{"id":289770,"date":"2022-08-01T09:54:00","date_gmt":"2022-08-01T12:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=289770"},"modified":"2022-08-01T13:23:16","modified_gmt":"2022-08-01T16:23:16","slug":"ambiente-do-golpe-ganha-contorno-verde-oliva-no-palacio-do-planalto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ambiente-do-golpe-ganha-contorno-verde-oliva-no-palacio-do-planalto\/","title":{"rendered":"Ambiente do golpe ganha contorno verde-oliva no Pal\u00e1cio do Planalto"},"content":{"rendered":"<p>Em meados de 2014 eu estive em Bogot\u00e1, na Col\u00f4mbia, onde ouvi falar pela primeira vez sobre o fact-checking. Conheci a jornalista Laura Zommer, diretora do site pioneiro argentino Chequeado, e fiquei impressionada pela simplicidade da proposta: checar se os pol\u00edticos estavam falando a verdade. Laura repetia a quem quisesse ouvir que seu objetivo era &#8220;aumentar o custo da mentira&#8221; e ajudar as pessoas a escolher melhor seus representantes. Alguns meses depois lan\u00e7\u00e1vamos o Truco, projeto de fact-checking preparado para as elei\u00e7\u00f5es daquele ano.<\/p>\n<p>Cobrir os desvios narrativos dos pol\u00edticos era, na \u00e9poca, um exerc\u00edcio t\u00e3o mundano que nos inspiramos no jogo de cartas de mesmo nome, adicionando um pouco de humor \u00e0 cobertura. Naquela \u00e9poca, busc\u00e1vamos entender quest\u00f5es como o mau desempenho da economia, cuja dimens\u00e3o real s\u00f3 foi tornada p\u00fablica depois da reelei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, ou se uma exonera\u00e7\u00e3o de um servidor havia sido demiss\u00e3o ou ren\u00fancia. Deslizes fiscais viraram o grande esc\u00e2ndalo do governo \u2013 apelidados de &#8216;pedaladas&#8217; \u2013 e a raiz do que seria o desastroso impeachment em 2016.<\/p>\n<p>Em 2018, a coisa tomou outra propor\u00e7\u00e3o. O zumzumzum das &#8220;fake news&#8221; j\u00e1 era corrente desde a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, e discutia-se avidamente as estrat\u00e9gias da campanha do republicano que haviam segmentado a popula\u00e7\u00e3o via an\u00fancios do Facebook, espalhado desinforma\u00e7\u00e3o em nichos, com uma ajudinha russa. Mas, por aqui, o peso da desinforma\u00e7\u00e3o se fez sentir apenas na reta final da campanha. Como segu\u00edamos com o Truco, percebemos que o que estava distorcendo o debate eleitoral n\u00e3o eram mais derrapadas de pol\u00edticos ou maquiagens de dados. Havia uma industrializa\u00e7\u00e3o da mentira feita para difamar o advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Isso sempre houve, claro; mas o que impressionou foi a prolifera\u00e7\u00e3o repentina, orquestrada e massiva de narrativas mentirosas atrav\u00e9s de redes sociais para reduzir o capital pol\u00edtico dos opositores. Dez dias depois da elei\u00e7\u00e3o, publicamos uma reportagem destrinchando como o boato sobre o Kit Gay \u2013 que nunca chegou a ser distribu\u00eddo a escolas \u2013 havia colado na figura de Fernando Haddad, atrav\u00e9s de uma campanha pelo Facebook e Whatsapp que mirava em especial os evang\u00e9licos.<\/p>\n<p>Aquela foi, ainda, a elei\u00e7\u00e3o da mamadeira de piroca. Nessa segunda fase da desinforma\u00e7\u00e3o, ficou claro que valia a pena usar uma campanha articulada de mentiras como arma para chegar ao poder.<\/p>\n<p>Com a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, entramos a\u00ed em uma terceira fase, em que as campanhas de desinforma\u00e7\u00e3o passaram a ser usadas como ferramenta para manuten\u00e7\u00e3o de poder. Nisso, Bolsonaro foi primoroso: \u00e9 o primeiro presidente cuja estrat\u00e9gia de governo passa pela manipula\u00e7\u00e3o de discurso digital. Bolsonaro governa via redes sociais. E n\u00e3o se trata da mera propaga\u00e7\u00e3o de feitos positivos do governo \u2013 algo que, se voc\u00ea acompanha os influenciadores bolsonaristas, sabe que \u00e9 tamb\u00e9m orquestrado e pulverizado por dezenas de perfis semi-famosos \u2013 mas por trazer para as redes as intrigas palacianas, atac\u00e1-las e liquid\u00e1-las ali.<\/p>\n<p>Basta ver como a eficiente m\u00e1quina de destrui\u00e7\u00e3o de capital pol\u00edtico aniquilou S\u00e9rgio Moro, juiz que j\u00e1 foi um dos principais esteios do governo por ter entregue a Bolsonaro a popularidade que tinha obtido com a enviesada e antipetista Lava-Jato. O mesmo ocorreu com Luiz Henrique Mandetta, que chegou a ter tremendo apoio da popula\u00e7\u00e3o e at\u00e9 dos militares para conduzir a pandemia como mandava a OMS. Como detalhamos nessa reportagem, em semanas as redes bolsonaristas conseguiram arranh\u00e1-lo o suficiente para permitir sua demiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Este governo n\u00e3o tem um gabinete do \u00f3dio, ele \u00e9 o gabinete do \u00f3dio.<\/p>\n<p>Mas, na terceira fase, a estrat\u00e9gia era ainda pontual e com alvos espec\u00edficos. Era empregada n\u00e3o apenas na destrui\u00e7\u00e3o de reputa\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m de desvio de foco de um evento ou not\u00edcia ruim para o governo \u2013 um bom exemplo foi o boato do &#8216;v\u00edrus chin\u00eas&#8217; \u2013 sempre apoiada por rob\u00f4s e contas inaut\u00eanticas.<\/p>\n<p>A partir da volta de Lula ao cen\u00e1rio eleitoral, chegamos, enfim, \u00e0 quarta fase da desinforma\u00e7\u00e3o. Uma campanha constante para descreditar as urnas eletr\u00f4nicas, o TSE, o STF e, com isso, o esteio principal da nossa democracia. H\u00e1 uma variedade de t\u00e1ticas adotadas, desde ataques pessoais a ministros do STF e TSE (&#8220;trolling&#8221;), desinforma\u00e7\u00e3o localizada sobre as urnas em formato de memes (&#8220;meme&#8221;), falsos documentos e dossi\u00eas pretensamente cient\u00edficos (&#8220;cloaked science&#8221; e &#8220;misinfographics&#8221;), campanhas de hashtags (&#8220;viral sloganeering&#8221;), uso de not\u00edcias antigas sem contexto (&#8221; recontextualized media&#8221;). Todas essas t\u00e1ticas est\u00e3o descritas no util\u00edssimo Media Manipulation Casebook, projeto que re\u00fane e classifica campanhas de manipula\u00e7\u00e3o de discursos online, elaborado pela professora Joan Donovan no Technology and Social Change project (TaSC) do Shorenstein Center de Harvard.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, not\u00edcias falsas espalhadas por sites hiperpartid\u00e1rios que aceitam fazer esse trabalho sujo repetindo discursos oficiais que invertem a l\u00f3gica \u2013 por exemplo, ao atacar as urnas, na verdade se quer preservar a Democracia. (Seria uma modalidade pol\u00edtica de &#8220;gaslighting&#8221;?)<\/p>\n<p>Hoje, Bolsonaro se sente \u00e0 vontade para engajar com tranquilidade a m\u00e1quina p\u00fablica na sua estrat\u00e9gia. A mentira \u00e9 repassada atrav\u00e9s de meios oficiais, como a Secom. Ela \u00e9 propagada em evento com diplomatas estrangeiros \u2013 organizado pelo Itamaraty, pago com dinheiro p\u00fablico \u2013 pelos comunicados do Minist\u00e9rio da Defesa, que questionam as urnas seguindo ordens do presidente, segundo o pr\u00f3prio, e at\u00e9 pelo Centro de Comunica\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito, que emite notas efetivamente defendendo os ataques ao nosso sistema eleitoral. Cada letra em cada um desses comunicados foi pago pelo seu dinheiro e pelo meu.<\/p>\n<p>Engana-se quem acha que os constantes ataques n\u00e3o t\u00eam efeitos reais. Pesquisa Datafolha mostrou que, em meio \u00e0 ofensiva, o percentual de eleitores que confiam nas urnas eletr\u00f4nicas caiu 10% em apenas dois meses, chegando a 73% em maio.\u200b<\/p>\n<p>Eis o resultado observ\u00e1vel dessa quarta etapa da desinforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que a equipe da TASC chama de &#8220;muddy the waters&#8221;, ou &#8220;turvando as \u00e1guas&#8221;, termo que lembra um prov\u00e9rbio chin\u00eas que diz que &#8220;\u00e1guas turvas fazem com que seja f\u00e1cil pegar um peixe&#8221;. Para a equipe do TASC, &#8220;\u00e1gua turva&#8221; \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o, como resultado direto de uma campanha de manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, de um ambiente inform\u00e1tico confuso e desorientador, no qual \u00e9 dif\u00edcil para um cidad\u00e3o comum separar o que \u00e9 verdade do que \u00e9 mentira. Isso acontece quando h\u00e1 uma prolifera\u00e7\u00e3o de fontes desinformacionais competindo com fontes que relatam fatos, como jornais, sites independentes e a comunidade acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Trata-se de criar uma grande quantidade de ru\u00eddos permanentes que impedem o simples racioc\u00ednio com clareza e turva o \u00e2mago daquilo que busc\u00e1vamos l\u00e1 atr\u00e1s, quando lan\u00e7amos o Truco: ajudar as pessoas a escolherem seus representantes com consci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que faz a estrat\u00e9gia da &#8220;\u00e1gua turva&#8221;: plantar d\u00favida, poluir o debate, conquistar uma minoria que apoie a mentira. Isso j\u00e1 basta para criar um ambiente de golpe. Que, verdade seja dita, j\u00e1 est\u00e1 criado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meados de 2014 eu estive em Bogot\u00e1, na Col\u00f4mbia, onde ouvi falar pela primeira vez sobre o fact-checking. 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