{"id":287023,"date":"2022-06-07T05:20:20","date_gmt":"2022-06-07T08:20:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=287023"},"modified":"2022-06-07T05:25:37","modified_gmt":"2022-06-07T08:25:37","slug":"vendida-dinheiro-de-petrobras-vai-acabar-melhor-deixar-como-esta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/vendida-dinheiro-de-petrobras-vai-acabar-melhor-deixar-como-esta\/","title":{"rendered":"Vendida, dinheiro de Petrobras vai acabar; melhor deixar como est\u00e1"},"content":{"rendered":"<p>A alta dos pre\u00e7os dos combust\u00edveis e o risco de escassez de diesel previsto pela Petrobras ao governo para o segundo semestre levantam a discuss\u00e3o sobre a import\u00e2ncia do petr\u00f3leo em um pa\u00eds como o Brasil, que depende de importa\u00e7\u00f5es para suprir parte de sua demanda interna. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia P\u00fablica, o f\u00edsico Roberto Kishinami, especialista em energia e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e coordenador do Instituto Clima e Sociedade (iCS), afirma que o caminho da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica \u00e9 \u201ctotalmente vi\u00e1vel\u201d para proteger o pa\u00eds de novas crises como a atual.<\/p>\n<p>Para o especialista, aumentar a presen\u00e7a de fontes renov\u00e1veis como a solar e e\u00f3lica na matriz el\u00e9trica brasileira ajudaria a diminuir a depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos derivados do \u00f3leo. \u201cEssa \u00e9 uma energia segura, barata e renov\u00e1vel e nos permitiria avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 eletrifica\u00e7\u00e3o: substituir combust\u00edvel l\u00edquido, principalmente f\u00f3ssil, por eletricidade no transporte p\u00fablico e em ind\u00fastrias, que \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o que o mundo quer seguir\u201d, diz. Ele destaca que o Brasil produz a energia el\u00e9trica renov\u00e1vel \u201cmais barata no mundo\u201d, e que, por isso, teria vantagem para tomar a dianteira do processo. \u201cMas depende de pol\u00edtica\u201d, aponta.<\/p>\n<p>Kishinami explica tamb\u00e9m que um quarto do diesel utilizado pelo Brasil \u00e9 oriundo de importa\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que as refinarias nacionais n\u00e3o s\u00e3o capazes de suprir a demanda total. Uma soma de fatores, entre os quais se destacam a guerra da R\u00fassia na Ucr\u00e2nia e suas repercuss\u00f5es, prejudica a estabilidade desse fornecimento. Diante desse quadro, ele defende que o governo federal administre os estoques de diesel \u201cpara amortecer a volatilidade dos pre\u00e7os internacionais protegendo, tanto quanto poss\u00edvel, a economia nacional\u201d. De acordo com ele, essa medida seria \u201cum jogo antiespeculativo: diariamente compra na baixa e vende, sem margem de ganho, na alta para o mercado interno\u201d. No entanto, em sua avalia\u00e7\u00e3o, falta ao governo \u201cvontade de proteger a economia dom\u00e9stica\u201d.<\/p>\n<p>Ainda segundo o especialista, devido \u00e0 necessidade de importa\u00e7\u00f5es para atender a demanda interna por derivados de petr\u00f3leo, as recentes trocas de comando da Petrobras \u2013 j\u00e1 foram tr\u00eas sob Bolsonaro \u2013 s\u00e3o ineficientes para conter a alta no pre\u00e7o dos combust\u00edveis, que preocupa o presidente no ano em que busca sua reelei\u00e7\u00e3o. \u201cO desequil\u00edbrio no mercado brasileiro com rela\u00e7\u00e3o ao refino e \u00e0 depend\u00eancia do \u00f3leo importado vai continuar, n\u00e3o importa o que esse presidente fa\u00e7a \u2013 os pre\u00e7os, para o consumidor final, v\u00e3o ficar sujeitos \u00e0 flutua\u00e7\u00e3o internacional\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>Confira a seguir os principais trechos da entrevista.<\/p>\n<p><strong>Por que estamos enfrentando risco de desabastecimento de diesel no Brasil j\u00e1 a partir do segundo semestre?<\/strong><\/p>\n<p>Para entender o que acontece com o diesel \u00e9 preciso ter duas informa\u00e7\u00f5es. O Brasil importa 25% do diesel que consome. Em 2021, foram 14,3 bilh\u00f5es de litros importados e 42,9 bilh\u00f5es de litros produzidos nas refinarias [nacionais]. O \u00f3leo diesel \u00e9 um dos derivados de petr\u00f3leo commodity e a R\u00fassia \u00e9 o maior fornecedor deste produto. A segunda informa\u00e7\u00e3o \u00e9 que as san\u00e7\u00f5es puxadas pelos Estados Unidos e Uni\u00e3o Europeia \u00e0 R\u00fassia pela guerra na Ucr\u00e2nia tornam praticamente imposs\u00edvel comprar produtos russos, pelo bloqueio de bancos russos ao c\u00f3digo Swift que permite as transa\u00e7\u00f5es financeiras internacionais. O resultado \u00e9 um aperto na oferta e uma demanda que continua, pelo menos, igual \u00e0 que existia antes da guerra. Num quadro de pre\u00e7os altos e volatilidade presente no mercado de petr\u00f3leo e derivados como resultado da guerra, o governo deveria estabelecer pol\u00edticas para aumentar os estoques estrat\u00e9gicos do produto, eventualmente alugando tancagem adicional em territ\u00f3rio nacional; e administrar \u2013 comprando e vendendo \u2013 esses estoques para amortecer a volatilidade dos pre\u00e7os internacionais protegendo, tanto quanto poss\u00edvel, a economia nacional. Esta administra\u00e7\u00e3o de estoques \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 que os Bancos Centrais fazem com o c\u00e2mbio. A a\u00e7\u00e3o do governo, neste caso, estaria dirigida \u00e0 volatilidade e n\u00e3o ao patamar de pre\u00e7os. O acompanhamento da tend\u00eancia de pre\u00e7os \u00e9 o que esta atividade requer. A infla\u00e7\u00e3o anual vai crescer de qualquer forma, porque h\u00e1 um encarecimento da energia, principalmente em transporte de carga e mobilidade de passageiros. Mas os transtornos maiores n\u00e3o v\u00eam disso, decorrem da volatilidade. Toda vez que h\u00e1 uma alta internacional, as bombas de abastecimento mostram pre\u00e7os maiores. Quando o mesmo pre\u00e7o cai internacionalmente, as bombas n\u00e3o respondem da mesma maneira. \u00c9 um movimento \u201cpara cima\u201d e aos solu\u00e7os. Temos baixa capacidade de armazenamento estrat\u00e9gico e falta de vontade de proteger a economia dom\u00e9stica. A administra\u00e7\u00e3o de estoques estrat\u00e9gicos seria, em tudo, um jogo antiespeculativo: diariamente compra na baixa e vende, sem margem de ganho, na alta para o mercado interno. Mas se o governo n\u00e3o faz, por que n\u00e3o deixar as empresas fazerem? Porque \u00e9 uma atividade em sentido contr\u00e1rio ao que as empresas fazem. Seria uma atividade permanente? Preferencialmente n\u00e3o. Deveria durar enquanto o mercado internacional estiver vol\u00e1til em fun\u00e7\u00e3o da guerra da R\u00fassia na Ucr\u00e2nia. Uma raz\u00e3o de Estado para interferir no mercado.<\/p>\n<p><strong>Por que o Brasil se tornou t\u00e3o dependente de importa\u00e7\u00f5es de combust\u00edveis?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 duas coisas que s\u00e3o resultados da guerra da R\u00fassia na Ucr\u00e2nia: uma s\u00e3o as san\u00e7\u00f5es, que v\u00e3o continuar, e a segunda, a queda na demanda de petr\u00f3leo e g\u00e1s russo pela Europa. Isso provoca, de um lado, uma movimenta\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, que \u00e9 um grande produtor e exportador de petr\u00f3leo e g\u00e1s para o mercado europeu, o que naturalmente reduz a oferta para um pa\u00eds como o Brasil. Somos um exportador l\u00edquido de petr\u00f3leo \u2013 quando voc\u00ea faz as contas de quantos barris de petr\u00f3leo e derivados entram e quantos s\u00e3o vendidos, v\u00ea que o saldo l\u00edquido \u00e9 exporta\u00e7\u00e3o. Mas o mercado interno brasileiro tem um perfil: a gente consome, na verdade, muito diesel, e as refinarias brasileiras n\u00e3o s\u00e3o capazes de fornec\u00ea-lo. O resultado \u00e9 que o Brasil tem que importar alguns tipos de \u00f3leo, apesar de ter bastante \u00f3leo do pr\u00e9-sal \u2013 quase um quarto do diesel que a gente consome. O desequil\u00edbrio no mercado brasileiro com rela\u00e7\u00e3o ao refino e \u00e0 depend\u00eancia do \u00f3leo importado vai continuar, n\u00e3o importa o que esse presidente fa\u00e7a \u2013 os pre\u00e7os, para o consumidor final, v\u00e3o ficar sujeitos \u00e0 flutua\u00e7\u00e3o internacional. E a tend\u00eancia \u00e9 manter o pre\u00e7o, no curt\u00edssimo prazo, na faixa de 100 d\u00f3lares o barril, o que define, na verdade, qual \u00e9 o pre\u00e7o dos derivados no mercado internacional. E a m\u00e9dio prazo \u2013 em 2023, 2024 \u2013 o pre\u00e7o, segundo a Ag\u00eancia Internacional de Energia, deve permanecer na faixa acima de 80 d\u00f3lares o barril, que \u00e9 um valor alto, se olhar historicamente. Essa \u00e9 a tend\u00eancia com a qual o Brasil vai ter que lidar no curto prazo.<\/p>\n<p><strong>Diante disso, h\u00e1 alguma alternativa \u00e0 pol\u00edtica que atrela o pre\u00e7o dos combust\u00edveis ao mercado internacional, utilizada pela Petrobras desde 2016, no governo de Michel Temer?<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil depende de derivados importados, e na medida em que \u00e9 um pa\u00eds importador, tem necessariamente que usar a paridade de importa\u00e7\u00e3o. Seria diferente em um pa\u00eds exportador, que tamb\u00e9m precisa usar a paridade, mas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, que na maior parte do tempo \u00e9 mais baixa do que a de importa\u00e7\u00e3o. O governo Temer, quando adotou a [pol\u00edtica de paridade] de importa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m cortou todo o investimento em refino, ent\u00e3o essas duas coisas est\u00e3o ligadas: foi uma decis\u00e3o consciente de tornar o mercado interno dependente da importa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 se sabia que o consumo de diesel ia crescer e, sem investimentos, as refinarias n\u00e3o seriam capazes de aumentar a oferta interna. A paridade \u00e9 decorr\u00eancia do fato de a gente estar imerso no mercado internacional. N\u00e3o tem alternativa. Voc\u00ea vai quebrar a empresa? Tudo bem, pode at\u00e9 quebrar, mas vai continuar no mesmo rumo da depend\u00eancia de fornecimentos [internacionais].<\/p>\n<p><strong>Na semana passada, Bolsonaro trocou o presidente da Petrobras pela terceira vez desde o in\u00edcio de seu governo. Essa \u00e9 uma medida eficaz para conter a alta no pre\u00e7o dos combust\u00edveis?<\/strong><\/p>\n<p>A troca de ministros e presidentes de empresas, no setor de energia, n\u00e3o resolve nenhum dos problemas, porque as raz\u00f5es para esses problemas s\u00e3o estruturais, de um lado, e do outro est\u00e3o em um contexto internacional. A decis\u00e3o a respeito de pre\u00e7os de petr\u00f3leo e derivados n\u00e3o \u00e9 feita por pol\u00edticas locais, \u00e9 resultado de uma demanda global em que h\u00e1 milhares de operadores que, dentro do quadro de oferta e demanda, procuram equacionar pre\u00e7os. O outro lado \u00e9 que essas trocas e o barulho que provocam s\u00e3o parte das t\u00e1ticas desse presidente, que, desde o primeiro dia, n\u00e3o faz mais do que campanha pol\u00edtica e usa da m\u00e1quina do Estado para se manter como candidato vi\u00e1vel \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma considera\u00e7\u00e3o a respeito de pol\u00edticas com P mai\u00fasculo, que s\u00e3o as que interessam, de fato, para a popula\u00e7\u00e3o e o pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Tem se discutido, principalmente no Congresso, a cria\u00e7\u00e3o de um subs\u00eddio ao combust\u00edvel para diminuir o pre\u00e7o nas bombas. Essa \u00e9 uma alternativa eficaz para aliviar sobretudo o peso sobre o bolso dos mais pobres?<\/strong><\/p>\n<p>Temos que lembrar que o Brasil \u00e9 extremamente desigual \u2014 os mais ricos t\u00eam renda 40, 50 vezes maior do que a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda, que \u00e9 muito mais numerosa. Ela sofre tamb\u00e9m com o aumento da gasolina e do diesel porque isso impacta a produ\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o de produtos: subiu o diesel, vai subir o pre\u00e7o do frango, n\u00e3o h\u00e1 maneira de fugir disso. Se a ideia for atenuar a situa\u00e7\u00e3o dos mais pobres, de quem realmente necessita, a\u00ed a melhor forma \u00e9 dar dinheiro na m\u00e3o dessas pessoas. O Bolsa Fam\u00edlia, agora chamado de Aux\u00edlio Brasil \u2014 uma tentativa de captura de uma boa pol\u00edtica \u2014, \u00e9 eficaz porque resolve um problema da popula\u00e7\u00e3o mais pobre e, atrav\u00e9s disso, fornece combust\u00edvel para a economia. Se essas pessoas podem consumir, \u00e9 \u00f3bvio que quem fornece, cria e transporta o frango acaba ganhando com isso \u2014 o dinheiro que voc\u00ea coloca ali vira imediatamente consumo. Uma forma de fazer de conta que est\u00e1 resolvendo \u00e9 pegar o mesmo dinheiro que poderia ir para as pessoas e dar um \u201cvale diesel\u201d para o caminhoneiro. A\u00ed voc\u00ea est\u00e1 colocando dinheiro num segmento da economia, ele vai direto para o distribuidor de combust\u00edvel e se atinge, na verdade, uma parcela muito menor da popula\u00e7\u00e3o. Mas o pre\u00e7o do diesel vai continuar dentro da paridade internacional.<\/p>\n<p><strong>O Aux\u00edlio Brasil, do jeito que est\u00e1 desenhado, \u00e9 suficiente para ajudar a popula\u00e7\u00e3o neste momento de infla\u00e7\u00e3o e desemprego altos?<\/strong><\/p>\n<p>O Bolsa Fam\u00edlia tinha uma concep\u00e7\u00e3o de n\u00e3o s\u00f3 dar o dinheiro na m\u00e3o das pessoas, mas apontar o caminho para a supera\u00e7\u00e3o do estado de mis\u00e9ria e pobreza. Claramente, o entendimento de todos que estudam pobreza no Brasil aponta que \u00e9 preciso trabalhar em programas intergeracionais, para que as pessoas que est\u00e3o pobres hoje possam criar uma situa\u00e7\u00e3o em que seus filhos n\u00e3o precisem viver no mesmo quadro. Por isso, o Bolsa Fam\u00edlia estava muito acoplado ao Cad\u00danico [Cadastro \u00danico para Programas Sociais], no qual h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es sobre composi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, grau de escolaridade, vacina\u00e7\u00e3o \u2014 coisas essenciais para se cuidar das gera\u00e7\u00f5es mais novas, permitindo que possam ter um caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00edda da pobreza. Mas essa vers\u00e3o do aux\u00edlio se desligou daquele cadastro, o que h\u00e1 agora \u00e9 uma lista praticamente autodeclarat\u00f3ria. Quando se faz esse desligamento, cria-se simplesmente um cart\u00e3o que d\u00e1 acesso a dinheiro, sem nenhum v\u00ednculo com programas que v\u00e3o te levar para fora do quadro de pobreza. Criou-se, na verdade, um programa t\u00edpico de populista: te dou um cart\u00e3o e voc\u00ea pode ir l\u00e1 e sacar o seu dinheiro. E a dura\u00e7\u00e3o disso \u00e9 enquanto esse sujeito estiver comandando a coisa, porque na hora em que ele cai ou sai por qualquer motivo, o programa de doa\u00e7\u00e3o mensal pode desaparecer. Isso mostra uma falta de resili\u00eancia dentro da sociedade para segurar os avan\u00e7os. Significa, para mim, que estamos sempre sujeitos a uma volta para 50, 60 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>No fim de maio, a C\u00e2mara aprovou projeto de lei que limita a al\u00edquota do ICMS sobre os combust\u00edveis \u2013 a proposta deve ser votada pelo Senado neste m\u00eas. Essa \u00e9 uma medida acertada?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que \u00e9 cortina de fuma\u00e7a de novo, pelo seguinte: est\u00e1 na m\u00e3o desse governo, desde o primeiro dia de mandato, uma proposta de reforma tribut\u00e1ria. Apareceram v\u00e1rias vers\u00f5es, mas todas as propostas procuram simplificar o sistema tribut\u00e1rio brasileiro. \u00c9 claro que o n\u00edvel de tributos \u00e9 alto, mas o problema maior para as empresas, antes disso, \u00e9 a complica\u00e7\u00e3o. E isso atinge tamb\u00e9m o setor de combust\u00edveis: se voc\u00ea pega a cadeia de produ\u00e7\u00e3o de um combust\u00edvel, vai ver que h\u00e1 incid\u00eancia em cascata dos tributos federais, estaduais, e mesmo contribui\u00e7\u00f5es \u00e0s vezes municipais etc. Nesse texto decidido pelos deputados, n\u00e3o h\u00e1 um teto que tenha sido avaliado tecnicamente. Provavelmente a m\u00e9dia dos gostos ali caiu em 17% e assim ficou \u2014 um n\u00famero \u00edmpar, primo, deve ser por alguma raz\u00e3o dessas. E institu\u00edram o tal gatilho, pelo qual, se isso provocar uma queda de mais de 5% na arrecada\u00e7\u00e3o do ente federado, seja munic\u00edpio ou estado, ele faz direito uma compensa\u00e7\u00e3o. Mas compensa\u00e7\u00e3o de onde? Porque, no que foi criado, n\u00e3o tem nenhuma fonte de receita. \u00c9 o contr\u00e1rio: foi feita uma n\u00e3o receita, uma vez que est\u00e1 todo mundo acima [do limite] dos 17%. Se isso \u00e9 aplicado, inevitavelmente vai levar a uma desorganiza\u00e7\u00e3o, a algo que aumenta os custos em vez de reduzir. E por tr\u00e1s de tudo h\u00e1 uma falta de compreens\u00e3o de qual \u00e9 o mundo, de fato, em que esses combust\u00edveis est\u00e3o. O diesel vive no mercado internacional, se voc\u00ea come\u00e7a a colocar restri\u00e7\u00f5es aqui, ele vai fugir para algum lugar. Come\u00e7ando pelos pr\u00f3prios operadores. Se o pre\u00e7o \u00e9 mais alto l\u00e1 fora do que consegue colocar aqui, qual \u00e9 a decis\u00e3o racional dele? \u201cN\u00e3o posso importar, sen\u00e3o vou perder dinheiro.\u201d<\/p>\n<p><strong>A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, com a consequente redu\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, \u00e9 um caminho vi\u00e1vel para proteger o Brasil de novas crises como a atual?<\/strong><\/p>\n<p>Totalmente vi\u00e1vel. O Brasil \u00e9 o lugar onde se produz a energia el\u00e9trica por fonte renov\u00e1vel \u2014 solar e e\u00f3lica \u2014 mais barata no mundo. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 energia hidrel\u00e9trica, temos um bom parque, e quase metade do consumo nacional hoje pode ser reservado. Isso \u00e9 uma capacidade boa. A gente prop\u00f5e que essa capacidade seja usada para fornecer uma coisa importante no setor el\u00e9trico: pot\u00eancia. E\u00f3lica e solar geram enquanto tem sol e vento, e, dependendo da intensidade, geram mais ou menos. O consumo, do outro lado, tem a sua pr\u00f3pria l\u00f3gica: a gente liga ar-condicionado, ilumina\u00e7\u00e3o e\u00a0m\u00e1quinas de acordo com h\u00e1bitos. Do lado da oferta de energia, a gente tem uma curva, com e\u00f3lica e solar, que n\u00e3o \u00e9 a curva da demanda, ent\u00e3o precisamos de alguma fonte que entra e sai r\u00e1pido para ajustar essas duas curvas. O ideal para isso \u00e9 hidrel\u00e9trica. No nosso entender, quando tem reservat\u00f3rio, a hidrel\u00e9trica deveria ser usada para fornecer essa pot\u00eancia. Isso faria com que a gente pudesse crescer muito a produ\u00e7\u00e3o de e\u00f3lica e solar \u2013 hoje, temos 12%, 13% de e\u00f3lica, n\u00e3o \u00e9 grande coisa. A gente precisa de muito mais de e\u00f3lica e solar para poder usar como complemento a hidrel\u00e9trica com reservat\u00f3rio e da\u00ed ent\u00e3o fazer o atendimento da demanda. Essa \u00e9 uma energia segura, barata e renov\u00e1vel e nos permitiria avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 eletrifica\u00e7\u00e3o: substituir combust\u00edvel l\u00edquido, principalmente f\u00f3ssil, por eletricidade no transporte p\u00fablico e em ind\u00fastrias, que \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o que o mundo quer seguir. Na verdade, ter\u00edamos vantagem para estar na frente disso, mas depende de pol\u00edtica. Essa transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica vai demorar 30, 40 anos para se completar, e isso tem a ver tamb\u00e9m com o mundo de petr\u00f3leo e g\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>Em que est\u00e1gio dessa transi\u00e7\u00e3o est\u00e1 o Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Se voc\u00ea pensar, por exemplo, nas refinarias, elas s\u00e3o lugares em que entra petr\u00f3leo e saem derivados, mas podem ser o lugar em que entram outros insumos: \u00f3leos vegetais, biomassa e, no extremo, inclusive uma parcela org\u00e2nica de lixo urbano. Voc\u00ea tem ali o complexo de coisas que transforma tudo isso em combust\u00edveis l\u00edquidos, gasosos e eletricidade. A transi\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo em que voc\u00ea aproveita o potencial que o Brasil tem em solar, e\u00f3lica e biomassa; em que voc\u00ea produz coisas novas, tipo o hidrog\u00eanio verde \u2014 o lugar ideal para isso \u00e9 uma refinaria at\u00e9, at\u00e9 porque elas j\u00e1 produzem e usam hidrog\u00eanio, s\u00f3 que o hidrog\u00eanio retirado do g\u00e1s natural, que \u00e9 um f\u00f3ssil. O Brasil precisa se envolver um pouco mais com a transi\u00e7\u00e3o e ter a ambi\u00e7\u00e3o de ser o primeiro. Todo mundo do setor faz apologia \u00e0 matriz el\u00e9trica brasileira dizendo que \u00e9 a mais limpa, em que quase metade da energia \u00e9 renov\u00e1vel. Isso \u00e9 verdade e nos posiciona para ir na dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 que estamos indo agora. S\u00f3 que isso hoje \u00e9 usado para dizer \u201cn\u00e3o faz mal ter um pouco mais de g\u00e1s natural, que \u00e9 f\u00f3ssil, porque n\u00e3o vai deixar a matriz t\u00e3o suja\u201d. O problema \u00e9 que esse caminho com g\u00e1s natural nos leva para tr\u00e1s, ter\u00edamos que estar olhando para frente, pensando: temos metade? Ent\u00e3o queremos chegar a 80% em determinado prazo, queremos chegar a 100% at\u00e9 o final do s\u00e9culo. Isso \u00e9 o que nos posicionaria como um pioneiro no mundo. A\u00ed a gente teria vantagens \u2014 o Brasil seria o lugar que produz o a\u00e7o verde, os qu\u00edmicos verdes, os fertilizantes verdes. Tudo que o Brasil produziria teria a marca de ser limpo por excel\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Temos visto no Congresso tentativas recorrentes de ampliar a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de energia a g\u00e1s no pa\u00eds. Por qu\u00ea, para o Brasil, essa n\u00e3o \u00e9 uma alternativa vi\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>Quando voc\u00ea pega a matriz de energia global, 60% da eletricidade \u00e9 produzida com carv\u00e3o \u2014 \u00e9 uma enormidade. Se voc\u00ea considerar que, para cada megawatt-hora de eletricidade gerado com carv\u00e3o, \u00e9 emitida uma tonelada de CO2 e, para produzir o mesmo megawatt-hora com g\u00e1s natural, s\u00e3o emitidos cerca de 600 kg, \u00e9 um ganho. Para os lugares que dependem muito do carv\u00e3o, como \u00e9 o caso da China e Alemanha, o g\u00e1s natural \u00e9 um fator de redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es. J\u00e1 no Brasil, mal utilizamos carv\u00e3o para gerar eletricidade. A nossa principal fonte \u00e9 a hidroeletricidade: 60% da eletricidade que a gente consome vem de hidrel\u00e9tricas. Ent\u00e3o, toda vez que colocamos uma planta de g\u00e1s natural para gerar eletricidade de forma cont\u00ednua, estamos indo no caminho, primeiro, de uma energia mais cara; segundo, de uma energia mais suja. E terceiro, ainda no caso do g\u00e1s natural liquefeito (GNL), n\u00f3s importamos o g\u00e1s natural liquefeito dos Estados Unidos, que passaram a ser grandes exportadores devido \u00e0queles campos de fracking na Pensilv\u00e2nia, principalmente. Ou seja, \u00e9 uma energia cara, suja e, no caso do GNL, ainda nos coloca na situa\u00e7\u00e3o em que as contas de energia el\u00e9trica ficam em parte dolarizadas.<\/p>\n<p><strong>Qual seria um caminho vi\u00e1vel para a Petrobras nesse cen\u00e1rio em que a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica se imp\u00f5e?<\/strong><\/p>\n<p>O resultado da guerra da R\u00fassia \u00e9 uma demanda maior por petr\u00f3leo do Brasil, porque \u00e9 um petr\u00f3leo que cai bem em v\u00e1rias refinarias, inclusive europeias. Ent\u00e3o, a demanda pelo petr\u00f3leo do pr\u00e9-sal vai continuar alta. Ao mesmo tempo, internamente a gente tem todo esse potencial. Como \u00e9 que resolve? Na cabe\u00e7a do pol\u00edtico, o dilema que aparece \u00e9: petr\u00f3leo \u00e9 o que tem demanda, \u00e9 o que vai dar dinheiro. Ent\u00e3o a tend\u00eancia dele \u00e9 seguir nisso. S\u00f3 que esse dinheiro do petr\u00f3leo tem um prazo; a Europa mesmo coloca que em 2040, 2045 estar\u00e1 livre de petr\u00f3leo. E o que voc\u00ea faz, atrela o futuro do pa\u00eds a uma coisa que tem um prazo definido? Isso seria como amarrar a sua carro\u00e7a a um neg\u00f3cio que vai s\u00f3 at\u00e9 um certo ponto. A \u00fanica maneira, a meu ver, \u00e9 separar essas duas coisas. Tudo bem, tem a Petrobras exportadora do pr\u00e9-sal, que vai mandar todo \u00f3leo que puder para quem quiser consumir. Ao mesmo tempo, internamente, para as refinarias, a gente estabelece uma pol\u00edtica de longu\u00edssimo prazo de transi\u00e7\u00e3o. Para isso funcionar, tem que haver uma separa\u00e7\u00e3o entre essas duas coisas. Pode continuar sendo a mesma empresa, mas com dois CNPJs: uma de E&amp;P [explora\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o] e outra subsidi\u00e1ria que tem refinarias, dutos etc. que atendem o mercado interno. As pol\u00edticas das duas v\u00e3o em dire\u00e7\u00f5es opostas, mas a gente sabe que uma acaba e a outra \u00e9 o futuro. \u00c9 um movimento que vai acontecer em todos os lugares, e o Brasil precisa tomar essa decis\u00e3o rapidamente, porque a janela que existe para o pa\u00eds est\u00e1 nos pr\u00f3ximos dois, tr\u00eas anos \u2014 at\u00e9 2025, isso precisa estar resolvido, pois \u00e9 quando o mundo todo vai fazer um balan\u00e7o [o Global Stocktake, previsto no Acordo de Paris] e ver quem est\u00e1 na transi\u00e7\u00e3o e quem est\u00e1 ficando para tr\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>Segundo seu \u00faltimo plano quinquenal, a Petrobras planeja ampliar em 45% sua produ\u00e7\u00e3o de \u00f3leo at\u00e9 2026. Por que a empresa n\u00e3o se coloca na dire\u00e7\u00e3o que voc\u00ea apontou?<\/strong><\/p>\n<p>Os executivos das empresas executam aquilo que vem via conselho, por isso \u00e9 preciso ter um comando pol\u00edtico que diz qual \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o. A partir disso eles seriam capazes \u2014 porque tem gente muito capaz dentro da empresa \u2014 de elaborar os planos adequados na dire\u00e7\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e da descarboniza\u00e7\u00e3o. E essa \u00e9 uma mudan\u00e7a grande, n\u00e3o \u00e9 uma coisa marginal. Teria que ser constru\u00edda de tal maneira que estivesse segura por v\u00e1rios mandatos, n\u00e3o pode ser uma mudan\u00e7a que vai [por um sentido] e de repente volta, voc\u00ea afunda a empresa com isso. Acho que temos dificuldade, no Brasil, de produzir pol\u00edticas de mais longo prazo. O Sistema \u00danico de Sa\u00fade \u00e9 melhor, porque, claramente, apesar de todo o negacionismo, funciona na base, mas os setores de energia \u2014 o el\u00e9trico e o de combust\u00edveis \u2014 se mostraram mais fr\u00e1geis. Claramente, os pre\u00e7os est\u00e3o l\u00e1 em cima por raz\u00f5es estruturais, por pol\u00edticas inadequadas, e isso mostra pouca resili\u00eancia do setor. N\u00e3o interessa a ele ficar com custos altos por fatores ligados \u00e0 pol\u00edtica \u2014 isso \u00e9 ruim para os neg\u00f3cios, no final das contas. Mas h\u00e1 uma s\u00e9rie de interfer\u00eancias mostrando que a governan\u00e7a de cada um desses setores n\u00e3o \u00e9 suficiente para proteger o seu neg\u00f3cio e os seus consumidores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A alta dos pre\u00e7os dos combust\u00edveis e o risco de escassez de diesel previsto pela Petrobras ao governo para o segundo semestre levantam a discuss\u00e3o sobre a import\u00e2ncia do petr\u00f3leo em um pa\u00eds como o Brasil, que depende de importa\u00e7\u00f5es para suprir parte de sua demanda interna. 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