{"id":285522,"date":"2022-05-15T07:00:32","date_gmt":"2022-05-15T10:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=285522"},"modified":"2022-05-15T07:04:27","modified_gmt":"2022-05-15T10:04:27","slug":"inflacao-acelera-com-ou-sem-a-guerra-e-a-pandemia-la-fora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/inflacao-acelera-com-ou-sem-a-guerra-e-a-pandemia-la-fora\/","title":{"rendered":"Infla\u00e7\u00e3o acelera com ou sem a guerra e a pandemia l\u00e1 fora"},"content":{"rendered":"<p>Lista na m\u00e3o, semblante tenso, postura hesitante e carrinho vazio: a ida ao supermercado tornou-se um momento delicado para muitos brasileiros. Fantasma de um passado n\u00e3o t\u00e3o distante, foi chegando sorrateira at\u00e9 se instalar de vez como uma realidade concreta na mesa: a infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 de volta. E vem atingindo com mais for\u00e7a os alimentos.<\/p>\n<p>A justificativa de que a alta dos pre\u00e7os \u00e9 um fen\u00f4meno global vem sendo repetida \u00e0 exaust\u00e3o pelo governo de Jair Bolsonaro, reverberada por seus apoiadores e tamb\u00e9m por boa parte da imprensa brasileira. Mas \u00e9 poss\u00edvel culpar a pandemia, o comportamento das commodities e a guerra na Ucr\u00e2nia pelo descontrole da infla\u00e7\u00e3o dos alimentos no Brasil?<\/p>\n<p>O que a cenoura, a batata, as frutas, a carne, o a\u00e7\u00facar, o \u00f3leo de soja e o caf\u00e9 produzidos e consumidos aqui t\u00eam a ver com isso? Como explicar uma infla\u00e7\u00e3o que parece fora de controle no pa\u00eds que \u00e9 o terceiro maior produtor de alimentos do mundo? Em 16 anos, os alimentos acumulam alta de 230%, bem acima dos 141,5% registrados pelo IPCA neste mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>Embora tenha impactado os pre\u00e7os por aqui, o cen\u00e1rio internacional n\u00e3o d\u00e1 conta de explicar caracter\u00edsticas pr\u00f3prias da infla\u00e7\u00e3o brasileira. A din\u00e2mica de forma\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos alimentos est\u00e1 relacionada, em grande medida, a fatores internos.<\/p>\n<p>Pol\u00edtica cambial, primariza\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio exterior, desindustrializa\u00e7\u00e3o, saldo da balan\u00e7a comercial, concentra\u00e7\u00e3o de terra e mercado de commodities podem soar como um balaio sortido de um econom\u00eas incompreens\u00edvel para a maioria das pessoas.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 o conjunto desses fatores e a interrela\u00e7\u00e3o entre eles que impacta, direta ou indiretamente, o pre\u00e7o e a disponibilidade da comida que chega na mesa. Ou seja, o buraco \u00e9 bem mais embaixo. E, sem entender esse buraco, n\u00e3o h\u00e1 como sair dele. Ali\u00e1s, no curto prazo n\u00e3o h\u00e1 nada no horizonte que permita ter otimismo quanto ao fim desse ciclo inflacion\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o dois problemas conexos, mas distintos. Existe um problema conjuntural externo e existe um problema estrutural brasileiro na pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o do Brasil com o mundo\u201d, avalia Guilherme Delgado, pesquisador aposentado do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) e diretor da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Reforma Agr\u00e1ria (Abra). \u201cDo ponto de vista conjuntural, essa chamada volatilidade dos pre\u00e7os agr\u00edcolas n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade, isso sempre houve. Voc\u00ea tem ciclos de ascens\u00e3o dos pre\u00e7os externos, depois ciclos descencionais. O problema brasileiro essencial \u00e9 que, h\u00e1 pouco mais de duas d\u00e9cadas, o pa\u00eds ingressou em um chamado movimento de primariza\u00e7\u00e3o do seu com\u00e9rcio exterior. Esse \u00e9 o n\u00f3 da quest\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Em linhas gerais, a condu\u00e7\u00e3o do Brasil de volta ao destino hist\u00f3rico de pa\u00eds exportador de produtos prim\u00e1rios (agr\u00edcolas e min\u00e9rios), somado aos efeitos perversos de uma pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal ao longo dos \u00faltimos seis anos, tornaram essa nova press\u00e3o inflacion\u00e1ria muito maior que uma onda, mas um tsunami de efeitos devastadores e consequ\u00eancias de longo prazo.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o, o \u00edndice de pre\u00e7os de alimentos da ONU, calculado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO), atingiu um novo pico, chegando ao pior resultado desde 1974.<\/p>\n<p>O Brasil j\u00e1 aparecia entre os pa\u00edses em desenvolvimento com as piores expectativas de infla\u00e7\u00e3o em todo o mundo, segundo projetou a Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) em setembro do ano passado. A proje\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas se confirmou, como deve se agravar em 2022.<\/p>\n<p>Em abril, o Brasil teve a pior infla\u00e7\u00e3o para o m\u00eas desde 1996, per\u00edodo de implementa\u00e7\u00e3o do Plano Real. No ano, o IPCA acumula alta de 4,29% e, nos \u00faltimos 12 meses, de 12,13%, todos os indicadores muito acima dos resultados anteriores. As maiores altas foram dos transportes, seguido pelo grupo de alimentos e bebidas.<\/p>\n<p><strong>Infla\u00e7\u00e3o de alimentos<\/strong><br \/>\nPara entender por que, mesmo sendo o maior exportador l\u00edquido de alimentos do mundo, o Brasil enfrenta uma alta descontrolada no pre\u00e7o da comida, \u00e9 preciso dar alguns passos atr\u00e1s e olhar o quadro como um todo. E o cen\u00e1rio que se revela n\u00e3o \u00e9 nada bom.<\/p>\n<p>Um dos nove grupos que comp\u00f5em o IPCA \u00e9 o \u00cdndice de Pre\u00e7os de Alimentos e Bebidas (IPAB). Ele se divide entre alimenta\u00e7\u00e3o fora de casa e no domic\u00edlio, que, por sua vez, se subdivide em itens (carne, legumes, etc) e subitens (m\u00fasculo, cenoura, etc). Quando o IPAB sobe acima do IPCA, temos a infla\u00e7\u00e3o dos alimentos.<\/p>\n<p>Esse processo se agravou durante a pandemia, mas j\u00e1 vem sendo registrado de forma consistente desde 2007 no Brasil, revertendo tend\u00eancia anterior de queda.<\/p>\n<p>Historicamente, as flutua\u00e7\u00f5es nos pre\u00e7os dos alimentos s\u00e3o comuns. O que muda \u00e9 a capacidade de cada pa\u00eds em absorver esse impacto e manejar a pol\u00edtica econ\u00f4mica no sentido de proteger o mercado interno e garantir que a comida chegue \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>Entre os anos 1960 at\u00e9 o come\u00e7o dos anos 2000, os alimentos vinham se tornando gradativamente mais baratos no Brasil e no mundo. Depois disso, foram dez anos de alta.<\/p>\n<p>\u201cEsse aumento dos pre\u00e7os dos alimentos come\u00e7ou no Brasil por volta de 2007. No mundo, isso j\u00e1 estava se manifestando anteriormente, em 2003. S\u00f3 que entre 2003 e 2011 a moeda brasileira tendeu a se valorizar, uma valoriza\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel\u201d, explica Jos\u00e9 Gi\u00e1como Baccarin, professor da Unesp e membro do Instituto Fome Zero, organiza\u00e7\u00e3o criada em outubro de 2020 para promover e apoiar pol\u00edticas de combate \u00e0 fome.<\/p>\n<p>\u201cA partir de 2011 e at\u00e9 2018 o \u00edndice de pre\u00e7os da FAO come\u00e7a a cair, mas a moeda brasileira vai na contram\u00e3o: come\u00e7a a se desvalorizar\u201d, acrescenta o professor, que coordena uma pesquisa sobre a infla\u00e7\u00e3o dos alimentos no Brasil.<\/p>\n<p>De fato, os efeitos dessa press\u00e3o inflacion\u00e1ria no bolso do consumidor foram bem distintos ao longo dos \u00faltimos 15 anos e se relacionam com os rumos da pol\u00edtica macroecon\u00f4mica e o desempenho da economia. Olhando o comportamento da infla\u00e7\u00e3o no Brasil, \u00e9 poss\u00edvel distinguir tr\u00eas momentos.<\/p>\n<p>Entre 2007 e 2014, a alta dos alimentos foi compensada pelo real forte. \u201cO c\u00e2mbio pode acirrar ou diminuir essa transi\u00e7\u00e3o para o mercado interno. Se voc\u00ea tem um processo de valoriza\u00e7\u00e3o da moeda nacional, os pre\u00e7os externos s\u00e3o transmitidos mais fracamente para os pre\u00e7os internos. Se voc\u00ea tem uma desvaloriza\u00e7\u00e3o, os pre\u00e7os externos s\u00e3o transmitidos mais fortemente para o mercado interno\u201d, explica Baccarin.<\/p>\n<p>Entre os anos 1960 at\u00e9 o come\u00e7o dos anos 2000, os alimentos vinham se tornando gradativamente mais baratos no Brasil e no mundo. Depois disso, foram dez anos de alta.<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 2014 estava bom<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m da quest\u00e3o cambial, a infla\u00e7\u00e3o dos alimentos at\u00e9 ent\u00e3o era compensada por uma s\u00e9rie de fatores:<\/p>\n<p>\u00edndices de gera\u00e7\u00e3o de emprego e melhoria na renda<br \/>\npol\u00edtica de reajuste do sal\u00e1rio m\u00ednimo acima da infla\u00e7\u00e3o<br \/>\nprogramas como o extinto Bolsa Fam\u00edlia<br \/>\nmecanismos regulat\u00f3rios, como os estoques p\u00fablicos de alimentos<br \/>\numa s\u00e9rie de pol\u00edticas voltadas \u00e0 seguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Entre 2015 e 2019, com o agravamento da crise econ\u00f4mica e o in\u00edcio de uma trajet\u00f3ria de forte desvaloriza\u00e7\u00e3o do real, os consumidores passaram a sentir essa alta com muito mais for\u00e7a. O enfraquecimento dos setores industrial e de servi\u00e7os no Brasil, somado \u00e0 condu\u00e7\u00e3o ultra liberal da economia e ao desmonte de pol\u00edticas p\u00fablicas, criaram a tempestade perfeita.<\/p>\n<p>A chegada da pandemia, em 2020, e um novo ciclo de alta global dos alimentos, e a instabilidade nos mercados internacionais com o novo conflito mundial, encontram um Brasil de pires na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre janeiro de 2020 e mar\u00e7o de 2022, quatro grupos de pre\u00e7os tiveram aumentos acima da infla\u00e7\u00e3o. Enquanto o IPCA subiu 18,9% neste per\u00edodo, o grupo alimenta\u00e7\u00e3o e bebidas liderou a alta, com 30,21%, seguido dos transportes (+26,91%), artigos de resid\u00eancia (+24,15%) e habita\u00e7\u00e3o (+20,9%).<\/p>\n<p>Durante a pandemia e at\u00e9 mar\u00e7o passado, os alimentos que subiram de pre\u00e7o num ritmo muito acima da infla\u00e7\u00e3o geral, j\u00e1 num patamar bem alto, foram tub\u00e9rculos, ra\u00edzes e legumes (+126,3%); \u00f3leos e gorduras (+95,4%); hortali\u00e7as e verduras (+80%); frutas (+46,3%); cereais e leguminosas oleaginosas (+43%), aves e ovos (+40,4%); a\u00e7\u00facares e derivados (+35,6%); leite e derivados (+32,8%) e carnes (+30,9%).<\/p>\n<p>A alta do \u00f3leo de soja, das aves, das carnes e mais recentemente das frutas est\u00e1 diretamente relacionada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o desses alimentos e\/ou insumos. Mas, como explicar o comportamento dos demais alimentos produzidos e consumidos por aqui?<\/p>\n<p><strong>Mais soja, menos feij\u00e3o<\/strong><br \/>\nQuanto mais lucrativas se tornam as commodities (soja, milho, cana de a\u00e7\u00facar e carne, por exemplo), a press\u00e3o sobre o uso da terra aumenta. Os gr\u00e3os para exporta\u00e7\u00e3o competem diretamente com a produ\u00e7\u00e3o de alimentos para o consumo interno. Sobra menos espa\u00e7o para arroz, feij\u00e3o, mandioca e companhia.<\/p>\n<p>Isso explica o paradoxo de assistirmos a sucessivos recordes na exporta\u00e7\u00e3o de alimentos durante os dois anos da pandemia. Enquanto poucos exportadores comemoram lucro recorde com o d\u00f3lar acima dos R$ 5 em 2020 e 2021, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o passou a viver com algum n\u00edvel de inseguran\u00e7a alimentar, e 19 milh\u00f5es passam fome. A infla\u00e7\u00e3o dos alimentos \u00e9 especialmente perversa porque atinge a popula\u00e7\u00e3o de forma desigual: quanto menor a renda, maior \u00e9 o impacto da alta no pre\u00e7o da comida.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, pa\u00eds que tem grande produ\u00e7\u00e3o de alimentos e muita terra agricult\u00e1vel, a infla\u00e7\u00e3o dos alimentos tamb\u00e9m aumentou acima da m\u00e9dia durante a pandemia, mas em um ritmo bem menor. \u201cAlimentos e energia s\u00e3o mais vulner\u00e1veis aos choques conjunturais, como quest\u00f5es clim\u00e1ticas e a pandemia, por exemplo. Mas, no longo prazo, tende a acompanhar a infla\u00e7\u00e3o geral porque os pre\u00e7os oscilam, mas voltam a cair porque a raz\u00e3o da subida \u00e9 um choque tempor\u00e1rio\u201d, explica o professor Valter Palmieri Jr, doutor em Desenvolvimento Econ\u00f4mico pela Unicamp.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 15 anos, a infla\u00e7\u00e3o dos alimentos nos Estados Unidos subiu 5% acima da m\u00e9dia geral de pre\u00e7o, enquanto por aqui essa alta foi de 37%. Isso significa que um alimento que custava US$ 10 em 2006, hoje vale US$ 15. No Brasil, um produto vendido a R$ 10 h\u00e1 15 anos hoje custaria R$ 33.<\/p>\n<p>\u201cOs Estados Unidos s\u00e3o grandes exportadores de alimentos e tamb\u00e9m grandes importadores. Eles t\u00eam capacidade de renda pra isso. Fica no pa\u00eds mais alimento do que eles produzem, ou seja, a exporta\u00e7\u00e3o l\u00edquida \u00e9 negativa. No Brasil se produz muito alimento, mas fica pro brasileiro muito menos do que \u00e9 produzido. Essa \u00e9 a diferen\u00e7a\u201d, acrescenta Palmieri Jr.<\/p>\n<p>A carne \u00e9 um dos exemplos que sintetiza essa rela\u00e7\u00e3o do c\u00e2mbio sobre os alimentos. Quando o real se desvaloriza frente ao d\u00f3lar, a ra\u00e7\u00e3o sobe e os custos de produ\u00e7\u00e3o aumentam, assim como o pre\u00e7o dos animais. Para quem fornece carne para o mercado interno, h\u00e1 dificuldade em repassar esse aumento para um consumidor empobrecido e sem poder de compra. Para o exportador, o custo de produ\u00e7\u00e3o mais alto \u00e9 mais do que compensado pela disparada do d\u00f3lar.<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o dos alimentos \u00e9 especialmente perversa porque atinge a popula\u00e7\u00e3o de forma desigual: quanto menor a renda, maior \u00e9 o impacto da alta no pre\u00e7o da comida. A moeda desvalorizada acaba sendo o gatilho para que a oferta deste alimento no Brasil diminua. Soma-se a isso o efeito do c\u00e2mbio no pre\u00e7o dos combust\u00edveis e, portanto, fretes mais caros. O que afeta tamb\u00e9m o pre\u00e7o do g\u00e1s de cozinha, que j\u00e1 acumula alta de 32,34% nos \u00faltimos doze meses, segundo o IPCA.<\/p>\n<p>Processo semelhante vem acontecendo com as frutas. Foram dois anos seguidos de recordes de exporta\u00e7\u00e3o, enquanto o consumo dos brasileiros despencou, como j\u00e1 mostramos no Joio. As frutas est\u00e3o entre os grupos de alimentos que mais subiram de pre\u00e7o neste per\u00edodo.<\/p>\n<p>\u201cEstamos sujeitos aos pre\u00e7os internacionais porque n\u00e3o h\u00e1 nenhuma pol\u00edtica para tentar amenizar essa transfer\u00eancia para o mercado interno. Isso poderia ser feito, especialmente quando os pre\u00e7os d\u00e3o esse repique, via imposto de exporta\u00e7\u00e3o ou via controle cambial\u201d, sugere o professor Baccarin.<\/p>\n<p>A carne tamb\u00e9m \u00e9 um exemplo sintom\u00e1tico pelo peso que exerce no or\u00e7amento das fam\u00edlias. Foi a vil\u00e3 da infla\u00e7\u00e3o at\u00e9 2019. Em 12 anos, o pre\u00e7o da carne subiu 274%, muito acima da infla\u00e7\u00e3o geral acumulada no per\u00edodo, que foi de 103%.<\/p>\n<p>\u201cO arroz participa com 3,5% da alimenta\u00e7\u00e3o no domic\u00edlio, ou seja, o que a gente compra pra casa. A bovinocultura de corte participa com 18%. Portanto, se h\u00e1 um aumento no pre\u00e7o do arroz e da carne na ordem de 10%, o impacto sobre os gastos vai ser muito mais alto no caso da carne\u201d, explica Bacccarin.<\/p>\n<p>Soma-se a isso um efeito secund\u00e1rio deste processo: a substitui\u00e7\u00e3o por cortes mais baratos e a procura maior pela chamada carne de segunda faz com que os pre\u00e7os desses alimentos, voltados ao mercado interno, tamb\u00e9m disparem. Foi o que houve com o m\u00fasculo (+201%), ac\u00e9m (+181%) e o f\u00edgado (+115) nos \u00faltimos dez anos, entre 2011 e 2021.<\/p>\n<p>Em 12 anos, o pre\u00e7o da carne subiu 274%, muito acima da infla\u00e7\u00e3o geral acumulada no per\u00edodo, que foi de 103%.<\/p>\n<p>A comida in natura foi a que proporcionalmente tornou-se mais cara, estimulando que o consumidor com menor renda fa\u00e7a substitui\u00e7\u00f5es de menor valor nutricional, em um processo j\u00e1 em curso, mas que se acelerou durante os \u00faltimos dois anos. Os alimentos frescos ou minimamente processados foram respons\u00e1veis por 70% da infla\u00e7\u00e3o total da comida que se compra no supermercado ou na feira e se come em casa, entre janeiro de 2021 e mar\u00e7o de 2022. Esse grupo se refere a uma centena de alimentos diferentes e essenciais na dieta da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A\u00e7\u00facares e derivados de soja, os maiores vil\u00f5es da infla\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos dois anos, tamb\u00e9m registraram alta expressiva de pre\u00e7o. Mas o impacto desses alimentos na composi\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento com comida \u00e9 muito menor do que os demais produtos da cesta alimentar.<\/p>\n<p>Neste mesmo per\u00edodo, os ultraprocessados tamb\u00e9m subiram de pre\u00e7o, mas em um ritmo muito menor, tornando-se, portanto, proporcionalmente mais baratos. \u00c9 o que vem acontecendo, por exemplo, com a substitui\u00e7\u00e3o da manteiga pela margarina, dois produtos absolutamente diferentes, mas que concorrem no mesmo mercado em condi\u00e7\u00f5es desiguais, como j\u00e1 mostramos no Joio. Enquanto a margarina usa como mat\u00e9ria-prima uma combina\u00e7\u00e3o de \u00f3leos vegetais mais baratos e sem tanto oscila\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o, a manteiga \u00e9 feita exclusivamente da gordura do leite, alimento cuja produ\u00e7\u00e3o \u00e9 totalmente voltada para o mercado interno e, portanto, sem os mesmos incentivos que o milho e a soja. Soma-se a isso, o fato de que dois conglomerados \u2013 BRF e JBS \u2013 concentrarem mais de 80% do mercado de margarinas, com maior poder de barganha na compra de mat\u00e9rias-primas e maior capacidade de investimento.<\/p>\n<p><strong>Agro, a ind\u00fastria pobreza do Brasil<\/strong><br \/>\nMaximizado por diferentes mecanismos de incentivos e por uma pol\u00edtica cambial que deu as costas para os interesses do povo brasileiro, o agroneg\u00f3cio exportador deu as m\u00e3os para o mercado financeiro e tornou-se a maior e mais poderosa for\u00e7a econ\u00f4mica e pol\u00edtica no Brasil hoje. N\u00e3o por acaso segue investindo em narrativas que tentam limpar a barra do setor e desassoci\u00e1-lo da origem do problema. Por\u00e9m, todos os caminhos levam ao agro.<\/p>\n<p>\u201cO que diferencia a decis\u00e3o de investimento dos agricultores \u00e9 o tamanho do mercado. Soja tem um mercado de 7 bilh\u00f5es de habitantes. Feij\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 pensando em um mercado de 220 milh\u00f5es, um pouquinho mais. Isso inibe investimento em produtos que s\u00e3o para o mercado interno. O Brasil tem tradi\u00e7\u00e3o, tem conhecimento e tem tecnologia. A Embrapa poderia ser chamada. Teria que recuperar a assist\u00eancia t\u00e9cnica que foi destru\u00edda neste pa\u00eds. Ter cr\u00e9dito pra esse tipo de agricultor. E trabalhar com o aumento no consumo desses produtos\u201d, sugere Baccarin.<\/p>\n<p>Mas exportar alimentos \u00e9 necessariamente ruim? Depende. Na opini\u00e3o de Guilherme Delgado, a centralidade do agroneg\u00f3cio exportador no Brasil do s\u00e9culo 21 criou uma \u201carapuca macroecon\u00f4mica\u201d. Ele explica que na medida em que demais setores da economia foram atrofiados para privilegiar os saldos gerados pela exporta\u00e7\u00e3o de produtos agropecu\u00e1rios, cria-se um desequil\u00edbrio estrutural que impacta os produtos voltados para o mercado interno, inclusive os alimentos.<\/p>\n<p>Em conjunturas de crise internacional como a que vivemos agora, esse desequil\u00edbrio se agrava. \u201cO sistema econ\u00f4mico est\u00e1 sendo planejado para crescer a ritmos desiguais. Uma parte do sistema que produz commodities tem um est\u00edmulo macroecon\u00f4mico exacerbado. E setores que n\u00e3o produzem commodities ficam atrofiados\u201d, explica Delgado. \u201cEssa dupla balan\u00e7a \u2013 uma catapultada, outra atrofiada \u2013 faz com que quanto mais eficiente seja esse processo de ajuste, entre aspas, das contas externas, maior seja a defasagem de crescimento entre o setor produtor de commodities e o de n\u00e3o commodities e a\u00ed entram os produtos para abastecimento interno, como os alimentos\u201d, acrescenta o economista.<\/p>\n<p>Com isso, a balan\u00e7a comercial brasileira torna-se cada vez mais dependente dos resultados das exporta\u00e7\u00f5es agropecu\u00e1rias, em uma tentativa de compensar o mau desempenho e o esvaziamento de outros setores importantes da economia, como a ind\u00fastria, infraestrutura e os servi\u00e7os, muitos dos quais privatizados e entregues ao capital estrangeiro nos \u00faltimos anos no Brasil.<\/p>\n<p>Para Delgado, se o agroneg\u00f3cio brasileiro \u00e9 t\u00e3o autossuficiente como se propaga, deveria funcionar sozinho, sob as regras de mercado. \u201cO agroneg\u00f3cio tem que exportar e n\u00e3o h\u00e1 nada contra isso. Mas o que ele n\u00e3o tem \u00e9 que ser o setor especializado na exporta\u00e7\u00e3o em uma economia desse tamanho, com 220 milh\u00f5es de brasileiros que precisam comer todo dia.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lista na m\u00e3o, semblante tenso, postura hesitante e carrinho vazio: a ida ao supermercado tornou-se um momento delicado para muitos brasileiros. Fantasma de um passado n\u00e3o t\u00e3o distante, foi chegando sorrateira at\u00e9 se instalar de vez como uma realidade concreta na mesa: a infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 de volta. E vem atingindo com mais for\u00e7a os alimentos. 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