{"id":287225,"date":"2022-06-10T11:44:08","date_gmt":"2022-06-10T14:44:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=287225"},"modified":"2022-06-10T13:06:31","modified_gmt":"2022-06-10T16:06:31","slug":"povo-precisa-estar-atento-para-evitar-o-golpe-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/povo-precisa-estar-atento-para-evitar-o-golpe-de-bolsonaro\/","title":{"rendered":"Povo precisa estar atento para evitar o golpe de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p>As advert\u00eancias sobre os preparativos golpistas crescem na medida em que, de m\u00e3os dadas, se aprofundam a fal\u00eancia do governo (o desemprego e a fome disparam, e a OCDE prev\u00ea para este ano em 0,6% o crescimento do PIB brasileiro) e a rejei\u00e7\u00e3o popular ao capit\u00e3o candidato, sugerida pelos \u00edndices de crescimento da candidatura Lula, anunciando a possibilidade de o ex-presidente eleger-se j\u00e1 no primeiro turno, o que n\u00e3o ocorre entre n\u00f3s desde 2002.<\/p>\n<p>A debacle ati\u00e7a a alternativa in pectore dos engalanados, do sistema financeiro internacionalizado, dos especuladores e rentistas em geral, receosos da frustra\u00e7\u00e3o da expectativa dos grandes ganhos anunciados com o programa neoliberal de privatiza\u00e7\u00e3o de empresas fundamentais para o nosso desenvolvimento, vendidas na bacia das almas, processo que j\u00e1 se abate sobre a Eletrobras e amea\u00e7a a Petrobras.<\/p>\n<p>A ainda chamada grande imprensa, que fracassou at\u00e9 aqui na tentativa de constru\u00e7\u00e3o artificial de uma terceira via na disputa pela presid\u00eancia, j\u00e1 d\u00e1 sinais de seu inc\u00f4modo, revelado na campanha que move, por meio sobretudo de seus editoriais, contra a candidatura do ex-presidente. \u00c9 sua forma envergonhada de fazer o jogo do capit\u00e3o.<\/p>\n<p>Primam nessa linha<em> Globo<\/em> e <em>Estad\u00e3o<\/em>; carentes de autonomia, t\u00edteres do sistema, simplesmente revelam a indisposi\u00e7\u00e3o de seus financiadores, o grande capital nacional e internacional, um e outro sem compromisso seja com o nosso desenvolvimento, seja com o processo democr\u00e1tico, posto que sempre estiveram firmes na defesa do capital estrangeiro contra o interesse nacional &#8211; assim no combate \u00e0 Petrobras e ao monop\u00f3lio estatal, como no apoio \u00e0s alternativas de for\u00e7a e autoritarismo.<\/p>\n<p>Seu compromisso com a legalidade democr\u00e1tica \u00e9 bijuteria vendida como gema rara. Combateram o trabalhismo nacionalista do Vargas da fase democr\u00e1tica e foram decisivos na prepara\u00e7\u00e3o do golpe que levou o ex-presidente ao suic\u00eddio; tentaram impedir a posse de Juscelino e combateram o quinqu\u00eanio desenvolvimentista; tentaram impedir a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, a que devemos a incorpora\u00e7\u00e3o do centro-oeste \u00e0 vida e \u00e0 economia nacionais; apoiaram a tentativa de golpe contra a posse de Jango em 1961 e cerraram fileiras no combate mais feroz ao seu governo, participando das articula\u00e7\u00f5es que levaram ao golpe de 1\u00ba de abril de 1964, e sustentaram a ditadura e seus crimes at\u00e9 o momento em que o regime militar decidiu sair de cena.<\/p>\n<p>Na prepara\u00e7\u00e3o do golpe, o <em>Estad\u00e3o<\/em> funcionou como um arrecadador de fundos financiadores da conspira\u00e7\u00e3o (remeto o leitor \u00e0s mem\u00f3rias do General Cordeiro de Farias); durante a ditadura, a <em>Rede Globo<\/em> assumiu o indecoroso papel de porta-voz dos militares, escondendo da opini\u00e3o os crimes contra os direitos humanos e a um s\u00f3 tempo denunciando os advers\u00e1rios do regime. E todos manipulando a informa\u00e7\u00e3o, a servi\u00e7o da ditadura.<\/p>\n<p>A chamada opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, um dos momentos mais ominosos do sistema judici\u00e1rio brasileiro, com seu rol de crimes essenciais ao golpe de 2016 e \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, n\u00e3o teria alcan\u00e7ado o sucesso conhecido se n\u00e3o contasse, do primeiro ao \u00faltimo momento, com o apoio consciente e irrespons\u00e1vel dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa. N\u00e3o se conte, portanto, com essa imprensa a fundo perdido, nada obstante seu mal-estar diante da trucul\u00eancia do presidente.<\/p>\n<p>No essencial, o neoliberalismo, o privatismo, est\u00e3o em paz. Seus donos, os donos aparentes e os donos reais, o sistema financeiro, t\u00eam, \u00e9 certo, restri\u00e7\u00f5es ao tosco capit\u00e3o, mas em face de Lula a dist\u00e2ncia e o desacordo s\u00e3o de ess\u00eancia: trata-se de uma quest\u00e3o de classe. As fileiras, comandantes e tropa, majoritariamente, est\u00e3o dispostas a sustentar o projeto bolsonarista, muito pelo que o capit\u00e3o e suas hordas representam como apelo reacion\u00e1rio; mas o que as move , mais do que tudo, \u00e9 a irracional resist\u00eancia a Lula, visto como promessa de emerg\u00eancia pol\u00edtica das massas.<\/p>\n<p>A caserna (com uma casta dirigente hoje embriagada de privil\u00e9gios) \u00e9 visceralmente hostil a qualquer mudan\u00e7a social. O governo do capit\u00e3o e do falido &#8220;Posto Ipiranga&#8221; prima pela incompet\u00eancia, como se v\u00ea, mas, reconhe\u00e7a-se, n\u00e3o traiu seus compromissos com o capital estrangeiro e o grande empresariado. Essa gente nada tem a reclamar do golpe de 2016 e das elei\u00e7\u00f5es de 2018, e por isso mesmo n\u00e3o pode se sentir tranquila quando divisa a possibilidade do novo governo de Lula, que promete voltar a perseguir a distribui\u00e7\u00e3o de renda (\u00e9 de seu discurso colocar o pobre no or\u00e7amento da Uni\u00e3o e os ricos no Imposto de Renda &#8211; como, de resto, manda a Constitui\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>De Lula deve-se esperar a taxa\u00e7\u00e3o das grandes fortunas e a retomada da pol\u00edtica externa ativa e altiva que consagrou seus dois mandatos. Mas tais expectativas, que nos enchem de est\u00edmulo e trazem boas expectativas quanto ao futuro, n\u00e3o podem agradar os EUA de Biden, como n\u00e3o agradaram ao de Barak Obama. \u00c9, pois, uma tolice pensar que os EUA resistiriam a mais um golpe de Estado no Brasil, eles que tantos outros fomentaram, aqui e mundo afora; pelo contr\u00e1rio, a continuidade da conhecida pol\u00edtica externa bolsonarista soa como acalanto para Wall Street, quando o Departamento de Estado deve suas aten\u00e7\u00f5es para o contencioso europeu e a inseguran\u00e7a de seu mando na Am\u00e9rica Latina, sua \u00e1rea prim\u00e1ria de preemin\u00eancia &#8211; onde despontam nichos de resist\u00eancia que tendem a se fortalecer com a elei\u00e7\u00e3o e Lula que, certamente, retomar\u00e1 os projetos de autonomia regional intentados em seu governo.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 preciso dizer que Lula voltar\u00e1 a prestigiar os BRICS, onde o Brasil tem como s\u00f3cios, al\u00e9m da \u00cdndia e da \u00c1frica do Sul, nada menos que a R\u00fassia e a China. O golpe, pois, n\u00e3o \u00e9 uma certeza, mas uma probabilidade com a qual devemos contar. O golpe ao qual me refiro n\u00e3o remonta \u00e0s nossas quarteladas, de h\u00e1 muito superadas, com os vencidos conceitos cl\u00e1ssicos da ci\u00eancia pol\u00edtica cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>O golpe \u00e0 vista, este de que falam as especula\u00e7\u00f5es, n\u00e3o lembra mais a &#8220;tomada de assalto do pal\u00e1cio de inverno&#8221;, nada tem a ver com putsch, o golpe de m\u00e3o, a a\u00e7\u00e3o de surpresa; pode mesmo dispensar a movimenta\u00e7\u00e3o de tropas. Com as fileiras aquarteladas, o Congresso pode implementar reformas antissociais e contr\u00e1rias ao interesse nacional; Executivo, Legislativo e Judici\u00e1rio podem desconstituir o Estado, romper o pacto pol\u00edtico que ensejou a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, destruir a ordem econ\u00f4mica e impedir o desenvolvimento, como agora.<\/p>\n<p>Podem abolir os direitos trabalhistas e previdenci\u00e1rios, destruir o meio ambiente, assassinar os povos origin\u00e1rios, estimular a ciz\u00e2nia nacional, promover o armamentismo, congelar o desenvolvimento cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico, condenar a cultura \u00e0 inani\u00e7\u00e3o. Podem alimentar o que h\u00e1 de mais atrasado em nossa sociedade, como o racismo e a misoginia, destruir a escola p\u00fablica e o sistema \u00fanico de sa\u00fade &#8211; o que, ali\u00e1s, est\u00e1 no &#8220;Projeto de na\u00e7\u00e3o&#8221;, sistematiza\u00e7\u00e3o de um programa de governo de extrema-direita que os militares apresentam como meta deste pa\u00eds at\u00e9 2035.<\/p>\n<p>O que vemos como amea\u00e7a no curto prazo \u00e9 o aprofundamento de um sistema que se instalou em 2018, via processo eleitoral, ou seja, sem ruptura pol\u00edtica, e que se vem mantendo at\u00e9 aqui, dilatando-se a cada passo e que, em face de determinadas circunst\u00e2ncias, pode sobreviver a 2022, isto \u00e9, pode sobrevir \u00e0 derrota de Bolsonaro e estender-se no poss\u00edvel governo Lula. Essa conting\u00eancia j\u00e1 foi batizada de &#8221; golpe de Estado continuado&#8221;, e podemos cham\u00e1-la &#8220;golpe h\u00edbrido&#8221;.<\/p>\n<p>Tendo em seus alicerces as for\u00e7as armadas (e nelas compreendidas as corpora\u00e7\u00f5es policiais, civis e militares e suas adjac\u00eancias, como as mil\u00edcias) e o poder econ\u00f4mico, nacional e internacional (a Faria Lima e Wall Street), esse sistema trabalha com a informa\u00e7\u00e3o e a desinforma\u00e7\u00e3o, mediante o que omite e o que cria; onde deveria estar a liberdade de informa\u00e7\u00e3o como o outro lado do direito democr\u00e1tico de ser corretamente informado, instala-se a informa\u00e7\u00e3o manipulada; a unilateralidade toma o lugar da pluralidade ideol\u00f3gica. Mesclam-se t\u00e1ticas de guerra pol\u00edtica, que v\u00e3o de Sun Tzu a Goebbels, com t\u00e1ticas de guerra convencional (como a grotesca parada dos tanques fumacentos da Marinha em Bras\u00edlia, em 2021); movimenta\u00e7\u00f5es de massa com t\u00e1ticas neofascistas como agress\u00f5es morais e f\u00edsicas, as amea\u00e7as pol\u00edticas, o vandalismo, as agita\u00e7\u00f5es de rua e a utiliza\u00e7\u00e3o de modernas t\u00e9cnicas de controle das redes sociais.<\/p>\n<p>S\u00e3o os tempos em que vivemos. Formalmente, n\u00e3o se pode dizer que houve um &#8220;golpe de Estado&#8221; em 2018, mas \u00e9 verdade que se trata de um regime de exce\u00e7\u00e3o que se implantou sem o apelo cl\u00e1ssico \u00e0 for\u00e7a: operou-se segundo as regras vigentes, sem quebra, portanto, da ordem constitucional. Mas n\u00e3o deixa de ser uma fratura do pacto pol\u00edtico. Esse regime, resultante dessa nova forma de golpe, pode sobreviver \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. Para essa eventualidade, todavia, n\u00e3o parecem alertas a for\u00e7as pol\u00edticas do campo democr\u00e1tico, pelo menos nos primeiros ensaios de campanha eleitoral que se apresenta despolitizada, ou seja, confinando a pol\u00edtica aos objetivos eleitorais, relegando a plano secund\u00e1rio, mais do que a oportunidade, a necessidade de discutir com o eleitorado, inclusive, as quest\u00f5es acima levantadas, para poder, estabelecendo uma nova maioria, rever o sistema pol\u00edtico resultante do golpe de Estado detonado em 2016, operado pelo Congresso com o apoio das for\u00e7as armadas e a demanda do sistema econ\u00f4mico-financeiro.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso diz\u00ea-lo: ainda que logremos a vit\u00f3ria eleitoral indispens\u00e1vel, ser\u00e1 muito dif\u00edcil o quadri\u00eanio. Para governar, fiel ao programa de campanha, Lula depender\u00e1 tanto de maci\u00e7o apoio popular quanto de alian\u00e7as e composi\u00e7\u00f5es que talvez sua experi\u00eancia e sua arte pol\u00edtica consigam concertar. O ponto de partida ser\u00e1 sempre a vit\u00f3ria no primeiro turno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As advert\u00eancias sobre os preparativos golpistas crescem na medida em que, de m\u00e3os dadas, se aprofundam a fal\u00eancia do governo (o desemprego e a fome disparam, e a OCDE prev\u00ea para este ano em 0,6% o crescimento do PIB brasileiro) e a rejei\u00e7\u00e3o popular ao capit\u00e3o candidato, sugerida pelos \u00edndices de crescimento da candidatura Lula, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":287226,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-287225","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-eleicoes-2022"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287225","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=287225"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287225\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":287227,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287225\/revisions\/287227"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/287226"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=287225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=287225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=287225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}