{"id":286600,"date":"2022-05-30T05:22:00","date_gmt":"2022-05-30T08:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=286600"},"modified":"2022-05-30T12:22:47","modified_gmt":"2022-05-30T15:22:47","slug":"fa-masoquista-do-mito-insiste-na-dor-e-finge-que-nao-sente-nada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fa-masoquista-do-mito-insiste-na-dor-e-finge-que-nao-sente-nada\/","title":{"rendered":"F\u00e3 masoquista do mito insiste na dor e finge que n\u00e3o sente nada"},"content":{"rendered":"<p>De folga dos tortuosos e pragm\u00e1ticos afazeres dom\u00e9sticos, nesse fim de semana resolvi, por conta pr\u00f3pria, dar um rolezinho no hipermercado do bairro. A ideia inicial era checar pre\u00e7os, principalmente o da carne e do frango, ambos sumidos da mesa de boa parte dos brasileiros. L\u00e1 estando, decidi fazer as compras do m\u00eas, que agora duram apenas uma semana. Com o carrinho abarrotado de sacolas quase vazias, cheguei \u00e0 fila dos caixas, nas quais dificilmente deixamos de fazer uma nova e passageira amizade. \u00c9 claro que nem sempre o amigo de ocasi\u00e3o \u00e9 auspicioso ou cort\u00eas. Estava no rabo da bicha (fila em Portugal), quando fui interpelado por um desses \u201cvizinhos\u201d falastr\u00f5es e chatos pelo fanatismo sem causa.<\/p>\n<p>Mais do que isso, meu companheiro de rolezinho queria dizer para todo o mercado \u2013 e disse \u2013 que j\u00e1 tinha escolhido seu candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. N\u00e3o perguntei quem era, mas, pelo perfil verde amarelo, ficou claro para todos que se tratava de um eleitor fan\u00e1tico do mito Jair Messias. Antes que manifestasse sua idolatria, indagou-me sobre meu candidato. Sem olh\u00e1-lo nos olhos para n\u00e3o gerar intimidade, respondi que o meu era o mesmo do dele. Entre incr\u00e9dulo e insatisfeito com a resposta, o desconhecido amigo insistiu. Com sua voz de taquara mais ou menos rachada, me inquiriu. &#8211; Afinal, em quem voc\u00ea vai votar? Novamente respondi que no mesmo candidato dele.<\/p>\n<p>Percebendo sua irrita\u00e7\u00e3o um tanto policialesca, resolvi esticar a conversa e disse que meu voto seria naquele que dizem ter patrocinado uma gigantesca roubalheira no Brasil. Aproveitando-me do sorriso de canto de boca e do tempor\u00e1rio sil\u00eancio do meu interlocutor, emendei informando que a diferen\u00e7a de ontem para hoje \u00e9 o sigilo e a coniv\u00eancia de parte do Congresso. Lembrei que a lambe\u00e7\u00e3o de bei\u00e7os com dinheiro p\u00fablico vem de longe e que, no fato gerador do sorriso amarelado, imagina-se, mas nada de provas. Acrescentei que, ao som de um l\u00e1 l\u00e1 l\u00e1 em ritmo de funk, at\u00e9 mesmo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas j\u00e1 se manifestou favoravelmente ao indigitado cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>Sentindo que sua gl\u00e2ndula sudor\u00edpara extrapolava a camisa pantale\u00f4nica, rebati afirmando que estava tudo t\u00e3o anormal que, atualmente, votar em quem afana e carrega parece mais razo\u00e1vel do que optar por quem afana e esconde. Claro que ele n\u00e3o alcan\u00e7ou a pilh\u00e9ria. Ent\u00e3o, preferi continuar brincando que estava de brincadeira e sapequei na lata do fan\u00e1tico de ocasi\u00e3o que at\u00e9 outubro, m\u00eas da comemora\u00e7\u00e3o, o \u00fanico fardo que desejo carregar \u00e9 o da cerveja. A conversa de b\u00eabado continuou at\u00e9 que ele (meu novo amigo), me colocou nas cordas. \u2013 N\u00e3o sei em quem voc\u00ea vai votar, mas imagino. Mas me diga com sinceridade se o Brasil e brasileiro n\u00e3o est\u00e3o bem melhores do que estavam no governo que voc\u00ea disse que roubou.<\/p>\n<p>Antes de responder, o corrigi, alertando-o que quem jura de p\u00e9s juntos que aquele outro governante roubou s\u00e3o os apoiadores do atual mandat\u00e1rio. Eu apenas suponho, porque, sem entrar no m\u00e9rito e a exemplo do caviar, s\u00f3 ou\u00e7o falar. Nunca vi. Quanto ao brasileiro, ele hoje est\u00e1 do jeito que veio ao mundo. O companheiro perguntou: \u201cSem roupa\u201d?\u201d. N\u00e3o, respondi, acrescentando: Est\u00e1 com fome, sem dinheiro, com vontade de chorar e louco para ser novamente roubado. Decidido a encerrar o embaralhado col\u00f3quio, lembrei de uma velha (mas atual\u00edssima) piada de b\u00eabado.<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o contei, mas a hist\u00f3ria \u00e9 a seguinte: o b\u00eabado entra no \u00f4nibus e senta ao lado de um pastor evang\u00e9lico, daqueles que, como o novo amigo, fala mais do que o homem da cobra. Dois minutos ap\u00f3s e o pastor olha para o bebum com ar de reprova\u00e7\u00e3o e piedade e diz: \u201cMeu filho, voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea que esse \u00e9 o caminho para o inferno?\u201d. O b\u00eabado grita: \u201cPaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaara motorista, peguei o buz\u00e3o errado\u201d. Matutei e resmunguei: entrei no mercado errado. Deixei as compras, informando ao j\u00e1 ex-amigo que havia esquecido de secar os pratos e as panelas que tinha lavado. Deus me livre. Realmente, fan\u00e1ticos parecem s\u00e2ndalo, \u00e1rvore que perfuma o machado que a fere. \u00c9 a chamada dor de quem n\u00e3o quer acreditar no que est\u00e1 vendo.<\/p>\n<p><strong>*Mathuzal\u00e9m J\u00fanior \u00e9 jornalista profissional desde 1978<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De folga dos tortuosos e pragm\u00e1ticos afazeres dom\u00e9sticos, nesse fim de semana resolvi, por conta pr\u00f3pria, dar um rolezinho no hipermercado do bairro. A ideia inicial era checar pre\u00e7os, principalmente o da carne e do frango, ambos sumidos da mesa de boa parte dos brasileiros. 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