{"id":284233,"date":"2022-04-21T07:29:27","date_gmt":"2022-04-21T10:29:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=284233"},"modified":"2022-04-21T07:30:40","modified_gmt":"2022-04-21T10:30:40","slug":"brasilia-62-anos-onde-se-vive-mais-do-que-se-imagina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasilia-62-anos-onde-se-vive-mais-do-que-se-imagina\/","title":{"rendered":"Bras\u00edlia, 62 anos, onde se vive mais do que se imagina"},"content":{"rendered":"<p>Em Bras\u00edlia, 19h.<\/p>\n<p>A famosa frase que abre o programa a Voz do Brasil anuncia o hor\u00e1rio oficial do pa\u00eds e desperta uma curiosidade. Afinal, como \u00e9 a vida na capital, al\u00e9m do trabalho nos minist\u00e9rios e autarquias federais?<\/p>\n<p>Na rodovi\u00e1ria da cidade, na hora de voltar para casa, percebe-se uma cidade se move, se ouve. Na escada rolante. Na escada est\u00e1tica. Em movimentos, pela disputa pelo metro quadrado.<\/p>\n<p>&#8211; Olha o amendoim. Um real. Baratinho &#8211; grita a vendedora Luciana Azevedo, de 35 anos.<\/p>\n<p>&#8211; Olha a bolsa. Olha a mochila novinha &#8211; oferece Ambr\u00f3sio Santos, de 49, \u00e0 fila que se formou.<\/p>\n<p>&#8211; Compro ouro, compro ouro &#8211; clama Thiago Neri, de 21.<\/p>\n<p>Todos querem chegar \u00e0 fila para o pr\u00f3ximo \u00f4nibus. \u201cCorre para n\u00e3o perder a vez\u201d, gritam da janela de um dos carros. \u201cOlha a fila\u201d. O \u00f4nibus aquece. A luz do dia vai se apagando. \u201cOlha a fila. Vamos! Quero ir pra casa, mo\u00e7o!\u201d, diz a padeira Claudia Azevedo, de 50 anos<\/p>\n<p>H\u00e1 pressa nos olhares e nos passos. Chegadas e partidas nas caminhadas feitas em filas, em linhas retas, em corridas curvas. H\u00e1 pressa, mas tamb\u00e9m \u00e9 preciso moderar o passo, como em um cortejo, para n\u00e3o pisar o p\u00e9 da frente. Esses passos corridos fazem o som que compete com o barulho dos motores dos \u00f4nibus. O cheiro da fuma\u00e7a dos coletivos se mistura com o da pipoca, do amendoim, do pastel, do tacho de cocada\u2026 \u00e9 a volta para casa na terceira metr\u00f3pole brasileira, de mais de 3 milh\u00f5es de habitantes, onde transitam cerca de 1,9 milh\u00e3o de ve\u00edculos, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>A Rodovi\u00e1ria do Plano Piloto \u00e9 um terminal de \u00f4nibus de pelo menos 284 linhas que rodam no Distrito Federal e cidades do Entorno de estados vizinhos. \u00c9 como uma cidade por onde passam 700 mil pessoas por dia. Fica exatamente no cora\u00e7\u00e3o da cidade, no centro das asas Sul e Norte, do Plano Piloto fundado em 1960. Est\u00e1 no cruzamento do eixos Monumental e Rodovi\u00e1rio, com vista para a Esplanada dos Minist\u00e9rios. \u00c9 como um espelho que reflete corres e lutas que humanizam aquela que parece ser apenas uma cidade administrativa. No anoitecer, o cora\u00e7\u00e3o da capital pulsa forte.<\/p>\n<p>O arquiteto Lucio Costa, que projetou a \u201ccapital da esperan\u00e7a\u201d, se surpreendeu quando voltou \u00e0 Bras\u00edlia, na d\u00e9cada de 1980, e deparou-se com a rodovi\u00e1ria. \u201cAo inv\u00e9s daquele centro cosmopolita requintado que eu tinha elaborado, [a plataforma] tinha sido ocupada pela popula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica, a popula\u00e7\u00e3o daqueles candangos que trabalham em Bras\u00edlia\u201d, constatou. \u201cO povo dando vida, dando sangue, dando suor, dando suas l\u00e1grimas. Esse foi um grande momento da cria\u00e7\u00e3o do projeto e da realidade que o pr\u00f3prio L\u00facio Costa viu. Foi um tsunami de emo\u00e7\u00e3o do grande urbanista\u201d, contextualiza o professor de urbanismo Frederico Fl\u00f3sculo, em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p>Hoje, aos 62 anos de Bras\u00edlia &#8211; completados nesta quinta-feira (21) -, Fl\u00f3sculo entende que a periferia deva ser respeitada e reconhecida na hist\u00f3ria da cidade. \u201cN\u00f3s n\u00e3o temos uma periferia: aqui n\u00f3s temos uma centralidade de povo, que ergueu uma esp\u00e9cie de altar em sacrif\u00edcio \u00e0 essa coisa cotidiana de fazer a cidade\u201d.<\/p>\n<p>Faz a cidade de Bras\u00edlia a paraibana Claudia Azevedo, de 50 anos, na fila \u00e0 espera pelo \u00f4nibus para a Asa Norte. Ela deixou Jo\u00e3o Pessoa para mudar de vida no Distrito Federal &#8211; um sonho concretizado em 1986. Foi morar na Cidade Ocidental, a 50 quil\u00f4metros da capital. Foi cuidadora de idoso. Foi dom\u00e9stica. Foi feliz. No \u00faltimo emprego, aprendeu a fazer p\u00e3o artesanal e virou padeira. Para isso, acostumou-se com a madrugada. Para chegar cedo ao trabalho, acorda \u00e0s 4h. Vai para a rodovi\u00e1ria e ruma para a padaria. \u201cO p\u00e3o demora dez horas para ser feito. \u00c9 por fermenta\u00e7\u00e3o natural. Fazer p\u00e3o \u00e9 como uma terapia. Na verdade, Bras\u00edlia me deu muitas oportunidades\u201d. Ela organiza-se para ir para casa \u00e0s 19h.<\/p>\n<p>Depois de um dia inteiro na lida atento, o seguran\u00e7a pernambucano Ant\u00f4nio Silva, de 59 anos, tamb\u00e9m n\u00e3o v\u00ea a hora de chegar em casa. Est\u00e1 com os olhos cansados e n\u00e3o quer saber de foto. Ainda est\u00e1 de palet\u00f3 e gravata (agora um pouco afrouxada de final de dia). Conversa baixo enquanto percorre o caminho \u00e0 escada do \u00f4nibus. H\u00e1 30 anos, deixou Bet\u00e2nia (PE). Hoje vive com os dois filhos e tr\u00eas netos no Parano\u00e1, regi\u00e3o administrativa que cresceu ao redor do canteiro de obras para a constru\u00e7\u00e3o da barragem.<\/p>\n<p>Dezenove horas \u00e9 o fim do expediente tamb\u00e9m para o vendedor de bolsas e mochilas Ambr\u00f3sio Santos, de 49. Em 2012, ele deixou a cidade de S\u00e3o Domingos do Maranh\u00e3o (MA), com a fam\u00edlia. Foram 24 horas de \u00f4nibus ou 1,7 mil quil\u00f4metros, para, sem arrependimentos, tentar a vida. Hoje, mora na Ceil\u00e2ndia, a maior regi\u00e3o administrativa do Distrito Federal, com 450 mil habitantes. No \u00f4nibus, carrega a marmita para n\u00e3o pesar no or\u00e7amento gastos com restaurante. \u201cAprendi a gostar daqui. Meus filhos s\u00e3o adultos e est\u00e3o fazendo faculdade. Dependem ainda de mim\u201d, explica, na \u00e1rea do t\u00e9rreo da plataforma.<\/p>\n<p>L\u00e1 acima da escada rolante, a vendedora Luciana Azevedo, de 35 anos, tamb\u00e9m n\u00e3o se arrepende de ter deixado a cidade de Patos (PB) h\u00e1 dois anos. Hoje, vende canudos de amendoim no final da escada rolante \u201cpara completar a renda\u201d. J\u00e1 trabalhou como dom\u00e9stica e ainda tem sonhos. Quer ter o pr\u00f3prio sal\u00e3o de beleza. Hoje, vende o amendoim por R$ 1, das 14h \u00e0s 19h. \u201cConfio porque \u00e9 uma terra de oportunidades. Meu marido \u00e9 porteiro e um dia queremos viver melhor\u201d.<\/p>\n<p>O cheiro do amendoim no alto da plataforma mistura-se ao da cocada e do quebra-queixo no carrinho da comerciante brasiliense Milena Souza, de 21 anos. Mistura-se ainda o presente e o sonho de futuro: fazer um concurso para a Pol\u00edcia Civil. O estudo soma-se \u00e0 rotina de preparo do coco com a\u00e7\u00facar, que dura at\u00e9 duas horas e precisa ficar pronto para a manh\u00e3 seguinte. \u201cSonhar n\u00e3o custa nada. N\u00e3o vou desistir\u201d<\/p>\n<p>Com tamb\u00e9m dois expedientes, a recepcionista brasiliense Lucineide Cardoso, de 39 anos, aproveita o hor\u00e1rio de pico para fazer um bico at\u00e9 \u00e0s 19h. Ela entrega jornal gratuito na subida da escada rolante. \u201cQuando termina essa montanha, pego o \u00f4nibus para casa, baita tr\u00e2nsito para o Parano\u00e1\u201d. Chega \u00e0s 20h, quando busca as novidades que n\u00e3o est\u00e3o no jornal que ela distribui nem na r\u00e1dio que toca no \u00f4nibus. \u201cAs minhas filhas me esperam para contar como foi o dia. A\u00ed passa at\u00e9 o cansa\u00e7o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Bras\u00edlia, 19h. 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