{"id":284505,"date":"2022-04-26T13:03:13","date_gmt":"2022-04-26T16:03:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=284505"},"modified":"2022-04-26T14:32:18","modified_gmt":"2022-04-26T17:32:18","slug":"esta-longe-o-dia-em-que-o-brasil-se-tornara-um-pais-serio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/esta-longe-o-dia-em-que-o-brasil-se-tornara-um-pais-serio\/","title":{"rendered":"Est\u00e1 longe o dia em que o Brasil se tornar\u00e1 um pa\u00eds s\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p>Uma das declara\u00e7\u00f5es mais conhecidas e repetidas dentro e fora do pa\u00eds completou 59 neste 2022. Narra a hist\u00f3ria que, entre fevereiro e mar\u00e7o de 1963, durante um incidente diplom\u00e1tico entre Brasil e Fran\u00e7a relativo \u00e0 pesca de lagostas, houve um pequeno estremecimento nas rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses e popularizou-se a frase O Brasil n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds s\u00e9rio, atribu\u00edda equivocadamente ao general Charles De Gaulle, ent\u00e3o presidente franc\u00eas. O equ\u00edvoco \u00e9 nebuloso, mas o diplomata Carlos Alves de Souza, \u00e0 \u00e9poca embaixador do Brasil na Fran\u00e7a, se assumiu como autor da express\u00e3o em 1979. A forma como foi dita e as raz\u00f5es pelas quais chegaram a De Gaulle s\u00e3o irrelevantes.<\/p>\n<p>Relevante \u00e9 que ela n\u00e3o foi inventada e que at\u00e9 hoje faz parte do anedot\u00e1rio pol\u00edtico nacional como verdade quase absoluta. \u00c0s vezes, lembra um autorretrato sem moldura da maioria dos brasileiros, principalmente daqueles que se orgulham das ofensas a quem lhes incomodam. \u00c9 o caso da briguinha de quinta s\u00e9rie entre o presidente da Rep\u00fablica e o Poder Judici\u00e1rio, notadamente o Supremo Tribunal Federal. Briguinha porque todos sabem de quem \u00e9 a \u00faltima palavra sobre leis. Est\u00e1 na Constitui\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 que ainda existem patriotas que acham bonito ser feio? Claro que a feiura em quest\u00e3o \u00e9 metaf\u00f3rica, mas se aplica perfeitamente aos apoiadores de um governante que n\u00e3o admite ser contrariado.<\/p>\n<p>Mesmo entre os poderosos que nos recebem como favor, nossa imagem \u00e9 a pior de todos os tempos. \u00c9 a imagem de republiqueta de bananas podres. Em verdade, passamos de celeiro e de pulm\u00e3o do mundo para uma na\u00e7\u00e3o da qual, temporariamente, muitos querem dist\u00e2ncia. E o que dizer de n\u00f3s, brasileiros? As portas n\u00e3o podem ser fechadas. \u00c9 o direito sagrado de ir e vir. No entanto, elas deixaram de estar escancaradas como dantes. Cansaram de n\u00f3s, notadamente dos 30% que insistem em defender a tirania e a exclus\u00e3o como formas de vida. Como s\u00e3o obrigados a nos ver pela frente, viramos t\u00e3o ou mais desimportantes do que os vizinhos da Venezuela.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil exigir respeito a um governo que concede Gra\u00e7a (indulto) a um ex-policial militar eleito deputado federal, mas que jamais se apresentou como parlamentar. Pelo contr\u00e1rio. Musculoso e metido a brabo, prima por afrontar magistrados e amea\u00e7ar quem lhe atravessar o caminho. Mais dif\u00edcil ainda \u00e9 cobrar homenagens e rever\u00eancias a algu\u00e9m que estimula a viol\u00eancia contra as institui\u00e7\u00f5es e protege um malfeitor apenas por se tratar de aliado. E tudo isso em nome da defesa da democracia. Para os governantes s\u00e9rios, isso tem outra denomina\u00e7\u00e3o. Uma coisa \u00e9 defender uma ideologia, outra coisa \u00e9 ultrapassar todos os limites do Sistema Democr\u00e1tico de Direito.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que um dia seremos considerados s\u00e9rios? Pode ser. Sou otimista, mas, por enquanto, viajo nos escritos de Fernando Pessoa, mais precisamente nos pensamentos de \u00c1lvaro Campos, um dos heter\u00f4nimos do mais universal poeta portugu\u00eas. Datado de janeiro de 1928, se fosse concebido hoje o poema Tabacaria nos mergulharia nas profundezas da ang\u00fastia e do pessimismo. Seria o retrato mais fiel do cansa\u00e7o e da inquieta\u00e7\u00e3o diante do incompreens\u00edvel. \u201cN\u00e3o sou nada. Nunca serei nada. N\u00e3o posso querer ser nada. \u00c0 parte isso, tem hoje em mim todos os sonhos do mundo&#8230;Que sei eu do que serei, eu que n\u00e3o sei o que sou? Fiz de mim o que n\u00e3o soube. E o que podia fazer de mim n\u00e3o o fiz&#8221;.<\/p>\n<p>De novo cruzando nosso caminho, a Fran\u00e7a, agora de Emmanuel Macron, nos mostra o exemplo a ser seguido. Embora tamb\u00e9m raivosa, a extrema-direita de Marine Le Pen perdeu a elei\u00e7\u00e3o e, apesar de n\u00e3o engolir, soube entender a derrota. Faz parte do processo democr\u00e1tico. Poema do conflito, Tabacaria \u00e9 um resumo cruel do que somos. N\u00e3o precisa ser muito inteligente para percebermos que mudamos, mas nem sempre conseguimos enxergar o que est\u00e1 \u00e0 nossa frente. Pior s\u00e3o os que sequer tentam se alinhar \u00e0s mudan\u00e7as do mundo. A globaliza\u00e7\u00e3o nos imp\u00f4s a obriga\u00e7\u00e3o de interagir, inclusive com quem nos faz mal. Internamente, s\u00f3 seremos s\u00e9rios no dia em que \u201cconseguirmos conquistar com bra\u00e7o forte o penhor dessa igualdade\u201d. Seremos s\u00e9rios quando, em lugar do sono profundo em ber\u00e7o espl\u00eandido, pensarmos no Brasil como m\u00e3e gentil de todos os filhos deste solo. Em s\u00edntese, a frase de De Gaulle continua firme entre n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>*Mathuzal\u00e9m J\u00fanior \u00e9 jornalista profissional desde 1978<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das declara\u00e7\u00f5es mais conhecidas e repetidas dentro e fora do pa\u00eds completou 59 neste 2022. 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