{"id":287065,"date":"2022-06-07T08:03:21","date_gmt":"2022-06-07T11:03:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=287065"},"modified":"2022-06-07T08:03:21","modified_gmt":"2022-06-07T11:03:21","slug":"ararinha-azul-volta-a-caatinga-apos-20-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ararinha-azul-volta-a-caatinga-apos-20-anos\/","title":{"rendered":"Ararinha-azul volta \u00e0 Caatinga ap\u00f3s 20 anos"},"content":{"rendered":"<p>O ano era 2000, o Brasil comemorava os 500 anos da chegada dos portugueses no pa\u00eds, ou, mais especificamente, no sul da costa da Bahia. Mais ao norte de onde as caravelas aportaram, no interior do mesmo estado, os brasileiros avistavam, pela \u00faltima vez na natureza, uma ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) selvagem.<\/p>\n<p>Descoberta em 1819, a esp\u00e9cie, que \u00e9 da mesma fam\u00edlia das araras e papagaios, sofreu um gradual processo de extin\u00e7\u00e3o na natureza, devido \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do ambiente e \u00e0 captura para o com\u00e9rcio ilegal de animais silvestres.<\/p>\n<p>Apenas dois traficantes foram respons\u00e1veis, nas d\u00e9cadas de 70 e 80, por tirar da natureza 23 ararinhas.<\/p>\n<p>Em 1986, a \u00faltima popula\u00e7\u00e3o selvagem conhecida tinha apenas tr\u00eas aves. Em 1990, restava apenas um macho. Dez anos depois, n\u00e3o havia mais nenhum p\u00e1ssaro selvagem.<\/p>\n<p>Esse processo, acompanhado pela imprensa, provocou como\u00e7\u00e3o mundial e a ave acabou se tornando um dos s\u00edmbolos da luta contra a destrui\u00e7\u00e3o da fauna e a perda da biodiversidade, tendo sido, inclusive, retratada no longa de anima\u00e7\u00e3o norte-americano Rio.<\/p>\n<p><strong>Cativeiro<\/strong><br \/>\nDesde ent\u00e3o, iniciou-se um projeto de reintrodu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie na natureza. Por ironia do destino, um dos motivos que levaram ao seu desaparecimento das matas baianas foi sua salva\u00e7\u00e3o: a captura da ave para manuten\u00e7\u00e3o em cativeiro.<\/p>\n<p>Uma popula\u00e7\u00e3o de algumas dezenas de aves continuou sendo mantida em cativeiro por criadouros no Brasil, Europa e Oriente M\u00e9dio. Ainda na d\u00e9cada de 90, o governo brasileiro come\u00e7ou um projeto de manejo para reprodu\u00e7\u00e3o desses animais e a negocia\u00e7\u00e3o do retorno, para o pa\u00eds, de parte das aves que estavam no exterior.<\/p>\n<p>Em 2018, foram demarcadas duas \u00e1reas para a reintrodu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, a \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental da Ararinha-Azul e o Ref\u00fagio da Vida Silvestre da Ararinha-Azul, juntas somando 120 mil hectares nos munic\u00edpios de Juazeiro e Cura\u00e7\u00e1, na Bahia.<\/p>\n<p><strong>De volta<\/strong><br \/>\nDois anos atr\u00e1s, 52 ararinhas-azul foram trazidas de volta para o pa\u00eds, a partir de um acordo com o criadouro alem\u00e3o ACTP, e instaladas em um viveiro no munic\u00edpio de Cura\u00e7\u00e1, para sua ambienta\u00e7\u00e3o, que envolveu a redu\u00e7\u00e3o de seu contato com humanos; o conv\u00edvio com araras-maracan\u00e3 (Primolius maracana), com quem dividia o habitat natural e que tem h\u00e1bitos semelhantes aos seus; o treinamento do voo; o reconhecimento de predadores; e a oferta de alimentos que ser\u00e3o encontrados na natureza.<\/p>\n<p>Agora, mais de 20 anos de ser declarada extinta na natureza, as ararinhas voltar\u00e3o a voar pela caatinga brasileira. Neste s\u00e1bado (11), est\u00e1 prevista a soltura das oito primeiras aves. Mais 12 ser\u00e3o soltas em dezembro.<\/p>\n<p>Elas foram selecionadas entre aquelas que demonstraram maior adapta\u00e7\u00e3o para a vida na natureza, ou seja, aquelas que voam melhor, que est\u00e3o se relacionando melhor com o grupo, que s\u00e3o mais sadias, que consigam identificar melhor os predadores.<\/p>\n<p>As oito primeiras aves est\u00e3o passando pelos \u00faltimos dias de ambienta\u00e7\u00e3o em um cativeiro, junto das maracan\u00e3s, com as quais ser\u00e3o soltas.<\/p>\n<p><strong>Na natureza<\/strong><br \/>\nSegundo o coordenador do Plano de A\u00e7\u00e3o Nacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Ararinha-Azul, Antonio Eduardo Barbosa, a soltura envolver\u00e1 a abertura do recinto onde elas est\u00e3o se ambientando. As portas ser\u00e3o mantidas abertas durante o dia e fechadas durante a noite, para evitar que as ararinhas que retornem ao cativeiro sejam mortas por predadores.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 uma soltura branda, como a gente chama. A gente abre o recinto, mas a gente quer que as aves permane\u00e7am ali. Ser\u00e1 ofertada alimenta\u00e7\u00e3o suplementar durante um ano, para que elas ainda visitem o recinto. Nessa primeira soltura experimental, a gente quer conhecer a din\u00e2mica que as aves v\u00e3o apresentar\u201d, explica.<\/p>\n<p>Nesse momento, os pesquisadores v\u00e3o aproveitar para observar o comportamento da ararinha na natureza, ou seja, os locais que visitam, o que comem, que habitat est\u00e3o explorando.<\/p>\n<p>Os animais ser\u00e3o marcados com anilhas e receber\u00e3o transmissores, que permitir\u00e3o seu rastreamento por alguns meses.<\/p>\n<p>Barbosa reconhece, no entanto, que o processo de reintrodu\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o f\u00e1cil, a come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio ambiente, do qual a esp\u00e9cie est\u00e1 afastada h\u00e1 duas d\u00e9cadas e que \u00e9 muito seco em determinados per\u00edodos do ano, o que levar\u00e1 as aves a voar por grandes dist\u00e2ncias em busca de alimento.<\/p>\n<p>As linhas de transmiss\u00e3o de energia el\u00e9trica s\u00e3o outro desafio para as aves que voam pela regi\u00e3o, assim como a exist\u00eancia das abelhas-europeias (Apis mellifera), esp\u00e9cie ex\u00f3tica que ocupa cavidades naturais da \u00e1rea onde as ararinhas poderiam nidificar. \u201cEmbora a gente tenha feito um trabalho de controle dessas abelhas, para diminuir um pouco essa press\u00e3o\u201d, disse o pesquisador.<\/p>\n<p>Sem falar do risco de novas capturas para o mercado clandestino de aves raras. \u201cA gente tem que ter a comunidade do nosso lado, sendo vigilante na regi\u00e3o para qualquer tipo de atividade nesse sentido, sendo nossos espi\u00f5es e denunciando qualquer il\u00edcito ambiental\u201d, defende Eduardo Barbosa.<\/p>\n<p>O Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio) n\u00e3o informou \u00e0 Ag\u00eancia Brasil como ser\u00e1 o esquema de fiscaliza\u00e7\u00e3o ou quantos agentes far\u00e3o o patrulhamento da \u00e1rea.<\/p>\n<p><strong>Futuro<\/strong><br \/>\nSuperadas as amea\u00e7as, h\u00e1 ainda o desafio de que a esp\u00e9cie prospere e se reproduza, aumentando a popula\u00e7\u00e3o de forma natural, como se conseguiu, com relativo sucesso, com os esp\u00e9cimes em cativeiro.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de 200 ararinhas-azuis, somando-se essas em processo de readapta\u00e7\u00e3o para a soltura e as que s\u00e3o mantidas em cativeiro ao redor do mundo, n\u00famero bem maior do que as poucas dezenas que haviam na d\u00e9cada de 90.<\/p>\n<p>Nesses dois anos em que est\u00e3o no Brasil, tr\u00eas ararinhas nasceram, aumentando a popula\u00e7\u00e3o de Cura\u00e7\u00e1 para 55 aves, segundo Barbosa. N\u00e3o h\u00e1 previs\u00e3o de quando haver\u00e1 novas solturas a partir de 2023, mas a ideia \u00e9 manter parte dessas 55 em cativeiro, como se fosse uma reserva para garantir a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie, a soltura de novos indiv\u00edduos e a reposi\u00e7\u00e3o das esperadas perdas no ambiente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano era 2000, o Brasil comemorava os 500 anos da chegada dos portugueses no pa\u00eds, ou, mais especificamente, no sul da costa da Bahia. Mais ao norte de onde as caravelas aportaram, no interior do mesmo estado, os brasileiros avistavam, pela \u00faltima vez na natureza, uma ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) selvagem. 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