{"id":286623,"date":"2022-05-30T04:55:03","date_gmt":"2022-05-30T07:55:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=286623"},"modified":"2022-05-30T06:00:25","modified_gmt":"2022-05-30T09:00:25","slug":"militares-tramam-golpe-inspirados-em-mafiosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/militares-tramam-golpe-inspirados-em-mafiosos\/","title":{"rendered":"Militares tramam golpe inspirados em mafiosos"},"content":{"rendered":"<p>O que \u00e9 roubar um banco comparado a fundar um banco?\u201d (Bertolt Brecht, \u201cA \u00f3pera dos tr\u00eas vint\u00e9ns\u201d, 1928, e Ricardo Piglia, \u201cPlata quemada\u201d, 1997).<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de um s\u00e9culo os militares brasileiros tramam e aplicam golpes no Estado Nacional. Nem sempre no mesmo sentido, mas com um mote que se repete frequentemente: o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e ao comunismo. Ser\u00e1 mesmo?<\/p>\n<p>\u201cQuem analisa o Brasil, mesmo sem maiores pretens\u00f5es sociol\u00f3gicas, mas encarando-o e equacionando-lhe os principais problemas de maneira objetiva, chega fatalmente a esta conclus\u00e3o inquietante: estamos vivendo a fase crucial de nossa hist\u00f3ria\u201d escreveu, em 1954, o general Anapio Gomes (\u201cRadiografia do Brasil\u201d, com segunda edi\u00e7\u00e3o pelos Irm\u00e3os Pongetti, logo ap\u00f3s a morte do estadista Get\u00falio Vargas, em 1955).<\/p>\n<p>O ent\u00e3o Minist\u00e9rio da Guerra estava entregue, nesta \u201cfase crucial\u201d, desde janeiro de 1951 at\u00e9 novembro de 1955, aos seguintes generais: Newton Estillac Leal, Ciro do Esp\u00edrito Santo Cardoso, Euclides Zen\u00f3bio da Costa e Henrique Teixeira Lott, este ap\u00f3s 25 de agosto de 1954.<\/p>\n<p>Na Marinha e na Aeron\u00e1utica aos Almirantes Renato de Almeida Guillobel e Edmundo Amorim do Valle e aos Brigadeiros Nero Moura, Epaminondas Gomes dos Santos e Eduardo Gomes, estes \u00faltimos, na Marinha e na Aeron\u00e1utica, ap\u00f3s 25 de agosto de 1954, respectivamente.<\/p>\n<p>Se tomarmos a senten\u00e7a do historiador brit\u00e2nico, John Keegan (\u201cThe Face of Battle\u201d, 1976), \u201cn\u00e3o \u00e9 pelo que os ex\u00e9rcitos s\u00e3o, mas pelo que os ex\u00e9rcitos fazem que as vidas das na\u00e7\u00f5es e dos indiv\u00edduos se modificam\u201d, a \u201cfase crucial\u201d de nosso Pa\u00eds \u00e9 de toda a hist\u00f3ria, especialmente em nossos dias.<\/p>\n<p>Nas onze confer\u00eancias que o capit\u00e3o Genserico de Vasconcelos proferiu na Escola de Estado Maior e Aperfei\u00e7oamento de Oficiais (\u201cHist\u00f3ria Militar do Brasil\u201d, 1921) desenvolvendo a influ\u00eancia do fator militar na \u201corganiza\u00e7\u00e3o da nacionalidade\u201d exp\u00f5e, na s\u00edntese, que \u201ca obra da Rep\u00fablica reatou a nossa continuidade hist\u00f3rica, emendando 1889 com o Imp\u00e9rio, que se n\u00e3o havia desligado de Portugal e das bandeiras, terminou com o tra\u00e7ado dos lindes da nossa casa, vast\u00edssima morada de quase nove milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados. O Brasil integrou-se na Am\u00e9rica pela porta da Rep\u00fablica\u201d. E conclui: \u201cA Miss\u00e3o do Ex\u00e9rcito e da Marinha resume-se, pois, em manter a inviolabilidade e a seguran\u00e7a de nossas definitivas fronteiras, e argamassar a nacionalidade dentro de sua tradi\u00e7\u00e3o e da sua continuidade hist\u00f3rica\u201d. Belas palavras!<\/p>\n<p>E logo se seguiu, em 1922, h\u00e1 100 anos, o Movimento Tenentista e as diversas manifesta\u00e7\u00f5es militares pela d\u00e9cada de 1920.<br \/>\nNo n\u00famero de mar\u00e7o-abril de 1979 de \u201cA Defesa Nacional\u201d (Ano LXVI, n\u00ba 682), o general de divis\u00e3o Carlos de Meira Mattos (\u201cA Continentalidade do Brasil\u201d) discorreu sobre nossa realidade geogr\u00e1fica \u2013 maritimidade e continentalidade \u2013 afirmando que \u201cas sucessivas elites brasileiras, desde Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, n\u00e3o tomaram consci\u00eancia\u201d desta \u201captid\u00e3o geopol\u00edtica\u201d, da\u00ed os recuos e \u201ccautelas\u201d que marcam nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Talvez Meira Mattos, golpista de 1932 (volunt\u00e1rio), de 1954 e de 1964, n\u00e3o tivesse o expl\u00edcito prop\u00f3sito do purismo, da unicidade, mas caiu na esparrela, na armadilha do excludente, ao trocar nosso contorno mar\u00edtimo pelo terrestre (elogios a Juscelino Kubitschek e Em\u00edlio M\u00e9dici).<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel n\u00e3o nos lembrarmos do poema de Cec\u00edlia Meireles \u201cOu isso ou aquilo\u201d: \u201cn\u00e3o consegui entender ainda qual \u00e9 melhor: se \u00e9 isto ou aquilo\u201d (Cec\u00edlia Meireles, Poesia Completa, Global Editora, 2017).<\/p>\n<p>Somos v\u00edtimas, em todos os lugares, em todos os tempos, da pedagogia colonial, que se alimenta das segrega\u00e7\u00f5es, pois \u00e9 indispens\u00e1vel para que o poder, qualquer poder que n\u00e3o seja efetivamente popular, democr\u00e1tico, participativo, se mantenha sem a compreens\u00e3o de antagonismos: ou isso ou aquilo.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de vinte anos, analisando o poder onipresente do sistema financeiro internacional, escrevemos sobre a participa\u00e7\u00e3o crescente da economia marginal no poder das finan\u00e7as.<\/p>\n<p>Esta denomina\u00e7\u00e3o de economia marginal une todos os ganhos il\u00edcitos, assim definidos em tratados, conv\u00eanios, acordos internacionais e nas legisla\u00e7\u00f5es nacionais, tais como a tr\u00e1fico de drogas, a comercializa\u00e7\u00e3o de pessoas e \u00f3rg\u00e3os humanos, contrabandos de armas e outros produtos.<\/p>\n<p>H\u00e1 raz\u00e3o simples para compreender esta preval\u00eancia. Enquanto os capitais tradicionais est\u00e3o aplicados, em imensa maioria em bens fundi\u00e1rios, os capitais marginais est\u00e3o em moedas correntes, s\u00e3o \u201ccash\u201d, a vista, comprando, corrompendo, subornando imediatamente.<br \/>\nA crise de 2008\/2010, em parte, foi fruto da disputa pelo poder, ou seja, pelo controle dos 85 para\u00edsos fiscais existentes no mundo. E, assim, da circula\u00e7\u00e3o do dinheiro. Fundamental para o poder que se funda nas finan\u00e7as.<\/p>\n<p>Por\u00e9m \u00e9 muito dif\u00edcil para as pessoas, mesmo as mais cr\u00edticas do neoliberalismo, entenderem que n\u00e3o \u00e9 um projeto ideol\u00f3gico, nem nazista, nem fascista, nem petista, nem falsamente democr\u00e1tico, que est\u00e1 em quest\u00e3o. \u00c9 o dom\u00ednio da marginalidade, das mil\u00edcias, da mais nefasta pedagogia colonial que aceita e at\u00e9 justifica a venda de crian\u00e7as para os traficantes de sexo.<\/p>\n<p>O exemplo mais recente vem do \u201cProjeto de Na\u00e7\u00e3o \u2013 O Brasil em 2035\u201d, lan\u00e7ado em 19 de maio \u00faltimo, que foi entendida como a mais recente e antecipada contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 vontade das urnas, que dever\u00e1 surgir em outubro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>O \u201cProjeto\u201d, documento de 93 p\u00e1ginas, coordenado pelo general de divis\u00e3o da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva, contem 37 temas, considerados estrat\u00e9gicos: geopol\u00edtica, governan\u00e7a, seguran\u00e7a, desenvolvimento, ci\u00eancia, tecnologia, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, defesa nacional entre outros, que muitas vezes se contradizem nas conclus\u00f5es.<br \/>\nLonge de nossa inten\u00e7\u00e3o imputar ao general Luiz Rocha Paiva, ou a seu irm\u00e3o, coronel Paulo Ricardo da Rocha Paiva, de quem lemos com prazer as an\u00e1lises nas edi\u00e7\u00f5es da \u201cDefesanet\u201d, bem conduzidas por Nelson Duhring, qualquer associa\u00e7\u00e3o ao crime.<\/p>\n<p>Todos, e n\u00e3o nos exclu\u00edmos desse \u201ctodos\u201d, somos v\u00edtimas da pedagogia colonial, com intensidades e focos variados. E, assim, \u00e9-nos dif\u00edcil entender e avaliar, tamb\u00e9m pelo sigilo de que se cerca, a participa\u00e7\u00e3o da marginalidade criminosa nas decis\u00f5es do atual governo brasileiro.<\/p>\n<p>A economista e escritora Loretta Napoleoni escreveu \u201cRogue Economics\u201d (Seven Stories Press, NY, 2008) que na tradu\u00e7\u00e3o de Pedro Jorgensen Jr. para Difel (RJ, 2010) tomou o t\u00edtulo \u201cEconomia Bandida\u201d. Narra principalmente os eventos da \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo XX, ap\u00f3s a queda da Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas (URSS), e a ascens\u00e3o das economias marginais e da isl\u00e2mica, sem que mostre incompatibilidades entre elas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o aprofunda a a\u00e7\u00e3o de Vladimir Putin, para libertar a Federa\u00e7\u00e3o Russa das m\u00e1fias locais, \u201c\u00e9 preciso separar o dinheiro do poder\u201d (entrevistas a Oliver Stone, produzidas em 2017 e transmitidas no Brasil pela TVT em 2020).<\/p>\n<p>Escreve Loretta Napoleoni: \u201cos principais benefici\u00e1rios das transa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o aqueles que criam os novos produtos nem aqueles que os consomem, mas aqueles que os comercializam\u201d, boa conclus\u00e3o para os caminhoneiros que pedem a privatiza\u00e7\u00e3o da Petrobr\u00e1s, afastada, pelos golpistas de 2016, da comercializa\u00e7\u00e3o dos derivados de petr\u00f3leo.<br \/>\nMais n\u00e3o se atribua unicamente \u00e0 economia subterr\u00e2nea, a estas finan\u00e7as ap\u00e1tridas e marginais, a responsabilidade pela situa\u00e7\u00e3o vivida hoje no Brasil. Citando o grande brasileiro e pol\u00edtico Leonel Brizola, \u201ch\u00e1 um mar de cumplicidades\u201d.<\/p>\n<p>Em entrevista concedida em setembro de 2006, Grant Woods, diretor do Banco Coutts, onde a rainha do Reino Unido e a aristocracia brit\u00e2nica t\u00eam conta, esclareceu que o sistema fiscal dos residentes em Londres beneficia tributariamente todos estrangeiros que l\u00e1 tenham endere\u00e7o. \u201cEles deixam de pagar bilh\u00f5es de d\u00f3lares em imposto nos seus pa\u00edses de origem, desde que deixem depositadas grandes somas em bancos como o Coutts\u201d. E confessa que \u201ceu mesmo estruturei carteiras de v\u00e1rios oligarcas russos\u201d, formados na d\u00e9cada que sucedeu ao fim da URSS.<\/p>\n<p>\u00c0 miss\u00e3o das For\u00e7as Armadas, nas emocionantes palavras do capit\u00e3o Genserico de Vasconcelos, o coronel Nelson Werneck Sodr\u00e9 acrescenta \u201cassegurar o exerc\u00edcio da autoridade central em toda extens\u00e3o da base f\u00edsica brasileira\u201d (\u201cHist\u00f3ria Militar do Brasil\u201d, 1965). Ou seja, confirmando a tese do ga\u00facho Luiz Roberto Pecoits Targa (\u201cGa\u00fachos e Paulistas na Constru\u00e7\u00e3o do Brasil Moderno\u201d, 2020), apagando as hist\u00f3rias regionais em prol da redutora e homogeneizadora disputa centro-periferia.<\/p>\n<p>Desconhecer o Brasil, analis\u00e1-lo sob pressupostos discut\u00edveis, quando n\u00e3o absolutamente falsos, v\u00edtimas de preconceitos ideol\u00f3gicos \u2013 quem j\u00e1 comprovou que a competitividade \u00e9 mais eficaz do que a solidariedade para o resultado das institui\u00e7\u00f5es? \u2013 \u00e9 t\u00e3o danoso quanto aceitar a interfer\u00eancia divina para solu\u00e7\u00e3o de nossos terrestres problemas.<\/p>\n<p>A este prop\u00f3sito, o professor e economista Ricardo Bergamini, assumido liberal econ\u00f4mico, na coluna divulgada no s\u00e1bado, 28\/05\/2022, enviada por e-mail, relaciona os cinco \u201cpastores evang\u00e9licos\u201d mais ricos do Brasil com fortunas de milh\u00f5es de d\u00f3lares estadunidenses, e n\u00e3o por mero acaso, todos neopentecostais, as \u201cigrejas da caixinha\u201d: Edir Macedo, bilion\u00e1rio dono da Igreja Universal do Reino de Deus, Valdemiro Santiago, dos feij\u00f5es milagrosos, da Igreja Mundial do Poder de Deus, Silas Malafaia, ativista politico, da Assembleia de Deus Vit\u00f3ria em Cristo, R.R. Soares, da Igreja Internacional da Gra\u00e7a de Deus, e o casal Estevam e S\u00f4nia Hernandes, da Igreja Renascer.<\/p>\n<p>As For\u00e7as Armadas, onde a lideran\u00e7a sempre esteve com o Ex\u00e9rcito, ocupam o Governo Brasileiro, pelos discut\u00edveis votos computados pelas urnas eletr\u00f4nicas, cujo controle brasileiro \u00e9 ainda mais duvidoso.<\/p>\n<p>E ainda pretendem aplicar novo golpe para durar mais 15 anos, lembrando os 1000 anos do projeto hitlerista.<br \/>\nRevendo dois golpes no s\u00e9culo XX, que as For\u00e7as Armadas assumiram, nem sempre com benef\u00edcio pr\u00f3prio, mas em preju\u00edzo do desenvolvimento da sociedade brasileira, vemos duas fal\u00e1cias. O \u201cmar de lama\u201d, corrup\u00e7\u00e3o que jamais ocorreu no Governo Vargas, e foi reconhecido, anos depois, pelo seu veemente opositor, Afonso Arinos de Mello Franco em artigo no \u201cJornal do Brasil\u201d. E o \u201ccomunismo\u201d de Jo\u00e3o Goulart, verdadeira piada de mau gosto, que s\u00f3 enganou quem dela se aproveitou (de in\u00edcio capitais estrangeiros) ou foi muito ing\u00eanuo, tendo na vis\u00e3o setorial o desconhecimento do todo que a cercava.<\/p>\n<p>Mais uma vez, objetivos n\u00e3o nacionais conduzem nossa hist\u00f3ria. Se tivemos antes identidades nacionais: portuguesas, holandesas, francesas, inglesas e estadunidenses se locupletando de nossas riquezas naturais e do trabalho de nosso povo miscigenado, hoje \u00e9 um sistema ap\u00e1trida, conduzido pelas finan\u00e7as, com forte participa\u00e7\u00e3o de capitais il\u00edcitos, quem nos dirige.<\/p>\n<p>Desconhecer esta triste realidade \u00e9 naufragar com nosso Pa\u00eds em \u00e1guas imundas, f\u00e9tidas, com v\u00edrus produzidos em laborat\u00f3rios para a guerra bacteriol\u00f3gica, a nova domina\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 roubar um banco comparado a fundar um banco?\u201d (Bertolt Brecht, \u201cA \u00f3pera dos tr\u00eas vint\u00e9ns\u201d, 1928, e Ricardo Piglia, \u201cPlata quemada\u201d, 1997). H\u00e1 mais de um s\u00e9culo os militares brasileiros tramam e aplicam golpes no Estado Nacional. 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