{"id":283716,"date":"2022-04-12T16:21:05","date_gmt":"2022-04-12T19:21:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=283716"},"modified":"2022-04-12T16:21:52","modified_gmt":"2022-04-12T19:21:52","slug":"se-nada-mudar-no-pos-eleicao-o-que-sobrara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/se-nada-mudar-no-pos-eleicao-o-que-sobrara\/","title":{"rendered":"Se nada mudar no p\u00f3s-elei\u00e7\u00e3o, o que sobrar\u00e1?"},"content":{"rendered":"<p>Duvidosamente se atribui a Abraham Lincoln, o 16\u00ba. presidente dos Estados Unidos a autoria da c\u00e9lebre cita\u00e7\u00e3o \u201cQuer conhecer o car\u00e1ter de uma pessoa? D\u00ea-lhe poder\u201d. Partilhadas nas redes sociais em variados idiomas e normalmente lembrada por ditos honestos pressionados a criticar ditos desonestos, tais palavras come\u00e7am a ter sentido cristalinamente verdadeiro quando proferidas por meio de met\u00e1foras. S\u00e3o formas imprecisas de dizer exatamente aquilo que se quer. Irrelevante a autoria da frase. Importante \u00e9 que a refer\u00eancia seja sempre a Lincoln, mandat\u00e1rio que, tendo poder quase absoluto, jamais abusou dele. E, conforme os historiadores, quando abusou foi para a miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Nos dias atuais, a amplia\u00e7\u00e3o da express\u00e3o \u00e9 o que preocupa todos que pregam a paz e prezam pela liberdade. Atualizada pelo escritor baiano Aislan Dlano, a locu\u00e7\u00e3o ganhou um adendo bem interessante: \u201cQuer conhecer uma pessoa d\u00ea poder a ela, mas se, em si, quiser verdadeiramente conhec\u00ea-la, retire o poder dela\u201d. N\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia a quadra que vivemos, na qual o discurso de um dos protagonistas da disputa eleitoral se mostra cada vez mais distante de sua realidade pol\u00edtica. Sentir o est\u00f4mago embrulhado apenas por ter de seguir a Constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00e9 o mesmo que abominar, desprezar, sentir nojo dos brasileiros que, por raz\u00f5es diversas, preferem n\u00e3o rezar de acordo com as normas de sua cartilha.<\/p>\n<p>Lendo Mahatma Ghandi, desde menino aprendi que temos de ser o espelho das mudan\u00e7as que propomos. Se queremos mudar, precisamos come\u00e7ar por n\u00f3s mesmos. Antes da fase adulta, experimentei no seio familiar a tese de que quem n\u00e3o \u00e9 capaz de governar a si jamais conseguir\u00e1 governar os outros. Convictamente com capacidade, mas supostamente com liberdade para expressar minhas teimosas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas contr\u00e1rias \u00e0 tirania, estou convencido de que nosso futuro depender\u00e1 daquilo que fazemos no presente. E o que temos feito para que nos sintamos orgulhosos nos pr\u00f3ximos anos, d\u00e9cadas, s\u00e9culos ou encarna\u00e7\u00f5es? E o que deixaremos como pilar para as gera\u00e7\u00f5es que nos sucederem?<\/p>\n<p>Se nada mudar, o que sobrar\u00e1 do Brasil? Provavelmente uma na\u00e7\u00e3o corro\u00edda, dividida, desumana, incoerente e com uma popula\u00e7\u00e3o desprovida de princ\u00edpios, fraca de car\u00e1ter e absolutamente governada a partir de cercadinhos insubordinados e ativamente afinados com os usurpadores do poder. N\u00e3o tenho mais medo do que nos espera, na medida em que o \u00f3bvio se tornou t\u00e3o ululante que votar deixou de ser o principal passo para a democracia garantidora de liberdades. A moda agora \u00e9 separar o eleitorado nacional entre bons e maus. N\u00e3o sei qual \u00e9 o crit\u00e9rio, mas adoraria descobrir um amigo que conhe\u00e7a um amigo que j\u00e1 ouviu de outro amigo o que, na pr\u00e1tica, significa essa decantada \u201cguerra\u201d do bem contra o mal.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que essa hist\u00f3ria representa um retorno a 1964? Fiquem tranquilos, pois prometi a mim mesmo jamais voltar a fazer qualquer refer\u00eancia \u00e0 Redentora, eufemismo para o golpe militar daquele ano. Refiro-me simbolicamente ao filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, considerado um marco do cinema novo. Naquela \u00e9poca, tamb\u00e9m 1964, o cineasta baiano tratava de duas formas de contesta\u00e7\u00e3o social diante do descaso das autoridades, prejudicando a vida dos sertanejos: o messianismo e o canga\u00e7o, que, respectivamente, representavam Deus e o Diabo.<\/p>\n<p>Guardadas as devidas coincid\u00eancias, o messianismo \u00e9 justamente a cren\u00e7a na vida (ou no retorno) de um enviado divino, um libertador, um messias em defesa das causas de um povo ou grupo oprimido. Quanto ao canga\u00e7o, o poder tamb\u00e9m corrompeu seus representantes. Voltando a tal \u201cguerra\u201d, ser\u00e1 que sou do mal porque n\u00e3o consigo votar em quem se diz do bem? Ser\u00e1 que aqueles que odeiam a democracia formam no time do bem? Sei l\u00e1. O que sei \u00e9 que tanto o suposto bem quanto o apelidado de mau tiveram o mesmo poder (o de presidente) e n\u00e3o aproveitaram. Por isso, entre Deus e o Diabo na forma como s\u00e3o apresentados, prefiro minha f\u00e9. Essa \u00e9 s\u00e9ria, confi\u00e1vel e inabal\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duvidosamente se atribui a Abraham Lincoln, o 16\u00ba. presidente dos Estados Unidos a autoria da c\u00e9lebre cita\u00e7\u00e3o \u201cQuer conhecer o car\u00e1ter de uma pessoa? D\u00ea-lhe poder\u201d. 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