{"id":286121,"date":"2022-05-22T03:34:50","date_gmt":"2022-05-22T06:34:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=286121"},"modified":"2022-05-22T03:36:58","modified_gmt":"2022-05-22T06:36:58","slug":"brasil-precisa-colher-licoes-de-64-para-se-opor-a-novo-golpe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-precisa-colher-licoes-de-64-para-se-opor-a-novo-golpe\/","title":{"rendered":"&#8216;Brasil precisa colher li\u00e7\u00f5es de 64 para se opor a novo golpe&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Que esperar de um Congresso dominado pelo que h\u00e1 de mais pe\u00e7onhento na pol\u00edtica brasileira \u2013 o Centr\u00e3o\u2013, de uma casa-grande que n\u00e3o se farta de tantos privil\u00e9gios e os v\u00ea sempre amea\u00e7ados quando imagina a emerg\u00eancia de um governo comprometido com os interesses das grandes massas?<\/p>\n<p>Dessa casa-grande s\u00f3 se pode esperar algum tipo de viol\u00eancia, quando n\u00e3o lhe \u00e9 dado impedir a elei\u00e7\u00e3o de um estranho no ninho dos donos do poder.<\/p>\n<p>\u00c9 desafiador dimensionar os riscos hoje vividos, pois s\u00e3o flagrantes as dificuldades de as for\u00e7as progressistas trabalharem com o m\u00ednimo de informa\u00e7\u00e3o, por debilidade org\u00e2nica e mesmo por distor\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica \u2013 caso que foi do Partido Comunista, que, \u00e0s v\u00e9speras do golpe de 1964, exatamente no dia 17 de mar\u00e7o, garantia-nos, pela voz de seu secret\u00e1rio-geral, ser imposs\u00edvel um golpe de Estado, aquele de tipifica\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica que pressupunha tanques nas ruas. E acrescentava: caso houvesse uma tentativa de golpe, \u201ca direita quebraria os dentes\u201d.<\/p>\n<p>Porque, pontificava ent\u00e3o o antigo Cavaleiro da Esperan\u00e7a, com a autoridade que ningu\u00e9m ousaria negar: \u201cas for\u00e7as armadas brasileiras eram legalistas\u201d. \u201cA quais for\u00e7as armadas, por\u00e9m, se referia Prestes?\u201d, perguntamos hoje aos cr\u00e9dulos de ent\u00e3o. Seriam as do levante de 1935? As do golpe de Estado de 1937? As for\u00e7as armadas german\u00f3filas de G\u00f3es Monteiro e Eurico Gaspar Dutra? As for\u00e7as do golpe de 1945? Ou as for\u00e7as que comandaram a insurrei\u00e7\u00e3o que levou ao 24 de agosto de 1954? Ou ainda os malfeitores de Aragar\u00e7as e Jacareacanga? Ou os engalanados que tentaram impedir a posse de Juscelino Kubitscheck (eleito em 1955), ou, por fim, os generais que se sublevaram 1961 contra a posse de Jango e impuseram o golpe do parlamentarismo?<\/p>\n<p><strong>Desinforma\u00e7\u00e3o ou desvio ideol\u00f3gico?<\/strong><br \/>\nA desinforma\u00e7\u00e3o do \u201cPartid\u00e3o\u201d, por\u00e9m, era mais que uma defici\u00eancia org\u00e2nica, pois resultava de injustificada incapacidade de compreender o real significado do processo hist\u00f3rico. Simplistas na reflex\u00e3o, o partido comunista e suas ent\u00e3o extensas \u00e1reas de influ\u00eancia haviam renunciado \u00e0 vis\u00e3o marxista de revolu\u00e7\u00e3o, embriagados seus dirigentes pelo ingresso informal na institucionalidade, de que passavam a depender, e nem por sonho queriam ver amea\u00e7ada. Presos \u00e0s apar\u00eancias, transformaram em realidade o sonho da conquista do poder pelas artes do estado burgu\u00eas, e, assim, tornou-se moeda corrente a cren\u00e7a de que a revolu\u00e7\u00e3o social brasileira, assim pensada sem povo, era um puro determinismo, uma realidade palp\u00e1vel. Da\u00ed o imobilismo pr\u00e9-1964, e da\u00ed a surpresa do golpe levando \u00e0 cadeia os que n\u00e3o tiveram tempo de fugir. Da\u00ed a crise ideol\u00f3gica e pol\u00edtica que se segue levando de rold\u00e3o as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria fora substitu\u00edda pela reforma dentro do regime, levada a cabo pela ordem militar, garantida pela fidelidade dos generais ao presidente da Rep\u00fablica, de quem n\u00e3o se podia cobrar o comando da revolu\u00e7\u00e3o social. Quando Prestes dizia que as for\u00e7as armadas n\u00e3o dariam o golpe, porque eram democr\u00e1ticas, estava dizendo que novos tempos vinham a caminho, e se esses novos tempos de avan\u00e7os e progressos estavam garantidos, com nada t\u00ednhamos que nos preocupar, e muito menos t\u00ednhamos o que fazer. Esta era a sensa\u00e7\u00e3o que viv\u00edamos naquele mar\u00e7o de 1964: n\u00e3o nos competia, a n\u00f3s povo, qualquer tarefa, pois o processo social, em marcha, cuidaria de levar a cabo o que estava programado pela hist\u00f3ria. Assim, os quem temiam o conflito, embora desejassem o avan\u00e7o social, descobriram que o futuro nos reservara a bonan\u00e7a; n\u00e3o se tratava, mais, da \u201ctomada do poder\u201d, simplesmente porque j\u00e1 est\u00e1vamos no poder, e desta feita escoltados pelas baionetas.<\/p>\n<p>De outra parte, debilitada pelo fracionamento ideol\u00f3gico, dividida por disputas intestinas, a esquerda n\u00e3o lograra unidade de a\u00e7\u00e3o. Conformava-se a defesa das \u201creformas de base\u201d. Jango, Brizola, Arraes e Juli\u00e3o n\u00e3o se entendiam, e cada um via no companheiro um advers\u00e1rio no exerc\u00edcio de um poder que ainda n\u00e3o haviam conquistado, tarefa que repousava nas costas de \u201cgenerais do povo\u201d como Osvino Alves (comandante do primeiro ex\u00e9rcito) ou o almirante Arag\u00e3o, comandante dos fuzileiros navais. UNE, A\u00e7\u00e3o Popular, CGT, Partido Comunista, cada grupamento brandia sua pr\u00f3pria e particular\u00edssima vis\u00e3o do processo pol\u00edtico, e cada um remava de acordo com seus objetivos, sempre presos ao imediato.<\/p>\n<p>A UNE, por sinal, esticava a corda pela esquerda, sem, contudo, confiar em Jango: ao lado de Miguel Arraes, Brizola e Arraes, sua arregimenta\u00e7\u00e3o foi decisiva para a derrota do pedido de estado-de-s\u00edtio apresentado por Jango ao Congresso Nacional em setembro de 1963. Seu receio era que, deposto Carlos Lacerda, governador direitista da Guanabara, objeto expl\u00edcito da medida, o governo, para acalmar os conservadores, oferecesse a cabe\u00e7a de Miguel Arraes, o governador esquerdista de Pernambuco. Diante da resist\u00eancia de suas pr\u00f3prias bases (custa crer que n\u00e3o as tenha consultado), o presidente Jo\u00e3o Goulart recua e retira do Congresso sua mensagem. O fatal sinal de fraqueza foi o est\u00edmulo que aguardavam as for\u00e7as civis e militares articuladoras do golpe. Nessa altura, UNE, CGT e os partidos de esquerda, nesse rol inclu\u00eddos o partido comunista e a A\u00e7\u00e3o Popular (grupamento cat\u00f3lico reconhecido como se partido fora) j\u00e1 discutiam a forma\u00e7\u00e3o de um governo dito nacional-popular. Disputavam-se os minist\u00e9rios enquanto Castelo Branco, instalado no comando do Estado Maior do ex\u00e9rcito, articulava o golpe.<\/p>\n<p>Todas as an\u00e1lises partiam do pressuposto de que as fileiras n\u00e3o apenas asseguravam a continuidade do governo Jo\u00e3o Goulart como, no limite, provocadas, seriam as respons\u00e1veis pela imposi\u00e7\u00e3o das reformas que o Congresso, dominado pela rea\u00e7\u00e3o, se recusava a implantar. Falava-se num poderos\u00edssimo \u201cdispositivo militar do General Brasil\u201d, garantidor de nossa tranquilidade. Era nesse dispositivo, e na fidelidade de generais como Amaury Kruel, comandante do segundo ex\u00e9rcito, e n\u00e3o na organiza\u00e7\u00e3o popular, que o PC, a esquerda em geral e Jango depositavam a seguran\u00e7a do governo e da democracia.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 do dia 31 de mar\u00e7o daquele doloroso 1964, o senador Artur Virg\u00edlio Filho, l\u00edder do PTB no Senado Federal, \u00e9 informado, em Bras\u00edlia, de que o general Mour\u00e3o Filho estava com suas tropas se deslocando para o Rio de Janeiro, e, apreensivo, telefona ao presidente no Pal\u00e1cio das Laranjeiras, n\u00e3o para dar-lhe conta da m\u00e1 nova (pois mais informado do que toda gente haveria de ser o presidente), mas sim para obter orienta\u00e7\u00f5es. Almino Afonso, ent\u00e3o l\u00edder do PTB na C\u00e2mara dos Deputados, narra-nos o di\u00e1logo, conclusivo da pen\u00faria estrat\u00e9gica do governo e da fragilidade do projeto que tanto entusiasmava a esquerda brasileira:<\/p>\n<p>\u201cPor uma extens\u00e3o telef\u00f4nica, eu ouvia o di\u00e1logo. E fiquei pasmado quando a r\u00e9plica [do presidente] veio calorosa. \u2018\u00c9 a oposi\u00e7\u00e3o farsante querendo tumultuar o pa\u00eds!\u2019 Naquele momento, nas imedia\u00e7\u00f5es de seu gabinete, passara o general Assis Brasil, chefe da Casa militar. O presidente, sem rodeios, perguntou-lhe asperamente: \u2018O que h\u00e1 de verdade na subleva\u00e7\u00e3o do general Mour\u00e3o Filho?\u2019 E o interrogado, com absoluta calma: \u2018Tudo fantasia, presidente. Trata-se de uma marcha de rotina, como \u00e9 de h\u00e1bito no ex\u00e9rcito.\u2019 O presidente Goulart insistiu: \u2018Nada demais?\u2019 E o chefe da Casa militar: \u2018Nada al\u00e9m disso.\u2019 O presidente Jo\u00e3o Goulart voltou ao telefone: \u2018Tu ouviste, Artur? Pois \u00e9 essa a verdade!\u2019\u201d (Este di\u00e1logo est\u00e1 no precioso livro 1964 na vis\u00e3o do ministro do Trabalho de Jo\u00e3o Goulart, Almino Affonso. Ed. Fundap-Imprensa Oficial do Estado de S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p>O que lemos, revelador da dram\u00e1tica fragilidade do regime, do isolamento do presidente e da treta que era seu \u201cdispositivo militar\u201d, se dera na manh\u00e3 do 31 de mar\u00e7o, vimos. Mas at\u00e9 a tarde desse dia nada mudara, pondo de manifesto a fal\u00eancia do dispositivo militar, e a irresponsabilidade dos que nele depositaram os destinos da democracia brasileira.<\/p>\n<p>O general que levantara as tropas sob seu comando em Minas Gerais (Ol\u00edmpio Mour\u00e3o Filho, Mem\u00f3rias de um revolucion\u00e1rio. Porto Alegre: L&amp;PM; 1978. P. 311), relata que naquela tarde do dia 31, o presidente Jo\u00e3o Goulart recebia em audi\u00eancia o general Peri Bevil\u00e1qua que fora \u00e0s Laranjeiras, a pedido do general Castelo Branco e do brigadeiro Correia de Melo, chefe do estado-maior da Aeron\u00e1utica, aconselhar o presidente tomar \u201cas medidas capazes de inspirar confian\u00e7a \u00e0 Na\u00e7\u00e3o\u201d. Escreve o general Mour\u00e3o: \u201cCerca de 18 horas o ministro da Justi\u00e7a, Abelardo Jurema, pediu licen\u00e7a e deu ao dr. Goulart um bilhete que leu. Finda a leitura, antes que o general Peri recome\u00e7asse, o dr. Goulart lhe disse: \u2018General, o general Mour\u00e3o revoltou a 4\u00aa Regi\u00e3o Militar em Minas e exige a minha ren\u00fancia.\u2019 Somente naquele momento o ex-presidente ficou sabendo que eu me revoltara e exigia sua substitui\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe se \u00e0quela altura o general Assis Brasil ainda se encontrava no Pal\u00e1cio das Laranjeiras.<\/p>\n<p>Os tempos s\u00e3o outros, o quadro internacional \u00e9 outro, o pa\u00eds \u00e9 outro, outras s\u00e3o as for\u00e7as armadas, e os chefes militares operam de forma distinta distintas formas de interven\u00e7\u00e3o na institucionalidade. Por \u00f3bvio que 1964 \u00e9 historicamente irrepet\u00edvel, mas fica a li\u00e7\u00e3o, pois continuamos defensivos, atuando em resposta aos est\u00edmulos dos golpistas.<\/p>\n<p><strong>*Ex-ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia<\/strong><br \/>\n<strong>Com colabora\u00e7\u00e3o de Pedro Amaral<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que esperar de um Congresso dominado pelo que h\u00e1 de mais pe\u00e7onhento na pol\u00edtica brasileira \u2013 o Centr\u00e3o\u2013, de uma casa-grande que n\u00e3o se farta de tantos privil\u00e9gios e os v\u00ea sempre amea\u00e7ados quando imagina a emerg\u00eancia de um governo comprometido com os interesses das grandes massas? 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