{"id":283951,"date":"2022-04-16T02:20:06","date_gmt":"2022-04-16T05:20:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=283951"},"modified":"2022-04-16T06:54:31","modified_gmt":"2022-04-16T09:54:31","slug":"brasil-enterra-o-bolsonarismo-ou-sera-enterrado-junto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-enterra-o-bolsonarismo-ou-sera-enterrado-junto\/","title":{"rendered":"Brasil enterra o bolsonarismo ou ser\u00e1 enterrado junto"},"content":{"rendered":"<p>A pol\u00edtica \u00e9 o encontro do desej\u00e1vel com o poss\u00edvel e o necess\u00e1rio (ou contingente). Nem sempre esses tr\u00eas elementos se d\u00e3o as m\u00e3os. A boa ci\u00eancia est\u00e1 em optar pelo melhor poss\u00edvel quando as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o desfavor\u00e1veis. Ou seja, fazer do lim\u00e3o uma limonada, sem, todavia, renunciar ao estrat\u00e9gico (o desejo), mas lutando sempre pela altera\u00e7\u00e3o da conting\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 o exemplo que nos oferecem a luta e vida de Nelson Mandela, contrapostas \u00e0 entrega voluntarista de Che Guevara. Nesta quadra brasileira, nenhum socialista pode, fora do del\u00edrio, antever a possibilidade da revolu\u00e7\u00e3o social, nosso leitmotiv. Diante de n\u00f3s, a realidade exp\u00f5e os limites de uma peleja limitada \u00e0 defesa da ordem democr\u00e1tico-burguesa que herdamos dos constituintes de 1988. Nem por isso podemos renunciar \u00e0 politica, muito menos \u00e0 luta estrat\u00e9gica, sonho ou utopia.<\/p>\n<p>Caso avancemos eleitoralmente em 2022 \u2013 se para tanto ajudar-nos o engenho e arte ausente em outras oportunidades, lograremos tamb\u00e9m afastar da ordem do dia o projeto protofascista que nos amea\u00e7a desde 2016, uma amea\u00e7a tanto presente quanto grave, quando n\u00e3o mais nos \u00e9 dado ignorar sua identifica\u00e7\u00e3o com ponder\u00e1veis camadas de nosso povo, para al\u00e9m da casa-grande. A emerg\u00eancia dessa pe\u00e7onha ao poder, fato por si grave, cresce em riscos para a democracia e o progresso social, na medida em que o neofascismo continua crescendo no mundo, nomeadamente na Europa (Fran\u00e7a e It\u00e1lia, Hungria, Pol\u00f4nia e demais pa\u00edses do Leste europeu,) e nos EUA \u2013 agora em plena campanha belicista, que nos levar\u00e1 a uma guerra cujas propor\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser definidas, mas que, desafortunadamente, n\u00e3o poupar\u00e1 mesmo a periferia do capitalismo, aparentemente situada fora do teatro das conflagra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>ascens\u00e3o do pensamento e da a\u00e7\u00e3o de extrema-direita no Brasil n\u00e3o deve ser vista como uma excepcionalidade, posto que simplesmente reproduz a pr\u00f3pria hist\u00f3ria de nossa forma\u00e7\u00e3o social, fundada no escravismo, no autoritarismo e no imp\u00e9rio da casa-grande, o poder dos 1% de brancos ricos que nos governam desde a col\u00f4nia, com uma f\u00e9rtil varia\u00e7\u00e3o de nomes e regimes, que, todavia, jamais altera o mando e a sotoposi\u00e7\u00e3o das grandes massas.<\/p>\n<p>a curta vida republicana j\u00e1 conhecemos um sem n\u00famero de golpes de Estado levados a cabo pela direita contra os interesses dos trabalhadores, e duas longevas ditaduras, o Estado Novo de Vargas (1937-1945), e o recente mandarinato militar (1964-1985), cujas piores heran\u00e7as s\u00e3o cultuadas pelo capit\u00e3o governante e seu s\u00e9quito de engalanados. A quest\u00e3o urgente e ingente que se coloca pela realidade, retardando a frente de esquerda e o projeto socialista, \u00e9, pois, ainda, a frente ampla necess\u00e1ria eleitoralmente para derrotar a alian\u00e7a civil-militar que amea\u00e7a a democracia, os direitos dos trabalhadores e a soberania nacional. A consolida\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \u00e9 conditio sine qua non da defesa dos interesses dos trabalhadores.<\/p>\n<p>nessa conting\u00eancia que nos encontramos presentemente, e \u00e9 nela que somos chamados a atuar como uma das for\u00e7as em confronto. Cabe-nos, conscientes sempre de que as elei\u00e7\u00f5es (nada obstante importantes e imprescind\u00edveis) s\u00e3o apenas um dos muitos espa\u00e7os da batalha pol\u00edtica, lutarmos, alargando as brechas poss\u00edveis, em defesa dos interesses dos trabalhadores e do pa\u00eds. Ou seja, cabe-nos fazer da campanha eleitoral um momento de educa\u00e7\u00e3o das massas e de proselitismo socialista, \u00e0 esquerda da campanha do PT. N\u00e3o \u00e9 muito, nem \u00e9 pouco. \u00c9 o poss\u00edvel, hoje. A alternativa \u00e9 o niilismo ou a aliena\u00e7\u00e3o paranoica dos que confundem o sonho com a realidade. Onirismo que na pol\u00edtica \u00e9 sin\u00f4nimo de fracasso, de que certamente se lamentam hoje as for\u00e7as progressistas francesas, assistindo, pela terceira vez seguida, o pleito presidencial cingir-se \u00e0 disputa entre a direita e a extrema-direita, quando a unidade das for\u00e7as socialistas e de esquerda teria assegurado a presen\u00e7a de um socialista no debate e na disputa, Jean-Luc M\u00e9lenchon, que logrou avan\u00e7ar eleitoralmente sem fazer concess\u00f5es ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Aqui, fracassadas as inumer\u00e1veis tentativas de construir uma candidatura de &#8220;centro&#8221; (subsumido pelo lulismo), o pleito marchar\u00e1 inevitavelmente para a polariza\u00e7\u00e3o centro-esquerda x extrema-direita, democracia x ditadura, o que predefine o papel dos socialistas que \u00e9, na campanha de Lula, fazer o discurso da esquerda, discurso que, condicionado pelas circunst\u00e2ncias eleitorais, o antigo l\u00edder sindical n\u00e3o pode mais fazer.<\/p>\n<p>Desvanecido o sonho, o Lula de 2022, e sua campanha, \u00e9 o poss\u00edvel que se tornou necess\u00e1rio; nosso papel, das esquerdas, \u00e9, pois, fazer dessa probabilidade uma certeza: o eventual terceiro governo do ex-presidente, por\u00e9m, nada obstante as limita\u00e7\u00f5es impostas pelo processo social, ser\u00e1 uma obra em constru\u00e7\u00e3o, de que deveremos participar, pois refletir\u00e1 o n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o do movimento popular, que ser\u00e1, de igual modo, a garantia da sustenta\u00e7\u00e3o do governo, aquela que faltou ao segundo governo Dilma, possibilitando o golpe de Estado e a ascens\u00e3o da direita ao poder.<\/p>\n<p>Em outras palavras, se \u00e9 certo que o poss\u00edvel futuro governo, uma coaliz\u00e3o que vai da direita \u00e0 esquerda, n\u00e3o poder\u00e1 corresponder ao projeto dos socialistas, cumprir\u00e1 a estes lutar pela vit\u00f3ria do projeto eleitoral, assegurar a defesa do governo para nele influir visando \u00e0 maior abertura pol\u00edtico-social, de particular na prote\u00e7\u00e3o dos direitos dos trabalhadores, na luta contra a desigualdade social e a defesa da soberania nacional. Estas tr\u00eas e cruciais tarefas, \u00e0s quais se soma o combate \u00e0 direita civil e militar, golpista, e o desmantelamento das mil\u00edcias, depender\u00e3o de uma quest\u00e3o prim\u00e1ria na pol\u00edtica, a saber, a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na composi\u00e7\u00e3o do poder. Nossa capacidade de influ\u00eancia (disputada legitimamente com outras for\u00e7as) ser\u00e1 medida pela nossa capacidade de organiza\u00e7\u00e3o das massas, exerc\u00edcio ao qual os socialistas, bem como os trabalhistas e a esquerda de um modo geral, de h\u00e1 muito abdicaram.<\/p>\n<p>As conhecidas manobras de Lula repetem a estrat\u00e9gia de 2002: preparar a governan\u00e7a ainda na campanha eleitoral, inaugurada com a escolha de um empres\u00e1rio para compor a chapa e com a &#8220;Carta aos brasileiros&#8221;, que agora se diz dispens\u00e1vel. \u00c0quela carta-compromisso, com a qual o candidato procurava aplainar os temores da casa-grande, seguiram-se as nomea\u00e7\u00f5es de um funcion\u00e1rio do Banco de Boston para a presid\u00eancia do Banco Central, de um s\u00f3cio da Sadia para o minist\u00e9rio da ind\u00fastria e com\u00e9rcio, e de um graduado l\u00edder do agroneg\u00f3cio para o minist\u00e9rio da agricultura.<\/p>\n<p>A nenhum de n\u00f3s agradaram essas iniciativas, mas como dizer agora que constitu\u00edram op\u00e7\u00e3o equivocada, se mesmo assim seu governo n\u00e3o foi uma est\u00e2ncia em Pass\u00e1rgada? Pois sabemos que em 2005 Lula teve amea\u00e7ada a estabilidade do governo, salva pela lealdade de Jos\u00e9 Alencar, um brasileiro de primeira \u00e1gua, a que se soma o erro de c\u00e1lculo do PSDB, que, convencido do desgaste irremedi\u00e1vel do presidente, apostou em seu fim por si mesmo: &#8220;Vamos deix\u00e1-lo sangrar&#8221;, sentenciaram os cardeais do tucanato. Ao inv\u00e9s de deixar-se imolar, Lula foi ao encontro do seu eleitorado e recolheu o apoio que tornou vazias as articula\u00e7\u00f5es golpistas. Para ganhar as elei\u00e7\u00f5es e conservar a governan\u00e7a, ser\u00e1 fundamental a organiza\u00e7\u00e3o dos n\u00facleos populares, politizados, e assim em condi\u00e7\u00f5es de ser mobilizados.<\/p>\n<p>Lula sabe que ser\u00e1 dif\u00edcil governar, agora mais que antes. O quadro internacional, de guerra e polaridade pol\u00edtica e militar, j\u00e1 aponta para grave crise econ\u00f4mica que n\u00e3o nos poupar\u00e1, nem aos nossos vizinhos nem aos nossos principais parceiros comerciais e pol\u00edticos; e o fantasma que assombra o mundo \u00e9 uma recess\u00e3o associada a uma onda inflacion\u00e1ria, que nos EUA j\u00e1 alcan\u00e7a \u00edndices s\u00f3 conhecidos em 1981. De outra parte, o novo governo encontrar\u00e1 a economia nacional depauperada, em acelerado processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o; alto \u00edndice de desemprego; desorganiza\u00e7\u00e3o geral do servi\u00e7o p\u00fablico; desmonte do Estado; venda de estatais estrat\u00e9gicas na bacia das almas.<\/p>\n<p>For\u00e7as militares, partidarizadas, facciosas, armando-se com Viagra e pr\u00f3teses penianas, corrup\u00e7\u00e3o \u00e0 solta, uma imprensa un\u00edssona e adversa, uma classe dominante ardilosa e um Congresso do qual n\u00e3o se deve esperar colabora\u00e7\u00e3o. Porque, desgra\u00e7adamente, a pr\u00f3xima legislatura dificilmente diferir\u00e1 da atual, em sua poltronice e absoluta aus\u00eancia de esp\u00edrito p\u00fablico, pois, para esse objetivo, o planalto abriu as burras do Estado distribuindo milh\u00f5es de reais (os que faltam para a educa\u00e7\u00e3o, a ci\u00eancia e tecnologia, ao SUS, e ao saneamento b\u00e1sica) para o financiamento das elei\u00e7\u00f5es de deputados e senadores a servi\u00e7o do pior da pol\u00edtica, t\u00e3o bem representado pelo atual presidente da C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p>Este \u00e9 outro desafio: como mudar a fei\u00e7\u00e3o do atual parlamento brasileiro, se as for\u00e7as populares n\u00e3o se dedicarem ao trabalho permanente de educa\u00e7\u00e3o das massas?<\/p>\n<p><strong>*Ex-ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pol\u00edtica \u00e9 o encontro do desej\u00e1vel com o poss\u00edvel e o necess\u00e1rio (ou contingente). 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