{"id":287641,"date":"2022-06-19T07:00:15","date_gmt":"2022-06-19T10:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=287641"},"modified":"2022-06-19T07:33:19","modified_gmt":"2022-06-19T10:33:19","slug":"amazonia-sua-linda-sem-eles-a-vida-pode-ser-maravilhosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/amazonia-sua-linda-sem-eles-a-vida-pode-ser-maravilhosa\/","title":{"rendered":"Amaz\u00f4nia, sua linda, sem eles a vida pode ser maravilhosa?"},"content":{"rendered":"<p><em>Quero sua risada mais gostosa\/Esse seu jeito de achar\/Que a vida pode ser maravilhosa<\/em> (Ivan Lins. Vitoriosa. 1986).<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 o indigenista Bruno Ara\u00fajo Pereira, 41 anos, paraibano de nascimento, amaz\u00f4nida por ado\u00e7\u00e3o? A cena \u00e9 paradis\u00edaca. Cercado por \u00e1rvores no meio da floresta, ele est\u00e1 entoando um canto em katukina, l\u00edngua dos Kanamari:<\/p>\n<p>\u2013 Wahanararai wahanararai, marinawah kinadik marinawah kinadik; tabarinih hidya hidyanih, hidja hidjanih<\/p>\n<p>A c\u00e2mera capta sua imagem de perfil, sentado no ch\u00e3o sobre um tapete de folhas, cadenciando a m\u00fasica com o p\u00e9 esquerdo. Parece estar s\u00f3. N\u00e3o est\u00e1. Gira seu rosto \u00e0 direita e, agora de frente, abre um sorriso alegre interagindo com os \u00edndios com quem ele canta e que, fora do enquadramento, n\u00e3o aparecem no v\u00eddeo. Escutamos suas vozes acompanhando o contracanto coletivo, afinado pela cumplicidade constru\u00edda na partilha das experi\u00eancias de luta.<\/p>\n<p>O que cantam eles no v\u00eddeo exibido por Andr\u00e9 Trigueiro, que viralizou e foi cantado por rabinos na sinagoga de S\u00e3o Paulo e se espalha por templos e igrejas de outras comunidades Brasil afora? \u00c9 que o sagrado atravessa todas as religi\u00f5es. As palavras falam literalmente sobre o modo como a arara alimenta seus filhotes, um hino em defesa da floresta e dos povos origin\u00e1rios. A risada gostosa de Bruno exibe seu jeito de mostrar que a vida pode ser maravilhosa, mas foi interrompida t\u00e3o cedo, o que torna a cena desgarradora, provocando sentimento amb\u00edguo de luzes e sombras, esperan\u00e7a e desespero. O outro lado, aquele que mata e n\u00e3o canta, n\u00e3o \u00e9 digno de ver e entender.<\/p>\n<p>\u2013 Quando vi o v\u00eddeo do Bruno chorei muito \u2013 escreveu o cantor e compositor Andr\u00e9 Abujamra, autor de um remix do canto, que expressou assim o sentimento de todos n\u00f3s: chorar e orar. J\u00e1 vi trocentas vezes as imagens, hipnotizado pela alegria de menino brincalh\u00e3o, que deve ter encantado a sua Beatriz e os dois filhos de 2 e 3 anos, um deles herdeiro do riso do pai, ambos fotografados em um barco no rio de \u00e1gua barrenta, em cujo toldo est\u00e1 escrito: \u201cEste rio \u00e9 minha rua\u201d.<\/p>\n<p>A mata sagrada<br \/>\nOnde est\u00e1 o jornalista brit\u00e2nico Dominic Mark Phillips, 57 anos, nascido no condado de Merseyside, mas baiano como sua Alessandra e amaz\u00f4nida como o amigo Bruno? Apaixonados pela sacralidade da mata exuberante, os dois v\u00eam navegando juntos desde 2018 pelos rios da Amaz\u00f4nia, especialmente o Javari, a \u00faltima morada de ambos. Agora, uma semana antes do adeus, Dom acaba de postar no Instagram um v\u00eddeo dentro de um barco, com uma: uma singela declara\u00e7\u00e3o de amor bem abrasileirada, que diz tudo sobre ele e seu parceiro de vida e de morte.<\/p>\n<p>\u2013 Amaz\u00f4nia, sua linda!<\/p>\n<p>O amor pela regi\u00e3o unia os dois e os vinculava aos povos origin\u00e1rios, que l\u00e1 vivem h\u00e1 mil\u00eanios e ensinaram a eles \u201cComo Salvar a Amaz\u00f4nia\u201d, t\u00edtulo do livro que Dom estava escrevendo, com a experi\u00eancia adquirida em viagens pelo Brasil durante 15 anos, os \u00faltimos cinco pela regi\u00e3o amaz\u00f4nica, em companhia de Bruno. Suas reportagens em jornais europeus e dos Estados Unidos documentaram o avan\u00e7o do desmatamento, a preda\u00e7\u00e3o do garimpo, a invas\u00e3o dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas durante o governo do Coiso.<\/p>\n<p>O jornalista era amado pelos povos ind\u00edgenas, assim como Bruno, conforme declara\u00e7\u00f5es de l\u00edderes da Uni\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Vale do Javari (UNIVAJA). O Coiso, por\u00e9m, avocou como seu o sentimento dos que destroem a floresta e poluem os rios, ao dizer que Dom era \u201cmalvisto\u201d pela popula\u00e7\u00e3o local. Enquanto ainda se desconhecia o paradeiros dos dois, em entrevista \u00e0 coisificada jornalista Leda Nagle, ele tripudiou sobre os cad\u00e1veres:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cSe estiverem mortos, os corpos podem estar dentro da \u00e1gua e pouca coisa para sobrar. Tem piranha l\u00e1 no rio Javari\u201d.<\/p>\n<p><strong>Lei da selva<\/strong><br \/>\nO Coiso culpou-os por embarcarem \u201cem uma aventura n\u00e3o recomend\u00e1vel, onde tudo pode acontecer. \u00c9 muito temer\u00e1rio andar naquela regi\u00e3o sem estar [\u2026] com armamento. Pelo que parece eles n\u00e3o estavam\u201d, assim como Jesus, mas Jesus s\u00f3 \u201cn\u00e3o comprou pistola porque n\u00e3o tinha\u201d naquela \u00e9poca \u2013 disse ele em conversa com gente de sua laia. Um sacril\u00e9gio achar que um pacifista repleto de amor dispararia sobre os seus algozes para evitar ser crucificado.<\/p>\n<p>Essa \u2013 dizem \u2013 \u00e9 a lei da selva, anterior \u00e0 lei dos homens e que predominou no per\u00edodo hist\u00f3rico antes de surgirem religi\u00e3o, escrita, constitui\u00e7\u00f5es, tribunais, quando os crimes ficavam impunes. Mas talvez o termo mais apropriado seja denomin\u00e1-la de \u201clei da bandidagem\u201d, porque na selva as araras alimentam seus filhotes, nenhuma animal tortura outro animal ou promove guerras, nem envenena os rios e muito menos destr\u00f3i a floresta, que \u00e9 seu habitat. Mata-se para comer, n\u00e3o para se divertir.<\/p>\n<p>Diante da aus\u00eancia dos poderes p\u00fablicos na Amaz\u00f4nia, impera n\u00e3o a \u201cselvageria\u201d, mas o aval dado por discursos de barb\u00e1rie, que d\u00e3o aval a garimpeiros ilegais, envenenadores de rios, narcotraficantes, milicianos, contrabandistas, evidenciando que o Estado, neste atual desgoverno, n\u00e3o se interessa em controlar a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>As cal\u00fanias contra Dom e Bruno j\u00e1 come\u00e7am a circular, da mesma forma que a difama\u00e7\u00e3o de Chico Mendes feita pelo ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, respons\u00e1vel pela \u201cboiada\u201d contra a floresta. Em entrevista a Bernardo Mello Franco, Salles afirmou que \u201co pessoal do agro, que conhece a regi\u00e3o, diz que ele (Chico Mendes) era grileiro\u201d.<\/p>\n<p>O Coiso \u201ctem sangue nas m\u00e3os e n\u00e3o tem coragem de dizer que est\u00e1 muito satisfeito com o que aconteceu\u201d \u2013 declarou o av\u00f4 dos filhos de Bruno, Kleber Gesteira Matos, ex-coordenador da Educa\u00e7\u00e3o Escolar Ind\u00edgena no MEC e um dos maiores especialistas na \u00e1rea.<\/p>\n<p><strong>Despedida amorosa<\/strong><br \/>\nN\u00e3o houve mandante do crime \u2013 assegura a Pol\u00edcia Federal, o que \u00e9 contestado em nota pela UNIVAJ, que entregou seis of\u00edcios entre fevereiro e maio deste ano a v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os: Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, Pol\u00edcia Federal For\u00e7a Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica e Funai. Os documentos relatam o crescente clima de tens\u00e3o no vale do Javari. Nenhuma provid\u00eancia foi tomada, diante do aval do promotor e incentivador dos assassinatos, que todos sabem quem \u00e9.<\/p>\n<p>Na quarta-feira (15), v\u00e9spera de Corpus Christi, Kleber participou de um ato organizado nos jardins do campus pelos professores da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pioneira na implanta\u00e7\u00e3o da pedagogia ind\u00edgena no cen\u00e1rio nacional. Falou sobre o seu genro, sua simpatia e generosidade e destacou o carinho e o cuidado que tinha com os dois filhos pequenos, batizados com nome ind\u00edgenas herdados de dois amigos Kanamari.<\/p>\n<p>As esposas de Dom e Bruno reagiram de forma digna e altiva, evidenciando o papel central que tiveram nessa hist\u00f3ria. A baiana Alessandra Sampaio, embora aguardando as confirma\u00e7\u00f5es definitivas da trag\u00e9dia, agradeceu os ind\u00edgenas que se envolveram na busca e declarou:<\/p>\n<p>\u2013 Agora podemos lev\u00e1-los para casa e nos despedir com amor. Hoje se inicia nossa jornada em busca de justi\u00e7a. S\u00f3 teremos paz quando as medidas necess\u00e1rias forem tomadas para que trag\u00e9dias como esta n\u00e3o se repitam jamais. Presto minha absoluta solidariedade com a Beatriz e toda a fam\u00edlia do Bruno.\u201d<\/p>\n<p>A antrop\u00f3loga Beatriz de Almeida Matos, professora da Universidade do Par\u00e1, compartilhava com Bruno a paix\u00e3o pelos povos do vale do Javari, cujos rituais foram tema de sua tese de doutorado no Museu Nacional da UFRJ. \u201cAgora, que os esp\u00edritos do Bruno e do Dom est\u00e3o passeando na floresta e espalhados na gente, nossa for\u00e7a \u00e9 muito maior\u201d \u2013 ela declarou.<\/p>\n<p>\u2013 Onde est\u00e3o Dom e Bruno? A pergunta feita no mundo inteiro agora tem resposta: eles est\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o da floresta e do rio, no cora\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas, no cora\u00e7\u00e3o de todos n\u00f3s. Amaz\u00f4nia, sua linda, as araras continuam alimentando seus filhotes. Wahanararai wahanararai.<\/p>\n<p>P.S. \u2013 Que o meu querido amigo Kleber Matos, a Maria Ines, a filha Beatriz e os dois kanamarizinhos, seus netos, que levar\u00e3o pela vida afora os valores cultivados pelo pai, fiquem com a gargalhada mais gostosa e vitoriosa: sim, apesar de tudo, a vida pode ser maravilhosa. As vidas de Dom e Bruno s\u00e3o uma prova disso. A luta continua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quero sua risada mais gostosa\/Esse seu jeito de achar\/Que a vida pode ser maravilhosa (Ivan Lins. Vitoriosa. 1986). Onde est\u00e1 o indigenista Bruno Ara\u00fajo Pereira, 41 anos, paraibano de nascimento, amaz\u00f4nida por ado\u00e7\u00e3o? A cena \u00e9 paradis\u00edaca. 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