{"id":287035,"date":"2022-06-07T05:18:21","date_gmt":"2022-06-07T08:18:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=287035"},"modified":"2022-06-07T05:26:31","modified_gmt":"2022-06-07T08:26:31","slug":"educacao-nega-bolsa-a-alunos-indigenas-e-quilombolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/educacao-nega-bolsa-a-alunos-indigenas-e-quilombolas\/","title":{"rendered":"Educa\u00e7\u00e3o nega Bolsa a alunos ind\u00edgenas e quilombolas"},"content":{"rendered":"<p>Douglas Lopes\/Ag\u00eancia P\u00fablica<br \/>\nAux\u00edlio de R$ 900 por m\u00eas permite que essas popula\u00e7\u00f5es se mantenham longe dos seus territ\u00f3rios. Falta de bolsas obriga universidades a criar outros crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>No ano em que a Lei de Cotas completa dez anos, estudantes ind\u00edgenas e quilombolas enfrentam um desafio ainda maior do que entrar na universidade: se manter nela. Vindos de espa\u00e7os em que o dinheiro n\u00e3o \u00e9 a moeda de troca mais valiosa, eles contam com a Bolsa Perman\u00eancia para se sustentarem nas cidades em que est\u00e3o localizados os campi das universidades federais. Levantamento exclusivo da <em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em> com dados obtidos via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o (LAI) mostra, por\u00e9m, que o programa foi drasticamente reduzido durante o governo Bolsonaro. Hoje seis entre cada dez alunos dessas popula\u00e7\u00f5es que solicitam o aux\u00edlio t\u00eam seus pedidos negados.<\/p>\n<p>Para receberem o aux\u00edlio de R$ 900, al\u00e9m da autodeclara\u00e7\u00e3o, os alunos ind\u00edgenas e quilombolas precisam apresentar uma declara\u00e7\u00e3o da comunidade de resid\u00eancia, uma declara\u00e7\u00e3o da Funai ou da Funda\u00e7\u00e3o Palmares e um termo de compromisso. O benef\u00edcio prev\u00ea pagamentos durante toda a gradua\u00e7\u00e3o, podendo se estender por seis meses ap\u00f3s o fim do curso. Professores ouvidos pela P\u00fablica relatam que antes todos os alunos que solicitavam a bolsa costumavam receber o aux\u00edlio. O programa atende tamb\u00e9m estudantes de baixa renda n\u00e3o pertencentes a comunidades tradicionais, com um valor menor do aux\u00edlio, de R$ 400.<\/p>\n<p>Ind\u00edgena do povo Guarani-Kaiow\u00e1, no Mato Grosso do Sul, Hern\u00e2ni C\u00e1ceres \u00e9 um dos quase 3.300 estudantes no pa\u00eds que t\u00eam direito \u00e0 Bolsa Perman\u00eancia e n\u00e3o conseguem acess\u00e1-la. C\u00e1ceres ingressou no curso de Licenciatura Intercultural Ind\u00edgena Teko Arandu da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) em 2019. Ele esperou a abertura do edital de 2020 para pedir a bolsa, o que n\u00e3o ocorreu, pois o MEC suspendeu os credenciamentos para novos aux\u00edlios durante a pandemia da Covid-19.<\/p>\n<p>Dois anos depois, com o credenciamento reaberto, o estudante da aldeia Amambai Guapo\u2019y, j\u00e1 no terceiro ano de gradua\u00e7\u00e3o, foi surpreendido com a resposta negativa do sistema de bolsas. \u201cQuando eu soube, j\u00e1 fui atr\u00e1s, quase fui o primeiro a me inscrever. Por que n\u00e3o deu certo? Olha, eu n\u00e3o sei\u201d, relata.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Hern\u00e2ni, a UFGD teve outros 120 alunos inscritos no programa em 2022, sendo todos ind\u00edgenas, dos quais apenas 27 foram atendidos. \u201cAt\u00e9 2019, o acesso era universal, todos os alunos que se cadastravam tinham bolsa. Este n\u00famero t\u00e3o baixo \u00e9 in\u00e9dito\u201d, afirma a professora Maria Aparecida Mendes de Oliveira, coordenadora do curso de Licenciatura Ind\u00edgena da UFGD, que recebe estudantes de 17 munic\u00edpios da regi\u00e3o de Dourados (MS).<\/p>\n<p>O retrocesso da pol\u00edtica afirmativa de perman\u00eancia nas universidades, por\u00e9m, n\u00e3o come\u00e7ou em 2022. Em 2013, primeiro ano do programa, a Bolsa Perman\u00eancia favoreceu 6.578 estudantes. Em 2014, com incremento de verba do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o (FNDE), financiador do programa, o n\u00famero de favorecidos saltou para 15.477 alunos.<\/p>\n<p>Ano a ano, o total de bolsistas foi crescendo: 21.245 em 2015, 24.523 em 2016, at\u00e9 se estabilizar em 2017, com cerca de 24 mil benefici\u00e1rios. Naquele ano, foram investidos R$ 134,3 milh\u00f5es no programa. A partir do \u00faltimo ano do governo Temer, o n\u00famero de bolsas come\u00e7ou a cair, diminuindo ainda mais no governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>Em 2022, quando as universidades federais voltaram \u00e0s aulas presenciais depois da vacina\u00e7\u00e3o em massa contra a Covid-19, o MEC ofereceu apenas 2 mil bolsas para uma lista de 5.278 mil estudantes que declararam precisar de aux\u00edlio para manter a frequ\u00eancia no curso. Somados aos 8.785 estudantes que j\u00e1 contam com a bolsa, hoje h\u00e1 10.785 alunos recebendo a Bolsa Perman\u00eancia.<\/p>\n<p>A estrutura financeira de estudantes ind\u00edgenas e quilombolas \u00e9 muito diferente de qualquer estudante j\u00e1 inserido no contexto urbano, explica a antrop\u00f3loga ind\u00edgena Braunila Baniwa, ao ressaltar a import\u00e2ncia da Bolsa Perman\u00eancia para essas popula\u00e7\u00f5es. A cultura extrativista e o trabalho na ro\u00e7a da maioria dos seus pais e familiares nas florestas e comunidades, diz, n\u00e3o permitem que eles se mantenham com o alto custo de vida urbano, que s\u00f3 aceita dinheiro para sua manuten\u00e7\u00e3o. \u201cNa cidade se passa fome, ningu\u00e9m te oferece \u00e1gua, comida, nem teto. Tem que pagar.\u201d<\/p>\n<p>Seriam necess\u00e1rios R$ 34,8 milh\u00f5es de verba p\u00fablica \u2013 apenas R$ 2,9 milh\u00f5es por m\u00eas \u2013 para atender o n\u00famero de candidatos que t\u00eam direito ao programa, mas n\u00e3o foram contemplados neste ano. A t\u00edtulo de compara\u00e7\u00e3o, esse valor \u00e9 inferior aos gastos individuais do presidente Jair Bolsonaro nos cart\u00f5es corporativos no per\u00edodo de 35 dias entre abril e maio, que foi de R$ 4,2 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Em nota enviada\u00a0\u00e0 <em>P\u00fablica<\/em>, o MEC informou que o programa n\u00e3o apresentou cortes em 2022 (veja \u00edntegra da nota aqui). A nota diz que \u201cpelo contr\u00e1rio, houve um acr\u00e9scimo aproximado de R$ 28,5 milh\u00f5es na a\u00e7\u00e3o correspondente \u00e0 concess\u00e3o de Bolsa Perman\u00eancia, entre a Lei Or\u00e7ament\u00e1ria Anual de 2021 e de 2022\u201d. Vale lembrar que o \u201cacr\u00e9scimo\u201d informado pelo MEC se deu em rela\u00e7\u00e3o a um ano em que n\u00e3o houve novos cadastros por conta da pandemia. O minist\u00e9rio ainda informou, na mesma nota, que h\u00e1 previs\u00e3o para mil novas concess\u00f5es de bolsas para o segundo semestre de 2022.<\/p>\n<p>Com 27 bolsas para os 121 inscritos, a UFGD se viu obrigada a criar uma comiss\u00e3o na Pr\u00f3-reitoria de Assuntos Estudantis para definir novos crit\u00e9rios de distribui\u00e7\u00e3o do aux\u00edlio. Al\u00e9m dos crit\u00e9rios j\u00e1 previstos na portaria do MEC, a institui\u00e7\u00e3o passou a levar em conta a situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica dos alunos, se eram m\u00e3es solo, a maior dist\u00e2ncia do territ\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o a Dourados e se s\u00e3o moradores de \u00e1reas de retomada dos territ\u00f3rios, entre outros fatores. \u201cMesmo assim v\u00e1rios estudantes dentro dos crit\u00e9rios n\u00e3o foram atendidos, porque as vagas foram muito poucas\u201d, comenta a professora Maria Aparecida.<\/p>\n<p>A mesma situa\u00e7\u00e3o ocorreu na Universidade Federal do Oeste do Par\u00e1 (Ufopa), que recebeu apenas 19 bolsas. Quilombola e m\u00e3e solo de dois filhos, Adenara Ferreira dos Santos \u00e9 um exemplo de estudante que, mesmo apta a receber a Bolsa Perman\u00eancia pelos crit\u00e9rios do MEC, foi submetida a mais um filtro criado na universidade. \u201cComo vieram menos bolsas, o crit\u00e9rio foi dar para m\u00e3es solteiras com filhos pequenos\u201d, diz ao explicar por que n\u00e3o ficou entre os selecionados para receber a Bolsa Perman\u00eancia.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s do objetivo de ser professora, ela conseguiu uma vaga no curso de licenciatura em geografia por meio do processo seletivo exclusivo para quilombolas. Os dois primeiros anos de aula online foram frequentados remotamente, do seu territ\u00f3rio. Agora com aulas presenciais, Nara, como \u00e9 conhecida na comunidade, pega um \u00f4nibus e uma balsa para chegar ao campus em Santar\u00e9m. Para conseguir estudar, deixa os dois filhos, j\u00e1 adolescentes, com o irm\u00e3o dela no Quilombo Passagem, que fica no munic\u00edpio de Monte Alegre, a duas horas e meia de balsa do campus da Ufopa.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que Nara, 34 anos, tenta se manter na universidade. H\u00e1 alguns anos, ela cursou tr\u00eas meses de pedagogia em uma faculdade particular, mas os R$ 330 de mensalidade e todos os outros custos para viver longe de seu territ\u00f3rio n\u00e3o lhe permitiram continuar.<\/p>\n<p>\u201cQuando as aulas come\u00e7aram, eu fui conversar com o coordenador do curso, explicar que n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de me manter em Santar\u00e9m. Ele falou que era pra eu continuar, que iam me ajudar\u201d, diz. Como tem aulas durante o dia e \u00e0 noite, ela n\u00e3o consegue conciliar a vida acad\u00eamica com um emprego. Para pagar o aluguel, conseguiu uma bolsa de R$ 400 de um fundo da pr\u00f3pria universidade. Vez ou outra recebe por Pix doa\u00e7\u00f5es de R$ 20 ou R$ 30 de professores e amigos.<\/p>\n<p>Os estudantes aptos a receber a Bolsa Perman\u00eancia vivem duas realidades diferentes nas universidades: parte deles ingressa por meio da Lei 12.711\/2012, que reserva vagas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o preta, parda e ind\u00edgena, caso de Adenara. Outra parte est\u00e1 matriculada nos 52 cursos de Licenciatura Intercultural Ind\u00edgena espalhados pelo pa\u00eds, cujas vagas s\u00e3o exclusivamente para ind\u00edgenas e voltadas para a forma\u00e7\u00e3o de professores. Os cursos s\u00e3o presenciais no regime de altern\u00e2ncia: o estudante fica 15 dias no munic\u00edpio onde est\u00e1 o campus da universidade e outros 15 dias em seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Por receberem forma\u00e7\u00e3o docente e passarem metade do m\u00eas em suas comunidades, esses estudantes t\u00eam a possibilidade de serem contratados como professores em suas aldeias. C\u00e1ceres recebe um sal\u00e1rio m\u00ednimo como professor. \u201cDou aula para jovens na modalidade EJA [Ensino de Jovens e Adultos] e para o Ensino Fundamental na l\u00edngua materna, Guarani-Kaiow\u00e1. A bolsa faria diferen\u00e7a para mim, mas faz ainda mais falta para ind\u00edgenas que n\u00e3o t\u00eam outra renda\u201d, defende.<\/p>\n<p>Diversos estudantes ouvidos pela P\u00fablica relatam confus\u00e3o entre os comunicados das universidades e o sistema online do programa. Hern\u00e2ni C\u00e1ceres, estudante da UFGD, no Mato Grosso do Sul, recebeu a mesma mensagem que Laura Barroso, ind\u00edgena Desana, e Beatriz de Paula, do territ\u00f3rio Bar\u00e9, ambas matriculadas na Universidade Federal do Amazonas (Ufam): \u201cFim do prazo de autoriza\u00e7\u00e3o pelo Pr\u00f3-reitor\u201d.<\/p>\n<p>Cabe aos pr\u00f3-reitores de cada institui\u00e7\u00e3o analisar os documentos solicitados pelo MEC para conceder a Bolsa Perman\u00eancia, por\u00e9m o comunicado causou espanto nas universidades. Segundo a Ufam, \u201ca mensagem enviada ao SISPB [Sistema Bolsa Perman\u00eancia] passava a impress\u00e3o de que n\u00e3o houve cumprimento de prazos, o que n\u00e3o ocorreu\u201d.<\/p>\n<p>Junto a outras universidades, a Ufam reclamou do ru\u00eddo causado pela mensagem durante o F\u00f3rum Nacional de Pr\u00f3-reitores de Assist\u00eancia Estudantil, realizado no come\u00e7o de maio. Segundo a institui\u00e7\u00e3o, o representante do MEC que recebeu a reclama\u00e7\u00e3o n\u00e3o manifestou nenhuma resposta.<\/p>\n<p>Pelo pa\u00eds, a comunidade estudantil ind\u00edgena e quilombola tamb\u00e9m reclama contra o baixo n\u00famero de bolsas. Na UFGD, estudantes se reuniram em frente \u00e0 reitoria da institui\u00e7\u00e3o no dia 8 de abril pedindo o aumento do n\u00famero de bolsas e a manuten\u00e7\u00e3o do curso de licenciatura exclusivo para ind\u00edgenas, que corre o risco de fechar no segundo semestre por conta do corte de verbas de custeio. Eles apresentaram as reivindica\u00e7\u00f5es para o reitor Lino Sanabria, indicado ao cargo pelo governo Bolsonaro, que ignorou a lista tr\u00edplice da comunidade acad\u00eamica. Em outubro do ano passado, cerca de 700 estudantes ind\u00edgenas e quilombolas protestaram em Bras\u00edlia contra os cortes no programa.<\/p>\n<p>Num cen\u00e1rio diferente de v\u00e1rias universidades no pa\u00eds, todos os 123 estudantes da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo Baiano (UFRB) que pediram bolsa foram contemplados. Em nota, a UFRB informou que teve um n\u00famero menor de inscritos do que o n\u00famero de bolsas liberadas e que o \u201cenquadramento do MEC foi proporcional \u00e0 demanda reprimida de estudantes quilombolas e ind\u00edgenas informados em comunica\u00e7\u00e3o oficial pela UFRB\u201d.<\/p>\n<p>Na Universidade Federal de Rond\u00f4nia (Unir), a falta de bolsas levou dois professores a protocolar uma carta-den\u00fancia no Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) no estado pedindo \u201cprovid\u00eancias urgentes\u201d. Segundo a carta, foram 320 pedidos de bolsa e apenas 20 concess\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cAo inv\u00e9s de avaliar esta pol\u00edtica de acesso e perman\u00eancia como elementos indissoci\u00e1veis, ou at\u00e9 manter os cadastros existentes, a gest\u00e3o Bolsonaro, sem nenhuma discuss\u00e3o com os\/as interessados\/as (estudantes ind\u00edgenas e quilombolas), simplesmente efetivou cortes que sinalizam para a extin\u00e7\u00e3o do Programa Bolsa Perman\u00eancia\u201d, diz o documento.<\/p>\n<p>Para a professora Jos\u00e9lia Gomes Neves, uma das autoras da carta, a n\u00e3o concess\u00e3o de bolsas abre um precedente para o come\u00e7o da extin\u00e7\u00e3o do programa. \u201cEsses alunos que est\u00e3o entrando agora come\u00e7am a se perguntar: por que o meu colega anterior recebia esse recurso e eu n\u00e3o estou recebendo? A\u00ed tem uma situa\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de jurisprud\u00eancia que n\u00f3s levantamos junto ao Minist\u00e9rio P\u00fablico\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o MPF, foi encaminhado of\u00edcio ao MEC pedindo esclarecimentos sobre os poss\u00edveis cortes e \u00e0 universidade solicitando informa\u00e7\u00f5es sobre o crit\u00e9rio de distribui\u00e7\u00e3o de bolsas na institui\u00e7\u00e3o. O objetivo dos professores \u00e9 que o MPF judicialize o caso em n\u00edvel nacional, j\u00e1 que o baixo n\u00famero de bolsas ocorre em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A P\u00fablica pediu explica\u00e7\u00f5es ao MEC sobre os crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o que levaram \u00e0 concess\u00e3o de apenas 2 mil novas bolsas em todo o pa\u00eds em 2022. Em nota, o minist\u00e9rio explicou que, em vez de atender as universidades conforme a demanda de bolsas, autorizou o aux\u00edlio considerando a m\u00e9dia da taxa de cobertura do programa em cada institui\u00e7\u00e3o. Aquelas que tinham um percentual maior de cobertura de bolsas por aluno ind\u00edgena e quilombola receberam menos aux\u00edlios, ao passo que as que tinham menor n\u00famero de contemplados receberam mais bolsas. O MEC chamou isso de modelo de proporcionalidade.<\/p>\n<p>O Programa Bolsa Perman\u00eancia reconhece a necessidade de subsidiar os estudos de quem n\u00e3o vive no ambiente urbano e, de uma hora para outra, tem de enfrent\u00e1-lo para seguir os estudos. Segundo a portaria que institui o programa, a bolsa \u00e9 diferenciada considerando \u201cas especificidades desses estudantes com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o social de suas comunidades, condi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, costumes, l\u00ednguas, cren\u00e7as e tradi\u00e7\u00f5es, amparadas pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal\u201d.<\/p>\n<p>Como outros estudantes ind\u00edgenas da sua aldeia, Tambura Amondawa, da Terra Ind\u00edgena (TI) Uru-Eu-Wau-Wau, em Rond\u00f4nia, depende dos R$ 900 que recebe para se manter no curso de Licenciatura Intercultural Ind\u00edgena na Unir. Os pagamentos, por\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o regulares, relata. \u201cA bolsa n\u00e3o \u00e9 certeza, tem m\u00eas que n\u00e3o cai.\u201d<\/p>\n<p>Flagramos diversos problemas na colheita da maconha paraguaia que podem afetar a sa\u00fade do usu\u00e1rio; como o mercado \u00e9 ilegal, at\u00e9 erva estragada \u00e9 enviada para o Brasil<\/p>\n<p>Uma quitinete em Ji-Paran\u00e1, munic\u00edpio em que fica o campus da Unir, onde Tambura estuda, custa entre R$ 500 e R$ 1.000. Quanto mais barato, mais longe do local das aulas, e o transporte se torna outra despesa. \u201cOs outros comparam a gente com os estudantes n\u00e3o ind\u00edgenas, achando que aqueles R$ 900 da bolsa v\u00e3o complementar a nossa renda e o dinheiro vai dar. Mas esse recurso \u00e9 o \u00fanico que muitos t\u00eam\u201d, diz.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de bolsas, os espa\u00e7os de di\u00e1logo entre grupos ind\u00edgenas e quilombolas e poder p\u00fablico tamb\u00e9m foram drasticamente reduzidos no governo Bolsonaro. Em julho de 2020, o governo trocou as cadeiras do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, excluindo a representa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. A Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o Continuada, Alfabetiza\u00e7\u00e3o, Diversidade e Inclus\u00e3o (Secadi) do MEC, respons\u00e1vel por garantias de inclus\u00e3o no sistema educacional, foi extinta em 2019 por Bolsonaro e o ent\u00e3o ministro da Educa\u00e7\u00e3o Ricardo V\u00e9lez Rodr\u00edguez.<\/p>\n<p>Os poucos alunos que conseguem receber a bolsa tamb\u00e9m sofrem com a n\u00e3o atualiza\u00e7\u00e3o do valor do aux\u00edlio, que em 2013 tinha um poder de compra muito superior ao atual. Se reajustada com base no ritmo ascendente da infla\u00e7\u00e3o no Brasil no per\u00edodo, a bolsa pagaria hoje o valor de R$ 1.555,70, de acordo com a calculadora do IPCA do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>Braunila Baniwa participou das primeiras turmas que receberam aux\u00edlio para frequentar a Universidade de Bras\u00edlia (UnB), com recursos de um conv\u00eanio da Funai e da Funda\u00e7\u00e3o Bras\u00edlia. Hoje, como mestranda em antropologia, ela critica a n\u00e3o atualiza\u00e7\u00e3o dos valores da Bolsa Perman\u00eancia. \u201cEu falo muito daqui da UnB porque \u00e9 uma realidade que eu enfrento. Novecentos reais em Bras\u00edlia n\u00e3o \u00e9 nada, temos que morar em sete pessoas para a gente poder sobreviver. Uma d\u00fazia de ovos em 2013 tinha um valor, hoje tem outro.\u201d<\/p>\n<p>Mesmo defasada, a bolsa j\u00e1 \u00e9 um al\u00edvio para Oyxibo Itabira Filho Suru\u00ed, ind\u00edgena da TI Sete de Setembro, em Rond\u00f4nia, que vive a 100 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia do campus da Unir, onde estuda engenharia ambiental e sanit\u00e1ria. Oyxibo fazia o trajeto de 200 quil\u00f4metros de ida e volta com uma motocicleta. No dia em que falou \u00e0 P\u00fablica, em 27 de abril, o litro da gasolina em seu munic\u00edpio custava R$ 7,90. \u201cSou casado e ajudo a minha fam\u00edlia. Optei por ir e voltar todo dia porque eu n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de alugar uma casa l\u00e1 pra mim. Vamos ver se eu aguento.\u201d Tendo se candidatado \u00e0 bolsa, Oyxibo teve a confirma\u00e7\u00e3o quando a primeira parcela caiu na conta, em 20 de maio.<\/p>\n<p>Tendo sa\u00eddo da TI Alto Rio Negro, no extremo oeste da Amaz\u00f4nia brasileira, para estudar na UnB, Braulina Baniwa assegura a import\u00e2ncia de acesso dos povos origin\u00e1rios \u00e0s universidades. \u201cPassamos muito tempo como pessoas tuteladas. Mesmo depois de 1988 [ano da Constituinte], vejo que somente de tr\u00eas anos para c\u00e1 \u00e9 que temos pessoas que se dedicam a lutar pelos nossos direitos coletivos a partir da sua forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica.\u201d<\/p>\n<p>Cofundadora da Articula\u00e7\u00e3o Brasileira de Ind\u00edgenas Antrop\u00f3loges (Abia), Braulina Baniwa afirma que \u201cainda \u00e9 muito pouco\u201d. \u201cN\u00e3o vemos procuradores ind\u00edgenas, ju\u00edzes ind\u00edgenas, nossos advogados para atuar em defesa dos nossos direitos e os m\u00e9dicos para cuidar da sa\u00fade ind\u00edgena ainda s\u00e3o muito poucos\u201d, observa.\u00a0Da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o de Quilombos (Conaq), o quilombola Walisson Braga, estudante de artes visuais da UnB, analisa a Bolsa Perman\u00eancia como uma ferramenta de desenvolvimento coletivo, e n\u00e3o apenas individual. \u201cQuando os quilombolas passam pela universidade, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a gente que est\u00e1 l\u00e1. Levamos nossa comunidade inteira na mochila, damos um retorno ao nosso territ\u00f3rio.\u201d Para ele, essa ferramenta tamb\u00e9m \u00e9 de m\u00e3o dupla. \u201cMuita gente dentro das universidades n\u00e3o conhece a cultura quilombola como deveria. A universidade forma a gente, mas n\u00f3s tamb\u00e9m formamos a universidade\u201d, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Douglas Lopes\/Ag\u00eancia P\u00fablica Aux\u00edlio de R$ 900 por m\u00eas permite que essas popula\u00e7\u00f5es se mantenham longe dos seus territ\u00f3rios. Falta de bolsas obriga universidades a criar outros crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o No ano em que a Lei de Cotas completa dez anos, estudantes ind\u00edgenas e quilombolas enfrentam um desafio ainda maior do que entrar na universidade: [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":287036,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-287035","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287035","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=287035"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287035\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":287037,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287035\/revisions\/287037"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/287036"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=287035"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=287035"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=287035"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}