{"id":285548,"date":"2022-05-15T08:53:35","date_gmt":"2022-05-15T11:53:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=285548"},"modified":"2022-05-15T08:53:35","modified_gmt":"2022-05-15T11:53:35","slug":"mostra-marca-luta-contra-acoes-em-manicomios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mostra-marca-luta-contra-acoes-em-manicomios\/","title":{"rendered":"Mostra marca luta contra a\u00e7\u00f5es em manic\u00f4mios"},"content":{"rendered":"<p>\u201cUm dia eu simplesmente apareci!\u201d. Esta era a frase dita por Arthur Bispo do Ros\u00e1rio a quem perguntava sobre seu nascimento. A data em que ele nasceu \u00e9 cercada de mist\u00e9rios: n\u00e3o se sabe se foi em 1909 ou em 1911. Mas foi na cidade de Japaratuba, interior do Sergipe, que ele \u201capareceu\u201d para seus pais e para a vida.<\/p>\n<p>Em 1936, j\u00e1 vivendo no Rio de Janeiro, Bispo do Ros\u00e1rio sofreu um acidente de trabalho. Dois anos depois, apresentou-se em uma igreja no centro da cidade dizendo que estava ali por ser um enviado de Deus que iria \u201cjulgar os vivos e os mortos\u201d. Daquela igreja, foi levado para a Col\u00f4nia Juliano Moreira, em Jacarepagu\u00e1, onde recebeu o diagn\u00f3stico de esquizofrenia paranoide e ficou internado pela primeira vez. Entre idas e voltas, Bispo do Ros\u00e1rio permaneceu em casas psiqui\u00e1tricas durante cerca de 50 anos. Ele morreu na Col\u00f4nia Juliano Moreira em 1989.<\/p>\n<p>Foi nessa col\u00f4nia que Bispo concebeu vasta obra art\u00edstica, usando o material encontrado no local: canecas, pentes, garrafas, cal\u00e7ados, papel\u00e3o. Durante sua vida, produziu mais de mil pe\u00e7as que s\u00f3 ficaram conhecidas quando uma reportagem para a televis\u00e3o foi feita em uma cl\u00ednica de tratamento de problemas mentais, e ele foi apresentado junto com seu trabalho. Al\u00e9m de miniaturas e justaposi\u00e7\u00e3o de objetos, Bispo do Ros\u00e1rio encontrou um jeito de fazer arte com bordados, que mais tarde inspirou artistas como Leonilson, por exemplo.<\/p>\n<p>Seu trabalho \u00fanico, todo interligado, \u00e9 uma esp\u00e9cie de invent\u00e1rio para o Ju\u00edzo Final e est\u00e1 exposto, no Ita\u00fa Cultural, localizado na Avenida Paulista, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A mostra Bispo do Ros\u00e1rio \u2013 Eu vim: Apari\u00e7\u00e3o, Impregna\u00e7\u00e3o e Impacto \u00e9 uma parceria com o Museu Arthur Bispo do Ros\u00e1rio \u2013 Arte Contempor\u00e2nea (mBRAC) e tem curadoria de Ricardo Resende e co-curadoria de Diana Kolker, respectivamente, curador e curadora-pedagoga do museu.<\/p>\n<p>Todo a obra de Bispo \u00e9 relacionada \u00e0s mem\u00f3rias que ele traz da inf\u00e2ncia, de seu trabalho na Marinha e na Light, da vida na cidade e da vida no manic\u00f4mio. \u201c\u00c9 como se fosse um registro de passagem pela Terra. Ele foi diagnosticado como esquizofr\u00eanico e ouvia vozes. Essas vozes o conduziram a criar sua obra. Em uma entrevista, ele diz que as vozes o obrigavam a criar a obra para apresent\u00e1-la a Deus no Ju\u00edzo Final. Este era o objetivo de sua cria\u00e7\u00e3o: ele juntava, guardava e acondicionava objetos da vida terrena\u201d, disse Ricardo Resende \u00e0 Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p>\u201cA exposi\u00e7\u00e3o faz uma amostragem dessa obra, do que \u00e9 poss\u00edvel apresentar, j\u00e1 que parte dela est\u00e1 hoje em condi\u00e7\u00f5es bastante prec\u00e1rias. Estamos ainda no processo de restaura\u00e7\u00e3o\u201d, ressaltou Resende. Segundo o curador, as pe\u00e7as foram dispostas no local da exposi\u00e7\u00e3o sem hierarquia ou distin\u00e7\u00f5es. \u201cN\u00e3o existia isso para Bispo do Ros\u00e1rio. Ele n\u00e3o dava t\u00edtulos ou datas [para suas obras]\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p><strong>Exposi\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nA exposi\u00e7\u00e3o, que ocupar\u00e1 tr\u00eas andares da casa cultural, apresentar\u00e1 mais de 400 obras de Bispo do Ros\u00e1rio, al\u00e9m de trabalhos de artistas que se inspiraram nele ou passaram por ateli\u00eas de institui\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas brasileiras.<\/p>\n<p>As cria\u00e7\u00f5es de Bispo do Ros\u00e1rio reverberam na produ\u00e7\u00e3o cultural brasileira at\u00e9 hoje e est\u00e3o em di\u00e1logo com 49 artistas. \u201cFoi um desafio para a curadoria fazer esse di\u00e1logo\u201d, disse o coordenador de Artes Visuais do Ita\u00fa Cultural, Juliano Ferreira. \u201cPara Bispo, toda sua produ\u00e7\u00e3o era uma coisa s\u00f3. Ent\u00e3o, a exposi\u00e7\u00e3o traz essa expografia com o Bispo no centro. Voc\u00ea vai observar, na expografia, que a produ\u00e7\u00e3o do Bispo \u00e9 algo central dentro dos pisos\u201d, explicou.<\/p>\n<p>No primeiro andar, a refer\u00eancia ser\u00e1 uma cela onde o artista viveu. \u201cFoi uma escolha curatorial e expogr\u00e1fica trazer a ambi\u00eancia dp lugar em que Bispo viveu a maior parte de sua vida. O visitante entra e pode observar os cobog\u00f3s [uma esp\u00e9cie de item decorativo que serve para separar ambientes], que \u00e9 uma analogia direta \u00e0 estrutura e ao pr\u00e9dio onde Bispo viveu. Eles trocavam bilhetinhos pelos buraquinhos dos cobog\u00f3s. Era uma forma de liga\u00e7\u00e3o com o mundo exterior. A expografia tem essa proposta labir\u00edntica e \u00e9 proposital para que o visitante tenha um pouco dessa viv\u00eancia\u201d, disse Ferreira.<\/p>\n<p>\u201cBispo recebia visitas em sua cela, e \u00e9 interessante porque os relatos que temos s\u00e3o de que ele conduzia, de alguma maneira, a visita. A gente traz isso aqui: \u00e9 um conjunto de pe\u00e7as, de objetos, de partes da obra, trabalhos que se sobrepunham um ao outro, e tenta recriar um pouco dessa ambi\u00eancia\u201d, explicou Resende. \u201cA ideia \u00e9 causar um deslumbramento no p\u00fablico quando ele se deparar com essa instala\u00e7\u00e3o que estamos criando.\u201d<\/p>\n<p>Ainda no primeiro andar, estar\u00e3o retratos de Bispo feitos pelo fot\u00f3grafo Jean Manzon e publicados em ensaio na revista O Cruzeiro, de 1942. Haver\u00e1 tamb\u00e9m fotografias do artista feitas em 1982 por Hugo Denizart, autor do filme Prisioneiro da Passagem, que ser\u00e1 exibido na mostra. Ali tamb\u00e9m est\u00e3o suas s\u00e9ries feitas com sapatos, pentes e canecas. \u201cS\u00e3o objetos do cotidiano que ele transforma em uma instala\u00e7\u00e3o\u201d, destacou Ferreira, em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil. O primeiro andar apresenta ainda uma cole\u00e7\u00e3o de faixas de misses.<\/p>\n<p>O primeiro subsolo tratar\u00e1 das institui\u00e7\u00f5es, mostrando, al\u00e9m das obras de Bispo, cerca de 300 trabalhos de outros artistas influenciados por sua produ\u00e7\u00e3o. O impacto e a impregna\u00e7\u00e3o na arte contempor\u00e2nea permeia o segundo subsolo. \u00c9 ali que se encontra uma cama criada por Bispo. \u201cA cama \u00e9 interessante porque ele se apaixonou pela terapeuta. E a\u00ed fez a cama com uma indument\u00e1ria toda bordada. Acho que era um amor muito menos sexual e muito mais essa coisa da idolatria. Era algo ali para que ela [a terapeuta] se deitasse, como se fosse uma grande deusa\u201d, disse Ferreira.<\/p>\n<p><strong>Luta Antimanicomial<\/strong><br \/>\nA escolha pelo dia de inaugura\u00e7\u00e3o foi proposital e pretende discutir as interna\u00e7\u00f5es e o fim da viol\u00eancia contra as pessoas em sofrimento mental. \u201cA ideia de abrir essa exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma grande celebra\u00e7\u00e3o da grande obra de Bispo do Ros\u00e1rio e de um dia muito importante, o da Luta Antimanicomial. [E lembra] a viol\u00eancia que as pessoas sofreram em situa\u00e7\u00e3o de interna\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 uma agrad\u00e1vel coincid\u00eancia que o dia 18 de maio seja o Dia dos Museus. Ser\u00e1 uma grande celebra\u00e7\u00e3o\u201d, disse Ferreira.<\/p>\n<p>Negro, pobre, \u201clouco\u201d e vivendo em um manic\u00f4mio, Arthur Bispo do Rosario disse certa vez que \u201cos doentes mentais s\u00e3o como beija-flores, nunca pousam, ficam a dois metros do ch\u00e3o&#8221;. Assim como sua obra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cUm dia eu simplesmente apareci!\u201d. Esta era a frase dita por Arthur Bispo do Ros\u00e1rio a quem perguntava sobre seu nascimento. A data em que ele nasceu \u00e9 cercada de mist\u00e9rios: n\u00e3o se sabe se foi em 1909 ou em 1911. 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