>\n<p>Quando a \u201cN\u00e3o Breca Meu Trampo\u201d apareceu nas redes, um alerta acendeu na cabe\u00e7a de entregadores que acompanhavam as mobiliza\u00e7\u00f5es. \u201cA gente suspeitava que era um conte\u00fado pago por empresa, porque veio do nada e cheio de postagem, mas ficava no boato\u201d, conta Edgar Silva, presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Motofretistas de Aplicativos e Aut\u00f4nomos do Brasil (AMA-BR). Paulo Lima, o Galo do Movimento dos Entregadores Antifascistas, lembra que assim que a p\u00e1gina surgiu \u201cos motoboys vieram trazer pra mim perguntando quem ser\u00e1 que estaria por tr\u00e1s\u201d. Galo conta que as suspeitas sobre a autoria da p\u00e1gina cresceram, mas ningu\u00e9m tinha evid\u00eancias que comprovassem quem estaria por tr\u00e1s da \u201cN\u00e3o Breca Meu Trampo\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u201cA gente matou o Galo\u201d<\/strong><br \/>\nUm v\u00eddeo obtido pela <em>P\u00fablica<\/em> mostra publicit\u00e1rios da Benjamim Comunica\u00e7\u00e3o falando da cria\u00e7\u00e3o da p\u00e1gina. Adriana Souza, s\u00f3cia da ag\u00eancia, rememora no v\u00eddeo durante uma reuni\u00e3o no dia 7 de julho de 2021: \u201cA gente, quando fez essa p\u00e1gina, tinha uma situa\u00e7\u00e3o emergencial para resolver\u201d. E afirma: \u201cO pr\u00f3prio manifesto da N\u00e3o Breca [Meu Trampo] \u00e9 um pouco mais aberto. A gente, quando fez, n\u00e3o queria uma identifica\u00e7\u00e3o t\u00e3o r\u00e1pida\u201d.<\/p>\n<p>A Benjamim Comunica\u00e7\u00e3o, ag\u00eancia que n\u00e3o possui site nem redes sociais ativos, tem como s\u00f3cio e administrador Luiz Fl\u00e1vio Guimar\u00e3es Marques \u2014 mais conhecido como Lula Guimar\u00e3es no universo do marketing pol\u00edtico-eleitoral. Lula foi o respons\u00e1vel pela propaganda da campanha presidencial de Eduardo Campos e Marina Silva (2014), de Alckmin \u00e0 Presid\u00eancia (2018) e de Jo\u00e3o Doria \u00e0 prefeitura de S\u00e3o Paulo, em 2016. Nos arquivos do projeto para o iFood, aos quais a <em>P\u00fablica<\/em> teve acesso, Lula \u00e9 mencionado como diretor da Benjamim e pessoa para quem se apresentavam os relat\u00f3rios para aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No v\u00eddeo acessado pela reportagem, coordenadores da Benjamim Comunica\u00e7\u00e3o avaliam a incid\u00eancia da p\u00e1gina \u201cN\u00e3o Breca Meu Trampo\u201d. Mencionam que a fanpage \u201ccumpriu uma miss\u00e3o\u201d, mas \u201ccontaminou\u201d e deveria ser suspensa. Na an\u00e1lise dos publicit\u00e1rios, a narrativa disseminada pela p\u00e1gina teria sido respons\u00e1vel por enfraquecer a lideran\u00e7a de Paulo Lima, o Galo, l\u00edder do Movimento dos Entregadores Antifascistas, que tinha grande popularidade na \u00e9poca.<\/p>\n<p>A p\u00e1gina \u201cN\u00e3o Breca Meu Trampo\u201d postou ativamente entre julho de 2020 e junho de 2021. Segundo os relatos e documentos obtidos pela reportagem, a Benjamim teria contratado entregadores para gravar v\u00eddeos peri\u00f3dicos para as p\u00e1ginas, seguindo roteiros elaborados pelas equipes de redatores. Durante uma das discuss\u00f5es sobre formato do conte\u00fado, no grupo de WhatsApp, um dos coordenadores do projeto escreveu: \u201cFicar atento com o principal, que \u00e9 jamais saberem que tem uma ag\u00eancia por tr\u00e1s disso\u201d.<\/p>\n<p>Em uma das postagens da p\u00e1gina, um v\u00eddeo gravado por um suposto entregador diz: \u201cNossa briga \u00e9 contra o governo. Nossa luta \u00e9 contra o governo para que o governo nos olhe, nos d\u00ea aten\u00e7\u00e3o\u201d. J\u00e1 em outro v\u00eddeo, de junho de 2021, um suposto entregador se op\u00f5e \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o do setor, dizendo: \u201cV\u00e1rios perdeu emprego, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o que nos teve foi os aplicativos, se n\u00e3o n\u00f3s estaria at\u00e9 passando fome. Pra n\u00f3s o jeito que est\u00e1 t\u00e1 bom\u201d.\u00a0 E conclui: \u201cQuem levanta cedo e corre atr\u00e1s do seu t\u00e1 garantido\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com os documentos obtidos pela <em>P\u00fablica,<\/em> em janeiro de 2021 uma outra ag\u00eancia especializada em monitoramento e marketing digital entrou como um bra\u00e7o da Benjamim no projeto. A SQi passou a administrar a p\u00e1gina \u201cN\u00e3o Breca Meu Trampo\u201d, al\u00e9m de criar outras p\u00e1ginas e usu\u00e1rios falsos no Facebook e Twitter.<\/p>\n<p>A SQi \u00e9 uma ag\u00eancia focada no gerenciamento de crises, campanhas pol\u00edticas e monitoramento de redes para entes p\u00fablicos e privados \u2014 segundo seu site. Ela trabalha com base em programas de monitoramento de redes sociais \u2014 conhecidos como softwares de \u201cbig data\u201d por terem a capacidade de obter informa\u00e7\u00f5es a partir de conjuntos muito volumosos de dados. A empresa foi contratada por Jo\u00e3o Doria para fazer monitoramento de suas redes, segundo publica\u00e7\u00e3o da BBC Brasil. Atualmente, tamb\u00e9m cuida do monitoramento de redes e marketing digital do Corinthians.<\/p>\n<p><strong>Humor e memes\u00a0<\/strong><br \/>\nDe acordo com a documenta\u00e7\u00e3o obtida, com a entrada da SQi no projeto em janeiro de 2021, o conjunto de temas e formatos das postagens se ampliou. Em 19 de janeiro de 2021, a equipe de cria\u00e7\u00e3o da ag\u00eancia lan\u00e7ou uma nova p\u00e1gina, focada em memes. A \u201cGarfo na Caveira\u201d \u2014 p\u00e1gina que segue ativa \u2014 posta piadas com temas de interesse dos entregadores e enaltece o trabalho de entrega via aplicativos, no Facebook e Instagram. Durante oito meses, especialistas em monitoramento de redes sociais, redatores e diretores de arte, elaboraram as publica\u00e7\u00f5es sob a coordena\u00e7\u00e3o de Roberto Marques, cofundador da ag\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cA orienta\u00e7\u00e3o era fazer conte\u00fados engra\u00e7ados, que gerassem engajamento. Podia falar mal do Rappi ou Uber Eats, mas n\u00e3o do iFood\u201d, disse \u00e0 <em>P\u00fablica<\/em> uma pessoa que afirmou ter prestado servi\u00e7os \u00e0s ag\u00eancias no projeto iFood. Segundo ela, o conte\u00fado, est\u00e9tica e vocabul\u00e1rio utilizados nos posts eram embasados em relat\u00f3rios de monitoramento de redes e pesquisas sobre o universo dos entregadores. A equipe da SQi teria se infiltrado em 15 grupos no WhatsApp e analisou mais de 19 mil mensagens, segundo consta em um relat\u00f3rio de junho de 2021, obtido pela reportagem.<\/p>\n<p>\u201cAtrav\u00e9s do monitoramento, a gente coletava o que os entregadores est\u00e3o falando, quais eram os assuntos populares, e usava esse insumo para preparar nossa narrativa\u201d, comentou uma fonte que tamb\u00e9m teria trabalhado na campanha. \u201cTamb\u00e9m usamos pesquisas quantitativas e qualitativas que analisavam o perfil dos entregadores. A\u00ed, pudemos entender, por exemplo, qual a import\u00e2ncia do aplicativo na vida deles.\u201d<\/p>\n<p>Um dos levantamentos consultados pelos redatores teria sido realizado pela Locomotiva Pesquisas e Estrat\u00e9gia, sob encomenda do iFood, em mar\u00e7o de 2021. A pesquisa, que teve uma amostra de 1.484 entrevistados, indica que o delivery \u00e9 a fonte principal de renda para cerca de 89% dos entregadores, sendo respons\u00e1vel por cobrir despesas como comida, \u00e1gua e luz. Entre os mais pobres, 94% dos entregadores declararam depender das entregas como principal fonte de renda para os gastos cotidianos.<\/p>\n<p>A equipe da SQi teria se aproveitado das estat\u00edsticas para calibrar o tom dos posts da p\u00e1gina \u201cGarfo na Caveira\u201d, apontam as fontes. Em meio a piadas sobre o pre\u00e7o da gasolina, memes que brincam com as condi\u00e7\u00f5es de trabalho viralizaram.<\/p>\n<p>Outros estudos apontam para a mesma realidade: uma pesquisa da Universidade Federal da Bahia (Ufba) revela que a jornada de trabalho ultrapassa 10 horas entre os entregadores que t\u00eam os aplicativos como principal fonte de renda.<\/p>\n<p>A jornada de trabalho extensa aparece nas postagens de \u201cGarfo na Caveira\u201d em formato de memes ou posts motivacionais. Intercalando postagens engra\u00e7adas com pe\u00e7as mais s\u00e9rias, a p\u00e1gina foi conquistando engajamento em posts que exaltavam o trabalho no modelo imposto pelos aplicativos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de contar com o trabalho da equipe de cerca de 12 pessoas, os publicit\u00e1rios contrataram an\u00fancios do Facebook para aumentar o alcance das p\u00e1ginas. Entre abril e agosto de 2021, foram investidos R$12.232,73 no impulsionamento de posts na plataforma, aponta um relat\u00f3rio obtido pela reportagem.<\/p>\n<p>De acordo com os documentos, em paralelo aos memes e postagens de humor, o projeto conduzido pelas ag\u00eancias Benjamim e SQi ampliou a atua\u00e7\u00e3o online para al\u00e9m das fanpages. A reportagem identificou que foram usados oito perfis de usu\u00e1rios falsos no Facebook e Twitter para engajar em outra miss\u00e3o: implantar a reivindica\u00e7\u00e3o pela vacina\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria da covid-19 entre os motofretistas.<\/p>\n<p>\u201cNessa de esvaziar a narrativa das greves, a intelig\u00eancia [digital] e o monitoramento indicaram uma nova pauta. E sabe qual foi a pauta que eles descobriram? A vacina\u201d, revelou uma fonte ligada ao projeto. Por mais de tr\u00eas meses, o arsenal de fanpages e perfis de usu\u00e1rios fake pautou a vacina\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria dos entregadores, reivindicando o imunizante em publica\u00e7\u00f5es de pol\u00edticos e divulgando posts em grupos de entregadores.<\/p>\n<p>\u201cA estrat\u00e9gia era passar a ideia: \u2018Brecar n\u00e3o est\u00e1 com nada. A gente quer vacina para trabalhar\u2019 ou \u2018A gente quer vacina para continuar trabalhando feliz\u2019. A\u00ed come\u00e7aram a usar isso como narrativa\u201d, contou \u00e0 P\u00fablica uma das fontes que disse ter trabalhado por meses no projeto.<\/p>\n<p>O objetivo era mobilizar entregadores em torno da aprova\u00e7\u00e3o do Projeto de Lei (PL) 1.011\/2020, que previa a inclus\u00e3o de entregadores na fase IV do Plano Nacional de Imuniza\u00e7\u00e3o. Um documento obtido pela reportagem mostra o planejamento t\u00e1tico desenvolvido pela SQi em abril de 2021, com o passo a passo da campanha, que inclu\u00eda mobiliza\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos, utiliza\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios fake para dissemina\u00e7\u00e3o da pauta, postagens nas p\u00e1ginas e um abaixo-assinado.<\/p>\n<p>Fontes ouvidas pela <em>P\u00fablica<\/em> contam que a vacina\u00e7\u00e3o apareceu como pauta estrat\u00e9gica para esvaziar a narrativa das greves e paralisa\u00e7\u00f5es. O passo a passo previsto no planejamento t\u00e1tico, conforme demonstram os documentos acima, foi seguido e, durante meses, contas nas redes sociais administradas pela ag\u00eancia disseminaram a pauta.<\/p>\n<p>O tema da vacina\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria n\u00e3o era in\u00e9dito para o iFood. No final de janeiro, a empresa anunciou uma doa\u00e7\u00e3o de R$ 5 milh\u00f5es para a constru\u00e7\u00e3o de novas instala\u00e7\u00f5es do Instituto Butantan. Segundo noticiou a <em>Folha de S.Paulo,<\/em> a doa\u00e7\u00e3o gerou cr\u00edticas e desconforto no setor ap\u00f3s o presidente da empresa, Fabr\u00edcio Bloisi, ter postado em suas redes sociais um pedido de vacina\u00e7\u00e3o dos entregadores. Meses depois, as p\u00e1ginas administradas pelas ag\u00eancias de marketing digital ecoaram o mesmo pedido \u2014 sem a assinatura oficial da marca.<\/p>\n<p>Mas a campanha de marketing pela vacina n\u00e3o ficou restrita \u00e0 atua\u00e7\u00e3o online. Em abril de 2021, os entregadores organizavam mais uma sequ\u00eancia de greves na capital paulista e a SQi decidiu enviar um funcion\u00e1rio para a manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Conforme relatado \u00e0 reportagem, a a\u00e7\u00e3o foi tamb\u00e9m postada em outra p\u00e1gina criada por funcion\u00e1rio da SQi, a \u201cMotofrete de App\u201d \u2014 atualmente inativa. Simultaneamente, de acordo com o que foi apurado pela <em>P\u00fablica,<\/em> as p\u00e1ginas \u201cN\u00e3o Breca Meu Trampo\u201d e perfis falsos disseminaram o abaixo-assinado criado pela equipe da SQi, pedindo a vacina\u00e7\u00e3o. V\u00eddeos com supostos entregadores contratados tamb\u00e9m foram postados pelas p\u00e1ginas, pedindo aten\u00e7\u00e3o para a pauta. Seguindo roteiros previamente estabelecidos pela ag\u00eancia, os v\u00eddeos repercutiam a mesma mensagem.<\/p>\n<p><strong>Metralhadora virtual<\/strong><br \/>\nNo Twitter, perfis de usu\u00e1rios falsos que seriam administrados pelas ag\u00eancias de publicidade tamb\u00e9m postaram sobre a vacina\u00e7\u00e3o dos entregadores. \u201c<em>Porque\u00a0nois motoca precisa ser vacinado, ajuda a aprova o PL1011 e aprova nossa classe q ta mais de um ano ae na linha de frente<\/em>\u201d, tuitou uma das contas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os meses de trabalho conjunto da Benjamim e SQi, a a\u00e7\u00e3o digital e presencial na pauta da vacina\u00e7\u00e3o foi considerada um caso de sucesso pela equipe das ag\u00eancias e pelo cliente final, segundo os documentos e relatos. Em agosto de 2021, ao falar sobre uma poss\u00edvel pr\u00f3xima etapa da campanha, os resultados alcan\u00e7ados com a pauta da vacina foram elogiados. A estrat\u00e9gia utilizada no \u201cvacina para entregadores j\u00e1\u201d foi citada como refer\u00eancia para a atua\u00e7\u00e3o focada no marco regulat\u00f3rio para trabalhadores de aplicativo.<\/p>\n<p>Os documentos internos da campanha obtidos pela reportagem indicam que havia uma expectativa dentro da empresa de delivery de que avan\u00e7asse em Bras\u00edlia a proposta de regula\u00e7\u00e3o do setor apoiada pelo iFood. Em paralelo, as ag\u00eancias de publicidade se preparavam para despejar na rede men\u00e7\u00f5es indiretas ao marco regulat\u00f3rio. A Benjamim e a SQi planejaram a produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados espec\u00edficos que defendessem o \u201cMRP\u201d \u2014 sigla utilizada internamente para o marco regulat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Em 23 de julho de 2021, o presidente do iFood havia publicado um artigo na Folha de S.Paulo em que sinalizava o interesse de a empresa \u201cabrir caminho para construir, coletivamente, um marco regulat\u00f3rio\u201d. No mesmo dia e tamb\u00e9m nas semanas seguintes, o assunto pipocaria no cronograma de postagens das ag\u00eancias.<\/p>\n<p>A reportagem n\u00e3o localizou a nova p\u00e1gina que seria criada para defender a pauta do marco regulat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Durante os meses em que a SQi e a Benjamim produziram conte\u00fado n\u00e3o assinado para o iFood, foram criados perfis de usu\u00e1rios no Facebook e Twitter para engajar posts e repercutir narrativas. A cria\u00e7\u00e3o de perfis falsos, que se passavam por entregadores, teria sido uma das estrat\u00e9gias usadas para aumentar o alcance da propaganda \u201clado B\u201d \u2014 indicaram as fontes entrevistadas.<\/p>\n<p>\u201cOs app de entrega trouxe oportunidade de emprego e renda pra quem n\u00e3o tem trampo. Tuitar por breque vai contra nois motoca que precisamo levar o sustento pra casa.\u201d Os 162 caracteres foram postados no Twitter no dia 23 de julho de 2021, em resposta a um post que defendia o #Apag\u00e3odosApps \u2014 um boicote organizado pelos entregadores para pressionar as plataformas de delivery por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Naquele dia, a conta @MiiFerreira6 respondeu a outros 23 tu\u00edtes sobre o #Apag\u00e3odosApps, repetindo o mesmo discurso: defendendo as plataformas de entrega e argumentando que a mobiliza\u00e7\u00e3o online, na verdade, prejudicava os entregadores.<\/p>\n<p>Em um tu\u00edte em que o jornalista Xico S\u00e1 sinalizou apoio \u00e0 causa dos entregadores, a conta escreveu: \u201cSe n\u00e3o fosse os app nois motoca tava tudo passando fome na pandemia\u201d. Em outra postagem, que veiculava uma fala do entregador Galo pedindo apoio dos consumidores ao boicote, a mesma conta tuitou: \u201cNois q \u00e9 motoca n\u00e3o ajuda n\u00e3o! Sexta feira \u00e9 dia q os corre bomba, bora acelera e mete marcha\u201d.<\/p>\n<p>Sempre escrevendo em primeira pessoa, os posts de @MiiFerreira6 no dia da mobiliza\u00e7\u00e3o cont\u00eam a express\u00e3o \u201cnois motoca\u201d, para sinalizar que a opini\u00e3o ali exposta vinha de um entregador. Mas n\u00e3o. Os tu\u00edtes que a conta @MiiFerreira6 postou em 23 de julho haviam sido escritos, revisados e aprovados em um cronograma de postagens produzido pelas ag\u00eancias de marketing digital, ao qual a reportagem teve acesso.<\/p>\n<p>Segundo os documentos e relatos obtidos pela <em>P\u00fablica<\/em>, dentro das ag\u00eancias os usu\u00e1rios falsos utilizados para disseminar e engajar a narrativa da campanha eram chamados de \u201cVIPs\u201d. A base para as postagens vinha de documentos chamados \u201cFAQs\u201d \u2014 perguntas e respostas \u2014 elaborados pela equipe de cria\u00e7\u00e3o. \u201cEra definida narrativa que n\u00f3s temos que construir e a partir disso escreviam, por exemplo: se algu\u00e9m falar que o iFood paga mal, vamos responder que na verdade o iFood paga x% a mais que os outros aplicativos e y% a mais que cooperativa. A equipe formulava essa resposta de tr\u00eas maneiras diferentes e postavam\u201d, explicou uma das fontes ouvidas.<\/p>\n<p>Naquela sexta-feira de inverno, dois redatores e um gestor de equipe contratados pela SQi tinham come\u00e7ado a trabalhar cedo para produzir os posts que tentariam deslegitimar a mobiliza\u00e7\u00e3o online organizada por entregadores. Usando g\u00edrias e fugindo da norma ortogr\u00e1fica formal, os tu\u00edtes haviam sido redigidos com uma escolha minuciosa de palavras e abrevia\u00e7\u00f5es, para fazer parecer que quem estava por tr\u00e1s das postagens eram verdadeiros entregadores, ou, como escreviam, verdadeiros \u201cmotocas\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo dia, outras contas no Twitter repetiram a mesma estrat\u00e9gia. As contas @EdmarSa62856378 e @HenriAlcantara2 postaram juntas outros 59 tu\u00edtes ecoando a narrativa elaborada pela equipe das ag\u00eancias para esvaziar a mobiliza\u00e7\u00e3o do #Apag\u00e3odosApps. Em uma resposta, a conta @HenriAlcantara2 escreveu <em>\u201cq apoia a tropa mano nao fala besteira na rua nao temos como levar o dinher pr casa e como q fas?????<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Em outra resposta, os perfis apontados como fake tuitaram: \u201c<em>pelo menos o iFood garante o nosso sustento, tu n sabe o q \u00e9 passa fome e n te o q da para os nossos filhos\u2026Se n\u00e3o fosse os apps das bag vermelha nas costas a\u00ed sim vc ia ver o que \u00e9 fome meu truta. eles a cada dia criam alternativas pra melhorar o dia a dia dos entregadores<\/em>\u201d. Al\u00e9m das postagens durante o tuita\u00e7o #Apag\u00e3odosApps, as mesmas contas no Twitter foram utilizadas para disseminar outras narrativas a servi\u00e7o do aplicativo de entrega.<\/p>\n<p>Os perfis falsos foram mobilizados tamb\u00e9m para minar outras manifesta\u00e7\u00f5es organizadas por entregadores. No dia 14 de outubro de 2021, os motofretistas organizaram uma greve para cobrar aumento nos valores das entregas e mais transpar\u00eancia sobre as regras de bloqueio de entregadores. Em Jundia\u00ed (SP), dezenas de entregadores paralisaram as entregas, atraindo aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e de usu\u00e1rios nas redes sociais. Novamente, as p\u00e1ginas falsas entraram em campo para tentar enfraquecer o movimento.<\/p>\n<p>A <em>P\u00fablica<\/em> constatou, com base na documenta\u00e7\u00e3o obtida, que ao menos cinco usu\u00e1rios do Twitter que escreviam se passando por entregadores foram criados pela equipe da SQi em janeiro de 2021, quando a ag\u00eancia foi contratada pela Benjamim Comunica\u00e7\u00e3o. Ao longo dos meses, os usu\u00e1rios falsos @Claudio94887053, @MotocaSincerao, @MiiFerreira6, @VickSan71574301 e @HenriAlcantara2 variaram a quantidade de respostas em tu\u00edtes, mas sempre mantiveram seus posts dentro das estrat\u00e9gias de narrativa definidas pela SQi e Benjamim Comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Objetivo alcan\u00e7ado<\/strong><br \/>\nEntre as p\u00e1ginas administradas pela campanha \u201clado B\u201d, a \u201cGarfo na Caveira\u201d continua ativa e postando conte\u00fados. J\u00e1 a p\u00e1gina \u201cN\u00e3o Breca Meu Trampo\u201d parou de ser alimentada em julho de 2021. Em um registro acessado pela reportagem, um dos coordenadores da campanha resume o trabalho: \u201cCoisas assim que v\u00e3o tirando o foco. Como a gente fez, por exemplo, com a greve geral. O Garfo [p\u00e1gina \u201cGarfo na Caveira\u201d] abriu um territ\u00f3rio importante, de chegar de igual pra igual. E depois isso serviu pra gente ir esvaziando o discurso\u201d.<\/p>\n<p>Em outubro de 2021, a SQi parou de prestar o servi\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o de conte\u00fados para as campanhas coordenadas pela Benjamim \u2014 a reportagem n\u00e3o conseguiu apurar quais seriam os motivos do fim do contrato. No entanto, a SQi continuou monitorando as redes e enviando informa\u00e7\u00f5es para a ag\u00eancia contratada pelo iFood, at\u00e9 novembro de 2021.<\/p>\n<p>Em dezembro, no final do ano que foi marcado pelas greves e pelo trabalho oculto das ag\u00eancias, o iFood selecionou 23 entregadores para participarem de um f\u00f3rum organizado pela empresa. Segundo a divulga\u00e7\u00e3o, a iniciativa serviria para ouvir os trabalhadores e dialogar sobre melhorias para a categoria. Paulo Galo, l\u00edder dos Entregadores Antifascistas e uma das lideran\u00e7as do \u201cBreque dos Apps\u201d, disse \u00e0 <em>P\u00fablica<\/em> que n\u00e3o foi convidado. Edgar Silva, presidente da AMA-BR, comentou que n\u00e3o compareceria ao evento. \u201cIsso de dilogar com a categoria \u00e9 mentira, fazem esse evento s\u00f3 pra ouvir o que queremos e colher mais informa\u00e7\u00f5es pra jogar contra n\u00f3s. A nossa principal reivindica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 aumentar o pre\u00e7o das taxas, eles sabem bem qual \u00e9, mas n\u00e3o escutam.\u201d<\/p>\n<p>O f\u00f3rum, feito a portas fechadas com os entregadores selecionados, rendeu uma carta de compromissos assinada pela empresa no dia 15 de dezembro de 2021. No documento, o iFood se comprometia a refor\u00e7ar a transpar\u00eancia com entregadores e rever as suspens\u00f5es de contas daqueles que foram bloqueados. No LinkedIn, o gerente de pol\u00edticas do iFood, Pedro Prochno, escreveu sobre o evento: \u201c[Somos] a primeira empresa a fazer algo deste tipo no pa\u00eds\u201d. Sobre um aumento na remunera\u00e7\u00e3o dos entregadores, durante o f\u00f3rum o iFood se comprometeu a analisar a possibilidade de um ajuste anual, at\u00e9 mar\u00e7o de 2022.<\/p>\n<p>Em 18 de mar\u00e7o, duas semanas antes de uma greve de entregadores convocada para dia 1o de abril, o iFood divulgou um reajuste na taxa de entrega repassada aos entregadores. Segundo comunicado oficial da empresa, a taxa m\u00ednima por rota passar\u00e1 de R$ 5,31 para R$ 6, e o valor m\u00ednimo por quil\u00f4metro rodado aumentar\u00e1 de R$ 1 para R$ 1,50 a partir do dia 2 de abril.<\/p>\n<p>Um dia antes da divulga\u00e7\u00e3o do reajuste, foi publicado pela primeira vez no Brasil um estudo sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho em plataformas digitais, coordenado pelo Oxford Internet Institute e pelo WZB Berlin Social Science Centre. A pesquisa, feita em 27 pa\u00edses, estabelece cinco crit\u00e9rios para mensurar o \u201ctrabalho decente\u201d. Na an\u00e1lise, em uma escala que vai de 0 a 10, o iFood tirou nota 2.<\/p>\n<p><strong>Outro lado<\/strong><br \/>\nA reportagem procurou todas as empresas e pessoas citadas na reportagem, se colocando \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para ouvi-las por meio de entrevista, nota ou liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica. Lu\u00eds Fl\u00e1vio Guimar\u00e3es respondeu que os esclarecimentos em seu nome seriam feitos por representante da Benjamim Comunica\u00e7\u00e3o. Moriael Paiva foi procurado por telefone, mensagens instant\u00e2neas e e-mail mas n\u00e3o retornou \u00e0 reportagem.<\/p>\n<p>As ag\u00eancias Benjamim Comunica\u00e7\u00e3o e Social Qi foram procuradas via telefone e email. Por telefone, Andr\u00e9 Pontes, representante da Benjamim afirmou \u00e0 reportagem que a ag\u00eancia possui contrato de monitoramento de redes com o iFood desde setembro de 2020. \u201cO nosso trabalho com iFood \u2014 e a\u00ed eu posso falar at\u00e9 certo ponto, porque existe uma cl\u00e1usula de confidencialidade com o iFood, justamente por causa de concorrentes deles como rappi, loggi, etc\u2026Pro iFood n\u00f3s temos um monitoramento, que a gente monitora todas as redes que dizem respeito ao cluster deles\u201d.<\/p>\n<p>Em nota, a Benjamim Comunica\u00e7\u00e3o declarou: \u201cA Ag\u00eancia de Comunica\u00e7\u00e3o Benjamim foi contratada pelo iFood para realizar pesquisa de opini\u00e3o e monitoramento de postagens nas redes sociais e tem em seu escopo ouvir assuntos ligados ao ecossistema do food delivery.<\/p>\n<p>A Ag\u00eancia de Comunica\u00e7\u00e3o Benjamim recebe constantemente propostas solicitadas e n\u00e3o solicitadas de diferentes ag\u00eancias de comunica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o aprovou junto ao iFood ideias ou campanhas propostas pela Social QI, sua subcontratada por um curto per\u00edodo em 2021 para monitoramento de redes sociais para diversos clientes. A reportagem da <em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em> n\u00e3o permitiu acesso aos supostos documentos que foram oriundos da Social QI. Estranhamos uma reportagem que n\u00e3o tenha uma checagem dupla, com v\u00e1rias fontes, para autenticidade de supostas den\u00fancias.<\/p>\n<p>A Benjamim n\u00e3o concorda com pr\u00e1ticas como produ\u00e7\u00e3o de fake news, uso de bots ou perfis falsos para intera\u00e7\u00f5es ou compra de likes e seguidores, sempre realizando seu trabalho dentro da legalidade.\u201d<\/p>\n<p>A ag\u00eancia Social Qi retornou \u00e0 reportagem via nota, copiada na \u00edntegra: \u201cA Social QI \u00e9 uma ag\u00eancia de marketing digital que faz monitoramento de redes sociais e a\u00e7\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o para clientes em todo o pa\u00eds. \u00c9 pr\u00e1tica do mercado fazer propostas para clientes atuais ou em prospec\u00e7\u00e3o, sugerindo a\u00e7\u00f5es, sempre respeitando os limites legais, que podem ou n\u00e3o serem aprovados ou realizados pelos clientes.<\/p>\n<p>Como a reportagem n\u00e3o disponibilizou o acesso requisitado aos materiais mencionados, n\u00e3o pudemos sequer verificar sua autenticidade, muito menos tecer coment\u00e1rios sobre seu suposto teor, que pode ter sido alvo de edi\u00e7\u00f5es, manipula\u00e7\u00f5es e adultera\u00e7\u00f5es de um ex-funcion\u00e1rio, por exemplo.<\/p>\n<p>No desenvolvimento de nossos neg\u00f3cios, realizamos diversos trabalhos em parceria com a Ag\u00eancia Benjamin, inclusive propondo poss\u00edveis a\u00e7\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o para seus clientes. Nesse contexto, fomos contratados pela Benjamin em 2021 para realizar monitoramento de redes sociais sobre o mercado de entrega de refei\u00e7\u00f5es no Brasil, e apresentamos propostas de trabalho, que n\u00e3o necessariamente foram aprovadas pela ag\u00eancia.<\/p>\n<p>Baseado apenas pelas perguntas enviadas pela reportagem, supomos que a Ag\u00eancia P\u00fablica esteja fazendo refer\u00eancia a uma poss\u00edvel proposta de trabalho que a Social QI sugeriu \u00e0 Benjamin sobre a cria\u00e7\u00e3o de um \u201cmarco regulat\u00f3rio\u201d, a qual n\u00e3o foi aprovada pela ag\u00eancia e, portanto, n\u00e3o foi realizada.\u201d<\/p>\n<p>A reportagem tamb\u00e9m buscou contato com o iFood, que retornou via nota, reproduzida na \u00edntegra: \u201cA respeito da solicita\u00e7\u00e3o da <em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em>, o iFood informa que n\u00e3o teve acesso aos documentos mencionados e, portanto, n\u00e3o pode opinar sobre o conte\u00fado destes. A empresa recebe regularmente abordagens e propostas de campanhas de diversas ag\u00eancias de comunica\u00e7\u00e3o, por\u00e9m nunca teve rela\u00e7\u00e3o comercial com a empresa SocialQi.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o do iFood nas redes sociais se d\u00e1 estritamente dentro da legalidade, n\u00e3o compactuando com o uso de perfis falsos, gera\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es falsas, automa\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00f5es por uso de rob\u00f4s ou compra de seguidores.<\/p>\n<p>O iFood realiza suas comunica\u00e7\u00f5es institucionais apenas por seus canais oficiais e contrata ag\u00eancias, como a Benjamim Digital, especializadas em pesquisa de opini\u00e3o, campanhas de comunica\u00e7\u00e3o e monitoramento de redes sociais que acompanham temas em diferentes plataformas.\u201d<\/p>\n<p>A <em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em>\u00a0(e <strong>Notibras<\/strong>) se mant\u00eam abertos a receber novos esclarecimentos dos citados na reportagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De colete preto e cal\u00e7a verde-escura no estilo militar, um homem de cerca de 40 anos perambulava em frente ao est\u00e1dio do Pacaembu, em S\u00e3o Paulo, ao redor de um grupo de entregadores que protestava contra as condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos aplicativos de delivery, no dia 16 de abril de 2021. 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